O valor das coisas e das pessoas

Crônica de Alex Castro no blog Papo de Homem.

Nos países desenvolvidos as coisas são baratas e as pessoas são caras. No Brasil, é o oposto: as coisas são caríssimas, mas as pessoas (ou seja, os serviços que elas prestam) sempre estiveram a preço de banana. Agora, isso está mudando.

Para um americano de classe média, a vida do seu equivalente brasileiro parece vida de rico. Os EUA são a terra do faça-você-mesmo. As meninas se depilam e fazem as próprias unhas. Os amigos se juntam pra pintar as casas uns dos outros. Nas mudanças, o normal é alugar um caminhão e chamar a galera pra carregar caixa. Todos são acostumados desde criança a realizar serviços domésticos: empregada é luxo de milionário. Mas se você é da classe média no Brasil, o mais provável é que contrate profissionais para fazer esses serviços. Afinal, é tão barato, né? Com esse exército de miseráveis aí fora, com certeza dá pra achar alguém que fique de quatro e lave sua privada por uma mixaria.

Por outro lado, para um brasileiro de classe média, a vida do seu equivalente americano também parece vida de rico, mas por outros motivos. Afinal, o gringo pode até lavar suas próprias meias (cruzes!), mas possui uma quantidade de objetos e gadgets sem igual. A começar por seus carros: nos ônibus, só se veem velhos trêmulos, crianças em idade escolar e mendigos. Qualquer pessoa dita able-bodied (ou seja, com o “corpo apto”) tem um carro. Dá pra comprar e manter um carro novo até com salário de garçom.

Pra não falar dos aparelhos eletrônicos de última geração. Um Kindle sai por 114 dólares: para uma garçonete, é quanto ela ganha de gorjeta atendendo duas ou três mesas. Ou seja, qualquer um pode ter. Enquanto isso, nossa pobre classe média escorchada de impostos paga R$ 56 mil por um Honda City made in Brazil, carro que é vendido no México por menos da metade do preço, cerca de R$ 25 mil. O Kindle, ao alcance de qualquer garçonete americana, no Brasil sai por pouco mais de mil reais. Quantos trabalhadores brasileiros podem se dar ao luxo de comprar uma engenhoca que nunca viram, que não é gênero de primeira necessidade, por esse preço? Muito poucos.

Os americanos olham os brasileiros, servidos por um verdadeiro exército de mortos-de-fome que lhes depilam as pernas, pintam as paredes, lavam as cuecas e passam as camisas, e pensam: ricos são esses brasileiros, não eu que toda semana tenho que ficar de quatro e esfregar minha banheira! Os brasileiros olham os americanos, digitando no iMac e jogando no iPhone, conferindo um endereço no GPS e lendo no Kindle, e pensam: ricos são esses gringos, não eu que ainda uso um desktop de 2004!

No começo da década passada, eu tive duas empregadas domésticas. Uma delas fez curso técnico e hoje trabalha em um laboratório. A outra virou banqueteira, e o seu filho está estudando pra ser oficial da Marinha. As leis da economia são implacáveis. Quanto menor for o número de mulheres semi-analfabetas dispostas a lavar privada e depilar perna por uma mixaria, maiores vão ser os preços desses serviços. Se algumas delas se tornam técnicas de laboratório e banqueteiras, as consequências são duas:

Em primeiro lugar, os shoppings, aeroportos e faculdades particulares ficam lotados de gente que, até poucos anos atrás, simplesmente não tinha renda para frequentar esses lugares. Em segundo lugar, as poucas mulheres ainda dispostas a fazer os piores serviços percebem que seu poder de barganha aumentou. Então, o New York Times noticia que as babás vivem ascensão econômica e se juntam à classe média; e a Veja São Paulo informa que agora são as domésticas que ditam as regras do jogo.

Enquanto isso, outras categorias profissionais começam a sumir e já se fala até em saudades do embalador de supermercado. Quem ontem cortaria nossa grama por uma merreca, hoje estuda para ser oficial da Marinha. Quem ontem viria lá de Jardim Pobreza pra depilar nossas pernas, hoje mora no mesmo bairro, pega o mesmo metrô e ainda compra a última mussarela de búfala bem na nossa frente no supermercado!

Enquanto isso, é bom a gente ir se acostumando. Hoje, no Brasil, existem menos pessoas dispostas a lavar o chão o dia inteiro em troca de um prato de comida. Estamos a caminho de nos tornar uma sociedade mais justa, mais humana, mais digna. E, ao longo desse caminho, vamos ter que aprender a cortar nossa própria grama e fazer nossas próprias unhas. Quem sabe você até perceba que nem precisa tanto assim de grama cortada e unha feita. A solução é querer menos coisas e valorizar mais as pessoas.

Espécies extintas podem voltar à vida?

a-era-do-geloOs avanços nas técnicas de clonagem e de biologia molecular trazem novas perspectivas para a biologia da conservação. A possibilidade de trazer espécies extintas de volta à vida se torna cada vez mais concreta e começa a gerar uma discussão sobre um campo emergente da ciência, que está sendo chamado de “desextinção”. Se for possível ressuscitar espécies que entraram em extinção, devemos fazer isso? Quais seriam as consequências para os animais que ainda estão por aqui? Por que utilizar recursos para projetos de desextinção se podemos investir na conservação de espécies ameaçadas que habitam a Terra neste momento? Para responder a essas perguntas, a National Geographic irá sediar o primeiro fórum público para discutir tema: O TedxDeExtinction.

O evento acontecerá amanhã (15 de março) das 9h30 às 18h (horário de Brasília), no Grosvenor Auditorium, na sede da National Geographic, em Washington, D.C. O evento também será transmitido ao vivo pela internet nos sites de National Geographic e TEDx.com (Technology, Entertainment and Design: Ideas Worth Spreading) – organização sem fins lucrativos dedicada ao conceito baseado em “ideias que merecem ser espalhadas”, na tradução literal do slogan em inglês. Os pesquisadores também irão apresentar projetos para trazer o mamute (Mammuthus primigenius), o tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus), o íbex-dos-pirineus (Capra pyrenaica), o auroque (Bos primigenius) e o pombo-passageiro (Ectopistes migratorius) de volta à vida.

Mais Informações: TEDxDeExtinction.

Senso-percepção virtual

senso-percepcao-virtualO desafio de desenvolver próteses motoras mais eficientes, capazes não apenas de obedecer aos comandos do cérebro, como também captar informações sensoriais externas, está mais próximo de ser vencido. Um sistema criado por um pesquisador brasileiro permitiu que macacos movimentassem um braço virtual apenas com o pensamento e, após tocarem objetos mostrados na tela de um computador, distinguissem as diferentes texturas associadas a eles.

O feito foi descrito em um artigo publicado no site da revista Nature pela equipe do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, professor da Universidade Duke, nos Estados Unidos. Nicolelis trabalha há anos em um projeto – chamado “Walk Again” (“andar novamente”) – para o desenvolvimento de uma espécie de veste robótica que permitiria a pacientes tetraplégicos recuperar seus movimentos e já obteve outros resultados relevantes. Até então, os sistemas que fazem a comunicação direta da atividade cerebral com dispositivos externos (chamados de interfaces cérebro-máquina) eram uma via de mão única. Ainda não era possível devolver ao cérebro informações como as obtidas pelo tato. Essas interfaces dependiam quase exclusivamente de um feedback visual. O novo sistema (agora denominado interface cérebro-máquina-cérebro) extrai movimentos de comando das áreas motoras do cérebro ao mesmo tempo em que leva para áreas envolvidas na percepção do toque informações que permitem distinguir sensações. Para obter essa comunicação bidirecional, os pesquisadores implantaram microfios em duas áreas do cérebro de dois macacos: o córtex motor e o córtex somatossensorial.

Numa primeira etapa, os macacos foram treinados a manipular, por meio de um joystick (um controle de videogame), um cursor de computador ou um braço virtual de forma a alcançar até três objetos dispostos na tela para identificar um deles previamente definido, o que lhes garantiria uma recompensa. Em seguida, o joystick foi desconectado e a manipulação passou a ser feita diretamente pela atividade dos neurônios do córtex motor. Os objetos, visualmente idênticos, eram diferenciados apenas pelo que os pesquisadores chamaram de texturas artificiais. A percepção de cada textura era gerada por um padrão específico de pulsos elétricos transmitido ao córtex somatossensorial sempre que os macacos passavam o braço virtual sobre um dos objetos. Veja o vídeo que mostra testes com o braço virtual controlado pelo cérebro:

A equipe observou ainda que a atividade dos neurônios do córtex motor representava os movimentos do cursor ou do braço virtual mesmo quando esses dispositivos estavam apenas sendo observados pelos macacos. Esses resultados, segundo os cientistas, apoiam sua ideia de que uma prótese de um membro pode ser incorporada ao circuito cerebral. Os pesquisadores acreditam que, no futuro, o uso dessas interfaces de comunicação bidirecional pode não se limitar a próteses de membros e incluir uma série de outros dispositivos. “As interfaces cérebro-máquina-cérebro podem efetivamente liberar o cérebro das restrições físicas do corpo”, avaliam no artigo. “Os macacos exploram objetos com a mão virtual e adquirem um sexto sentido”, resume Nicolelis.

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Com informações de: G1.


Cientistas fazem ratos se comunicarem por telepatia

A mais recente proeza dos cientistas da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e do Instituto Internacional de Neurociência de Natal (IINN), no Rio Grande do Norte, parece saída de obra de ficção científica: eles conseguiram transferir informações entre os cérebros de dois ratos. Não, você não leu errado. Se já era possível conectar o cérebro de mamíferos a máquinas, os cientistas consideraram que podiam tornar o desafio um pouco mais complicado. Ligaram o cérebro de um rato a uma máquina e esta ao cérebro de outro roedor. Deu certo. O resultado do trabalho está descrito em artigo publicado no último dia 28 de fevereiro na revista Scientific Reports. No primeiro experimento, realizado na Universidade Duke, dois ratos tiveram microcircuitos implantados no córtex motor e no córtex tátil – áreas do cérebro relacionadas com os movimentos voluntários e a sensação de toque, respectivamente. O primeiro animal, chamado de “codificador”, foi treinado, sozinho, para realizar tarefas que exigiam a escolha correta entre duas opções de estímulos táteis ou visuais. Em um dos desafios, por exemplo, o roedor ganhava uma recompensa ao acionar uma alavanca sinalizada com uma luz.

Sua atividade cortical, manifestada por meio de impulsos elétricos, foi gravada, analisada e transferida para a área correspondente no cérebro do segundo rato, o “decodificador”, que aprendeu a tomar decisões de comportamento similares a partir apenas das informações fornecidas pelo cérebro do rato codificador. “Criamos a primeira forma de conexão cérebro-cérebro”, afirma o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que liderou o trabalho, em entrevista à CH On-line. Assista ao vídeo, em inglês, e veja um infográfico dos experimentos em que um rato transmite seu aprendizado ao outro:

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No segundo teste, os roedores foram colocados em locais separados, mas seus cérebros permaneceram continuamente conectados. O primeiro rato passou a receber uma recompensa extra quando o segundo era bem-sucedido nas tarefas. O resultado foi um comportamento ainda mais preciso em ambos. “Houve uma interação entre os cérebros dos animais, algo que não havíamos previsto”, diz Nicolelis. Depois de deixar os ratos praticando as tarefas por algum tempo, os pesquisadores analisaram a atividade cerebral de ambos. “Percebemos que os neurônios do córtex tátil do segundo animal passaram a responder não só a estímulos mecânicos de seus próprios bigodes, mas também dos bigodes do primeiro”. Apesar da interação entre os sistemas nervosos, o neurocientista explica que não há uma comunicação em nível consciente. “O segundo rato não tem ciência da existência do primeiro”.

Os pesquisadores mostram no trabalho que a transferência de informações entre cérebros não tem limite de distância. Em outro teste, eles repetiram os procedimentos anteriores, porém com os ratos separados por 6,5 mil quilômetros de distância: enquanto o codificador estava na sede do IINN, em Natal-RN, o decodificador estava em um laboratório da Universidade Duke, no estado da Carolina do Norte (EUA). Os dados foram transferidos por meio da internet. Apesar de o tempo de transmissão dos impulsos elétricos ter aumentado em 10 vezes, os resultados foram semelhantes aos obtidos nos experimentos anteriores. De acordo com o neurocientista, embora nos experimentos as transferências tenham sido feitas em tempo real, as informações do cérebro do rato codificador poderiam também ser gravadas e armazenadas em um computador para serem decodificadas em outro momento pelo segundo animal. Ele afirma ainda que teoricamente a troca de informações funciona também entre outras partes do cérebro.

Para Nicolelis, a grande importância do feito está em avançar no conhecimento sobre os limites da plasticidade cerebral. “Futuramente a mesma tecnologia poderá ser utilizada na reabilitação de pacientes que perderam a atividade em determinadas áreas do cérebro, por trauma ou derrame, por exemplo”, acrescenta. “Podemos pensar na reconexão das diferentes regiões por meio de uma interface eletrônica”. Nesse caso, explica, a interligação seria feita dentro de um mesmo cérebro. Teoricamente, a transferência de informação pode ser feita também entre dois cérebros humanos, mas o neurocientista afirma que não há qualquer interesse em fazer esse tipo de experimento. Para ele, a tecnologia, aplicada em ratos ou macacos – outra espécie que deve ser utilizada futuramente –, é suficiente para o que se pretende com os estudos. Ele considera não haver possibilidade de questionamentos éticos no uso de animais.

O procedimento descrito no artigo teria outro emprego promissor, na visão de Nicolelis: a criação de um sistema de computação orgânico, que poderia revolucionar a área de processamento de dados. “Estamos começando um experimento para testar uma arquitetura de informação que não seja algorítmica, que está por trás do funcionamento dos computadores que usamos hoje”. O sistema funcionaria a partir da ligação entre redes de cérebros de animais, que seriam utilizados para troca, processamento e armazenamento de informações. Além de Nicolelis, assinam o artigo Miguel Pais-Vieira, Mikhail Lebedev e Jing Wang, todos da Universidade Duke, e Carolina Kunicki, do IINN, que ficou responsável pela transferência de equipamentos para Natal e realização da parte dos experimentos no Brasil.

Infográfico: IstoÉ.


Homem amputado controla braços robóticos com a mente

Uma das grandes metas da robótica é conseguir substituir membros amputados com próteses capazes de operar apenas com o controle da mente. Um novo objetivo foi atingido quando Les Baugh, um homem que perdeu seus dois braços há 40 anos, se tornou o primeiro a controlar simultaneamente duas próteses robóticas apenas pensando. O paciente utilizou membros prostéticos modulares desenvolvidos pelo Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins, nos Estados Unidos. A técnica depende de uma cirurgia prévia, chamada de reinervação muscular dirigida, que permite que os nervos restantes sejam utilizados para interpretar comandos para o braço prostético.

Baugh precisou aprender a comandar os membros antes de eles serem implantados. Ele precisou treinar o padrão de reconhecimento do membro, que utiliza algoritmos que identifica individualmente os músculos e como eles se intercomunicam, sua amplitude e frequência. Estas informações são traduzidas em instruções para o membro robótico. Depois, foi necessário criar um encaixe customizado, que se conecta com os nervos e funcionam como suporte para os novos membros. Ele também pode utilizar este suporte para treinar em realidade virtual. Só então ele recebeu as próteses, com as quais ele conseguiu realizar algumas tarefas como mover um copo de uma prateleira para outra mais alta. O movimento parece simples, mas requer a coordenação de oito movimentos separados. O próximo passo para Les Baugh é ir para sua casa com os dois braços robóticos e utilizá-los em seu cotidiano para ver se os resultados a longo prazo são bons.

Fonte: CNET.

Quanta beleza temos deixado de apreciar?

Numa fria manhã de inverno, um homem sentou-se em uma estação de metrô em Washington e começou a tocar violino. Durante cerca de 45 minutos, ele tocou seis composições de Bach. Durante esse tempo, considerando que era horário de pico, calcula-se que mais de mil pessoas passaram pela estação, a maioria a caminho do trabalho. Passaram-se 3 minutos até que um homem de meia-idade percebeu que um músico estava tocando. Ele diminuiu o passo, parou por alguns segundos, e então apressou-se a seus compromissos. Um minuto depois, o violinista recebeu sua primeira gorjeta de um dólar: uma mulher arremessou o dinheiro na caixa e continuou a andar. Alguns minutos depois, um homem encostou-se na parede para ouvi-lo, mas olhou para o relógio e voltou a andar. Obviamente ele estava atrasado para o trabalho.

Quem prestou mais atenção foi um garotinho de 3 anos. Sua mãe o apressou, mas o garoto continuou parado olhando o violinista. Então a mãe o puxou com força pela mão e a criança continuou a andar, olhando para trás várias vezes. Isso se repetiu com muitas outras crianças. Todos os pais, sem exceção, os forçaram a seguir andando. Durante os 45 minutos que o músico tocou, apenas 6 pessoas pararam e observaram por um tempo. Aproximadamente 20 pessoas o deram dinheiro, mas continuaram a andar normalmente. Quando ele acabou de tocar, ninguém percebeu. Ninguém aplaudiu, tampouco houve algum reconhecimento. E ele só conseguiu arrecadar 32 dólares.

Ninguém no metrô sabia, mas o violinista era Joshua Bell, um dos maiores músicos do mundo. Ele acabara de tocar seis das peças mais belas e difíceis já compostas, em um violino que valia 3,5 milhões de dólares. Dois dias antes de tocar no metrô de Washington, Joshua bell esgotou os ingressos em um teatro de Boston, onde cada poltrona custava aproximadamente 100 dólares. A apresentação foi organizada pelo jornal Washington Post como parte de um experimento científico sobre percepção, gosto e prioridade das pessoas. O questionamento era: “Num ambiente comum, numa hora inapropriada, nós somos capazes de perceber a beleza? Nós paramos para apreciá-la? Nós reconhecemos talento em um contexto inesperado?”. A mais óbvia conclusão extraída desse experimento resume-se numa pergunta retórica: Se não temos tempo para ouvir um dos melhores músicos do mundo tocando algumas das melhores músicas já compostas, quantas outras coisas belas temos deixado de apreciar todos os dias?

Bóson de Higgs é eleito a descoberta científica do ano pela revista americana Science

A detecção do bóson de Higgs, partícula elementar que confere massa à matéria, chegou ao fim de 2012 no topo da lista da revista americana Science, que elege as descobertas científicas mais importantes do ano. Editada pela AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência), a revista também destacou o pouso do robô Curiosity em Marte e o experimento que usou células-tronco para criar óvulos de camundongos. A escolha do bóson de Higgs pelo comitê da AAAS era esperada. A revista, porém, deu boa parte do crédito pela descoberta a físicos teóricos que previram as manifestações da partícula – trabalho feito ao longo de 40 anos. A detecção do bóson no acelerador de partículas LHC, anunciada na Suíça em julho, foi o ápice de uma empreitada que completou, finalmente, o Modelo Padrão, a teoria que explica as partículas elementares, como o elétron e o fóton (partícula de luz). O bóson foi a última peça da teoria a ser observada. “A descoberta não foi uma surpresa, porque era o que se esperava achar. Ela veio mais como um alívio. Se o bóson não tivesse sido encontrado, seria preciso repensar tudo seriamente”, diz Robert Coontz, vice-editor da Science, sobre as razões da escolha do prêmio. Logo após o anúncio, especulou-se que o Prêmio Nobel em Física de 2012 seria dado a Peter Higgs e aos outros cientistas responsáveis pela previsão teórica da partícula, o que não ocorreu.

Os físicos já sabem que o bóson de Higgs existe, mas ainda não têm dados suficientes para saber quais exatamente são as propriedades da partícula. A despeito da importância da descoberta, esse tipo de incerteza costuma impor uma certa lentidão à escolha do Nobel. Em 2013, de qualquer forma, o LHC passará por um processo de manutenção que permitirá dobrar sua potência. Espera-se que, quando o acelerador de partículas estiver produzindo colisões mais fortes, novas descobertas sejam feitas. O único item da lista que denota mais um sabor de ansiedade do que de vitória foi a escolha do robô Curiosity como um dos destaques do ano. Havia grande expectativa de que os cientistas do projeto anunciariam a descoberta de moléculas orgânicas complexas no solo marciano, o que não ocorreu. Apesar de o principal objetivo científico da missão marciana ainda estar em aberto, o sucesso da meta de engenharia do projeto – pousar um jipe de 3,3 toneladas em Marte – foi comemorado com estardalhaço. A Nasa já fala em enviar a Marte um jipe similar, mas com instrumentos científicos diferentes.

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Fonte: Folha.


Bóson de Higgs e os mistérios do Universo

ciencia-e-tecnologiaO mundo assistiu recentemente a uma das maiores celebrações científicas da história, quando pesquisadores do CERN (Centro Europeu de Física de Partículas) anunciaram a descoberta do que provavelmente é o bóson de Higgs – a famosa “partícula de Deus”. A razão para tanta festa é que o tal bóson era a figurinha que faltava para completar o grande álbum das partículas, também conhecido como Modelo Padrão. Uma forma simplificada de pensar nele é imaginar uma tabelona que especifica as características de todos os componentes da matéria e da energia – constituição básica do Universo. Está tudo lá. Os subcomponentes dos famosos prótons e nêutrons (quarks), os elétrons e seus primos (léptons), as partículas que mantêm os núcleos atômicos coesos (glúons), os componentes da luz (fótons)… O problema é que algumas dessas partículas são “fantasmas”, não têm massa (caso dos fótons e dos glúons) outras, têm massa (os quarks, que formam você e tudo de concreto que existe à sua volta). Aí que entra o bóson de Higgs: ele é uma partícula que não interage com fótons, mas interage com quarks, por exemplo. E o resultado dessa interação é o quark ganhar massa (ou seja: graças a ele você não é um raio de luz).

Boa parte das partículas do Modelo Padrão tinham sido propostas em teoria e, depois, a existência delas foi confirmada na prática. Lindo. Mas ainda faltava uma para completar esse álbum de figurinhas: justamente o bóson de Higgs. Agora não mais. O LHC, maior acelerador de partículas do mundo, proporcionou a descoberta. E agora temos uma teoria fantasticamente bem-sucedida: ela explica 4,6% de todo o conteúdo do Universo! É isso mesmo, não tem erro de digitação. O Modelo Padrão, em toda sua grandiosidade festejada pelos físicos, não dá nem para o troco do pão quando falamos do conteúdo integral do Cosmo. Em sua maior parte, ele é composto por duas coisas que ninguém hoje faz ideia do que sejam. Você já deve ter ouvido falar delas: matéria escura (que responde por 23%) e energia escura (os 72,4% restantes). E talvez essa seja a maior razão para comemorar a descoberta do bóson de Higgs: fechamos um capítulo na história da física e abrimos outro, provavelmente muito mais empolgante. O que todo mundo no CERN agora quer saber é: que novidades se escondem além do Higgs?

Espera-se, por exemplo, que o acelerador nos permita descobrir do que é feita a tal matéria escura – entidade que sabemos existir pelo efeito gravitacional que causa na rotação das galáxias, mas jamais conseguimos observar. Pelas contas dos físicos, 23% do Universo é matéria escura. E só 4,6% é matéria normal, feita de prótons,  nêutrons, elétrons e bósons de Higgs. Aparentemente, a matéria escura é feita de partículas que não interagem com a matéria de nenhum outro modo que não seja a gravidade, por isso é difícil detectá-las. Aliás, por falar em gravitação, esse é outro grande mistério que ainda não foi totalmente esclarecido. Quer dizer, até foi, mas como se fosse bizarrice do Universo. Porque enquanto todo o resto do Universo conhecido é descrito por uma teoria quântica (o festejado Modelo Padrão), a gravidade só foi satisfatoriamente apresentada pela teoria da relatividade de Albert Einstein. Até aí, ok. Podemos conviver com duas teorias diferentes para explicar coisas diferentes, certo? O problema é que há fenômenos que combinam efeitos da relatividade com ocorrências quânticas. E aí, ao combinar as equações das duas teorias, o resultado é… Bem, dá tudo errado! As contas não fecham.

Isso faz supor que a descrição do Universo num nível mais profundo exigirá a criação de uma nova teoria, capaz de reunir a relatividade e a atual mecânica quântica no mesmo saco. Diversos esforços teóricos para “quantizar” a gravidade (em resumo, descrevê-la como uma partícula, o gráviton) têm sido feitos, mas sem balizas experimentais fica difícil saber que caminhos percorrer. A esperança é que o LHC ajude nisso, ao criar colisões de partículas com energia tal que os eventos relembrem condições similares ás que se viu no Universo logo após o Big Bang. Provavelmente essa chamada “teoria final” (ou “teoria de tudo”), se for encontrada, ajudará a entender o que é a tal energia escura – uma misteriosa força que age contrariamente à gravidade, acelerando a expansão do Cosmo – e que compõe 72,4% do Universo. Isso, com a matéria normal, já desvendada, mais a matéria escura, fechará a conta dos 100%. Mas, até que isso aconteça, os físicos terão muito trabalho nas mãos. Convenhamos: o bóson de Higgs não deu nem pro começo.

Fonte: Superinteressante.


Aristóteles e Higgs: uma parábola

Crônica de Marcelo Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de “Criação Imperfeita”; publicada no jornal Folha de S.Paulo.

Aristóteles e Peter Higgs entram num bar. Higgs, como sempre, pede uísque puro malte. Aristóteles, fiel às suas raízes, um copo de vinho.

“Então, ouvi dizer que finalmente encontraram”, diz Aristóteles, animado.

“É, demorou, mas parece que sim”, responde Higgs, todo sorridente.

Aristóteles: “Você acha que 40 anos é muito tempo? Eu esperei 23 séculos!”

“Como é?”, pergunta Higgs, atônito. “Você não acha que…”

“Claro que acho!”, corta Aristóteles. “Você chama de campo, eu de éter. No final dá no mesmo, não?”

“De jeito nenhum!”, responde Higgs, furioso. “O seu éter é inventado. Eu calculei, entende? Fiz previsões concretas.”

“Vocês cientistas e suas previsões…”, diz Aristóteles. “Basta ter imaginação e um bom olho. Você não acha que o éter é uma boa explicação para o que ocorre nos céus?”

“Há 2 mil anos, talvez. Mas tudo mudou após Galileu e Kepler”, diz Higgs.

Aristóteles olha para Higgs com desprezo: “Você está se referindo a esse ‘método’ de vocês, certo?”

“O método científico, para ser preciso”, responde Higgs, orgulhoso. “É a noção de que uma hipótese precisa ser validada por experimentos para que seja aceita como explicação significativa de como funciona o mundo.”

Aristóteles: “Significativa? A minha filosofia foi muito mais significativa para mais gente e por muito mais tempo do que sua ciência e o seu método.”

Higgs: “É verdade, Aristóteles, suas ideias inspiraram muita gente por muitos séculos. Mas ser significativo não significa estar correto.”

“E como você sabe o que é certo ou errado?”, rebate Aristóteles. “Na ciência, o que você acha que está certo hoje pode ser considerado errado amanhã.”

“Tem razão, a ciência não é infalível. Mas é o melhor método que temos para aprender como o mundo funciona”, responde Higgs.

“Nos meus tempos bastava ser convincente”, reflete Aristóteles com nostalgia. “Se tinha um bom argumento e sabia defendê-lo, dava tudo certo”, continuou. “As pessoas acreditavam em você, mas não era fácil. A competição era intensa!”

“Posso imaginar”, responde Higgs. “Ainda é difícil. A diferença é que argumentos não são suficientes. Ideias têm que ser testadas. Por isso a descoberta do meu bóson é tão importante.”

“É, pode ser. Mas no fundo é só um outro éter”, provoca Aristóteles.

“Um éter bem diferente do seu”, responde Higgs.

“E por quê?”, pergunta Aristóteles. “Pra começar, o campo de Higgs interage com a matéria comum. O seu éter não interage com nada.”

“Claro que não! Era perfeito e eterno”, diz Aristóteles.

“Nada é eterno”, rebate Higgs.

“Pelo seu método, a menos que você tenha um experimento que dure uma eternidade, é impossível provar isso!”, afirma Aristóteles.

“Touché, você me pegou”, admite Higgs. “Não podemos saber tudo.”

“E é aí que fica divertido, quando a certeza acaba. Parabéns pela descoberta do seu éter”, diz Aristóteles.

“Existem muitos tipos de éter”, afirma Higgs.

“E muitos tipos de bósons de Higgs”, retruca Aristóteles.

Higgs: “É, vamos ter que continuar a busca…”

“E o que há de melhor?”, completa Aristóteles, tomando um gole.

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