Carta de Princípios Mackenzie 2015: O que é, afinal de contas, confessionalidade?

Leia a seguir trechos da Carta de Princípios 2015 divulgada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, destinada aos seus alunos, professores e funcionários.
Nela, a Universidade esclarece o sentido e significado de sua confessionalidade cristã.
A carta na íntegra pode ser lida diretamente no portal da Chancelaria.


O conhecimento “de contato” é sempre um risco: aquela situação em que temos uma ideia genérica ou difusa sobre um termo ou conceito e assumimos que já o compreendemos totalmente. A ideia da confessionalidade corre sempre o risco de se tornar um termo “de contato”: repetido, presumido, mas, as vezes não compreendido. Como a Mackenzie é uma universidade confessional, é muito importante ter uma visão clara e distinta quanto ao que significa essa confessionalidade. E talvez um bom lugar para começar a firmar o conceito seja na metáfora dos óculos.

Quem inventou os óculos? Ainda que haja já na antiguidade relatos do uso de lentes para auxiliar na visão, mesmo que lentes corretivas sejam mencionadas em textos árabes traduzidos no século XI, e a despeito da possibilidade de que os óculos sejam invenções antigas da China ou Índia, o fato é que o primeiro registro histórico dos óculos, como conhecemos hoje, surge na Itália do século XIII. Imagine agora o primeiro “fabricante” de óculos, Alessandro de Pisa, tentando apresentar sua nova descoberta. O primeiro grande desafio que ele enfrentaria seria convencer as pessoas da necessidade ou dos benefícios do uso de óculos. Isso incluiria convencer as pessoas quanto as suas limitações de visão e, no caso dos já convencidos, argumentar que os óculos, de fato, oferecem uma solução para os olhos míopes ou hipermetropes (os bifocais parecem só ter surgido bem mais tarde, com Benjamin Franklin). Chamemos esta fase de “momento de convencimento”.

É certo, entretanto, que nosso Alessandro não poderia se contentar com essa primeira fase. Uma vez que as pessoas estivessem convencidas da necessidade dos óculos e de seus benefícios, seria preciso demonstrar a elas como é que esses óculos funcionam, ou seja, uma fase de instrução e descrição. O momento especial, porém, seria uma terceira fase, na qual Alessandro concentraria seu foco no cumprimento do propósito dos óculos. Esse é momento no qual os óculos deixam de ser apenas objeto de estudo (fase 2) ou proposta de solução (fase 1), para serem usados na prática, implementados, vestidos, por assim dizer. Esse instante maravilhoso, quando uma pessoa com vistas cansadas coloca os óculos e é surpreendida pela clareza de visão, é o momento que comprova todo convencimento prévio e a instrução que trouxeram a pessoa até aqui.

Mas estamos falando de confessionalidade, não é? Por que essa coisa dos óculos? A inspiração vem de João Calvino: “Exatamente como se dá com pessoas idosas, enfermas dos olhos ou tantos quantos sofram de visão embaçada, se puseres diante delas um vistoso volume, ainda que reconheçam ser algo escrito, contudo mal poderão ajuntar duas palavras. Ajudadas, porém, pela interposição de lentes, começarão a ler de forma distinta. Assim a Escritura, coletando-nos na mente conhecimento de Deus que de outra sorte seria confuso, dissipada a escuridão, nos mostra em diáfana clareza o Deus verdadeiro” (João Calvino, Institutas. I.VI.I). A proposta de que as Escrituras sejam usadas como lentes que oferecem foco para o que se pode apreender da revelação geral na natureza é perfeitamente análoga ao que significa ter a cosmovisão cristã como lente para trazer a foco tudo o mais que se pode conhecer sobre o mundo criado. Significa usar a fé como óculos, como matriz interpretativa, quando olhamos para outros objetos.

A influência da cosmovisão cristã no Mackenzie envolveu algumas fases distintas, ainda que não estanques. Sempre houve um aspecto de confessionalidade simbólica e devocional no Mackenzie, mas foi no final da década de 1990 que alguns passos foram tomados para que essa identidade confessional fosse mais explícita, culminando com a inclusão do termo “Presbiteriana” no nome da Universidade. Esse momento marcou o início de um processo mais intencional de fortalecimento da identidade confessional da Mackenzie, em um movimento inverso ao que a história registra como ocorrido em algumas grandes instituições europeias e norte-americanas que começaram com forte identidade confessional e a abandonaram com o passar dos séculos.

 

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