Coisas que até um ateu pode ver

Comentários sobre o livro Mind & Cosmos, do filósofo americano Thomas Nagel, escrita pelo Rev. Augustus Nicodemus e publicada originalmente no blog Tempora-Mores.


Um número razoável de cientistas e filósofos ateus ou agnósticos vem em anos recentes engrossando as fileiras daqueles que expressam dúvidas sérias sobre a capacidade da teoria da evolução darwinista para explicar a origem da vida e sua complexidade por meio da seleção natural e da natureza randômica ou aleatória das mutações genéticas necessárias para tal. Poderíamos citar Anthony Flew, o mais notável intelectual ateísta que, no início do século 21, anunciou sua desconversão do ateísmo darwinista e adesão ao teísmo, por causa das evidências de propósito inteligente na natureza. Mais recentemente o biólogo ateu James Shapiro, da Universidade de Chicago, publicou o livro Evolution: A View from 21st Century, que desconstrói impiedosamente o darwinismo.

E agora é a vez de Thomas Nagel, professor de filosofia e direito da Universidade de Nova York, membro da Academia Americana de Artes e Ciências, ganhador de vários prêmios com seus livros sobre filosofia, e um ateu declarado. Ele acaba de publicar o livro Mind & Cosmos (“Mente e Cosmos”), com o provocante subtítulo Why the materialist neo-darwinian conception of nature is almost certainly false” (“Por que a concepção neo-darwinista materialista da natureza é quase que certamente falsa”), onde aponta as fragilidades do materialismo naturalista que serve de fundamento para as pretensões neo-darwinistas de construir uma teoria de tudo. (Não pretendo fazer uma resenha do livro. Para quem lê em inglês, indico a excelente resenha feita por William Dembski e o comentário breve de Alvin Plantinga). Estou mencionando estes intelectuais e cientistas ateus por que quando intelectuais e cientistas cristãos declaram sua desconfiança quanto à evolução darwinista são descartados por serem “religiosos”. Então, tá. Mas, e quando os próprios ateus engrossam o coro dos dissidentes?

Neste post, eu gostaria apenas de destacar algumas declarações de Nagel, no livro, que revelam a consciência clara que ele tem de que uma concepção puramente materialista da vida e de seu desenvolvimento, como a evolução darwinista, é incapaz de explicar a realidade como um todo. Embora ele mesmo rejeite a possibilidade de que a realidade exista pelo poder criador de Deus, ele é capaz de enxergar que a vida é mais do que reações químicas baseadas nas leis da física. A solução que ele oferece – que a mente sempre existiu ao lado da matéria – não tem qualquer comprovação, como ele mesmo admite, mas certamente está mais perto da concepção teísta do que do ateísmo materialista. Ele deixa claro que sua crítica procede de sua própria análise científica e que, mesmo assim, não será bem vinda nos círculos acadêmicos:

“O meu ceticismo [quanto ao evolucionismo darwinista] não é baseado numa crença religiosa ou numa alternativa definitiva. É somente a crença de que a evidência científica disponível, apesar do consenso da opinião científica, não exige racionalmente de nós que sujeitemos este ceticismo [a este consenso] neste assunto. (…) Eu tenho consciência de que dúvidas desta natureza vão parecer um ultraje a muita gente, mas isto é porque quase todo mundo em nossa cultura secular tem sido intimidado a considerar o programa de pesquisa reducionista [do darwinismo] como sacrossanto, sob o argumento de que qualquer outra coisa não pode ser considerada como ciência.” (p.7)

Ele profetiza o fim do naturalismo materialista, o fundamento do evolucionismo darwinista: “Mesmo que o domínio do naturalismo materialista está se aproximando do fim, precisamos ter alguma noção do que pode substitui-lo” (p. 15). Para ele, quanto mais descobrimos acerca da complexidade da vida, menos plausível se torna a explicação naturalista materialista do darwinismo para sua origem e desenvolvimento:

“Durante muito tempo eu tenho achado difícil acreditar na explicação materialista de como nós e os demais organismos viemos a existir, inclusive a versão padrão de como o processo evolutivo funciona. Quanto mais detalhes aprendemos acerca da base química da vida e como é intrincado o código genético, mais e mais inacreditável se torna a explicação histórica padrão [do darwinismo]. (…) É altamente implausível, de cara, que a vida como a conhecemos seja o resultado da sequência de acidentes físicos junto com o mecanismo da seleção natural. (…) “Com relação à evolução, o processo de seleção natural não pode explicar a realidade sem um suprimento adequado de mutações viáveis, e eu acredito que ainda é uma questão aberta se isto poderia ter acontecido no tempo geológico como mero resultado de acidentes químicos, sem a operação de outros fatores determinando e restringindo as formas das variações genéticas.” (pp. 5, 6, 9)

Nagel surpreendentemente sai em defesa dos proponentes mais conhecidos da teoria do design inteligente na atualidade, Michael Behe e Stephen Meyer:

“Apesar de que escritores como Michael Behe e Stephen Meyer sejam motivados parcialmente por suas convicções religiosas, os argumentos empíricos que eles oferecem contra a possibilidade da vida e sua história evolutiva serem explicados plenamente somente com base na física e na química são de grande interesse em si mesmos. (…) Os problemas que estes iconoclastas levantam contra o consenso cientifico ortodoxo deveriam ser levados a sério. Eles não merecem a zombaria que têm recebido. É claramente injusta.” (p.11)

Num parágrafo quase confessional, Nagel reconhece que lhe falta o sentimento do divino que ele percebe em muitos outros: “Confesso (…) que não considero a alternativa do design inteligente como uma opção real – me falta aquele sensus divinitatis [senso do divino] que capacita – na verdade, impele – tantas pessoas a ver no mundo a expressão do propósito divina da mesma maneira que percebem num rosto sorridente a expressão do sentimento humano” (p.12). Para Nagel, porém, o evolucionismo darwinista, com sua visão materialista e naturalista da realidade, não consegue explicar o que transcende o mundo material, como a mente e tudo que a acompanha:

“Nós e outras criaturas com vida mental somos organismos, e nossa capacidade mental depende aparentemente de nossa constituição física. Portanto, aquilo que explica a existência de organismos como nós deve explicar também a existência da mente. Mas, se o mental não é em si mesmo somente físico, não pode, então, ser plenamente explicado pela ciência física. E então, como vou argumentar mais adiante, é difícil evitar a conclusão que aqueles aspectos de nossa constituição física que trazem o mental consigo também não podem ser explicados pela ciência física. Se a biologia evolutiva é uma teoria física – como geralmente é considerada – então não pode explicar o aparecimento da consciência e de outros fenômenos que não podem ser reduzidos ao aspecto meramente físico. (…) Uma alternativa genuína ao programa reducionista [do darwinismo] irá requerer uma explicação de como a mente e tudo o que a acompanha é inerente ao universo. (…) Os elementos fundamentais e as leis da física e da química têm sido assumidos para se explicar o comportamento do mundo inanimado. Algo mais é necessário para explicar como podem existir criaturas conscientes e pensantes, cujos corpos e cérebros são feitos destes elementos. (pp. 15, 20)

Menciono por último a perspicaz observação de Nagel: se a mente existe porque sobreviveu através da seleção natural, isto é, por ter se tornado mais esperta para sobreviver, como poderemos confiar nela? E aqui ele cita e concorda com Alvin Plantinga, um renomado filósofo de fé reformada:

“Eu concordo com Plantinga que, ao contrário da benevolência divina, a aplicação da teoria da evolução à compreensão de nossas capacidades cognitivas acaba por minar nossa confiança nelas, embora não a destrua por completo. Mecanismos formadores de crenças e que têm uma vantagem seletiva no conflito diário pela sobrevivência não merecem a nossa confiança na construção de explicações teóricas sobre o mundo como um todo. (…) A teoria da evolução deixa a autoridade da razão numa posição muito mais fraca. Especialmente no que se refere à nossa capacidade moral e outras capacidades normativas – nas quais confiamos com frequência para corrigir nossos instintos. Eu concordo com Sharon Street [professora de filosofia da Universidade de Nova York] que uma auto-compreensão evolucionista quase que certamente haveria de requerer que desistíssemos do realismo moral, que é a convicção natural de que nossos juízos morais são verdadeiros ou falsos independentemente de nossas crenças.” (p.28)

Não consegui ler Nagel sem lembrar do que a Bíblia diz: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Eclesiastes 3:11). “De um só Deus fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós” (Atos 17:26-27). Nagel tem o sensus divinitatis, sim, pois o mesmo é o reflexo da imagem de Deus em cada ser humano, ainda que decaídos como somos. Infelizmente o seu ateísmo o impede de ver aquilo que sua razão e consciência, tateando, já tocaram.

Filosofia da mente

Palestra ministrada pelo professor Dr. João Teixeira, da Universidade Federal de São Carlos-SP (UFSCAR), na universidade do Minho, em Portugal, sobre filosofia da mente.

Saúde mental – Rubem Alves

Crônica de Rubem Alves publicada em 1994.

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei, tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maikóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski também se matou.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as ideias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado. Nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!), ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, que tenha a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa.

Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idiotas de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. É claro que nenhuma mãe consciente quererá que o seu filho seja como van Gogh ou Maiakóvski. O desejável é que seja executivo de grande empresa, na pior das hipóteses funcionário do Banco do Brasil. Preferível ser elefante ou tartaruga a ser borboleta ou condor. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego. Mas nunca ouvi falar de político com stress ou depressão, com exceção do Suplicy. Andam sempre fortes e certos de si mesmos, em passeatas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente “coisa dura” e a outra se denomina software, “coisa mole”. A hardware é constituída por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. A software é constituída por entidades espirituais – símbolos, que formam os programas e são gravados nos HDs. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos, o cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo espirituais, sendo que o programa mais importante é linguagem.

Um computador pode “enlouquecer” por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco, há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas porções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, porções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

Acontece, entretanto, que esse computador que é o homem tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado. A beleza pode fazer mal à saúde mental. Sábias, portanto, são as empresas estatais, que têm retratos dos governadores e presidentes espalhados por todos os lados: eles estão lá para exorcizar a beleza e para produzir o suave estado de insensibilidade necessário ao bom trabalho. Dadas essas reflexões científicas sobre a saúde mental, vai aqui uma receita que, se seguida à risca, garantirá que ninguém será afetado pelas perturbações que afetaram os senhores que citei no início, evitando assim o triste fim que tiveram.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente perigosos. Já o rock pode ser tomado à vontade, sem contra indicações. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do Dr. Lair Ribeiro, por que arriscar-se a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. A saúde mental é um estômago que entra em convulsão sempre que lhe é servido um prato diferente. Por isso que as pessoas de boa saúde mental têm sempre as mesmas ideias. Essa cotidiana ingestão do banal é condição necessária para a produção da dormência da inteligência ligada à saúde mental. E, aos domingos, não se esqueça do Faustão, Silvio Santos e Gugu Liberato.

Seguindo esta receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já não mais saberá como eles eram.

Filósofos John Searle e Daniel Dennet falam sobre o mistério da consciência

Os filósofos americanos John Searle e Daniel Dennet, considerados talvez os dois maiores especialistas vivos em filosofia da mente, palestraram no TED sobre aquele que parece ser o principal problema dessa área da filosofia: a consciência. Note que ambos rejeitam o dualismo metafísico, defendem uma posição materialista e não representam a minha opinião. De qualquer modo, lançam alguma luz sobre o problema e são importantes referenciais teóricos para qualquer estudante sério de filosofia.

Como o advento da internet está mudando o funcionamento do cérebro humano

Artigo de Nicholas Carr, publicado originalmente em inglês no portal The Atlantic.

Há alguns anos tenho a impressão de que algo vem mexendo com meu cérebro, remapeando os circuitos neuronais, reprogramando a memória. Minha mente está mudando. Não estou mais pensando como costumava pensar. Percebo isso de modo mais acentuado quando estou lendo. Mergulhar num livro, ou num longo artigo, costumava ser fácil. Minha mente se enredava na narrativa ou nas voltas do argumento e eu passava horas lendo longos trechos de prosa. Isso raramente ocorre atualmente. Agora minha atenção começa a divagar depois de duas ou três páginas. Eu fico inquieto, perco o fio de meada, começo a procurar outras coisas para fazer. Sinto como se estivesse sempre arrastando meu cérebro divagante de volta ao texto. A leitura fluida e profunda que costumava ser tão natural para mim agora se tornou uma luta.

Creio que sei o que está acontecendo. Por mais de uma década venho passando mais tempo online, procurando, surfando e algumas vezes acrescentando informação à grande biblioteca da internet. A internet tem sido uma dádiva para um escritor como eu. Pesquisas que antes exigiam dias de procura em jornais ou na biblioteca agora podem ser feitas em minutos. Algumas procuras no Google, alguns cliques rápidos em hiperlinks e eu consigo os fatos reveladores ou as citações exatas que procurava. Mesmo quando não estou trabalhando acabo me surpreendendo, mais frequentemente do que deveria, à caça de informação na web ou lendo e escrevendo e-mails, escaneando manchetes e blogs, assistindo vídeos, ouvindo podcasts ou apenas vagando de um link para outro. Ao contrário das notas de rodapé, às quais eles são comparados, hiperlinks não apenas nos referem a trabalhos relacionados; eles nos arremessam em direção a eles.

A internet está se tornando um meio universal, o conduíte por onde passa a maior parte da informação que chega aos meus olhos, ouvidos e mente. As vantagens de ter acesso rápido a quantidades inacreditavelmente ricas de informação são muitas, e elas têm sido extensivamente descritas e justamente aplaudidas. Mas isso tem seu preço. Como disse o teórico da comunicação Marshall McLuhan nos anos 1960, a mídia não é apenas um canal passivo para o tráfego de informação. Ela fornece a matéria, mas também molda o processo de pensamento. E o que a internet parece fazer é pulverizar minha capacidade de concentração e contemplação. Minha mente agora espera absorver informação do modo como a internet as distribui: num fluxo veloz e intermitente de partículas. Antes eu era um mergulhador num mar de palavras. Agora eu deslizo pela superfície.

Não sou o único. Quando menciono meu problema com a leitura a amigos e conhecidos – tipos literários, em sua maioria – muitos dizem ter experiências similares. Quanto mais eles usam a web, mais precisam lutar para permanecerem concentrados em longos textos. Alguns dos blogueiros que acompanho também começaram a mencionar o fenômeno. Scott Karp, que escreve um blog sobre mídia online, confessou recentemente ter parado completamente de ler livros: “Eu era um graduando em literatura na faculdade e costumava ser um leitor voraz. O que houve?”. E especula em sua resposta: “E se eu leio exclusivamente na web não apenas porque o modo como eu leio mudou, isto é, estou apenas buscando conveniência, mas porque o modo como eu penso mudou?”.

Bruce Friedman, que escreve regularmente sobre o uso de computadores na medicina, também descreveu como o uso da internet alterou seus hábitos mentais. “Eu agora praticamente perdi toda a habilidade para ler e absorver um artigo mais extenso na web ou na mídia impressa”, confessou. Patologista e professor há algum tempo na Escola de Medicina da Universidade de Michigam, Friedman elaborou melhor suas impressões sobre o assunto numa conversa comigo por telefone. “Não consigo mais ler Guerra e Paz”, ele admite. “Perdi a capacidade de fazer isso. Mesmo posts de blogs com mais de três ou quatro parágrafos são demais para absorver. Eu apenas passo os olhos”.

Continuamos esperando pelos experimentos psicológicos e neurológicos de longa duração que irão desenhar o quadro definitivo sobre o modo como a internet afeta a cognição. Contudo, um recente estudo sobre hábitos de pesquisa online, conduzido por pesquisadores da University College London, sugere que podemos estar no meio de uma mudança radical no modo como lemos e pensamos. Parte do estudo, que durou 5 anos, consistia na análise de arquivos de acesso que documentavam o comportamento dos visitantes de dois sites populares de pesquisa, um operado pela Biblioteca Britânica e outro pelo Consórcio Britânico de Educação. Esses sites permitem acesso a artigos de jornais, e-books, e outras fontes de informação escrita. Os pesquisadores descobriram que os usuários dos sites apresentaram “uma forma de atividade mental associada à identificação rápida, na leitura, das ideias principais de um texto (em inglês, skimming)”, saltando de uma fonte a outra e raramente retornando a fontes já visitadas. Eles tipicamente não leem mais do que uma ou duas páginas de um artigo ou livro antes de pular para outro. Algumas vezes eles salvam algum artigo, mas não há nenhuma evidência de que realmente leem posteriormente o que salvaram.

Os autores afirmam: Está claro que os usuários não estão lendo online no sentido tradicional; de fato há sinais de que um modo novo de leitura está aparecendo na medida em que os usuários navegam horizontalmente através de títulos, conteúdos de páginas e resumos buscando resultados rápidos. Parece até que eles procuram a informação online para evitar ler no sentido tradicional. Graças à ubiquidade do texto na internet – sem falar na popularidade das mensagens de texto nos telefones celulares – é realmente possível que estejamos lendo muito mais hoje do que nas décadas de 1960 e 1970, quando a televisão era o meio da moda. Mas é um tipo diferente de leitura, e por trás dele está um tipo diferente de pensamento – talvez até mesmo um novo senso de si mesmo.

“Nós não somos apenas o que lemos”, diz Maryanne Wolf, psicóloga da Universidade de Tufts. “Nós somos como lemos”. Wolf acredita que o estilo de leitura promovido pela internet, um estilo que coloca a eficiência e a imediatidade acima de qualquer outra coisa, pode estar diminuindo nossa capacidade de leitura profunda que emergiu quando uma antiga tecnologia, a prensa, tornou os longos e complexos romances algo comum. Quando lemos online, ela afirma, tendemos a nos tornar “decodificadores de informação”. Nossa habilidade para interpretar textos, para fazer as ricas conexões mentais que se formam quando lemos em profundidade e sem distrações, fica desligada.

Ler, explica Wolf, não é uma habilidade instintiva para os seres humanos. Não está impressa em nossos genes do mesmo modo que falar está. Somos obrigados a ensinar nossa mente a traduzir os caracteres simbólicos que vemos na linguagem que compreendemos. E a mídia e outras tecnologias que usamos no processo de aprendizado da arte de ler têm um papel importante na formação dos circuitos neurais em nosso cérebro. Experimentos demonstram que leitores de ideogramas, tais como os chineses, desenvolvem um circuito mental para leitura que é diferente do circuito encontrado naqueles, como nós, em que a linguagem escrita é alfabética. As variações se estendem por várias regiões do cérebro, incluindo aquelas funções cognitivas altamente importantes como a memória e a interpretação de estímulos visuais e sonoros. Nós podemos esperar, do mesmo modo, que os circuitos tecidos pelo uso da internet serão diferentes da trama costurada pela leitura de livros e outros tipos de mídia impressa.

Em algum momento de 1882, Nietzsche comprou uma máquina de escrever. Sua visão estava falhando e manter o foco na página havia se tornado um esforço doloroso e exaustivo, provocando fortes dores de cabeça. Ele foi forçado a limitar sua escrita e temia logo ser obrigado a desistir de escrever por completo. A máquina datilográfica o salvou, pelo menos por um tempo. Uma vez tendo dominado a habilidade de datilografar, ele conseguia escrever com os olhos fechados, usando apenas as pontas dos dedos. As palavras podiam mais uma vez fluir da sua mente para a página em branco. Mas a máquina teve um efeito bastante sutil no seu trabalho. Um dos amigos de Nietzsche notou a mudança de estilo na sua escrita. Sua prosa, já muito concisa, tornou-se telegráfica. “Talvez você, através deste instrumento, acabe criando um novo idioma”, escreveu o amigo numa carta. “Você está certo”, respondeu Nietzsche, “o equipamento para a escrita participa da formação dos nossos pensamentos”.

O cérebro humano é quase infinitamente maleável. Pensava-se que nossa malha mental, as densas conexões formadas pelos 100 bilhões de neurônios dentro dos nossos crânios, estava quase completamente formada quando atingíamos a idade adulta. Mas pesquisas descobriram que não é bem assim. James Olds, professor de neurociência e diretor do Instituto Krasnow para Estudos Avançados, afirma que até a mente adulta ainda é “muito plástica”. Células nervosas rotineiramente quebram velhas conexões e formam novas. “O cérebro”, de acordo com Olds, “possui a habilidade de se reprogramar, alterando o modo como geralmente funciona”. Quando usamos o que o sociólogo Daniel Bell chama de “tecnologias intelectuais” – as ferramentas que estendem nossas capacidades mentais – nós inevitavelmente começamos a assimilar as qualidades destas tecnologias.

O relógio mecânico, que teve seu uso popularizado no século 14, serve como exemplo particularmente convincente. Em Technics and Civilization, o historiador e crítico cultural Lewis Mumford descreve como o relógio “desassociou o tempo dos eventos humanos, ajudando a gerar a crença num mundo independente de sequências matematicamente mensuráveis”. A “estrutura abstrata do tempo dividido” tornou-se “a referência tanto para as ações quanto para o pensamento”. O tique-taque metódico do relógio ajudou no nascimento da mente científica e do homem científico. Mas também levou algo embora. Como observou o cientista da computação do MIT Joseph Weizenbaum em seu livro de 1976, Computer Power and Humam Reason: From Judgment to Calculation, o conceito de mundo que emergiu do uso disseminado do instrumento de medição do tempo “permanece uma versão empobrecida do antigo conceito de mundo, pois ele se baseia na rejeição daquelas experiências diretas que formavam a base e, na verdade, constituíam a antiga realidade”. Ao decidirmos quando comer, trabalhar, dormir, acordar, nós paramos de ouvir nossos sentidos e passamos a obedecer ao relógio.

O processo de adaptação a novas tecnologias reflete-se nas metáforas que usamos para nos compreendermos. Quando o relógio mecânico apareceu, as pessoas começaram a imaginar que seus cérebros operavam “como relógios”. Hoje, na era do software, nós imaginamos que eles operam “como computadores”. Mas as mudanças, diz-nos a neurociência, vão bem mais fundo do que a metáfora sugere. Graças à plasticidade do nosso cérebro, a adaptação se estende ao nível biológico. A internet promete um impacto de longo alcance na cognição. Num artigo publicado em 1936, o matemático britânico Alan Turing provou que um computador digital, naquele tempo apenas uma hipótese, poderia ser programado para cumprir a função de qualquer outro aparelho de processamento informacional. E é isso que vemos hoje. A internet, uma espécie de imensamente poderoso sistema computacional, está subsumindo a maioria das outras tecnologias intelectuais. Está se tornando nosso mapa e nosso relógio, nosso jornal e nossa máquina de escrever, nossa calculadora e nosso telefone, nosso rádio e nossa TV.

Quando a internet absorve uma mídia, essa mídia é recriada à imagem da internet. Ela contamina o conteúdo do meio com hiperlinks, anúncios, e outras bugigangas digitais; e encapsula o conteúdo com o conteúdo de todas as outras mídias já absorvidas. Um novo e-mail, por exemplo, pode anunciar sua chegada enquanto passamos os olhos pelas últimas manchetes num site de notícias. O resultado é a pulverização da atenção e a difusão da concentração. A influência da internet não acaba nas bordas do monitor, ademais. À medida que a mente das pessoas vai se ajeitando ao estofo maluco da internet, a mídia tradicional vai sendo obrigada a se adaptar às novas expectativas da audiência. Programas de televisão passaram a usar legendas e anúncios pop-ups; revistas e jornais diminuíram o tamanho das suas reportagens, introduziram boxes explicativos e lotaram suas páginas com infográficos didáticos.

Quando o New York Times decidiu reservar duas páginas de cada edição diária a resumos de artigos e reportagens, seu diretor gráfico, Tom Bodkin, justificou a opção explicando que estes “atalhos” iriam proporcionar aos leitores mais apressados um rápido “gostinho” das notícias do dia, poupando-os de realmente virar as páginas do jornal para ler os artigos. A velha mídia tem pouca opção a não ser jogar pelas regras da nova. Nunca os sistemas de comunicação cumpriram tantos papéis em nossas vidas – ou exerceram influência tão marcante em nossos pensamentos. Contudo, apesar do quanto se escreve sobre a internet atualmente, há pouca consideração sobre como, exatamente, ela está nos reprogramando. A ética intelectual da internet permanece obscura.

A internet é uma máquina desenhada para coletar, transmitir e manipular informação com o máximo de eficiência possível; e sua legião de programadores está empenhada em encontrar “o melhor método” – o algoritmo perfeito – para dar conta de cada movimento mental envolvido no que costumamos chamar “trabalho intelectual”. O quartel general do Google em Montain View, California, é a catedral da internet, e a religião praticada dentro de seus muros é o taylorismo. O Google, afirma seu presidente, Eric Schmidt, é “uma companhia fundada sobre a ciência da mensuração”, e luta para “sistematizar tudo”.

Baseado nos terabytes de informações comportamentais que coleta através de seu motor de busca e outros sites, a empresa realiza centenas de experimentos por dia, de acordo com a Harvard Business Review, e aplica os resultados no refinamento dos algoritmos que cada vez mais controlam como as pessoas encontram informação e as interpretam. A empresa declarou que sua missão é “organizar toda a informação do mundo e torná-la universalmente acessível e útil”. Quer desenvolver “o motor de busca perfeito”, que ela define como algo que “compreenda exatamente o que você quer dizer e te devolve exatamente o que você quer”. Na visão do Google, informação é um tipo de commodity, um recurso utilitário que pode ser minerado e processado com eficiência industrial. Quanto mais informação “acessamos” e mais rápido extraímos o que há de importante nela, mais produtivos nos tornamos enquanto pensadores.

Onde isso vai parar? Sergey Brin e Larry Page falam do desejo de transformar seu motor de busca num tipo de inteligência artificial que poderia conectar-se diretamente aos nossos cérebros. “O motor de busca perfeito deverá ser tão esperto quando as pessoas – ou mais”, afirmou Page numa conferência há alguns anos. “Para nós, trabalhar com buscas é um modo de trabalhar com inteligência artificial”. Numa entrevista à revista Newsweek, Brin disse: “Certamente, se você tiver toda a informação do mundo ligada diretamente no seu cérebro, você estará em vantagem”. Ano passado, Page disse a um grupo de cientistas que o Google está “tentando construir uma inteligência artificial”.

Tal ambição é natural, até mesmo admirável para um par de gênios matemáticos com muita grana e um pequeno exército de cientistas da computação. Um empreendimento fundamentalmente científico, o Google é motivado pelo desejo de usar a tecnologia, nas palavras de Eric Schmidt, “para resolver problemas que ninguém resolveu ainda”, e a inteligência artificial é o mais difícil deles. Porque Brin e Page não iriam querer resolvê-lo? Contudo, a pressuposição fácil de que estaríamos todos “melhores” se nossos cérebros fossem suplementados ou mesmo substituídos por uma inteligência artificial é preocupante. A ideia parece sugerir que a inteligência é o resultado de um processo mecânico, de uma série discreta de etapas que podem ser isoladas, medidas e otimizadas. No mundo do Google, há pouco espaço para a incompletude da contemplação. A ambiguidade não é vista como uma abertura para a criatividade, para o insight, mas um bug a ser corrigido. O cérebro humano é apenas um computador ultrapassado que precisa de um processador mais rápido e de um HD maior.

A ideia de que nossas mentes deveriam operar como máquinas de processamento de alta velocidade não está implicada apenas nas fundações da internet; ela é, na verdade, o modelo de negócios reinante na rede. Quando mais rápido surfamos na web – mais links seguimos, mais páginas vemos – mais oportunidades a Google e outras companhias têm de coletar informação sobre nós e nos enviar propaganda. A maior parte dos proprietários da internet comercial está financeiramente engajada na coleta de pedaços de informação que deixamos para trás ao saltar de um link para outro. A última coisa que estas companhias querem é encorajar a leitura prazerosa ou o pensamento concentrado e lento. Está em seu interesse econômico nos levar constantemente à distração.

Talvez eu seja apenas um paranoico. Do mesmo modo que há uma tendência à glorificação da tecnologia, há a tendência inversa de se esperar o pior de cada nova ferramenta ou máquina. No diálogo platônico Fedro, Sócrates reclama com tristeza do desenvolvimento da escrita. Ele temia que, a medida que as pessoas confiassem na linguagem escrita como um substituto para o saber que elas costumavam carregar na cabeça, elas iriam, nas palavras de uma das personagens do diálogo, “deixar de exercitar a memória e se tornar esquecidas”. E porque elas seriam capazes de “receber uma maior quantidade de informação sem a devida instrução”, elas iriam “se considerar muito sábias quando na verdade seriam, em grande parte, ignorantes”. Elas iriam estar “repletas do conceito de sabedoria ao invés de serem realmente sábias”. Sócrates não estava errado – a nova tecnologia teve, em grande parte, o efeito que ele temia – mas não viu longe o suficiente. Não percebeu que, de formas diversas, a escrita e a leitura iriam servir para disseminar informação, gerar novas ideias e expandir o conhecimento humano.

O aparecimento da imprensa, no século 15, disparou outra rodada de ranger de dentes. O humanista italiano Hieronimo Squarciafico defendia que a disponibilidade de livros levaria à preguiça intelectual, tornando os homens “menos estudiosos” e enfraquecendo suas mentes. Outros argumentavam que livros mais baratos e panfletos poderiam corroer a autoridade religiosa, tornar menos importante o trabalho de acadêmicos e escribas, além de espalhar a sedição e a concupiscência. Como afirma o professor da Universidade de Nova York, ClayShirky, “a maioria dos argumentos contra a invenção da imprensa estavam corretos, alguns eram até prescientes”. Porém, novamente, os apocalípticos não conseguiram imaginar a miríade de bençãos que a palavra impressa iria possibilitar.

Portanto, sim, você deveria ser cético quanto ao meu ceticismo. Talvez aqueles que descartam as críticas à internet classificando-as como nostálgicas e retrógradas estejam corretos e das nossas mentes hiperativas e abarrotadas de informação nasça uma era de ouro de descobertas intelectuais e verdades universais. Entretanto, a internet não é o alfabeto, e mesmo que ela substitua a mídia impressa, colocará algo diferente no lugar. O tipo de leitura profunda, dedicada, que uma sequência de páginas impressas promove possui valor não apenas pelo conhecimento que adquirimos das palavras do autor, mas também pelas vibrações intelectuais que tais palavras provocam em nossas mentes. Nos espaços tranquilos que se abrem através da leitura concentrada e sem distrações de um livro, ou por qualquer outro ato de contemplação, nós operamos nossas associações, produzimos nossas analogias e inferências, cultivamos nossas ideias. Ler profundamente, argumenta Maryanne Wolf, é indistinguível de pensar profundamente.

Se nós perdermos estes espaços de tranquilidade, ou preenchê-los com “conteúdos”, sacrificaremos algo importante não apenas em nós mesmos, mas em nossa cultura. Num recente ensaio, o dramaturgo Richard Foreman descreveu com eloquência o que está em jogo: “Eu venho de uma tradição da cultura ocidental na qual o ideal (meu ideal) era o de uma densa, complexa, altamente educada e articulada personalidade – um homem ou mulher que carregasse em si mesmo uma versão pessoal e única de toda a herança ocidental. Mas agora eu vejo em nós todos (eu incluso) a substituição de uma complexa densidade interior por um novo tipo de Eu (Self) – evoluindo sob a pressão do excesso de informação e da tecnologia do instantaneamente disponível”. A medida em que somos drenados do nosso “repertório interior da densa herança cultural”, conclui Foreman, nos arriscamos a nos tornarmos “pessoas pó-de-arroz” – espalhadas e superficiais a medida em que nos conectamos à vasta rede de informação acessível.

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