Arrependimentos terminais

Artigo de Marcelo Coelho para o jornal Folha de S.Paulo do dia 02 de janeiro de 2013.


Em Antes de Partir, Bronnie Ware, uma cuidadora especializada em doentes terminais fala do que eles mais se arrependem na hora de morrer. Poderia ser uma boa ideia para o final de ano. A época, como se sabe, é boa para arrependimentos e resoluções.

Infelizmente, Antes de Partir acaba se revelando um livro de autoajuda, não muito diferente das dezenas que existem por aí. Às vésperas da morte, as pessoas com quem a autora conversou não têm muito de notável a dizer. Há cinco arrependimentos básicos, cada um dos quais explicado em capítulo próprio. “Não deveria ter trabalhado tanto”, diz um dos pacientes. “Desejaria ter ficado em contato com meus amigos”, lembra outro. “Desejaria ter a coragem de expressar meus sentimentos”, confessa um terceiro. Outro alerta: “Não deveria ter levado a vida baseando-me no que esperavam de mim”. Por fim, a chave de ouro: “Desejaria ter-me permitido ser mais feliz”. Claro que, nesse nível de generalidade, tudo se equivale. Mas esses arrependimentos também dizem um bocado sobre o tipo de personalidade mais comum em nossa época.

Se tivesse sido escrito há 100 anos, ou 50, quem sabe, sem dúvida seriam outros os arrependimentos terminais. “Gostaria de ter sido mais útil à minha pátria”, diria alguém. “Gostaria de ter deixado um patrimônio maior para meus herdeiros”, poderia suspirar o pai de família. “Deveria ter sido mais obediente a Deus”, confessaria um terceiro. Ideias de auto-sacrifício, de dever, de empenho na construção do futuro da comunidade, tudo isso compunha um tipo de personalidade sem dúvida mais rígido e convencional, para quem os conceitos de honra, de virtude e de disciplina ainda faziam sentido. É o que desaparece nos arrependimentos contemporâneos. Menos do que morrer com a sensação do nome limpo e do dever cumprido, morre-se com a sensação de um ego insatisfeito.

A insatisfação existe porque o ego, afinal, é insaciável. Por mais que eu me dedique a ser feliz em cada momento, a ser sincero com meus desejos, a fugir das obrigações, sempre vou achar que não me dediquei o bastante a mim mesmo. A vida autocentrada será, desse modo, inevitavelmente frustrante. Mais que isso, vida e frustração se tornam sinônimos. Quando o paciente terminal reclama de não ter pensado mais em si mesmo, ele no fundo está reclamando apenas de não estar podendo viver mais. Não digo, é claro, que seja fácil morrer em qualquer circunstância. Mas o problema dos pacientes de Bronnie Ware, e dos leitores de seu livro, não é a falta de autoajuda. É o excesso de autoajuda; quem só se preocupa em atender a si mesmo sempre se sentirá desatendido.

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