Previsões para os próximos 100 anos

A BBC compilou uma interessante lista de possíveis acontecimentos notáveis para os próximos 100 anos baseando-se na contribuição de seus leitores e na curadoria editorial dos futurólogos ingleses Ian Pearson e Patrick Tucker.

Veja também: A futurologia de Murilo Gun | Previsões futurísticas para o ano 2000

Crescimento da aquicultura: Extensas áreas de oceano serão forçadas a se converter em fazendas. Se a população mundial estiver realmente batendo na casa dos 10 bilhões de habitantes, conforme indicam as projeções, teremos que avançar nas produções alternativas de alimentos. Não apenas na criação de frutos do mar e vegetais marinhos, como também de diversas algas geneticamente modificadas. Elas podem absorver mais nitrogênio do ar e eliminar a necessidade do uso de água doce no cultivo. Ian Pearson considera que esta tendência é inevitável, já que teremos que alimentar 10 bilhões de pessoas e a terra firme não terá mais pasto. O cultivo de algas para produzir energia renovável, para matérias primas e a extração de recursos é uma das alternativas mais plausíveis para a sobrevivência. Algas geneticamente modificadas para absorver mais nitrogênio poderiam liberar até 68% da água que é usada atualmente na agricultura convencional. Por outro lado recentemente descobriu-se que o fundo do oceano é similar a um bosque tropical quanto à enorme quantidade de biodiversidade e se revela como uma fonte de grande riqueza para o futuro.

Comunicação por pensamento: Será que a telepatia deixará de ser ficção científica? Os futurologistas acreditam que sim. A tecnologia de interação entre o cérebro e equipamentos eletrônicos tem caminhado a largos passos. Acredita-se que uma realidade em que chips transmitem impulsos entre dois cérebros, proporcionando a comunicação entre eles, não está tão distante assim. Os editores da BBC pensam que isto é totalmente provável: “Recolher pensamentos e reproduzir em outro cérebro não será mais difícil que armazenar na internet. A telepatia sintética soa como algo de Hollywood, mas é completamente possível, desde que a comunicação se entenda como sinais elétricos e não palavras”. Atualmente já existem numerosos aparelhos – alguns deles sem fio – que traduzem as ondas cerebrais de uma pessoa e o transmitem a uma máquina, de forma a controlar uma cadeira de rodas com a mente, por exemplo. A complexidade das mensagens que podem ser traduzidas sem dúvida aumentará. O limite é difícil de marcar, mas alguns cientistas já pesquisam a possibilidade inclusive de gravar os sonhos. Simultaneamente a neurociência avança de tal forma que identifica neurônios individuais para certos processos mentais: talvez em 100 anos poderemos conhecer literalmente o pensamento de outra pessoa a distância, sem a necessidade de que o exteriorize.

Homens biônicos e imortais: O filme O homem bicentenário (1999) plantou no imaginário da população a ideia de um humano ciborgue que poderia viver eternamente. Os especialistas também vêem boas chances de isso ser uma realidade em 2112, graças ao casamento entre a tecnologia e a genética. Alterações no DNA, combinadas a conceitos de robótica avançada, deverão ser capazes de criar inteligência artificial. Ian Pearson acha provável que o ser humano consiga a imortalidade digital, isto é, que consiga descarregar uma consciência numa máquina por tempo ilimitado. Isto será assistido pela modificação genética que permitirá incrementar a longevidade “fazendo com que as pessoas se mantenham vivas até que a tecnologia de imortalidade eletrônica esteja disponível a um custo relativamente accessível”. O futurista Ray Kurzweil, conhecido por seu otimismo, acha que isto ocorrerá no ano 2045, com a chegada da suposta singularidade tecnológica, o ponto crítico de expansão exponencial do conhecimento.

Controle da meteorologia: A previsão do tempo, que às vezes ainda falha e estraga nossos planos para o final de semana, poderá deixar de ser suposição para se tornar apenas um anúncio. A geoengenharia, na verdade, já tem feito vastas experiências no controle da direção e intensidade de tornados e na criação de chuva artificial. Parece plausível, para os pesquisadores, que daqui a cem anos o homem já saiba definir exatamente se amanhã vai fazer tempo bom lá fora ou não. Algo que os editores da BBC consideram muito provável, já que existe na atualidade tecnologia capaz de mediar tornados, gerar chuva e inclusive desviar meteoros (por não falar das versões conspiracionistas de que existe tecnologia para criar terremotos, como supostamente é o caso do HAARP). Assim mesmo, devido à mudança climática, está-se empilhando um grande conhecimento sobre como funciona o clima e os sistemas meteorológicos.

Abertura econômica da Antártida: Hoje em dia, há pouco mais do que pinguins e bases científicas de alguns países habitando o solo do continente gelado, mas os futurologistas afirmam que essa realidade está com os dias contados. Conforme o ritmo ditado pela nossa necessidade de expansão, a humanidade terá que ocupar e desenvolver algumas áreas da Antártida. A dúvida é se isso poderá ser feito sem danos ao meio ambiente. Um dos pesquisadores, aliás, acredita que o Ártico será “colonizado” ainda antes da Antártida. Ainda que exista um movimento conservacionista para preservar a Antártida como uma espécie de reserva natural, também há crescente pressão para explorar os recursos (minerais, petróleo e gás) que podem existir nesta zona polar. Terá que ver se esta exploração acontecerá de maneira harmônica, respeitando leis internacionais ou acabará sendo, como costuma acontecer, um novo e descontrolado colonialismo.

Adoção de moeda única: A União Europeia foi a primeira a caminhar nessa direção com a implantação do Euro para todos os países afiliados. A internet tem acelerado essa tendência, já que facilita as formas de pagamento e transações financeiras internacionais, mesmo que o dinheiro dos países em questão seja diferente. Alguns especialistas, no entanto, acham que a internet está levando as coisas justamente para a direção contrária: haverá cada vez mais moedas, e não menos. Os editores da BBC dividem-se neste caso. Por um lado consideram que é plausível, já que uma divisa eletrônica única poderia unificar e facilitar transações (e tem sido algo que diferentes organismos, desde a ONU e inclusive Rússia e China têm pedido). Por outro lado, ante a crise econômica mundial, existe também uma tendência em sentido oposto (o fracasso do Euro poderia inclinar a balança). A internet permite novas formas de intercâmbio de valor, como as bitcoins ou o dinheiro do Second Life. Analistas como Douglas Rushkoff anunciam o regresso do dinheiro local, programado por pequenos grupos para permitir o intercâmbio fora dos asfixiantes paradigmas marcados pelos grandes bancos. Há quem assinale também que um dos supostos propósitos da chamada Nova Ordem Mundial seria justamente instaurar uma moeda global virtual que possa ser controlada por um banco central.

Saúde mantida por nanorrobôs dentro do corpo: É possível que o nosso organismo no futuro seja habitado por dezenas de minúsculas máquinas responsáveis por curar células e fazer o papel da maioria dos remédios atuais. A nanotecnologia tem avançado em um bom ritmo, mas não se sabe ao certo se mais cem anos serão suficientes para atingirmos esse patamar. Aparelhos microscópicos poderão interagir com nossas células individuais e consertá-las em tempo real antes de que estas se degenerem.

Controle da fusão nuclear: A maior parte dos problemas energéticos do mundo poderia ser resolvida se a ciência aprendesse a controlar a fusão nuclear, que é o modo como se gera energia em uma estrela. Com ela, poderíamos potencializar e baratear imensamente a produção de eletricidade. Os especialistas afirmam que a descoberta desse mecanismo físico são favas contadas, e deve acontecer ainda antes de 2050. Outras formas alternativas de energia também devem ganhar impulso nas próximas décadas; e então poderemos fazer como os núcleos das estrelas, gerando a energia cósmica fundamental que põe em movimento os astros no universo. No entanto, os editores da BBC acham que a energia eólica não será das prediletas e se tornará impraticável e obsoleta.

O mundo só falará inglês, espanhol ou mandarim: Especialistas afirmam que as línguas menos faladas tendem a restringir sua circulação e eventualmente serem esquecidas ao longo do tempo. Nessa projeção, um dos participantes da enquete postulou que em cem anos só sobreviverão os idiomas inglês, mandarim e espanhol, e os demais cairão pouco a pouco em esquecimento. Em quase todas as escolas do planeta, segundo os pesquisadores, haverá o ensino de pelo menos um destes idiomas nas próximas décadas. Outra tendência forte com a globalização. Os idiomas “menores” estão desaparecendo a um ritmo acelerado e os outros idiomas maiores, excetuando se o português, como o alemão, o russo, o francês, são falados geralmente em áreas nas quais a maioria das pessoas falam também alguns destes três idiomas.

Fragmentação dos EUA: Daqui a cem anos, é possível que os Estados Unidos não sejam mais tão unidos assim. Alguns indicadores no estado da Califórnia, o mais rico e populoso da nação norte americana, apontam para a possibilidade da Costa Oeste se emancipar do resto do país. Parte destas pressões está relacionada à economia: em outras palavras, a Califórnia sustenta vários estados americanos e pode acabar se cansando disso. Já existem certos indícios de que Califórnia quer se separar dos EUA e isto poderia se intensificar. A enorme diferença entre a capacidade de geração de riqueza em um país tão grande pode ser uma bomba relógio.

Elevadores espaciais: A ficção científica já se deleitou com a ideia de um elevador que leve as pessoas diretamente da Terra até uma estação espacial sem a necessidade de foguetes. Embora ainda não se saiba quão populares e baratas essas viagens serão, os elevadores espaciais constituem aparentemente um passo lógico no desenvolvimento do turismo espacial e, ao multiplicar-se, tornarão menos custoso o transporte ao espaço.

Guerras por controle remoto: Não se sabe se no futuro a figura de soldados, combatendo entre si, realmente dará lugar somente às maquinas e armas de destruição em massa. Essa é uma tendência relativamente forte com o desenvolvimento dos drones (aviões não tripulados). No entanto, a atração dramática de levar soldados à guerra para alimentar a máquina de sacrifício e criar entretenimento mediático é uma arma cujo desuso custará ainda um grande trabalho aos governos ocidentais.

Não entendo arte contemporânea

Recentemente soube de um amigo que, em viagem pela Europa, esteve no museu do Louvre, em Paris, o mais famoso do mundo. Ele conta que lá está exposto um quadro muito prestigiado que consiste numa tela toda branca, novinha em folha, inalterada. Abaixo dele, o título: “A Ausência da Arte”. Poucos dias depois, eis que leio (no G1 e na Folha) a seguinte notícia: “Obra de Barnett Newman é vendida por US$ 44 milhões em Nova York“. Junto à manchete estava a imagem abaixo:

Onement VI

Ou seja, o sujeito pinta uma mesa de ping-pong (sem a rede, porque provavelmente ele não saberia pintar uma rede) e isso vale 44 milhões de dólares! Além do valor do quadro, o pintor ainda é chamado, na mesma notícia, de “um dos mais brilhantes representantes do expressionismo abstrato”. PQP! A mão de tinta não ficou nem tão boa assim! O cara que pintou meu apartamento faria melhor! (se acha que estou sendo muito duro com o “artista”, veja outros quadros do sujeito).

Na mesma semana, fiquei sabendo que um garoto esqueceu os óculos no chão do Museu de Arte Moderna de São Francisco, nos Estados Unidos, e o objeto foi confundido com uma obra de arte. Como se isso fosse pouco, tem ainda uma peça de teatro chamada “macaquinhos” que está se apresentando pelo Brasil (patrocinada pelo Governo Federal) e gerando polêmica por onde passa. Os atores e atrizes se apresentam completamente nus e fazem performances nas quais exploram, cheiram, enfiam o dedo e cutucam os cus uns dos outros (definitivamente não recomendo procurar isso para assistir no YouTube).

Para completar o absurdo, li recentemente no G1 que uma pintura de Jean-Michel Basquiat foi vendida ontem ao preço recorde de 110 milhões de dólares (cerca de 370 milhões de reais), em um leilão de arte contemporânea realizado em Nova York. A pintura se chama “Untitled” (sem título) e é considerada um marco importante na obra de Basquiat, que morreu de overdose aos 27 anos.

basquiat-untitled

Sotheby’s, responsável pelo leilão, estimava que a obra seria vendida por 60 milhões de dólares (pouco mais de 200 milhões de reais), e acabou conseguindo quase o dobro. A obra foi comprada pelo empresário e colecionador de arte japonês Yusaku Maezawa. A casa Sotheby’s postou em seu Twitter a foto do novo dono ao lado da pintura.

basquiat-sothebys


Permitam-me um último exemplo: Em fevereiro de 1964, quatro pinturas de um artista francês de vanguarda antes desconhecido, chamado Pierre Brassau, foram exibidas num evento de arte em Gotemburgo, Suécia. Havia também no evento trabalhos de artistas da Inglaterra, Dinamarca, Áustria, Itália e Suécia, mas foram os trabalhos do artista francês que atraíram as atenções. Críticos de arte, jornalistas e estudantes, com taças de vinho na mão, contemplaram silenciosamente as obras de Brassau. Os elogios eram quase unânimes. Rolf Anderberg, do jornal matinal Posten, escreveu que a maior parte das obras do evento eram “pesadas”, mas não as de Brassau: “Pierre Brassau pinta com pinceladas poderosas, mas também com clara determinação. Suas pinceladas giram com exigência furiosa. Pierre é um artista cuja performance tem a delicadeza de uma bailarina”. Somente um crítico espinafrou o trabalho de Brassau, declarando que “somente um macaco poderia ter feito isso”. Como se revelou, este crítico tinha razão. Pierre Brassau era, de fato, um macaco. Especificamente, ele era um chimpanzé de quatro anos da África ocidental, chamado Peter, do zoológico sueco de Boras.

Pierre Brassau foi invenção de Åke “Dacke” Axelsson, um jornalista do Göteborgs-Tidningen, um dos jornais diários de Gotemburgo. Ele chegou à ideia de exibir o trabalho de um macaco num evento de arte como um modo de testar os críticos — eles conseguiriam perceber a diferença entre a arte moderna e a arte de macaco? Axelsson convenceu o cuidador de Peter, um jovem de 17 anos, a dar um pincel e tintas a óleo ao chimpanzé. No começo, Peter preferia comer a tinta a passá-la na tela. Gostava especialmente do gosto azedo do azul cobalto. Mas enfim ele começou a esfregar a tinta sobre as telas que lhe deram. Por causa de suas preferências de gosto, o azul cobalto apareceu bastante em suas obras. Ao pintar, Peter sempre tinha um cacho de bananas por perto. A quantidade que ele comia refletia seu nível de criatividade. Durante períodos de grande inspiração, ele comia até 9 bananas em 10 minutos. Depois que Peter criou algumas pinturas, Axelsson escolheu as quatro melhores e providenciou que fossem exibidas num evento de arte na Galeria Christina. Depois que Axelsson revelou a fraude, Rolf Anderberg (o crítico que havia elogiado o trabalho) insistiu que o trabalho de Pierre era “ainda o melhor trabalho de pintura na exibição”. Um colecionador de arte comprou um dos trabalhos de Brassau por $90 (cerca de 700 dólares de hoje). Em 1969, Peter foi transferido para o Zoológico de Chester, na Inglaterra, onde viveu o resto de sua vida.

É por exemplos como esses (que estão longe de ser exceção) que digo sem nenhuma vergonha: Não entendo arte contemporânea. De duas, uma: ou eu sou um completo ignorante desprovido de senso estético, ou essa palhaçada não faz sentido mesmo. E eu não estou só por pensar assim. No vídeo abaixo, o jornalista americano Paul Joseph Watson expõe o establishment da arte contemporânea como ele realmente é: “uma grande panelinha de babacas pretensiosos que tentam parecer sofisticados atribuindo sentido a algo que não possui sentido algum”.

Por dois milênios, grandes artistas estabeleceram o padrão de beleza. Agora esses padrões foram abandonados. A arte moderna é uma competição entre o feio e o distorcido; a obra mais chocante vence. O que aconteceu? Como o belo veio a ser aviltado e o mau gosto veio a ser celebrado? No vídeo abaixo, o renomado artista Robert Florczak explica a história por trás dessa mudança e como ela pode ser revertida.

Por fim, deixo-vos com o músico Zeca Baleiro cantando “Bienal”, uma canção-poema que ele escreveu em 1996 por ocasião da 23ª Bienal Internacional de Artes Plásticas, que aconteceu na cidade de São Paulo naquele mesmo ano e tinha como tema: “A desmaterialização da obra de arte no fim do milênio”.


Como um quadro pode valer milhões?

A arte movimenta uma das economias mais estranhas do mundo. Entenda as regras básicas desse mercado na matéria a seguir, publicada pela revista Superinteressante.

“63 milhões de dólares. É um aviso. Estou vendendo”, ameaçou o leiloeiro, “64 milhões de dólares. Ainda em tempo”, continuou. Os lances, que elevavam o preço do quadro em um milhão de dólares a cada três segundos, eram sinalizados por placas levantadas no auditório da Sotheby’s. A cena durou poucos minutos, tempo suficiente para que um recorde fosse quebrado: a venda de um quadro de Mark Rothko por 72 milhões de dólares representava, até aquela noite de 2007, o maior preço na carreira do pintor. E, mesmo com tanto dinheiro flutuando pelo lugar, o leiloeiro parecia entediado. Com o corpo apoiado sobre um gabinete de madeira, o alemão Tobias Meyer recitava as cifras quase que com desdém. Aqueles milhões eram rotina. Como explicar o preço do quadro de Rothko? Parece estranho, mas apenas à primeira vista, porque o mercado possui regras. E elas até que funcionam na hora de decifrar o aspecto quase surreal dos preços.

Para começar, é importante encarar uma informação tão incômoda quanto verdadeira: o valor tem pouca relação com a complexidade da obra. Tome como exemplo as icônicas flores de metal do americano Jeff Koons. Mesmo simples, elas chegam a custar R$ 50 milhões. Também é preciso entender que as cifras não remetem muito à habilidade do artista. O inglês Damien Hirst, por exemplo, delega a produção de seus famosos quadros de bolinhas a assistentes. Mesmo assim, uma obra dessas já foi vendida a R$ 1,3 milhão. Tampouco importa o valor dos materiais que o artista usou. Basta ver as criações do inglês Chris Ofili, feitas com esterco de elefante e vendidas por mais de R$ 5 milhões. Fica então a pergunta: eliminados o toque do criador, a complexidade do quadro e o requinte dos materiais, quais fatores elevam o preço de uma obra?

O principal critério é o renome do artista, a marca que a sua assinatura atribui ao quadro. Para entender, pense que quando você compra cadernos Moleskine ou cafés Starbucks, você não adquire apenas um bloco de papel ou um copo de bebida, mas a inclusão num grupo e o reconhecimento dos integrantes deste círculo. Segundo Don Thompson, economista e colecionador, o mesmo vale para os grandes consumidores do mercado de arte. Com a diferença de que eles possuem milhões para gastar – e que as marcas que eles consomem ficam penduradas na parede. “Quando um artista se torna uma marca, o mercado tende a aceitar como legítima qualquer coisa que ele apresente”, conta Thompson. Este poder da marca explica muita coisa no mercado de arte.

Quando viram marca, os artistas adquirem o toque de Midas, capaz de transformar qualquer coisa, de esterco de elefante a cinzeiros de restaurante, em ouro. Mas, como esses nomes acabam virando uma grife? Os artistas não nascem sozinhos. Precisam do suporte de gente especializada em lançar marcas e gerenciar valores. Além disso, contam com pessoas dispostas a valorizar seus trabalhos. Hirst, por exemplo, recebeu ajuda do inglês Charles Saatchi, o grande colecionador da nossa época. De tão reconhecido, ele consegue transferir prestígio aos produtos que consome. “Um artista pode ser citado em artigos na imprensa como ‘colecionado por Saatchi’ ou ‘cobiçado por Saatchi'”, explica Thompson, “e cada uma dessas referências provavelmente aumentará o preço de suas obras”. Como aconteceu com a inglesa Jenny Saville, que pintou sustentada por Saatchi e vendeu suas criações para ele. Uma delas, adquirida por R$ 50 mil, dois leilões e duas décadas depois, valeria R$ 5 milhões, muito devido ao impulso que Saatchi deu à pintora.

E como ele conseguiu valorizar tanto a artista? Saatchi tem duas táticas muito espertas. Na primeira, ele investe em novatos e compra sua produção enquanto os preços ainda estão baixos. Depois, quando a notícia de que Saatchi está comprando aquele artista se espalha, os valores aumentam devido ao seu prestígio e ele vende as obras por um preço mais alto. A segunda estratégia consiste em emprestar os quadros para museus, que ajudam a aumentar os preços com exposições. Os museus são independentes do processo do mercado e por isso raramente têm seus juízos questionados. Considera-se que o artista e a obra exibida numa dessas instituições tenham “qualidade de museu”.

Ainda existem outras formas de fazer um quadro custar milhões. O artista pode controlar a quantidade de obras que coloca no mercado. E, normalmente, quanto menos produz, mais caro cada uma de suas obras custa. Além disso, ele pode batizar a criação de forma a explicar seu significado, facilitando a vida de todos que encaram o mistério. Hirst, por exemplo, é especialista nesta arte. Criou “A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo” e “Algum Conforto Ganho pela Aceitação das Mentiras Inerentes a Tudo”. Mesmo que “Impossibilidade Física” seja um tubarão num tanque e “Algum Conforto”, uma vaca aos pedaços, as criações ganham mais significado e ficam mais densas quando acompanhadas pela etiqueta na galeria do museu.

Depois do nascimento e do batismo, uma parte da produção será mandada diretamente para colecionadores e instituições. E são essas transações, distantes do martelo do leiloeiro, que lideram a lista de mais caras da história. Entre a primeira e a quarta posição, do francês Paul Cézanne ao austríaco Gustav Klimt, todas foram vendas privadas. Depois, aparece o primeiro recorde de leilão: uma das quatro versões de O Grito, vendida pela Sotheby’s por R$ 240 milhões. Não se sabe o nome do comprador: ele deu o lance por telefone e nunca foi identificado. Essas compras a distância são comuns. E não apenas com estrangeiros, mas com gente que está sentada no próprio auditório, a metros de distância do produto. Isso porque alguns compradores, para não aumentar a competição, preferem não aparecer para não dar na cara que desejam muito uma obra.

Todos estes preços, além de impressionantes, fazem do mercado de arte um dos mais movimentados do mundo. Para se ter uma ideia, no final do ano passado, em apenas dois leilões, Sotheby’s e Christie’s arrecadaram, respectivamente, R$ 750 milhões e R$ 820 milhões. Recorde nas duas casas. Junto com os lances, o segmento continua crescendo: em 2011, o movimento de pinturas e esculturas entre ateliês e paredes gerou R$ 22 bilhões (R$ 4 bilhões a mais que no ano anterior). Num setor que produz tanto dinheiro, as transações que acontecem às sombras também impressionam. A Interpol conta cerca de 40 mil obras roubadas, mais que o número de objetos em exibição no Louvre, em Paris, sendo que apenas 5 mil foram recuperadas nas últimas duas décadas. Tantas peças saqueadas geram até R$ 12 bilhões num mercado paralelo muito lucrativo. Além dos roubos, a falta de regulação das transações e os preços que não precisam ser explicados facilitam a lavagem de dinheiro e o pagamento de propinas com obras de arte.

Um dos aspectos mais impressionantes do mercado de arte é sua capacidade de crescimento mesmo em época de crise econômica. Uma explicação para isso é que esse setor fica alheio à economia global porque tem entre seus jogadores uma minoria muito, muito rica. E, mesmo com o mundo passando por uma crise econômica, eles continuam apenas um pouco menos milionários. Fora isso, artistas aproveitam também os novos compradores que surgem no mercado, vindos, principalmente, da China e da Rússia. Na visão de Thompson, os preços das obras não param de crescer porque um negociante nunca deve diminuir o preço de uma criação. “Cada mostra deve ter preços mais altos que a anterior. Num mundo onde a ilusão de sucesso é tudo, a diminuição do preço de um artista sinalizaria que ele foi rejeitado”, explica o economista.

Esse fenômeno implica no “efeito catraca”. A catraca gira em apenas uma direção, ou seja, os preços não podem voltar, mas estão livres para avançar. Isso ajuda a explicar os milhões das vendas, os bilhões do mercado e a cara de tédio do leiloeiro Tobias Meyer, que abre esta reportagem. Afinal, 5 anos depois do Rothko de R$ 144 milhões, aquele recorde seria superado. Meyer comandou o leilão que vendeu outro quadro do pintor por R$ 150 milhões, em novembro do ano passado. Ele estava um pouco mais empolgado, mas ainda não parecia achar nada daquilo impressionante. Ele deve saber que, enquanto existir criatividade na cabeça dos artistas, haverá arte. E, enquanto houver gente com paredes vazias e dinheiro no bolso, ela será vendida.

História secreta da obsolescência programada

Baterias que “morrem” após alguns meses de uso, impressoras que param de funcionar ao chegar a um número determinado de impressões, lâmpadas que queimam depois de uma determinada quantidade de horas ligadas. Apesar dos avanços tecnológicos, os produtos de consumo duram cada vez menos. Por que será que isso acontece?

O documentário abaixo revela o segredo: obsolescência programada, o motor da economia moderna. O filme percorre a história dessa prática gananciosa, que consiste na redução deliberada da vida útil de um produto para incrementar as vendas e aquecer a economia, pois, como já publicava em 1928 uma influente revista de publicidade americana, “um artigo que não se desgasta é uma tragédia para os negócios”.

O documentário é resultado de três anos de investigação. Dirigido por Cosima Dannoritzer e co-produzido pelo canal 2 da TV espanhola, ele expõe provas documentais e denuncia as desastrosas consequências para o meio ambiente que derivam dessa prática. Também apresenta diversos exemplos do espírito de resistência que está a crescer entre os consumidores e recolhe a análise e a opinião de economistas, designers e intelectuais que propõem vias alternativas para salvar a economia e o meio ambiente.


Inventor espanhol é ameaçado de morte
por desenvolver lâmpada que não queima

Uma lâmpada fluorescente dura cerca de 10 mil horas. São mais de 416 dias (mais de um ano) de uso ininterrupto. Bastante tempo, certo? Imagine, no entanto, se existisse uma lâmpada que durasse 100 anos. Quer dizer, imagine não: essa lâmpada existe! Pelo menos é o que diz Benito Muros, um inventor espanhol que diz estar sendo ameaçado de morte por causa de sua criação. Muros é o presidente de um movimento chamando Sem Obsolescência Programada (SOP) e diz que, não só lâmpadas, mas muitos outros objetos de nosso dia a dia poderiam durar muito mais. Na verdade, existe uma teoria de que muitos fabricantes desenvolvem produtos de curta durabilidade para obrigar os consumidores a adquirir novos produtos de forma acelerada e sem uma necessidade real. Segundo ele, algumas peças essenciais para eletrodomésticos, por exemplo, são colocadas propositalmente próximas das partes que mais aquecem no objeto, diminuindo seu tempo de vida. Soma-se a isso o uso de materiais de menor qualidade.

Muros quer desenvolver um novo conceito empresarial, baseado no desenvolvimento de produtos mais duráveis. Quem não lembra daquela máquina de lavar da casa da avó que durou a vida inteira ou da geladeira que está na família há anos e nunca deu problema? “Deixaram de fabricar, porque duravam demais. Hoje, por exemplo, temos uma lâmpada que está acesa a 111 anos em um parque de bombeiros de Livermore, na Califórnia. Foi então que surgiu a ideia de criar, junto com outros engenheiros, uma linha de iluminação que dure toda a vida”, disse ele ao jornal espanhol El Economista. Além de terem mais tempo de vida, as lâmpadas, desenvolvidas em parceria com a empresa OEP Electrics, gastam 70% menos energia que as fluorescentes. Além disso, não queimam ao serem acesas e apagadas várias vezes seguidas. No entanto, Muros diz que a descoberta também gerou ameaças. O espanhol chegou a prestar queixa na polícia e apresentar, na delegacia, um recado anônimo que recebeu. Apesar disso, ele conta que não irá recuar e que vai continuar defendendo a SOP e lutando contra a obsolescência programada.

Fonte: Época Negócios.

Veja também:
Programado para morrer
Estamos criando montanhas de lixo
O perigo de um mundo descartável

Assista abaixo uma entrevista com Benito Muros:

Os políticos mais caros do mundo

Estudo da ONU revela que o congressista brasileiro é o segundo mais caro do mundo:

Vale lembrar que a matéria acima foi ao ar em 2007. De lá pra cá, os políticos brasileiros já tiveram vários aumentos bastante significativos. É natural que reportagens como essas causem indignação nos brasileiros, mas a situação piora quando tomamos conhecimento do que se passa em outros países, como no caso das duas reportagens a seguir que falam da Suécia, um país sem mordomia na política.

Quanto o país gasta com cada parlamentar? Quais são as mordomias concedidas a eles com o dinheiro dos nossos impostos? Este vídeo responde a essas perguntas de maneira simples e direta em pouco mais de um minuto:

Enquanto isso, aqui no Brasil, as coisas funcionam assim: Um motorista do Senado ganha mais para dirigir um automóvel do que um oficial da Marinha para pilotar uma fragata! Um ascensorista da Câmara dos Deputados ganha mais para servir os elevadores da casa, do que um oficial da Força Aérea que pilota um Mirage. Um diretor que é responsável pela garagem do Senado ganha mais que um oficial-general do Exército que comanda um regimento de blindados. Um diretor sem diretoria do Senado, cujo título é só para justificar o salário, ganha o dobro de um professor universitário federal concursado, com mestrado, doutorado e prestígio internacional. Um assessor de 3º nível de um deputado, que também tem esse título para justificar seus ganhos, mas que não passa de um “aspone” ou um mero estafeta de correspondências, ganha mais que um cientista-pesquisador da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, com muitos anos de formado, que dedica o seu tempo buscando curas e vacinas para salvar vidas. Tem cabimento?!


Quem paga a conta da mordomia?

Artigo de opinião de Percival Puggina publicado em 08 de agosto de 2007.

Cláudio Humberto, em recente coluna no Diário do Poder, informou que os veículos oficiais federais custaram aos cofres públicos R$ 1,6 bilhão em 2016. O montante inclui viaturas de serviço e representação e envolve renovação da frota, manutenção e pagamento de impostos. Pois bem, quem acha que deve pagar essa conta toda, especialmente a parcela que envolve os carros de representação, levante a mão. Tais viaturas são resíduos das carruagens do Paço Real no século 19 e das liteiras conduzidas por escravos nos séculos anteriores. Afinal, ninguém realmente importante está aí para sujar sapato na poeira das ruas, misturar-se à plebe ou rodar no próprio automóvel, como se fosse, digamos assim, uma pessoa “normal”, não é mesmo? De que valeria o poder sem aparatos e mordomias que o tornem objeto de cobiça? Em pleno século 21, nós somos os cavalos da carruagem e os escravos da liteira.

Essa mentalidade é parte do problema brasileiro. É como se o chefe de família, bêbado e jogador, cobrasse à mulher e aos filhos que cortassem as próprias despesas. Falta autoridade moral para justificar medidas efetivamente necessárias e realmente significativas ao quadro fiscal do país quando o Congresso Nacional negocia uma boca livre de R$ 3,5 bilhões para os gastos de campanha eleitoral no ano que vem. Ou quando o Senado da República renova o contrato de locação de veículos zero quilômetro para os senadores ao custo de R$ 8,3 milhões. As regalias do poder são evidências da distância que o separa do cotidiano em que se vira e se contorce a nação. Basta listar alguns que a memória socorre: jatinhos da FAB, helicópteros, cartões corporativos, verbas de ostentação (eufemisticamente designadas como de “representação”), voos em primeira classe, auxílios moradia e alimentação, adicionais de vários tipos e motivos.

Enquanto isso acontece por aqui, em meio às nossas reconhecidas dificuldades, na Holanda parlamentares não têm direito a carro oficial e o prefeito vai de casa ao trabalho usando sua bicicleta. Na Suécia, nem o primeiro-ministro tem carro oficial; autoridades podem, no máximo, pedir reembolso para viagens oficiais ou se residirem a mais de 70 km de Estocolmo. Parlamentares suecos têm direito a reembolso do combustível. Na Noruega, há 20 carros para atender o governo e só o primeiro-ministro tem direito a veículo exclusivo. Em Londres, o prefeito anda de metrô ou bicicleta; ele e os vereadores recebem um vale-transporte anual para o metrô. Prefeito e vereadores da maior cidade da Europa têm compromisso de usar o transporte público. Estamos falando aqui sobre o animus do poder, ou seja, de sua alma, ou, ainda mais precisamente, dos sentimentos que a inspiram. Se aquilo que move a alma do poder político for o indispensável espírito de serviço, estas ostentações e demasias são sumariamente rejeitadas por coerência.


Movimento Brasil Eficiente

O Movimento Brasil Eficiente é feito por pessoas que cansaram de só reclamar e resolveram fazer alguma coisa pelo Brasil, sem interesses eleitorais ou de poder. Participe você também! Conheça as propostas no site e assine o abaixo assinado pela redução dos impostos e por um melhor controle dos gastos públicos.


Como consertar o Brasil?

Acesse o site politicos.org.br e confira o ranking.

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