Modelo de ensino popular na Dinamarca tem a floresta como sala de aula para crianças

Um modelo de ensino popular na Dinamarca tem a floresta como sala de aula. Não por acaso chamadas de jardins de infância florestais, essas escolas tiram as crianças do ambiente fechado e as levam para aprender por meio de brincadeiras e experiências ao ar livre. A primeira reação de quem se depara com o sistema é, com frequência, o espanto. Isso porque nele crianças de 2 a 6 anos são pouco supervisionadas, podem escalar árvores altas, manuseiam facas afiadas, lidam com animais, ficam próximas a fogueiras e dormem sob o frio às vezes congelante do inverno dinamarquês.

“Lembro-me de ter visto uma criança no topo da árvore, chamei um pedagogo e disse: ‘tem uma criança lá em cima’; e ele respondeu: ‘tem sim’. Chocada, eu questionei: ‘mas ela pode cair!’; ‘sim’, disse o pedagogo, ‘pode, mas geralmente não cai'”, descreve Jane Williams-Siegfredsen no livro Understanding the Danish Forest School Approach (Compreendendo a abordagem da escola florestal dinamarquesa). Mais de duas décadas depois do primeiro contato, Jane hoje advoca pela disseminação do modelo e faz treinamentos em diversos países, como Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Portugal. “Vinda de uma cultura de superproteção e de constante preocupação de que as crianças corram riscos, aquilo parecia assustador”, explica Jane à BBC Brasil. “É uma surpresa perceber o quão confiantes e competentes as crianças são ao ar livre”.

O modelo surgiu na década de 1950 em Copenhague, capital da Dinamarca. Hoje há escolas do tipo em todo o país. Não há estatísticas nacionais oficiais. Mas só a capital abriga em seus arredores 91 delas, de um total de 3.975 instituições. São cerca de 4 mil alunos, num universo de 20 mil, segundo dados da prefeitura. Nos jardins de infância florestais, as crianças brincam, exploram a área verde, observam insetos, cuidam de animais como coelhos, constroem estruturas de madeira, cantam, escutam histórias, dormem em cabanas abertas e cozinham sobre fogueiras, além de aprenderem sobre matemática, biologia e outras disciplinas com a ajuda de objetos naturais ou observação do ambiente. As estruturas das escolas podem variar. Há aquelas que funcionam exclusivamente dentro de florestas, as que levam as crianças de ônibus para passarem o dia na natureza e as que dividem suas atividades entre dentro e fora de sala, embora com foco na atividade ao ar livre. Costumam funcionar de 7h às 17h, com turmas entre 10 e 20 crianças, supervisionadas por entre dois e quatro pedagogos.

“Os jardins de infância florestais reafirmam a importância da brincadeira como forma de aprendizado, engajam a criança no contato com a natureza, despertam empatia, inclusive de animais, desenvolvem habilidades motoras e sociais. Quando adultas, elas serão capazes de gerenciar situações de insegurança e desafiadoras com mais facilidade”, afirma Iben Dissing Sandahl, professora e psicoterapeuta não ligada a nenhuma escola ou instituição, autora do livro The Danish Way of Parenting (A maneira dinamarquesa de educar), que será lançado no Brasil. “Ao proteger a criança de todos os riscos e acidentes naturais, não as permitindo usar a imaginação e ter contato com a natureza, corremos o risco de ter crianças paralisadas e assustadas. A criança não será forçada a subir árvores antes que esteja pronta, e tampouco usará uma faca sem orientação. Elas serão ensinadas no tempo certo e aprenderão fazendo”.

Daniel e Aimie Stilling são um casal de cineastas dinamarqueses e hoje vivem em Orlando, nos Estados Unidos. Há três anos, eles decidiram passar alguns meses na Dinamarca e, na ocasião, sua filha Bella, na época com 4 anos, frequentou um jardim de infância florestal. Ambos admitem terem ficado inseguros, de início, com as atividades. Mas a partir da experiência que consideraram positiva, surgiu a ideia de um documentário sobre o tema, que acaba de ser lançado e deverá ser exibido em TVs de diferentes países. Com Daniel na direção e Aimie na produção, o filme Nature Play mostra o dia a dia e a metodologia por trás dessas escolas. É ainda um contraponto crítico ao sistema de ensino americano. “As crianças aqui nos Estados Unidos não conseguem brincar porque passam horas fazendo lições de casa e estudando para provas”, critica Daniel Stilling, que ao voltar aos EUA decidiu manter o “espírito”, como descreve, da educação que Belle recebeu no jardim florestal. “Ela é com certeza menos estressada que seus colegas, está sempre sorrindo, cantarolando, tem um ótimo controle físico e capacidade de reter informações”, exemplifica Daniel, que durante a entrevista mostra com a câmera do computador o quintal de sua casa, todo equipado com jogos e equipamentos infantis. “Passamos boa parte do tempo aqui fora ou no bosque perto de casa”.

Jardins de infância florestais seguem o mesmo enquadramento jurídico que os tradicionais e têm que apresentar um plano de como garantirão que as crianças sejam estimuladas a determinadas habilidades, como linguagem, desenvolvimento motor, etc. Prefeitura e conselhos locais são responsáveis pelo financiamento e pela fiscalização de que as instituições cumpram as normas. De acordo com a prefeitura de Copenhague, há inspeções anuais. Um terço dos custos é pago pelos pais, e o restante, pelo conselho local. Os valores são os mesmos de um jardim de infância tradicional. No caso da capital, varia de 1,5 mil a 3,5 mil coroas dinamarquesas (cerca de R$ 790 e R$ 1.800), dependendo da opção por horário parcial ou integral, além de inclusão ou não da alimentação. Na Dinamarca, famílias com crianças pequenas ainda têm direito a um auxílio financeiro extra do governo, que pode ser usado para abater o custo da escola.

Por que somos míopes?

Tradução de uma matéria publicada na BBC Future.

Quando eu era adolescente, minha visão aos poucos começou a ficar ruim e tive que passar a usar óculos. O que começou como uma fina lente de vidro logo se aproximava de um fundo de garrafa. “Por quê?”, eu perguntava ao oftalmologista. E a resposta dele era sempre a mesma: “A culpa é dos seus genes e do seu gosto pela leitura”. Eu não tinha por que duvidar dele. É provavelmente a mesma coisa que o seu oftalmologista disse se você também sofre de miopia. Mas pesquisas recentes sugerem que esses argumentos estão relativamente enganados. Muitos outros fatores do mundo moderno podem estar levando as pessoas a ter uma visão pior. E, com algumas medidas simples, nossos filhos podem se ver livres de uma “maldição” que já dura gerações.

A ideia de que a miopia é primariamente genética nunca me pareceu verdadeira. Sem meus óculos, eu não consigo saber se o que tenho na minha frente é uma enorme pedra ou um rinoceronte. Então como é que meus ancestrais não foram eliminados se tinham dificuldades de enxergar? Além disso, a miopia é como uma epidemia: de 30% a 40% dos habitantes da Europa e dos Estados Unidos precisam de óculos, enquanto na Ásia esse número pode chegar a 90%. Se tivéssemos genes da miopia, os ancestrais dessas pessoas seriam “heróis” que conseguiram sobreviver apesar de sua clara desvantagem.

Experiências com a comunidade inuit do Canadá deveriam ter resolvido essa questão há quase 50 anos. Enquanto a geração mais velha dessa população indígena praticamente não apresentava casos de miopia, de 10% a 25% das crianças precisavam de óculos. “Isso não seria possível com uma doença genética”, diz Nina Jacobsen, do Hospital Universitário Glostrup de Copenhague, na Dinamarca. O que os cientistas perceberam é que, no intervalo entre as gerações, os inuit foram abandonando seus hábitos tradicionais de caçar e pescar em troca de um modo de vida mais ocidentalizado – uma causa muito mais provável para o problema.

“A miopia é uma doença industrial”, define Ian Flitcroft, do Children’s University Hospital de Dublin, na Irlanda. “Nossos genes podem até ter um papel ao definir quem se tornará míope, mas foi apenas por causa de uma mudança ambiental que os problemas surgiram”. A conclusão imediata tirada pelos cientistas foi a de que a maneira como somos educados hoje em dia pode ter provocado o aumento da miopia. Dê uma olhada no mar de óculos em qualquer sala de aula de uma universidade e você pensará que há uma ligação entre uma coisa e a outra. Estudos epidemiológicos, no entanto, sugerem que os efeitos são muito menores do que se acreditava. Muitos cientistas argumentam que é o tempo passado dentro de espaços fechados que mais influencia na visão, e não o ato de ler. Pesquisas realizadas na Europa, na Austrália e na Ásia indicam que as pessoas que passam mais tempo ao ar livre têm bem menos chances de desenvolver a miopia do que aqueles cujas vidas acontecem entre quatro paredes.

E por que isso acontece? Uma explicação popular é a de que a luz do sol nutre os olhos, de alguma forma, o que foi verificado por um estudo da Universidade de Queensland, na Austrália. Também pode ser porque a luz do sol estimula a fixação de vitamina D, responsável pela saúde do cérebro e do sistema imunológico, e que também pode regular a saúde dos olhos. Uma ideia com mais aceitação é a de que o sol estimula a liberação de dopamina diretamente nos olhos. A miopia é causada pelo crescimento excessivo do globo ocular, dificultando a formação de uma imagem na retina. Mas a dopamina parece conter esse crescimento, mantendo o olho saudável.

É possível também que se trate de uma questão de cor. Ondas de luz verde e azul tendem a entrarem em foco na frente da retina, enquanto a luz vermelha atinge a parte de trás. Como a iluminação artificial de um espaço coberto tende a ser mais vermelha do que os raios solares, o desencontro poderia confundir os mecanismos de controle do globo ocular. “Eles dizem ao olho que ele não está focalizando no melhor ponto, então ele cresce para compensar isso”, explica Chi Luu, da Universidade de Melbourne, na Austrália.

Já Flitcroft acredita que o problema está no aglomerado de objetos poluindo nosso campo visual. Dê uma olhada à sua volta e entenderá o que ele quer dizer. “Quando você olha para a tela de um computador, tudo o que está atrás dela fica bem fora de foco. Se você muda o olhar da tela para um relógio, há uma enorme inversão – o relógio fica em foco, mas outras coisas perto de você ficam borradas”, diz ele. Onde quer que você pouse seu olhar, sempre há um ponto desfocado que brinca com os mecanismos de feedback dos olhos. Mas na rua as coisas tendem a ficar separadas por uma distância maior, resultando em uma imagem mais limpa que ajuda a regular o desenvolvimento dos olhos.

Essas descobertas podem render novos tratamentos. Luu, por exemplo, pretende realizar um ensaio que oferece sessões com luz azul para crianças míopes. Ele espera que a deterioração da visão delas seja mais lenta ou até se reverta. Flitcroft destaca que estão sendo realizados testes promissores com lentes de contato que reduzem os objetos borrados na nossa visão periférica. Ele também está otimista quanto a um colírio chamado atropina, que desacelera os sinais que incentivam o crescimento do globo ocular e a miopia. Seus efeitos colaterais desagradáveis – como a dilatação das pupilas e os halos vistos em fontes de luz – tornaram seu uso inviável. Mas uma descoberta acidental mostrou que a substância pode ser eficiente com um centésimo da dose original, com efeitos colaterais mínimos.

Por enquanto, os cientistas recomendam cautela. Um erro muito comum é acreditar que os óculos são ruins para seus olhos: isso não é verdade. Mas se você quer já tomar algum tipo de atitude, vai gostar de saber que a maioria dos pesquisadores concorda que incentivar as crianças a brincar ao ar livre é uma boa ideia. Um teste feito em escolas em Taiwan até mostrou que a iniciativa teve um sucesso moderado. “Se deixados em seu habitat natural, ao ar livre, os humanos não se tornam míopes”, conclui Flitcroft.

Padres, revolucionários e poetas

Crônica de Aires Almeida, professor de filosofia em uma escola secundária de Portugal, publicada em novembro de 2008 no blog Questoes Básicas.


Nunca mais me esqueço do que, há muitos anos, um colega mais velho de matemática me disse na sala dos professores. Além do seu cachimbo (nessa altura ainda se fumava nas escolas), esse colega era conhecido por assumir frequentemente uma atitude intelectualmente provocadora e até politicamente incorreta, como hoje se diz. Estava eu, então, a lamentar baixinho pelo fato de tantas pessoas pensarem que os filósofos são aqueles que procuram saber tudo sobre coisa nenhuma quando o colega, que ainda mal conhecia, se virou para mim e disse: “Olha lá, pá, ainda não cheguei a perceber se tu és dos padres, dos pseudo-revolucionários ou dos poetas lunáticos”.

Fiquei intrigado com o comentário dele e perguntei o que queria dizer com aquilo. “Ora, todos os professores de filosofia que conheci ou pareciam padres ou pseudo-revolucionários de esquerda ou tolinhos armados em poetas lunáticos”. Achei a generalização algo abusiva, mas quis saber como ele caracterizava cada um desses grupos. A resposta foi mais ou menos nestes termos: “Os padres ensinam filosofia como se fosse catequese; os pseudo-revolucionários de esquerda não estão interessados em ensinar seja o que for, mas a levar a rapaziada a mandar bocas contra o sistema; os poetas lunáticos são aqueles que, sem paciência para raciocinar disciplinadamente, querem liberdade para dizer a primeira bobagem que lhes passe pela cabeça”.

Penso que o comentário do colega foi injusto, pois felizmente não se aplica a muitos professores de filosofia. Mas, ainda assim, não deixou de me fazer pensar. A verdade é que ele estava a tentar denunciar aquilo em que a filosofia não se pode tornar e que, a ser assim, a tornaria dispensável. O colega queria, no fundo, protestar contra a ideia de que a filosofia é um conjunto de preceitos que se transmitem dogmaticamente (os padres); ou um gesto de pura contestação, seja contra o que for (os revolucionários); ou ainda um pretexto para cada um exprimir o que lhe vai na alma, seja lá isso o que for (os poetas). Sem desprimor para os verdadeiros padres, revolucionários e poetas.

Ora bem, esta ideia não é totalmente uma invenção dele. A verdade é que a tentação para muitos de nós santificarmos ou idolatrarmos os nossos filósofos preferidos pode fazer-nos deslizar facilmente do campo do exercício crítico que caracteriza a filosofia para o campo da catequese quase religiosa. Assim como é fácil ser impaciente e criticar sem antes ter compreendido, ou confundir a ausência de dogmas com a livre expressão de sentimentos e o reino do vale tudo. Filosofia não é religião, não é política e não é poesia. A filosofia ocupa-se dos seus próprios problemas, apesar de alguns deles serem acerca da religião, da política e da poesia. É certo que estes domínios por vezes se contaminam, tal como se pode misturar água com café. Mas, tal como a água não passa a ser café e o café não passa a ser água, também a filosofia não passa a ser religião, política e poesia, bem como estas a ser filosofia. Também não é de estranhar que a melhor filosofia se manifeste na discussão direta com os filósofos, pois afinal são eles os profissionais do ofício, os que mais treinados estão para formular corretamente e discutir criticamente os problemas filosóficos. A filosofia tem um valor intrínseco e não precisa de se tornar religião, política ou poesia para ter dignidade.

Três teoremas científicos que você provavelmente aprendeu errado na escola

A ciência avança mais rápido do que os livros didáticos. Por isso, frequentemente eles ficam desatualizados. São inúmeros os exemplos de teoremas ou teorias científicas que já estão desatualizadas há bastante tempo, mas que ainda são ensinadas nas escolas. Escolhi aqui apenas três exemplos clássicos para ilustrar isso.


Os cinco sentidos

sentidos-corpoVisão, audição, tato, olfato e paladar. O clássico quinteto existe, mas você já ouviu falar em propiocepção? É nossa capacidade de saber onde está cada parte do corpo, sem precisar ver ou tocar. Dor e temperatura, outros sentidos óbvios, ficam na pele, mas não tem nada a ver com tato. Equilíbrio fica na orelha interna, mas não é audição. Você também tem sensores diferentes para notar que o pulmão, bexiga, estômago e intestinos estão cheios e percebe quando seu sangue está com pouco oxigênio, quando prende a respiração. Temos até mesmo um GPS no nariz. Então, quantos sentidos existem? Na verdade, não é tão fácil assim definir o que é um sentido. Podemos chamar nossa percepção da passagem do tempo, sem nenhum órgão associado a ela, de sentido? No fim, há quem fale em mais de 20 sentidos. A certeza é que são mais de cinco.


As cores primárias

coresSegundo as aulinhas de educação artística, misturando amarelo, vermelho e azul, podemos obter todas as cores. E você não pode obtê-las misturando nenhuma outra cor. Pura balela. As verdadeiras cores primárias são ciano, magenta e amarelo. Simplesmente não dá para fazer qualquer cor com vermelho e azul; ao passo que dá para fazer azul com ciano e magenta, e vermelho com amarelo e magenta. Qualquer um que já recarregou uma impressora deve ter percebido: as tintas vêm nessas três cores, e não nas do guache com que você sujou os dedos na terceira série. Só que isso não é tudo. Essas são as cores primárias substrativas. Mas existe outro tipo de cores primárias, as aditivas. Quando a gente fala em tintas, misturá-las é remover cores. Como ensinado na escola, a luz branca contém todas as cores. Quando ela reflete num material pintado, volta com menos cores.

Quando você pinta uma parede branca de azul, o que está fazendo é impedir que ela reflita as outras partes do espectro luminoso. Misturando tintas, você reduz quais partes da luz branca são refletidas. O resultado é que, se você juntar as três cores primárias subtrativas, o resultado é preto, e não branco. O branco é a união de todas as cores de forma aditiva. E podemos produzir cores dessa forma emitindo luz. Se você acender uma luz vermelha e outra verde, o resultado é amarelo, e não o marrom desagradável produzido ao se misturar tintas. Isso porque estamos ampliando o espectro luminoso ao adicionar mais partes dele à uma emissão de luz. Dessa forma, as cores primárias aditivas são azul, vermelho e verde. De fato, é assim que seus olhos funcionam: eles tem receptores para essas três cores. As cores primárias erradas vem da Renascença, quando os pigmentos eram limitados. Desde o século 19 sabemos que não é assim.


Os estados da matéria

estados-aguaSólido, líquido e gasoso, certo? Mas o que dizer do plasma, em que os elétrons se separam de seus núcleos, criando algo que parece gás, mas conduz eletricidade e pode ser controlado por campos magnéticos? Ou o cristal líquido, com propriedades tanto de sólido quanto de líquido, que também está na sua TV, mas não nos livros didáticos? E ainda o superfluido, um material que tem zero viscosidade, e corre para cima quando posto num recipiente? Assim como no caso dos sentidos, existem muitos outros estados da matéria. A maioria deles só existe em condições raras e extremas, observados apenas em laboratório. Então, para simplificar, lembre-se pelo menos do plasma, que é comum, existe na natureza e é fácil de explicar: basta aquecer qualquer gás imensamente ou expô-lo a uma grande corrente elétrica.

Com informações de: Superinteressante.

Desempenho de alunos da rede federal é semelhante ao de países desenvolvidos

Organizada a cada três anos, a prova do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) é a principal avaliação de educação básica do mundo, e foca em alunos de 15 a 16 anos. Os dados de 2015 apontam que o Brasil ficou estagnado desde 2012 nas três áreas avaliadas: matemática, ciência e leitura. Isso mantém o país no grupo daqueles com uma nota bem abaixo da média. A pesquisa é organizada pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e avalia também nações que não são integrantes da entidade, como o Brasil.

O mau resultado no quadro geral é apenas uma das leituras possíveis. A comparação do desempenho entre os alunos brasileiros evidencia que há outro problema a ser enfrentado pelo país: a desigualdades dos sistemas de ensino brasileiro. No Brasil, a prova do Pisa foi aplicada pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) para 23 mil estudantes de 841 escolas. Segundo as informações detalhadas divulgadas pela entidade, a pontuação média da rede federal supera a municipal e a estadual, assim como a privada. No caso de ciência e leitura, esses alunos estão além inclusive dos estudantes de países desenvolvidos. Em matemática, quem está numa instituição federal brasileira empata com a média das notas dos estudantes de países da OCDE.

Pontuações no Pisa de 2015:

pisa 2015

Segundo dados da instituição, a rede federal, a mais bem sucedida, responde por apenas 0,87% dos 43 milhões de alunos matriculados no ensino básico em 2015 no país. Em entrevista ao Nexo, Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo do movimento Todos pela Educação, afirma que o ensino federal é privilegiado por diversos fatores que não se aplicam nem mesmo à rede privada. Mas seu bom desempenho mostra o potencial dos alunos do país. O Nexo conversou com três estudiosos da área de educação para entender o bom desempenho da rede federal e qual é o desafio de replicar seu modelo.

Investimento é especialmente alto

Um dos pontos que chamam a atenção no relatório do Pisa é o investimento acumulado por aluno entre 6 e 15 anos praticado no Brasil. Ele é, em média, de US$ 38.190, ou 42% da média de US$ 90.294 praticada pelos países membros da OCDE. “Aumentos de gastos ainda são necessários para se traduzir em melhor aprendizagem”, afirma o trabalho. O investimento do Brasil é defasado, mas isso não se dá de forma uniforme. A rede federal tem um gasto médio maior por aluno do que a estadual ou municipal, afirmam os pesquisadores. De acordo com Falzetta, isso assegura, por exemplo, a contratação de professores melhores. Ele ressalta que o investimento brasileiro em educação em relação ao PIB é similar àquele dos países desenvolvidos, de cerca de 6,6%. “Mas eles já estão em outro patamar. Se quisermos mudar de nível, precisamos ter um investimento maior, pelo menos por um período”, diz. Na opinião de Antonio Augusto Batista, coordenador de pesquisas do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) mais verba também se reflete em bibliotecas e laboratórios, que são raros em escolas municipais e estaduais, e mesmo em grande parte das privadas.

Seleção de alunos turbina desempenho

Um outro fator que influencia no sucesso da rede federal é o fato de que a grande procura leva a maior parte das instituições de ensino a realizar algum tipo de pré-seleção de seus alunos, como vestibulinhos. “É parecido com o que acontece com as escolas de elite da rede particular, que faz uma seleção dos alunos a partir da mensalidade”, afirma Fazetta. Em ambos os casos, os alunos tendem a ter acesso privilegiado a informações desde cedo, o que melhora o seu desempenho na escola. Fazetta também destaca que os alunos que não conseguem acompanhar o curso, seja nas escolas particulares de elite, seja nas federais, tendem a deixá-lo, o que mantém o desempenho das instituições em avaliações em alta. Batista, do Cenpec, ressalta que, apesar de membros de instituições federais de ensino tenderem a ter um nível socioeconômico maior, eles não pertencem em geral à elite econômica mais elevada do país. Fazem parte de famílias de classe média que têm na própria educação o seu principal ativo, que permite que realizem trabalhos bem remunerados e mantenham seu padrão de vida.

Por exemplo: muitas instituições da rede federal estão associadas a universidades, e por isso grande parte dos alunos são filhos de docentes. Ao procurar a rede federal, as famílias buscam garantir que seus filhos se manterão na mesma posição social. Eles são privilegiados principalmente porque “têm recursos culturais mais altos”, afirma Batista. “É uma elite intelectual no caso das federais ligadas a universidades, e uma classe média que aposta muito na escola em geral”, diz Batista. Fazetta ressalta que o investimento concentrado nesses alunos selecionados reforça desigualdades sociais.

Boa remuneração e estabilidade atraem melhores professores

A concentração de recursos no ensino federal garante uma melhor remuneração dos professores. Segundo dados elaborados pela Todos pela Educação com base em informações do IBGE, o salário médio de um professor da rede federal de educação básica com carga horária de 40h semanais de trabalho em 2014 era de R$ 5.173,92. O valor é 65% superior ao rendimento médio dos professores da educação básica pública. Em entrevista ao Nexo, Neide Noffis, diretora da Faculdade de Educação da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, afirma que os contratos desses professores também são mais estáveis, além de as condições de trabalho tenderem a ser melhores. Isso permite que professores tenham apenas um emprego. O que significa disposição para lidar com os alunos e tempo para continuar estudando e preparar aulas. Esses fatores somados fazem com que essas instituições sejam procuradas pelos melhores professores, o que leva a uma melhor qualidade de ensino. “Se o professor vê seu trabalho como subemprego e chega lá cansado, a qualidade do ensino cai”, diz Noffis.

Aplicação prática do conteúdo

A maior parte dos alunos de 15 a 16 anos na rede federal estão em instituições de ensino técnicas. Noffis destaca que elas tendem a apresentar o ensino como uma porta de entrada para o mundo do trabalho. Por isso, o conteúdo é transmitido com enfoque na realidade prática e mesmo no ambiente em que os alunos vivem. Isso, afirma, confere um ensino mais estimulante e uma maior permanência estudantil. “O ensino técnico tem a ver com o contexto local do jovem, com a sua possibilidade de se inserir no mercado. É algo mais fácil de perseguir como meta. Diferente de um conteúdo como ‘o rio tem que ser despoluído, não podemos cortar as árvores etc’, que ele aprende, mas no qual não tem condições e potência para interferir”, afirma Noffis.

Fonte: Nexo.

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