Como falar muito sem dizer nada

Trechos de um artigo do professor de filosofia britânico Stephen Law.

Veja também: Como conquistar respeito acadêmico sem esforço

Pseudoprofundidade é a arte de soar profundo falando nonsense. Diferente da arte de ser de fato profundo, a arte de soar profundo não é difícil de dominar. Como veremos, há receitas básicas que podem produzir resultados bastante convincentes – bons o bastante para convencer os outros e talvez até a si mesmo de que você acaba de chegar a um tipo de insight profundo sobre a condição humana. Se você quer atingir o status de guru, será bom possuir algum carisma natural e boa presença. Sinceridade e empatia, ou pelo menos a habilidade de simulá-las, podem ser úteis. Mas mesmo sem o auxílio dos talentos naturais, qualquer um pode proferir sentenças que soam profundas e significativas caso esteja preparado para seguir algumas regras simples.

Se contradiga: Selecione palavras com sentidos opostos ou incompatíveis e, de forma enigmática, combine-as numa óbvia contradição. Exemplos: “A sanidade é apenas mais uma forma de loucura”. “A vida é frequentemente uma forma de morte”. “O ordinário é extraordinário”. Essas sentenças são absolutamente impenetráveis e podem facilmente parecer profundas. Se você é um aspirante a guru, por que não produzir seus próprios comentários contraditórios? Eles fazem com que a audiência faça o trabalho por você. O significado não é algo que você dirá. Seus seguidores é que terão a tarefa de decifrar. Apenas sente-se, adote uma postura sábia e deixe-os fazer o trabalho intelectual.

Contradições têm também outras vantagens: uma série de afirmações simples e não ambíguas é fácil de refutar, ao passo que não é tão fácil fazer o mesmo com tais afirmações enigmáticas. Assim, se você pensa em iniciar sua própria religião e quer dizer coisas que parecerão profundas e também invulneráveis à crítica, tente fazer afirmações contraditórias. Afirme, mas então negue. Por exemplo, diga que seu deus é – e, no entanto, não é. Que seu deus é tudo e nada. Que ele é um, mas ao mesmo tempo vários.

Use jargões: Se você é um guru do business, coaching, consultor de estilo de vida ou místico, introduzir algum jargão pode incrementar ainda mais a ilusão de profundidade. Aqui vai um truque comum: invente algumas palavras que parecem ter significado similar ao de certos termos bem conhecidos, mas que deles difiram de uma maneira nunca completamente explicada. Por exemplo, não fale sobre as pessoas serem felizes ou tristes; fale sobre elas terem orientações atitudinais positivas ou negativas.

O próximo passo é traduzir alguns truísmos para seu novo vocabulário. Pegue a observação banal de que pessoas felizes tendem a fazer as outras pessoas mais felizes. Ela pode ser remodelada como “orientações atitudinais positivas têm alto poder de transferência”. É também útil adotar o vocabulário de “forças”, “energias”, “equilíbrios” e “vibrações”. O uso dessas palavras irá sugerir que você descobriu algum poder profundo que pode ser aproveitado e usado pelas outras pessoas. Isso fará com que seja bem mais fácil persuadi-las de que elas podem perder algo de realmente importante caso não compareçam a um de seus seminários. Assim, se você é um guru do marketing, tente fazer seminários sobre o “Aproveitamento das Energias Atitudinais Positivas dentro do Varejo”. E se algum espertinho for corajoso o suficiente para levantar a mão e perguntar o que exatamente é uma “energia atitudinal positiva”, defina utilizando mais jargão. Fazendo isso, você jamais terá de realmente explicar o significado da sua conversa fiada.

Além disso, os vários truísmos embutidos no seu jargão irão gerar a ilusão de que você realmente tem algo a dizer, mesmo que audiência não faça muita ideia do que seja – o que é uma boa forma de deixá-la com mais vontade de ouvi-lo. Adicionar algum jargão ou referência científica pode ser particularmente útil ao seu papo furado porque essas coisas emulam autoridade e substância. Referências à mecânica quântica são particularmente populares entre os vendedores de conversa fiada pseudocientífica. Uma vez que se espera que ela faça afirmações um tanto estranhas e difíceis de entender, é uma boa ideia abusar das referências em favor das bizarrices que você tem a dizer. As pessoas pensarão que você deve ser muito inteligente e sequer perceberão que você é um tapeador. Se você for ambicioso, pode ser uma boa ideia inventar uma palestra com o título “Energias Atitudinais Positivas e Mecânica Quântica”.

Pós-modernismo: Infelizmente, alguns setores da academia são dominados por intelectuais cuja escrita não é muito mais do que pseudoprofundidade. Retire o jargão acadêmico e as referências pseudocientíficas de seus pronunciamentos grandiosos e pouco sobrará. Tais pensadores, frequentemente referidos como “pós-modernos”, possuem mais apetrechos do que sua justa cota de jargão pastoso. Mas, de qualquer forma, é muito fácil fazer algo soar como legítimo academiquês pós-modernista, tanto que um brincalhão chamado Andrew Bulhak criou um programa de computador que escreve ensaios “pós-modernos” para você – e com as devidas referências. Acabei de testar e recebi um ensaio que começa assim: “O tema primordial do modelo de marxismo neo-estrutural de Cameron é o que há de comum entre a sociedade e a cultura. A análise de Sontag da situação debordiana afirma que a sociedade tem valor objetivo. Entretanto, promove o uso do marxismo para a análise de classe. A situação debordiana sustenta que o objetivo do observador é a desconstrução. O sujeito é interpolado em um marxismo neo-estrutural que inclui a arte como um paradoxo. Vários materialismos que dizem respeito à teoria subdialética semanticista podem ser encontrados”.

Isso até pode ser nonsense, mas dificilmente é pior do que os textos reais. Considere o seguinte exemplo, do intelectual francês Félix Guattari: “Claramente não há qualquer correspondência biunívoca entre ligações linearmente significantes ou arqui-escritos, dependendo do autor, e essa catálise maquínica multidimensional e multi-referencial. A simetria da escala, a transversalidade, o caráter prático e não discursivo de suas expansões: todas essas dimensões nos distanciam da lógica do terceiro excluído e reforçam o descarte do binarismo ontológico que criticamos anteriormente. Uma assembleia maquínica, através de seus componentes diversos, extrai sua consistência cruzando limiares ontológicos, limiares não lineares de irreversibilidade, limiares ontológicos e filogenéticos e limiares criativos de heterogênese e autopoiese”.

Em 1997, Alan Sokal, professor da Universidade de Nova York (e claramente qualificado para falar sobre os usos da terminologia científica), estava irritado porque alguns pós-modernos estavam surrupiando teorias e termos da física e os aplicando de forma nonsense. Juntamente com seu colega Jean Bricmont, publicou o livro Imposturas Intelectuais, que expunha de forma cuidadosa e muitas vezes bem humorada o nonsense científico aliado ao blábláblá academicista de vários intelectuais que escrevem dessa forma. Sobre a longa passagem da qual a citação de Guatarri é retirada, Sokal e Bricmont dizem que ela é a “mais brilhante mistura de jargões científicos, pseudocientíficos e filosóficos que jamais encontramos; apenas um gênio poderia tê-la escrito”.

Imposturas Intelectuais foi lançado após o “Trote de Sokal”, feito em 1996. Sokal submeteu um artigo à revista americana Social Text, publicação pós-moderna da moda. O artigo soava pretensioso e estava recheado de conversa fiada pseudocientífica. Os editores da Social Text, incapazes de distinguir entre conversa fiada e profundidade, publicaram-no. Afinal de contas, o artigo de Sokal – “Transgredindo as Fronteiras: Por Uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica” – fazia tanto sentido quanto outros artigos lá publicados. Sobre o trabalho de Jean Baudrillard, cheio de referências à teoria do caos, mecânica quântica, geometria não euclidiana e outras coisas mais, escrevem Sokal e Bricmont: “Em suma, vemos no trabalho de Baudrillard uma profusão de termos científicos usados sem a menor consideração pelo que eles realmente querem dizer e, acima de tudo, tal uso ocorre em um contexto onde os termos são obviamente irrelevantes. Mesmo admitindo que devemos entendê-los metaforicamente, é difícil ver que papel eles desempenhariam que não seja dar aparência de profundidade a observações banais sobre sociologia ou história. Além disso, a terminologia científica é misturada com um vocabulário não científico que, por sua vez, é empregado com o mesmo desleixo. No final das contas, é normal pensar sobre o que sobraria do pensamento de Baudrillard se todo o verniz que o cobre fosse removido”.

Incluo essa citação de Sokal e Bricmont porque ela resume bem o que poderia ser dito sobre a pseudoprofundidade de forma mais geral: a pseudoprofundidade consiste em uma refinada mistura de banalidades, nonsense e falsidades servida como um imponente soufflé linguístico. Espete-o com um garfo, deixe o ar quente sair e você perceberá que pouco sobra. Certamente nada que valha a pena comer.

Espero que esse breve esboço possa ajudá-lo a detectar com mais eficácia a pseudoprofundidade. Mas e se você estiver no papel de receptor de tais tolices, como responder? Qual a melhor forma de revelar a pseudoprofundidade pelo que ela é? O maior inimigo da pseudoprofundidade é a clareza. Um dos modos mais eficazes de desarmá-la é traduzi-la em português corrente. Diga “certo, você está dizendo que…” e anote em prosa clara e sem ambiguidades o que realmente se quer dizer. Esse exercício de tradução revelará que o que foi dito pode ser uma das seguintes três coisas: (1) uma falsidade óbvia, (2) nonsense, ou (3) um truísmo. Mas combater a pseudoprofundidade raramente é assim tão fácil. Aqueles que a despejam sobre os outros muitas vezes estão até certo ponto cientes que é provável que a clareza os desmascare e, assim, provavelmente resistirão às suas tentativas de reformular o que eles pretendem dizer em termos claros e não ambíguos. É quase certo que eles irão acusá-lo de estar entendendo as coisas de forma crassa. Obviamente, eles não irão explicar claramente o que querem dizer: somente enrolarão você mudando de assunto, levantando cortinas de fumaça, acusando-o de não entender outras coisas mais, e assim por diante. Por essa razão, desmascarar a pseudoprofundidade muitas vezes requer tempo e paciência.

Escárnio e sátira podem ter um papel a desempenhar. O riso pode quebrar o feitiço que a pseudoprofundidade lança sobre nós. Uma pequena sátira pode ajudar-nos a reconhecer que fomos enganados por alguém que diz pouco mais do que truísmos, falsidades ou nonsense travestidos de pensamento profundo. Eis aí a razão pela qual os adeptos da pseudoprofundidade com frequência se opõem à sátira e ao escárnio, ficando ofendidos com tais coisas. No entanto, há um cuidado importante que devemos ter quanto ao uso do humor. Obviamente, qualquer crença pode ser ridicularizada. Não estou sugerindo que a piada deve substituir a crítica clara e rigorosa do tipo que eu procurei oferecer aqui. Ninguém deve ser incentivado a abandonar uma crença só porque as pessoas riem dela. Mas por causa da habilidade de ajudar a quebrar o feitiço que a pseudoprofundidade lança sobre suas vítimas, permitindo que vejamos por um momento ou outro que fomos crédulos ou tolos, um pouco de escárnio pode muito bem ser parte de uma resposta. Uma boa piada pode ser útil e legítima, se for merecida.


Documentário sobre a vida e a obra de Otávio Batista, mais conhecido como Tavinho Schopenhauer. Em entrevista, ele fala sobre o o que é a filosofia e o papel do filósofo nos tempos atuais, nos quais o pensar não é considerada uma atividade relevante.


Como escrever um ensaio filosófico de merda:
um guia rápido para estudantes

Trecho de um artigo do professor James Lenman, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido; traduzido pelo professor Alexandre Machado, da Universidade Federal do Paraná (UFPR); e publicado originalmente no blog Problemas Filosóficos.


Sempre comece seu ensaio com algo nestas linhas: “Desde a aurora dos tempos o problema da vontade livre tem sido considerado por muitos dos grandes e profundos pensadores na história”. Sempre termine seu ensaio com algo nestas linhas: “Assim, pode ser visto pelos argumentos acima que há muitos pontos de vista diferentes sobre o problema da vontade livre”. Sempre que tiver qualquer dúvida sobre o que dizer sobre X, diga, a propósito de nada em particular e sem nenhuma explicação, que X é subjetivo. Quando isso ficar chato, diga que X é muito relativo, mas nunca diga ao que é relativo.

Use a linguagem com o mínimo de precisão possível. Invista pesado em malapropismo e erros categoriais. Refira-se a afirmações como “argumentos” e a argumentos como “afirmações”. Descreva com frequência frases como “válidas” e argumentos como “verdadeiros”. Use a palavra “lógico” para significar plausível ou verdadeiro. Use “inferir” quando você quer dizer “dar a entender”. Nunca use a palavra “petição de princípio” com o seu significado correto, mas use-a incorretamente tão frequentemente quanto possível. Adquira o hábito de inserir palavras como “logo” e “portanto” entre frases que são inteiramente irrelevantes uma para a outra. Isso vai trazer à existência uma relevância que previamente não existia. Cuidado para assiduamente sempre evitar responder a questão formulada. Há tantas outras coisas interessantes para você discutir! Coloque aspas em palavras inteiramente ao acaso. Sistematicamente confunda “porque” com “por que”.

Evite clareza a todo custo. Lembre­-se: nada que é claro pode ser realmente profundo. Se, como resultado, o avaliador te der um terço da nota, isso apenas mostra como a sua sabedoria está muito acima da dele. O que quer que você faça, nunca dê atenção às palavras de Peter Medawar: “Ninguém que tenha algo original ou importante para dizer vai voluntariamente correr o risco de ser mal entendido. Pessoas que escrevem obscuramente ou são carentes da habilidade de escrever ou estão a fim de passar trote”. Lembre-­se ainda: parágrafos são para maricas. O mesmo vale para títulos. Apenas pessoas pequenas usam exemplos. Evite-­os tenazmente. Se você insistir em usar algum, assegure-­se de fazê-lo com estudada irrelevância.


Estudo falso é aceito para publicação em mais de 150 revistas científicas especializadas

Imagine o seguinte experimento: Você escreve um trabalho científico falso, baseado em dados inventados, assinado com nomes falsos de pesquisadores que não existem, associados a universidades que também não existem, e envia esse trabalho para centenas de revistas científicas do tipo open access (que disponibilizam conteúdo gratuitamente na internet) para publicação. O que você acha que aconteceria?

Um biólogo e jornalista americano chamado John Bohannon fez exatamente isso e os resultados, publicados pela revista americana Science, são aterradores para aqueles que se preocupam com a credibilidade da ciência. Ele escreveu um trabalho falso sobre as propriedades supostamente anticancerígenas de uma molécula supostamente extraída de um líquen e enviou esse trabalho para 304 revistas científicas de acesso aberto ao redor do mundo. Não só o trabalho era totalmente fabricado e obviamente incorreto (com falhas metodológicas e experimentais que, segundo Bohannon, deveriam ser óbvias para qualquer revisor com formação escolar em química e capacidade de entender uma planilha básica de dados), como também o nome dos autores e das instituições que o assinavam eram todos fictícios. Apesar disso (pasmem!), mais da metade das revistas procuradas (157) aceitou o trabalho para publicação. Um escândalo!

O que isso quer dizer? Quer dizer que tem muita revista “científica” por aí que não é “científica” coisíssima nenhuma. E que o fato de um estudo ter sido publicado não significa que ele esteja correto (pior, não significa nem mesmo que ele seja verdadeiro, para começo de conversa). A ciência, assim como qualquer outra atividade humana, infelizmente não está isenta de falcatruas. E o que isso não quer dizer? Não quer dizer que o sistema de open access seja intrinsecamente falho. Certamente há revistas de acesso livre de ótima qualidade, como as do grupo PLOS, assim como há revistas pagas de baixa qualidade que publicam qualquer porcaria. Nenhum sistema é perfeito. Até mesmo a Science publica umas lorotas de vez em quando, assim como a Nature e outras revistas de alto impacto, que empregam os critérios mais rígidos de seleção e revisão. Além disso, o fato de uma revista ser gratuita não significa que ela não tenha revisão por pares (peer review) e outros filtros de qualidade. Assim, o que deve ser questionado não é a forma de disponibilizar a informação, mas a forma como ela é selecionada e apurada — em outras palavras, a qualidade e a confiabilidade da informação, não o seu preço.

Fonte: Estadão.


120 artigos publicados em revistas científicas foram criados em gerador de “lero-lero” e ninguém percebeu

As editoras de revistas científicas Springer e IEEE removeram mais de 120 artigos publicados entre 2008 e 2013. Elas descobriram que cada um deles era jargão sem sentido, todos gerados automaticamente por um programa de computador.

O enorme descuido foi descoberto pelo cientista da computação Cyril Labbé, que passou os últimos dois anos reunindo esses artigos. Os textos foram elaborados com um programa do MIT chamado SCIgen. Parte da genialidade do esquema é que, para um olhar destreinado, os artigos parecem plausíveis. Por exemplo, um dos trabalhos, publicado numa conferência de engenharia na China, é intitulado “TIC: Uma metodologia para a construção do e-commerce”. Vago, mas ainda assim parece algo plausível.

Só que o resumo já causa estranheza: “Nos últimos anos, muitos estudos vêm se dedicando à criação de chaves públicas e privadas de criptografia; por outro lado, poucos sintetizaram a visualização do problema do produtor-consumidor. Dado o estado atual de arquétipos eficientes, importantes analistas notoriamente desejam uma emulação do controle de congestionamento de rede, que incorpora os princípios fundamentais de hardware e arquitetura. Em nossa pesquisa, concentramos nossos esforços em refutar que planilhas podem ser compactas ou feitas com base em conhecimento e empatia”. Basicamente, algo saído de um desses famosos geradores de lero-lero da internet.

Segundo a revista Nature, a maioria dos trabalhos veio da China. No entanto, ninguém sabe ao certo quem está por trás desse escândalo. O problema é que os estudos supostamente são revisados por pares: eles passam pelo escrutínio de um ou mais estudiosos com mesmo escalão que o autor; em geral, de forma anônima. Por isso, as editoras estão tendo dificuldade em explicar exatamente como isso aconteceu.

Fonte: Gizmodo.


A tabela abaixo permite construir 10 mil combinações diferentes de frases. Com ela, qualquer um poderá fazer grandes discursos sem dizer absolutamente nada com sentido. A regra é simples: Construa as frases aleatoriamente usando uma expressão da primeira coluna, em seguida uma da segunda coluna, depois da terceira e por fim da quarta coluna. Não tem erro! Faça o teste e seja um orador de sucesso.

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Se a tabela acima não for suficiente, o Fabuloso Gerador de Lero-lero 2.0 é capaz de gerar qualquer quantidade de texto vazio e prolixo em milésimos de segundo. Basta digitar um título e a quantidade de frases desejada. CLIQUE AQUI para testar.

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Experimentos sobre a percepção na leitura

Deixe que a sua mente leia corretamente o que está escrito nos dois textos abaixo:

De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 M05TR4R COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R CO1545 1MPR3551ON4ANT35! R3P4R3 N155O! NO COM3ÇO 35T4V4 M310 COMPL1C4DO, M45 N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3, S3M PR3C1S4R P3N54R MU1TO.

Sobre a escrita e o estilo

Texto do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860),
extraído do livro A Arte de Escrever (Porto Alegre: L&PM, 2012).


Antes de tudo, há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever. Os primeiros tiveram pensamentos que lhes parecem dignos de ser comunicados; os outros precisam de dinheiro e por isso escrevem. Pensam apenas para exercer sua atividade de escritores. É possível reconhecê-los tanto por sua tendência de dar a maior extensão possível a seus pensamentos e de apresentar meias-verdades, pensamentos enviesados, forçados e vacilantes, como por sua preferência pelo claro-escuro, a fim de parecerem ser o que não são. É por isso que sua escrita não tem precisão nem clareza. Desse modo, pode-se notar logo que eles escrevem para encher o papel. Assim que alguém percebe isso, deve jogar fora o livro, pois o tempo é precioso. No fundo, o autor engana o leitor sempre que escreve para encher o papel.

Só produz o que é digno de ser escrito quem escreve unicamente em função do assunto tratado. Seria uma vantagem inestimável se, em todas as áreas da literatura, existissem apenas alguns poucos livros, mas obras excelentes. Só que nunca se chegará a tal ponto enquanto houver honorários a serem recebidos. Pois é como se uma maldição pesasse sobre o dinheiro: todo autor se torna um escritor ruim assim que escreve qualquer coisa em função do lucro. As melhores obras dos grandes homens são todas provenientes da época em que eles tinham de escrever sem ganhar nada. A condição deplorável da literatura atual tem sua raiz no fato de os livros serem escritos para se ganhar dinheiro. Qualquer um que precise de dinheiro senta-se à escrivaninha e escreve um livro, e o público é tolo o bastante para comprá-lo. Uma grande quantidade de escritores ruins vive exclusivamente da obsessão do público de não ler nada além do que foi impresso recentemente, do que é atual. A consequência disso é a deterioração da língua.

Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros. Aquele escritor do segundo tipo, que adia o pensamento até a hora de escrever, é comparável ao caçador que busca ao acaso sua presa: dificilmente ele trará muita coisa para casa. Em compensação, a escrita dos autores do terceiro tipo, o mais raro, é como uma batida de caça em que a presa foi previamente cercada e encurralada, para depois ser conduzida a um outro lugar igualmente cercado, onde não pode escapar ao caçador, de modo que agora se trata apenas de apontar e atirar (expor). Esse é o tipo de caça que dá resultado.

No entanto, mesmo entre os escritores pouco numerosos que realmente pensam a sério antes de escrever, é extremamente reduzida a quantidade daqueles que pensam sobre as próprias coisas, enquanto os demais pensam apenas sobre livros, sobre o que outros disseram. Ou seja, para pensar, eles precisam de um forte estímulo de pensamentos alheios já disponíveis. Esses pensamentos se tornam seu próximo tema, de modo que os autores permanecem sempre sob a influência dos outros, sem nunca alcançarem a originalidade. Em contrapartida, aqueles que são estimulados pelas próprias coisas têm seu pensamento voltado para elas de modo direto. Apenas entre eles encontram-se os que permanecerão e serão imortalizados. Evidentemente, trata-se aqui de assuntos elevados, não de escritores que falam sobre a destilação de aguardentes.

Apenas aqueles que, ao escrever, tiram a matéria diretamente de suas cabeças são dignos de serem lidos. Mas os fazedores de livros, os escritores de compêndios, os historiadores triviais, entre outros, tiram sua matéria diretamente dos livros. É dos livros que ela é transferida para os dedos, sem ter passado por qualquer inspeção na cabeça, sem ter pagado imposto alfandegário, nem muito menos ter sofrido algum tipo de elaboração. (Como seriam eruditos alguns autores se soubessem tudo o que está em seus próprios livros!) Por isso, seu texto costuma ter um sentido tão indeterminado que os leitores quebram em vão a cabeça na tentativa de descobrir o que eles pensam afinal. Eles simplesmente não pensam. O livro a partir do qual escrevem muitas vezes foi resultado do mesmo processo. É por isso que se deve ler só raramente algum dos compiladores, já que evitá-los por completo é muito difícil.

Não há erro maior do que acreditar que a última palavra dita é sempre a mais correta, que algo escrito mais recentemente constitui um aprimoramento do que foi escrito antes, que toda mudança é um progresso. As cabeças pensantes são exceções. A regra, em toda parte do mundo, é a corja de pessoas infames que estão sempre dispostas, com todo empenho, a piorar o que foi dito por alguém após o amadurecimento de uma reflexão, dando a essa piora um aspecto de melhora. Por isso, quem quer se instruir a respeito de um tema deve se resguardar de pegar logo os livros mais novos a respeito, na pressuposição de que as ciências estão em progresso contínuo e de que, na elaboração desse livro, foram usadas as obras anteriores. De fato elas foram, mas como?

Com frequência, o escritor não entende a fundo os livros anteriores, além do mais não quer usar exatamente as mesmas palavras, de modo que desfigura e adultera o que estava dito neles de modo muito mais claro e apropriado, uma vez que foram escritos a partir de um conhecimento próprio e vivido do assunto. Muitas vezes, esse escritor deixa de lado o melhor do que tais obras revelaram, seus mais precisos esclarecimentos a respeito do assunto, suas mais felizes observações, porque não reconhece o valor dessas coisas, não sente sua relevância. Só tem afinidade com o que é superficial e insípido. Já ocorreu muitas vezes de um livro anterior excelente ser substituído por novos, muito piores, escritos apenas para ganhar dinheiro, mas que surgem com aspirações pretensiosas e são louvados pelos camaradas dos autores.

Nas ciências, cada um quer trazer algo novo para o mercado, com o intuito de demonstrar seu valor. Com frequência, o que é trazido se resume a um ataque contra o que valia até então como certo, para pôr no lugar afirmações vazias. Às vezes, essa substituição tem êxito por um breve período, em seguida todos voltam às teorias anteriores. Os inovadores não levam nada a sério no mundo, a não ser sua preciosa pessoa, cujo valor querem provar. Só que isso deve acontecer depressa e de uma maneira paradoxal: a esterilidade de suas cabeças lhes aconselha o caminho da negação, e então verdades reconhecidas há muito tempo são negadas. Assim, o curso da ciência muitas vezes é um retrocesso.

O mesmo vale para os tradutores que pretendem, ao mesmo tempo, corrigir e reelaborar seus autores, o que sempre me parece uma impertinência. Escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe as outras obras como elas são. Sempre que possível, é melhor ler os verdadeiros autores, os fundadores e descobridores das coisas, ou pelo menos os grandes e reconhecidos mestres da área. E é melhor comprar livros de segunda mão do que ler conteúdos de segunda mão. Assim, em geral vale aqui, como em toda parte, a regra: o novo raramente é bom, porque o que é bom só é novo por pouco tempo. Continue reading “Sobre a escrita e o estilo” »

Sobre a leitura e os livros

Texto do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860),
extraído do livro A Arte de Escrever (Porto Alegre: L&PM, 2012).


Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental, do mesmo modo que um estudante, ao aprender a escrever, refaz os traços que seu professor fizera a lápis. Quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar. É por isso que sentimos um alívio ao passarmos da ocupação com nossos próprios pensamentos para a leitura. No entanto, a nossa cabeça é, durante a leitura, apenas uma arena de pensamentos alheios. Quando eles se retiram, o que resta?

Em consequência disso, quem lê muito e quase o dia todo, mas nos intervalos passa o tempo sem pensar nada, perde gradativamente a capacidade de pensar por si mesmo – como alguém que, de tanto cavalgar, acabasse desaprendendo a andar. Este é o caso de muitos eruditos: leram até ficarem burros. Pois a leitura contínua, retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais do que o trabalho manual contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho.

Assim como uma mola perde sua elasticidade pela pressão constante de outro corpo, o espírito perde a sua pela imposição constante de pensamentos alheios. E, assim como o excesso de alimentação faz mal ao estômago e acaba afetando o corpo todo, também é possível, com excesso de alimento espiritual, sobrecarregar e sufocar o espírito. Pois, quanto mais se lê, menor a quantidade de marcas deixadas no espírito pelo que foi lido: ele se torna como um quadro com muitas coisas escritas sobre as outras.

Com isso não se chega à ruminação: mas é só por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos. Em contrapartida, se alguém lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes e se perde em grande parte. Em todo caso, com o alimento espiritual ocorre a mesma coisa que com o corporal: só a quinquagésima parte do que alguém absorve é assimilada, o resto se perde.

Ocorre na literatura o mesmo que na vida: para onde quer que alguém se volte, depara-se logo com o incorrigível vulgo da humanidade, que se encontra por toda parte em legiões, enchendo e sujando tudo, como as moscas no verão. Isso explica a quantidade de livros ruins, essa abundante erva daninha da literatura que tira a nutrição do trigo e o sufoca. Pois eles roubam tempo, dinheiro e atenção do público, coisas que pertencem por direito aos bons livros e a seus objetivos nobres, enquanto os livros ruins são escritos exclusivamente com a intenção de ganhar dinheiro ou criar empregos.

Nesse caso, eles não são apenas inúteis, mas realmente prejudiciais. Nove décimos de toda a nossa literatura atual não têm nenhum outro objetivo a não ser tirar alguns trocados do bolso do público: para isso, o autor, o editor e o crítico literário compactuam. Um golpe pior e mais maldoso, porém mais digno de consideração, foi dado pelos literatos, pelos escritores prolixos que fazem da literatura seu ganha-pão, contra o bom gosto e a verdadeira formação da época, possibilitando que eles levem todo o mundo elegante na coleira, tornando-o adestrado a ler no momento certo, isto é, fazendo todos lerem sempre a mesma coisa, o livro mais recente, a fim de ter um assunto para conversar em seu círculo. Contudo, o que pode ser mais mesquinho do que o destino desse público beletrista que mantém o compromisso de ler sempre a última coisa escrita por cabeças das mais vulgares, por pessoas que escrevem apenas por dinheiro e, por isso mesmo, podem ser encontradas em grande número, enquanto as obras dos espíritos mais raros e elevados de todos os tempos e países são conhecidas apenas de nome?

Em particular, a imprensa diária ligada às letras constitui um meio engenhoso de roubar, ao público interessado em estética, o tempo que deveria ser dedicado aos produtos autênticos do gênero, para o bem de sua formação, de modo que esse tempo fique reservado aos remendos diários de obras feitos por cabeças banais. Como as pessoas leem sempre, em vez dos melhores de todos os tempos, apenas a última novidade, os escritores permanecem no círculo estreito das ideias que circulam, e a época afunda cada vez mais em sua própria lama. Por isso é tão importante, em relação ao nosso hábito de leitura, a arte de não ler. Ela consiste na atitude de não escolher para ler o que, a cada momento determinado, constitui a ocupação do grande público; por exemplo, panfletos políticos ou literários, romances e poesias que causam rebuliço justamente naquele momento e chegam a ter várias edições em seu primeiro e último ano de vida.

Basta nos lembrarmos de que, em geral, quem escreve para os tolos encontra sempre um grande público, a fim de que nosso tempo destinado à leitura, que costuma ser escasso, seja voltado exclusivamente para as obras dos grandes espíritos de todos os tempos e povos, para os homens que se destacam em relação ao resto da humanidade e que são apontados como tais pela voz da notoriedade. Apenas esses espíritos realmente educam e formam os demais. Quanto às obras ruins, nunca se lerá pouco quando se trata delas; quanto às boas, nunca elas serão lidas com frequência excessiva. Livros ruins são veneno intelectual, capaz de fazer definhar o espírito. Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados.

Escrevem-se livros ora sobre este, ora sobre aquele grande espírito do passado, e o público os lê, mas não lê os próprios autores dos quais eles tratam. Isso porque o público só quer ler o que acaba de ser impresso, e porque “o semelhante busca o semelhante”, de modo que a indiscrição fútil e insossa de uma cabeça vazia atual lhe parecerá mais homogênea e agradável do que os pensamentos de grandes espíritos. Mas eu agradeço ao destino por ter me conduzido, já na juventude, a um belo epigrama de Schlegel, que desde então se tornou minha estrela guia: “Leiam com afinco os antigos, os verdadeiros e autênticos antigos: o que os modernos dizem sobre eles não significa muito”.

Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma ideia na mesma ocasião, e nada além disso. E, ainda por cima, há suas baixas intenções pessoais. A indiscrição sem valor de tais velhacos é lida por um público estúpido, se for publicada hoje, e os grandes espíritos descansam nas prateleiras de livros. É inacreditável a tolice e a perversidade do público que deixa de ler os espíritos mais nobres e mais raros de cada gênero, de todos os tempos e lugares, para ler as besteiras escritas por cabeças banais que aparecem diariamente, que se espalham a cada ano em grande quantidade, como moscas. E isso apenas porque foram publicadas hoje e sua tinta ainda está fresca. Na verdade, esses produtos deveriam ser abandonados e desprezados já no dia de seu nascimento, como serão após poucos anos, e então para sempre, reduzindo-se a um mero assunto para que se ria dos tempos passados e de suas balelas.

Em todos os tempos, há duas literaturas que caminham lado a lado, praticamente alheias uma à outra: uma verdadeira e uma apenas aparente. A primeira se desenvolve até se tornar uma literatura duradoura. Feita por gente que vive para a ciência ou a poesia, segue seu caminho com seriedade e tranquilidade, mas de maneira extremamente lenta, produzindo na Europa pouco mais de uma dúzia de obras no século, obras que todavia permanecem. A segunda, feita por gente que vive da ciência ou da poesia, segue a galope, sob grande estardalhaço e balbúrdia dos participantes, trazendo muitos milhares de obras para o mercado a cada ano. Contudo, poucos anos depois nos perguntamos onde elas estão, onde foi parar sua fama tão prematura e ruidosa. Assim, é possível designar essa literatura como passageira e a outra como permanente.

Seria bom comprar livros se fosse possível comprar, junto com eles, o tempo para lê-los, mas é comum confundir a compra dos livros com a assimilação de seu conteúdo. Exigir que alguém tivesse guardado tudo aquilo que já leu é o mesmo que exigir que ele ainda carregasse tudo aquilo que já comeu. Ele viveu do alimento corporalmente e do que leu, espiritualmente, e foi assim que se tornou o que é. Mas, da mesma maneira que o corpo assimila o que lhe é homogêneo, o espírito guarda o que lhe interessa, ou seja, o que diz respeito a seu sistema de pensamentos ou o que se adapta a suas finalidades. É certo que todos têm as suas finalidades, mas poucas são as pessoas que possuem algo semelhante a um sistema de pensamentos, de modo que não é só um interesse objetivo que os move, e é esse o motivo pelo qual nada do que leem é assimilado.

A repetição é a mãe do estudo. Cada livro importante deve ser lido, de imediato, duas vezes, em parte porque as coisas são melhor compreendidas na segunda vez, em seu contexto, e o início é entendido corretamente quando se conhece o final; em parte porque, na segunda vez, cada passagem é acompanhada com outra disposição e com outro humor, diferentes dos da primeira, de modo que a impressão se altera.

As obras são a quintessência de um espírito: em consequência disso, por maior que seja o espírito, elas terão sempre uma riqueza de conteúdo maior do que a possibilitada pelo contato direto com o autor e substituirão sua companhia no que é essencial; aliás, na verdade, elas a superam de longe e a deixam para trás. Até os escritos de uma cabeça mediana podem ser instrutivos, divertidos e dignos de leitura, exatamente porque são a quintessência, o resultado, o fruto de todo o seu pensamento e estudo, enquanto a sua companhia dificilmente nos poderia satisfazer. Isso explica por que é possível ler livros de pessoas em cuja companhia não encontraríamos nenhuma satisfação, e também é por esse motivo que a cultura espiritual elevada nos leva gradativamente a encontrar prazer apenas nos livros, não mais na companhia dos homens.

Não há nenhum conforto maior para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: logo que uma pessoa tem em mãos qualquer um deles, mesmo que seja por meia hora, sente-se imediatamente renovado, aliviado, purificado, elevado e fortalecido; é como se tivesse bebido de uma fonte de água fresca em meio aos rochedos. Será que essa impressão se deve às línguas antigas e à sua perfeição? Ou à grandeza dos espíritos cujas obras sobreviveram aos milênios, intactas, sem perder seu vigor? Talvez aos dois fatores ao mesmo tempo. Mas de uma coisa eu sei: se o ensino das línguas antigas um dia chegar ao fim, como há o risco de acontecer agora, surgirá uma nova literatura, constituída de escritos tão bárbaros, rasos e sem valor como nunca se viu.

 

Sobre a erudição e os eruditos

Texto do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860),
extraído do livro A Arte de Escrever (Porto Alegre: L&PM, 2012).


Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e de aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à verdade. Entretanto, nesse caso, as aparências também enganam. Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes.

A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração: pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre aos mais recentes, os de sua época e próprios para sua idade. Só o que é breve e novo! Assim como é nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos.

Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma. No entanto, é essa maneira de pensar que caracteriza uma cabeça filosófica.

Diante da imponente erudição de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ter lido tanto! Até mesmo quando se relata, a respeito de Plínio, o Velho, que ele lia sem parar ou mandava que lessem para ele, seja à mesa, em viagens ou no banheiro, sinto a necessidade de me perguntar se o homem tinha tanta falta de pensamentos próprios que era preciso um afluxo contínuo de pensamentos alheios, como é preciso dar a quem sofre de tuberculose um caldo para manter sua vida. E nem a sua credulidade sem critérios, nem o seu estilo de coletânea, extremamente repugnante, difícil de entender e sem desenvolvimento contribuem para me dar um alto conceito do pensamento próprio desse escritor.

Assim como as atividades de ler e aprender, quando em excesso, são prejudiciais ao pensamento próprio, as de escrever e ensinar em demasia também desacostumam os homens da clareza e profundidade do saber e da compreensão, uma vez que não lhes sobra tempo para obtê-los. Com isso, quando expõe alguma ideia, a pessoa precisa preencher com palavras e frases as lacunas de clareza em seu conhecimento. É isso, e não a aridez do assunto, que torna a maioria dos livros tão incrivelmente entediante. Pois, como podemos supor, um bom cozinheiro pode dar gosto até a uma velha sola de sapato; assim como um bom escritor pode tornar interessante mesmo o assunto mais árido.

Para a imensa maioria dos eruditos, sua ciência é um meio e não um fim. Desse modo, nunca chegarão a realizar nada de grandioso, porque para tanto seria preciso que tivessem o saber como meta, e que todo o resto, mesmo sua própria existência, fosse apenas um meio. Pois tudo o que se realiza em função de outra coisa é feito apenas de maneira parcial, e a verdadeira excelência só pode ser alcançada, em obras de todos os gêneros, quando elas foram produzidas em função de si mesmas e não como meios para fins ulteriores. Da mesma maneira, só chegará a elaborar novas e grandes concepções fundamentais aquele que tenha suas próprias ideias como objetivo direto de seus estudos, sem se importar com as ideias dos outros.

Entretanto os eruditos, em sua maioria, estudam exclusivamente com o objetivo de um dia poderem ensinar e escrever. Assim, sua cabeça é semelhante a um estômago e a um intestino dos quais a comida sai sem ser digerida. Justamente por isso, seu ensino e seus escritos têm pouca utilidade. Não é possível alimentar os outros com restos não digeridos, mas só com o leite que se formou a partir do próprio sangue.

A peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito. Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios. Da mesma maneira, a erudição consiste num adorno com uma grande quantidade de pensamentos alheios, que evidentemente, em comparação com os fios provenientes do fundo e do solo mais próprios, não assentam de modo tão natural, nem se aplicam a todos os casos ou se adaptam de modo tão apropriado a todos os objetivos, nem se enraízam com firmeza, tampouco são substituídos de imediato, depois de utilizados, por outros pensamentos provenientes da mesma fonte. Continue reading “Sobre a erudição e os eruditos” »

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