Dicas de estudo #8 – Lúcia Helena Galvão

Palestra ministrada pela diretora da Nova Acrópole de Brasília, professora Lúcia Helena Galvão. Mais do que dicas e técnicas de estudo, ela ensina sabedoria para a vida.


Outros posts da série dicas de estudo:

1 – A atitude correta
2 – O ciclo do aprendizado
3 – Individual e ativo
4 – Educação egoísta
5 – Concentração e foco
6 – As quatro etapas
7 – Pierluigi Piazzi
8 – Lúcia Helena Galvão
9 – Como estudar sozinho em casa
10 – Como estudar para uma prova

Epistemologia de um vestido polêmico

cor do vestido

Um assunto banal como a cor de um vestido mobilizou milhões de pessoas, gerou muita polêmica e sacudiu a internet esta semana. E o mais interessante: fez muita gente sem nenhuma experiência em filosofia sair do senso comum e discutir epistemologia! A foto do vestido postada numa rede social viralizou de tal modo que foi parar em quase todos os portais de notícias na internet e virou pauta para ser discutida ao vivo em muitos programas de TV. Desde a noite da última quinta-feira, a cor do bendito vestido é o tema mais comum em conversas informais. A polêmica dividiu as pessoas em basicamente dois grupos: as que veem o vestido preto e azul e as que o veem branco e dourado.

Eu, particularmente, já tentei, já fiz de tudo, mas não consigo ver esse vestido branco e dourado de jeito nenhum. Aliás, não consigo ver nenhuma cor além de preto e azul. Mas tem muita gente jurando que só consegue ver branco e dourado; e eu não duvido delas. Minha esposa foi quem primeiro me mostrou a famosa foto do vestido. “Você ainda não tá sabendo dessa foto?! Em que mundo você vive?!”, indagou surpresa. Mas ainda mais surpreso fiquei eu, quando ela disse que só vê o vestido branco e dourado. A princípio fiquei preocupado e pensei que ela fosse daltônica, já que para mim o vestido é claramente preto e azul. Mas depois de dar uma pesquisada na internet e ler bastante sobre o assunto, descobri que não era nada grave e que muita gente enxerga assim.

Discussões, opiniões e polêmicas à parte, eis a pergunta que todos se fazem nesse momento: Será que é possível chegarmos a um consenso sobre a cor do vestido na foto? Ora, o problema com os daltônicos é simples de resolver: se 99,9% da população enxerga de um jeito e os outros 0,1% enxergam diferente, fica fácil definir essa minoria que enxerga diferente como portadores de uma falha cognitiva qualquer, causada por uma mutação genética ou sei lá o quê. Mas o problema com esse vestido é que as pessoas se dividem quase meio a meio: metade vê preto e azul e metade vê branco e dourado. Assim, fica bastante difícil definir qual grupo está certo e qual tem probleminha nos cones e bastonetes – o que tem levado muitos “especialistas” a afirmar que ambos estão certos.

vestido

Antes de responder essa pergunta, é preciso esclarecer uma série de outros problemas bem mais fundamentais: Existe uma opinião certa e outra errada sobre isso, ou ambas as opiniões estão certas visto que o assunto é relativo? Existe uma “cor verdadeira” do vestido, ou as cores que percebemos não existem na realidade, sendo apenas formas diferentes de perceber a luz? Existem critérios objetivos suficientemente confiáveis para determinar a cor do vestido, ou tudo o que temos são nossos falhos e enganadores sentidos? Podemos nos posicionar objetivamente sobre o assunto, ou não faz sentido toda essa discussão porque as cores são subjetivas? Podemos investigar esse fenômeno cientificamente, ou estamos condenados a conviver para sempre com essa incerteza e contentarmo-nos com uma mera opinião?

Como eu disse, muitos “especialistas”, talvez pela preocupação de serem politicamente corretos, não se posicionam e chegam afirmar que ambas as opiniões estão corretas, que aquele vestido é ao mesmo tempo preto/azul e branco/dourado, que isso é relativo, depende da interpretação de quem vê, etc. Eu, no entanto, acredito e defendo que não é possível ambas as opiniões estarem corretas, de modo que apenas uma delas está com a razão; e que existem critérios objetivos suficientemente confiáveis para indicar a cor verdadeira do vestido sem a interferência de qualquer interpretação subjetiva que a mente humana possa fazer. Em suma, acredito que é possível sim investigar esse fenômeno cientificamente e tomar uma posição objetiva sobre esse assunto.

Não duvido que muita gente esteja vendo branco e dourado, mas, independente do seu psicologismo e da sua subjetividade, o vestido é objetivamente preto e azul. E não afirmo isso porque eu o vejo dessa cor. Eu bem sei que poderia facilmente estar errado. Sei também que eu não posso de modo algum ser critério de objetividade. Invertendo a lógica do raciocínio, o que quero dizer com isso é que, mesmo enxergando preto e azul, se o vestido fosse branco e dourado e eu tivesse meios mais confiáveis do que os meus sentidos para descobrir isso, não teria motivos para duvidar que ele é branco e dourado. Eu apenas ficaria um pouco decepcionado com os meus sentidos por eles estarem me enganando, mas isso também não é tão incomum quanto parece.

vestido (2)

Mas como eu sei que o vestido na foto é preto e azul? Bom, primeiro porque tanto a dona do vestido quanto a loja que vende esse modelo já publicaram outras fotos do mesmo vestido e nelas não resta dúvidas de que ele é preto e azul. Mas isso ainda não quer dizer muita coisa, já que o fenômeno que causou toda essa polêmica não é o vestido físico, mas uma certa fotografia do vestido. Ou seja, nada impediria que o vestido fosse de fato preto e azul, mas que, devido à iluminação precária do ambiente no momento da foto ou à baixa qualidade da câmera (provavelmente de um celular), ele tivesse saído branco e dourado na foto. Mas não é esse o caso; e nós temos meios objetivos para comprovar que, mesmo na foto, o vestido é preto e azul.

As ferramentas mais confiáveis que temos hoje para determinar a cor exata do vestido na foto são os softwares de edição de imagem. Isso porque os computadores não têm olhos, nervos óticos, cérebro, emoções, opinião e tudo o mais que nós temos que influencia na senso-percepção. Como máquinas que são, os computadores são exatos e objetivos, não fazem interpretação subjetiva de nada (precisamente porque não são sujeitos, mas objetos). Enquanto nós vemos cores na foto do vestido, um computador “vê” apenas códigos de programação, símbolos lógico-formais, códigos binários, alternância de cargas elétricas em circuitos eletrônicos, elétrons pulando de um átomo para outro em determinada ordem. Tudo o que eles fazem com esses dados é calcular.

No Photoshop ou em qualquer outro programa de edição de imagens de sua preferência, esse teste pode ser feito de pelo menos duas maneiras, ambas muito simples (talvez um designer gráfico saiba de outras). Primeiro, com a ferramenta de selecionar cor, se você clicar em qualquer parte do vestido, o computador interpretará aquele pixel como algum tom de cinza (preto) ou azul. Mas há uma maneira ainda mais fácil de tirar essa dúvida: basta aumentar a saturação da foto. Conforme as cores presentes na imagem ficam mais vivas e mais fortes, você notará com maior clareza que o vestido é preto e azul (e não branco e dourado, como talvez pensasse). Como as coisas devem funcionar na ciência, você pode reproduzir esse experimento na sua casa e repeti-lo quantas vezes quiser, que sempre obterá o mesmo resultado.

vestido

Filósofos John Searle e Daniel Dennet falam sobre o mistério da consciência

Os filósofos americanos John Searle e Daniel Dennet, considerados talvez os dois maiores especialistas vivos em filosofia da mente, palestraram no TED sobre aquele que parece ser o principal problema dessa área da filosofia: a consciência. Note que ambos rejeitam o dualismo metafísico, defendem uma posição materialista e não representam a minha opinião. De qualquer modo, lançam alguma luz sobre o problema e são importantes referenciais teóricos para qualquer estudante sério de filosofia.

Jornal A Tarde: “Je suis Charles”

Esse é o título de um artigo publicado nesta quarta-feira de cinzas no jornal A Tarde, de Salvador-BA, sobre este que vos escreve. Quem assina é Carlos Zacarias de Sena Júnior, doutor em História e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Leia o recorte do jornal abaixo e, para entender melhor o caso, recomendo também a leitura dessas duas matérias, publicadas pelo G1 no começo do mês:

Aprovado em medicina fez prova só para testar conhecimentos
Aprovado em 7 vestibulares e 4 concursos dá dicas de estudo

Je suis Charles - Jornal A Tarde - Salvador (BA)

Apenas uma correção: No texto, o autor refere-se ao “caso do estudante de filosofia paraibano que, após ser aprovado para o curso de medicina na UFPB, resolveu que não ia abandonar a arte de Platão e Aristóteles”. Está errado. Eu não resolvi continuar na filosofia “após” passar em medicina. Na verdade eu jamais cogitei a possibilidade de cursar medicina. Como já cansei de explicar, faço o Enem todos os anos para testar meus conhecimentos e coloquei essa opção no Sisu apenas porque é o curso mais concorrido e eu queria testar se conseguiria passar. Foi apenas um desafio pessoal a que me propus.

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