A comovente saga de uma refugiada síria

O documentário abaixo foi produzido e dirigido pelo norueguês Anders Sømme Hammer. Em apenas 22 minutos de vídeo, você acompanha a comovente jornada de uma garota síria chamada Rania Mustafa Ali, de 20 anos, das ruínas de Kobane, na Síria, para a Áustria. Rania fala árabe, mas as legendas estão em inglês. As filmagens mostram o que muitos refugiados enfrentam em sua perigosa fuga para a Europa.


Carta de Princípios Mackenzie 2016:
uma posição sobre a questão dos refugiados

Leia a seguir trechos da Carta de Princípios 2016 divulgada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, destinada aos seus alunos, professores e funcionários. Nela, a Universidade esclarece o seu posicionamento em relação à crise humanitária envolvendo os refugiados. A carta na íntegra pode ser lida diretamente no portal da Chancelaria.


A palavra de ordem atual é “superar a crise”. No entanto, o que perturba nossa sociedade não é apenas o colapso político e econômico da nação. Há uma crise humanitária mundial. A preservação da vida é o tema central do drama dos refugiados. Há crescentes ondas de refugiados que se espalham por países da Europa e que alarmam o mundo, sobretudo por envolver a morte de famílias inteiras. Diante disso, nosso país tem se mostrado muito solícito para conceder asilo e facilitar a entrada legalizada de refugiados.

Desde as grandes imigrações do século 19, nosso país mantém uma convivência harmoniosa com outras culturas, religiões e etnias. Todavia, o dilema atual é diferente de um processo imigratório. Refugiados não são essencialmente imigrantes. Eles não deixaram seu país, suas casas, seus parentes e amigos para tentar a sorte em outro lugar. Eles saíram de sua terra e deixaram tudo para trás por motivo de força maior, para a preservação da própria vida. Ademais, é provável que um imigrante tenha um caminho de volta, quando as expectativas se frustram. Um refugiado dificilmente tem essa esperança.

Um refugiado é alguém perseguido, oprimido e ferido, seja por questões políticas, étnicas ou religiosas. São pessoas que tiveram direitos básicos usurpados. Ao chegarem a outro país, trazem na bagagem muito mais do que saudade: eles vêm acompanhados do medo, da dor, da frustração, da injustiça, da fome. Por isso, o refugiado é alguém que precisa de alimentação, moradia, emprego, e também de paz, segurança, justiça e direitos humanos. Sobretudo, ele carece de verdadeira solidariedade.

A tradição judaico-cristã dispõe de muitos séculos de registros históricos. A história que tem acompanhado essa tradição narra momentos de crise e, mais importante, revela verdades perenes para que a sociedade civil saiba lidar com as vicissitudes, no caso, como conviver harmoniosamente com pessoas de outras etnias, culturas e religiões. Ainda que muitos séculos separem a história da nação hebraica dos dias atuais, nota-se que foram dadas instruções para gerir relacionamentos, bem como acolher aos que eram “de fora” dessa nação. Os estrangeiros, como eram chamados os que vinham abrigar-se e refugiar-se entre os hebreus, não podiam ser desprezados, oprimidos ou alienados.

Anteriormente, o patriarca Abraão recebera a ordem de estender a destra de amizade e amor aos estrangeiros, fazendo-os participantes da aliança de Deus, o pacto de vida e amor (Gn 17:12). Desse modo, eles se tornavam parte da nação e, mais ainda, acessíveis às promessas divinas. Por semelhante modo, quando os israelitas se preparavam para entrar e possuir a terra prometida, e, concomitantemente, ratificar sua condição como uma nação estabelecida, receberam a seguinte ordem: “Quando um estrangeiro viver na terra de vocês, não o maltratem” (Lv 19:33). E a razão apresentada por Deus é bastante simples e ao mesmo tempo convincente: “O estrangeiro residente que viver com vocês será tratado como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Lv 19:34).

Em outras palavras, o Deus revelado nas Escrituras assevera a unidade entre todos os povos, raças, línguas e nações por meio do vínculo da solidariedade, a qual consiste justamente na capacidade humana de se identificar com o sofrimento do outro. Isso implica ação; não é apenas sentir-se consternado com o sofrimento alheio, mas assumir a dor de seu próximo para si mesmo. Assim, a tradição judaico-cristã de fé e prática determina que ações deveriam ser empreendidas para efetivamente socorrer os estrangeiros. Por exemplo, uma parte da colheita de trigo, cevada e azeitonas deveria ser disponibilizada para eles (Lv 23:22). Finalmente, as mesmas leis, com deveres e direitos, eram oferecidas igualmente aos refugiados: “Vocês terão a mesma lei para o estrangeiro e para o natural. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Lv 24:22).

A assistência solidária aos refugiados, que teve início nos dias dos patriarcas e está presente na sedimentação da nação israelita, segue uma série de desdobramentos históricos até encontrar o ápice de seu ensino na pessoa e obra de Jesus Cristo, em quem todas essas coisas encontram seu cumprimento e plenitude. Jesus realizou ações deliberadas de misericórdia para com os estrangeiros (ver Mc 5:1-20 e Mt 15:21-28). Em sua infância, ele mesmo e sua família tornaram-se refugiados: foram perseguidos e oprimidos por um implacável líder político, e, por isso, tiveram de fugir para o Egito e achar asilo naquela nação (Mt 2:13-14). Portanto, existe uma tradição histórica de orientação cristã, alinhavada com verdades absolutas e eternas, sobre o imperativo de ser solícito para com o refugiado em sua dor e sofrimento.

Essa tradição de pensamento e de prática ocupou lugar determinante nas cidades que foram erguidas em torno da confissão de fé reformada. A Reforma Protestante do século 16 foi um movimento de ordem eminentemente religiosa, mas com aplicações sociais, políticas e econômicas. A cosmovisão reformada abarca todos os aspectos da realidade humana. Assim, foi um movimento de retorno à tradição de pensamento e de ação da tradição judaico-cristã. Com efeito, retomou o ímpeto de solidariedade percebido no Antigo Testamento e ratificado plenamente na pessoa e obra de Jesus Cristo. Por isso, as cidades que foram erigidas sob os auspícios do cristianismo reformado demonstraram, com ações, o cuidado para com os estrangeiros.

Tal zelo esteve presente na vida de seus principais líderes. Dentre eles temos a figura de Calvino (1509-1564), que foi um modelo de cidadão cristão e que procedeu em favor do próximo. Ele agiu deliberadamente para que a cidade de Genebra fosse receptiva ao estrangeiro. Interveio constantemente junto às autoridades, tanto para eliminar a ociosidade quanto para combater o desemprego, que se tornava ameaçador quando os refugiados estrangeiros afluíam para a cidade de Genebra. Embora não tenha ocupado nenhum cargo governamental, Calvino exerceu enorme influência sobre a comunidade, não somente no aspecto moral e eclesiástico, mas em outras áreas. Ele ajudou a tornar mais humanas as leis da cidade, contribuiu para a criação de um sistema educacional acessível a todos e incentivou a formação de importantes entidades assistenciais como um hospital para carentes e um fundo de assistência aos estrangeiros pobres.

Calvino também tinha uma preocupação no âmbito educacional, sobretudo em seus esforços como fundador da Universidade de Genebra. No ano da morte de Calvino, a escola tinha 1.500 alunos matriculados, dentre os quais a maioria era de estrangeiros. A história do reformador de Genebra tem o seu ato derradeiro com seu testamento, no qual deixa o pouco que tinha para a Universidade e para os estrangeiros pobres.

A fé cristã reformada é a identidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie e, por conseguinte, deve estar entranhada em sua educação confessional. Nosso país multicultural e multirracial não tem o histórico de “fechar as portas” para outros povos. À semelhança do que podemos aprender com a tradição judaico-cristã, muitos de nós aqui no Brasil somos filhos, netos ou bisnetos de imigrantes. Por conseguinte, nossos pais e avós foram peregrinos e estrangeiros nas “terras dos brasis”. O momento atual é de crise humanitária. Não é apenas uma questão abstrata sobre economia ou política, mas um assunto concreto acerca de seres humanos que carecem de direitos, proteção, cuidados e refúgio. Muitos desses refugiados têm escolhido o Brasil como um lugar para recobrar a esperança, ter a oportunidade de um recomeço e, sobretudo, alcançar a justiça e a paz. Como uma Universidade confessional cristã, temos de ser solidários e acolhê-los.

Liberdade de expressão

Leia a seguir trechos da Carta de Princípios 2011 divulgada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, destinada aos seus alunos, professores e funcionários.
Nela, a Universidade esclarece o seu posicionamento em relação à liberdade de expressão. A carta na íntegra pode ser lida diretamente no portal da Chancelaria.


Acreditar no que quiser é um direito intrínseco a cada ser humano. A consciência é foro íntimo, inviolável, sobre o qual outros não podem legislar. Faz parte da nossa humanidade termos nossas próprias ideias, convicções e crenças. E é daqui que procede a liberdade de expressão, que consiste no direito de alguém declarar o que acredita e os motivos pelos quais acredita de determinada forma e não de outra. Nesse direito está implícito o que chamamos de “contraditório”, que é a liberdade de análise e posicionamento contrário às expressões ou manifestações de outras pessoas em qualquer área da vida.

A liberdade de consciência diz respeito ao que cremos, interiormente. Já a liberdade de expressão é a manifestação externa dessas crenças. O direito individual de pensar livremente e de expressar tais pensamentos é garantido em todas as democracias do mundo ocidental. No Brasil, a liberdade de consciência e de expressão do pensamento é garantida pela Constituição em vigor. Sua origem se encontra no Artigo 5º: “IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; (…) VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

A liberdade religiosa é decorrente da liberdade de consciência e consiste no direito das pessoas de manifestarem suas crenças ou descrenças. Aqui se incluem adeptos das religiões, do ateísmo e do agnosticismo. Por ter origem na consciência, a liberdade religiosa inclui concepções morais, éticas e comportamentais, que são desenvolvimentos da crença individual. A separação entre Igreja e Estado no Brasil significa tão somente que nosso país não adota e nem protege uma ou mais religiões em detrimento das outras. Nesse sentido, o Estado é “laico” e garante o direito de seus cidadãos professarem publicamente e praticarem a religião que quiserem, assegurando-lhes que não serão discriminados por isso, conforme o mesmo Artigo 5º: “VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 também se preocupou em resguardar a liberdade de consciência e de expressão, particularmente a expressão religiosa. O artigo 18 diz: “Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou particular”.

Do ponto de vista da fé cristã, a liberdade de consciência decorre do fato de termos sido criados por Deus como seres morais livres. É uma das coisas incluídas na “imagem e semelhança de Deus” com que fomos criados, de acordo com o relato de Gênesis. O homem recebeu, por direito de criação, a capacidade de julgar entre o certo e o errado e escolher entre os dois. Ele podia livremente ponderar, analisar e, então, escolher. O fato de que ele teria de arcar com as consequências de suas escolhas diante do Criador não anulava, todavia, seu direito de fazê-las e defendê-las. É nisto que reside o que chamamos de liberdade de consciência e de expressão. Como um ser criado, o homem responde diretamente ao Criador pelo uso dessas liberdades. Uma das influências decisivas para que essas liberdades fossem reconhecidas no mundo ocidental veio da Reforma Protestante do século XVI. Os cristãos enfatizaram a necessidade da separação entre a Igreja e o Estado, destacaram o fato de que cada cristão tem sua consciência cativa somente a Deus e defenderam o sacerdócio universal de todos os cristãos.

Mas sempre teremos de enfrentar o dilema entre a liberdade de manifestação do pensamento e os direitos individuais. Se por um lado as leis brasileiras nos garantem a liberdade de expressão, por outro, elas também preservam a honra e a imagem das pessoas. Não se pode denegrir alguém em nome da liberdade de expressão. Conforme reza a Constituição, uma das condições para que se manifeste livremente o pensamento no Brasil é que a pessoa se identifique e assuma o que disse ou escreveu. O anonimato anula a validade da expressão, ainda que ela contenha méritos, pois sugere que o autor não tem dignidade e nobreza. Também denota que essa manifestação não vem acompanhada da necessária responsabilidade pelo ato praticado.

Em sociedades plurais, pensamentos, crenças e convicções que são livremente expressos podem contrariar outros pensamentos, crenças e convicções quanto aos valores morais, crenças religiosas e preferências pessoais. Tais discordâncias, todavia, não podem ser vistas como formas de denegrir a honra e a imagem dos indivíduos de quem se discorda. Se assim fosse, seria impossível a discussão de ideias e a apresentação do contraditório, especialmente no ambiente da Universidade.

Os cristãos devem reconhecer que todas as pessoas, inclusive aquelas que não acreditam em Deus e que têm práticas contrárias à ética cristã, têm o direito fundamental de pensar e acreditar no que quiserem e de viver de acordo com suas crenças. Os cristãos entendem também que se manifestar contrariamente ao que pensam e fazem essas pessoas não é incitamento ao ódio, mas o exercício desse mesmo direito fundamental. Aqui citamos o dito de Voltaire: “não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo”. Essa frase fala tanto do direito que temos de discordar dos outros quanto do direito que os outros têm de discordar de nós, direitos pelos quais deveríamos estar dispostos a lutar, uma vez que, se forem perdidos, deixam todos nós amordaçados.

Casos famosos de crianças selvagens

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Existem muitos casos conhecidos de crianças selvagens. Trata-se de pessoas que foram perdidas ou abandonadas quando ainda eram bebês e, por alguma razão do destino, pura sorte ou providência divina, conseguiram sobreviver mesmo sem ter nenhum contato com outros humanos, sendo criados e alimentados por animais. Essas histórias fantásticas inspiraram muitos filmes no cinema e personagens fictícios como Mogli e Tarzan. A maioria das crianças nesse estado acabam morrendo, obviamente. Mas algumas conseguem sobreviver e são encontradas, depois de muitos anos, por outras pessoas, as quais tentam, quase sempre inutilmente, introduzi-las tardiamente na sociedade.

Veja abaixo quatro casos famosos:


Oxana Malaya, a garota cachorro

Oxana Malaya foi encontrada na Ucrânia em 1991. Na ocasião ela aparentava ter 8 anos de idade, tendo vivido grande parte desse tempo na companhia de cachorros. Acredita-se que Malaya foi abandonada por seus pais aos 3 anos de idade e, por pelo menos 5 anos, viveu entre cães e sobreviveu comendo carne crua e restos de comida. A garota adaptou-se a uma série de hábitos de cachorro e não aprendera falar. Quando foi achada, estava correndo de quatro e latindo. Se tinha uma coceira atrás da orelha, coçava com o pé. Ela foi levada para um orfanato, onde foi educada até a idade adulta. Lá ela aprendeu a andar em pé, comer usando as mãos e, com muita dificuldade, também aprendeu a falar.

Especialistas concordam que, a não ser que uma criança aprenda a falar até os 5 anos, o cérebro fecha a janela de oportunidade de aprender uma língua. Malaya só conseguiu aprender a falar de novo porque ela tinha uma fala infantil antes de ser abandonada aos 3 anos. Ela tem apenas 1,52 m de altura, mas quando brinca de empurrar com os amigos, há um palpável ar de ameaça e força bruta. Como um cachorro com um osso, o seu primeiro instinto é esconder tudo que lhe é dado. Quando, em 2006, aos 23 anos, ela mostrou ao seu namorado o que ela um dia foi e o que ainda podia fazer, ele se assustou e o relacionamento acabou. Atualmente ela vive numa clínica para deficientes mentais na cidade de Odessa, na Ucrânia. Veja a seguir algumas imagens gravadas em 2006:


Victor de Aveyron, o garoto selvagem

Victor de Aveyron (1788-1828) foi uma criança selvagem encontrada na França em 1799. No dia 9 de Janeiro daquele ano, uma estranha criatura surgiu dos bosques próximos ao povoado de Saint-Serin, no sul da França. Apesar de andar em posição ereta, se assemelhava mais a um animal do que a um ser humano, porém, imediatamente foi identificado como um menino de uns 11 ou 12 anos. Ele não falava: emitia apenas estridentes e incompreensíveis grunhidos. Parecia carecer do sentido de higiene pessoal: fazia suas necessidades onde e quando lhe apetecia. Foi conduzido para a polícia local e, mais tarde, para um orfanato, de onde escapava constantemente. Era difícil voltar a capturá-lo. Negava-se a vestir-se e rasgava as roupas quando lhes punham.

O menino foi submetido a um minucioso exame médico no qual não se encontrou nenhuma anormalidade importante. Quando foi colocado diante de um espelho, viu sua imagem sem reconhecer a si mesmo. Em uma ocasião, tentou alcançar através do espelho uma batata que viu refletida (a batata era segurada por alguém atrás de sua cabeça). Depois de várias tentativas, e sem voltar a cabeça, colheu a batata por cima de seu ombro. Um padre que observava ao menino diariamente descreveu esse incidente da seguinte forma: “Todos estes pequenos detalhes, e muitos outros que poderiam aludir, demonstram que este menino não carece totalmente de inteligência, nem de capacidade de reflexão e raciocínio. Contudo, nos vemos obrigados a reconhecer que, em todos os aspectos que não tem a ver com as necessidades naturais ou a satisfação dos apetites, se percebe nele um comportamento puramente animal. Se possui sensações não desembocam em nenhuma idéia. Nem sequer pode comparar umas as outras. Poderia pensar-se que não existe conexão entre sua alma e seu corpo”.

Posteriormente, o menino foi levado para Paris, onde ocorreram tentativas sistemáticas de transformar-lhe “de besta em humano”. O esforço resultou só parcialmente satisfatório. Aprendeu a utilizar o banheiro, aceitou usar roupa e aprendeu a vestir-se sozinho. No entanto, não lhe interessavam nem as brincadeiras nem os jogos e nunca foi capaz de articular mais que um reduzido número de palavras. Até onde sabemos pelas detalhadas descrições de seu comportamento e suas reações, a questão não era a de que fosse retardado mental. Parece que ou não desejava dominar totalmente a fala humana ou que era incapaz de fazê-lo. Com o tempo fez escassos progressos e morreu em 1828, quando tinha por volta de 40 anos.

Em 1970, o cineasta francês François Truffaut dirigiu um filme sobre a história de Victor, chamado L’enfant Sauvage (“O Garoto Selvagem”, na versão brasileira). Assista abaixo:


Sujit Kumar, o garoto galinha

Em um remoto vilarejo no interior de Fiji, um país arquipélago composto por mais de 300 ilhas no sul do Pacífico, um menino cresceu com as galinhas. Sujit Kumar perdeu os pais ainda criança. A mãe cometeu suicídio e o pai foi assassinado logo depois. Sem saber o que fazer com o menino, os avós colocaram o garoto no galinheiro, no andar debaixo da casa. Lá, ele viveu por 6 anos. O menino dormia no poleiro, se alimentava com as galinhas e aprendeu a andar e a se comunicar como os animais. Sujit Kumar nunca foi ensinado a falar, mas sabe cacarejar. Ele sacode a cabeça e cisca como os galináceos. Durante toda sua vida, pegou a comida com a boca em formato de bico tentando imitar os bichos.

Sujik Kumar não tinha contato com o mundo exterior. Sua família e seus amigos eram as aves com quem conviveu até ser removido pelo poder público, aos 8 anos de idade. Era para ser a salvação do menino, mas a mudança se transformou em outro triste capítulo de sua história. No final dos anos 1970, Fiji não tinha orfanato. Sem chances de ser adotado por causa do seu comportamento, Sujit foi colocado em um asilo de idosos. Ele praticamente não havia visto gente durante a maior parte da vida; então, muitas vezes, se tornava agressivo. Por isso, ficou os 22 anos seguintes preso à cama, amarrado com lençóis. As cicatrizes ainda estão bem claras em volta de sua cintura. Sujit passou o final da infância, a adolescência e grande parte da vida adulta dentro do quarto.

No final de 2002, a visita de um grupo do Rotary Clube seria o começo de uma nova vida para o “garoto-galinha”, como ficou conhecido pela comunidade. Elizabeth Clayton fazia parte da comitiva que foi doar mesas de plástico para a instituição. A australiana era uma empresária de sucesso, que fez fortuna fabricando e exportando móveis em Fiji, para onde tinha se mudado há 10 anos. Poucos meses antes do encontro com Sujit, ela ficou viúva. O marido Roger Buick morreu tentando escalar o monte Everest. Elizabeth nunca esquece o primeiro momento em que viu o rapaz. “Ele estava tão debilitado e mal-tratado. Apanhou no rosto e tinha os dedos inchados, além dos dentes e o nariz quebrados. Quando o vi, eu não sabia se era uma criança ou um homem. Sua aparência era decrépita. A barba estava longa e as pessoas pensavam que ele era selvagem”, recorda. Naquele momento, ela tomou a decisão que mudaria também seu próprio destino. “Eu vi um brilho nos olhos dele. Não podia simplesmente virar minhas costas”, declarou.

As frequentes visitas ao asilo aumentaram o vínculo entre os dois, até que Elizabeth decidiu levar o garoto para morar com ela. Precisou de muito amor e paciência para superar a fase inicial. “Ele ‘bicava’ a parede e coisas assim. Sujit também não conseguia dormir na cama; então, se levantava e se empoleirava na cadeira, por exemplo”, conta. Da mesma forma, o rapaz usaria o vaso sanitário. Algumas vezes, o comportamento era violento. “Ele me mordia, me arranhava e me empurrava. Meu maior sonho é que ele seja independente nos seus hábitos pessoais. Assim, conseguirá escovar seus dentes, ir sozinho ao banheiro e até se barbear. Meu maior sonho, na verdade, é que ele consiga falar”, diz. “Por causa das crises, os familiares pensaram que era um espírito demoníaco e daí quiseram se livrar dele. Lá (em Fiji), as pessoas pensam que o espírito do mal é a causa dos problemas da família”, explica. Para se dedicar totalmente a Sujit, Elizabeth vendeu o negócio e viajou com o garoto para a Austrália, onde consultou diversos especialistas: fonoaudiólogos, professores de educação especial, neurologistas…

Sua dedicação ao garoto recebeu críticas e enfrentou resistências. O irmão da australiana chegou a dizer que era uma “perda de tempo, porque Sujit é animalesco e não vai melhorar”. Já  governo de Fiji tirou o rapaz da casa dela. “Eles não me deram nenhuma explicação. Fiquei devastada e chorei muito. Eles não perceberam a importância do nosso vínculo. Tinha que lutar por ele e acabei nos tribunais”, recorda. No dia do julgamento, Sujit correu para os braços dela e o juiz acabou concedendo a custódia. Com cerca de 40 anos (já que ninguém tem certeza absoluta da verdadeira idade do rapaz), Sujit ainda não consegue falar, mas já se comunica através de gestos. Quando quer água, ele pega um copo; quando quer passear, ele pega a chave do carro. De vez em quando, Sujit ainda sacode a cabeça, cisca ou pega a comida com as pontas dos dedos, mas está aprendendo. Ele já caminha quase normalmente e circula entre as pessoas sem medo. Elizabeth investiu o dinheiro da venda da empresa na criação de um lar para crianças. Hoje, a australiana recolhe meninas e meninos nas ruas de Fiji e vive com eles no local chamado “Happy House”.


O Enigma de Kaspar Hauser

Kaspar Hauser (1812-1833) foi uma criança abandonada, envolta em mistério, encontrada numa praça em Nuremberg, na Alemanha. Passou os primeiros anos de sua vida aprisionado numa cela, não tendo contacto verbal com nenhuma outra pessoa, fato que o impediu de se expressar em um idioma. Porém, com o seu posterior contacto com a sociedade, na adolescência, logo lhe foram ensinadas as primeiras palavras e ele pôde paulatinamente aprender a falar, da mesma maneira que uma criança o faz. A exclusão social de que foi vítima não o privou apenas da fala, mas também de uma série de conceitos e raciocínios, o que fazia, por exemplo, com que Hauser não conseguisse diferenciar sonhos de realidade durante o período em que passou aprisionado.

Supostamente com 15 anos de idade, Hauser foi abandonado em uma praça pública de Nuremberg, em 26 de maio de 1828, portando apenas algumas peças de roupas velhas, um chapéu, um livro de orações e uma carta endereçada ao oficial chefe da guarda da cidade, explicando parte de sua história e contendo indicações de que ele provavelmente pertencia a uma família da nobreza. Ele se recusava a comer e beber qualquer coisa além de pão e água, com o que provavelmente se alimentara durante todos os anos de cativeiro. Aprendeu a falar, a ler e a se comportar socialmente, e a sua fama correu a Europa. Obteve um desenvolvimento do lado lógico e racional do cérebro notoriamente maior que o do lado emotivo e social, o que lhe proporcionou avanços consideráveis no campo da música. Em dezembro de 1833, Hauser foi assassinado com uma facada no peito enquanto caminhava pelos jardins do palácio de Ansbach. As circunstâncias, motivações e autoria do crime jamais foram esclarecidas, apesar da recompensa de 10 mil guldens (algo em torno de 180 mil euros hoje) oferecida pelo rei Luís I da Baviera.

A intrigante história de Kaspar Hauser foi adaptada para o cinema no filme “Jeder für sich und Gott gegen alle” (“Cada um por si e Deus contra todos”, em tradução livre), de 1974, dirigido pelo cineasta alemão Werner Herzog e lançado em português com o título “O Enigma de Kaspar Hauser”. Assista abaixo o filme completo e legendado:

Sobre a reimpressão de “Mein Kampf”

Artigo de opinião de Stephen Hicks, professor de filosofia na Rockford University (EUA).

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As autoridades alemãs permitirão a reimpressão da obra Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler, após décadas de censura. Pessoas decentes podem argumentar que o livro é muito perigoso para ser publicado. Mas o fato é que Mein Kampf é muito perigoso para não ser publicado. O grande medo é que as ideias de Hitler não estejam mortas e que seu livro precipite outro movimento social terrivelmente patológico. O nacionalismo e o socialismo ainda apelam a muitos. As combinações das duas ideologias atraem novos adeptos a cada dia na Europa e ao redor do mundo. Por outro lado, já se passaram três gerações desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mudanças culturais importantes ocorreram na Alemanha com respeito ao militarismo, autoritarismo, antissemitismo e outros elementos nacional-socialistas. Existe muita evidência de que a Alemanha de hoje está muito acima da média em civilidade e decência. Isso significa que o “controle cultural” pós-nazismo até então imposto já pode ser abolido?

Palestrando para o Fórum Judaico para a Democracia e Contra o Antissemitismo, sediado em Berlim, Levi Salomon opõe-se à reimpressão do livro Mein Kampf: “Esse livro está fora da lógica humana”. Talvez isso seja verdade. Mas o livro não está fora da experiência humana. Devemos entender a “lógica” das crenças nacional-socialistas, não importando o quão ilógicas possam ser na realidade. Estas crenças continuam a ter um apelo social e psicológico poderoso para muitos, então é crucial que toda a geração saiba exatamente quais são, por que atraem tantas pessoas – e como combatê-las.

Os nazistas não eram só uns caras loucos que, por um golpe de sorte, chegaram ao poder. Por muito tempo uma visão caricatural do nacional-socialismo tomou conta da opinião pública. Considere uma questão: Anos antes de os nazistas tomarem o poder, eles tinham o apoio de três vencedores do prêmio Nobel – Johannes Stark, Gerart Hauptmann e Philipp Lenard. Também antes da chegada dos nazistas ao poder, muitos intelectuais com doutorado nas melhores universidades alemãs escreveram livros em apoio à ideologia nacional-socialista. Entre eles estavam o historiador Oswald Spengler, o jurista Carl Schmitt, o cientista político Arthur Moeller e o filósofo Martin Heidegger. Muitos intelectuais apoiadores do nacional-socialismo eram extremamente cultos e se consideravam discípulos de Hegel, Marx e Nietzsche. Então, o problema não é somente Adolf Hitler. Além do mais, se resolvermos censurar todos os escritos que influenciaram ou induziram ao nazismo, a lista seria extremamente longa.

Também é um fato relevante que muitos milhões de cidadãos alemães votaram no Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Na decisiva eleição democrática de 1933, os nazistas venceram com 43% dos votos – mais que o total dos outros três partidos combinados. Some-se a isso o fato de que o Partido Socialista ficou em segundo e o Partido Comunista ficou em terceiro nas mesmas eleições, o que nos revela muito do clima político e intelectual da época. O sucesso eleitoral dos nazistas também não foi produto de um conjunto de ideias contidas somente em livros. Os nazistas utilizaram princípios modernos de marketing, logística e administração. Eles aplicaram novas teorias da psicologia e da sociologia para formar um movimento central de centenas de ativistas devotos, expandindo-se a um movimento de massa de milhões de seguidores.

Mas por que tantos intelectuais concordavam com as ideias nacional-socialistas? Por que tantos voluntários, doadores e profissionais devotaram suas energias à esse movimento político? Por que milhões de cidadãos alemães votaram nos nazistas? Eram todos simplesmente estúpidos, depravados e insanos? Não, não eram. Gostando ou não do fato, o nazismo incorpora uma profunda filosofia de vida – e isso explica seu poder.

Não é racional ignorar um conjunto de ideias que continua a inspirar movimentos ao redor do mundo. Suprimir ideias perigosas é muito mais perigoso do que lutar contra elas abertamente. Uma sociedade livre pode funcionar somente se a maioria de seus membros entender quais os princípios que a norteiam e a razão pela qual são melhores que as alternativas. Isso pressupõe que eles sabem quais são alternativas, obviamente. Portanto, não existem atalhos em nossa educação cultural continuada. Todas as gerações devem discutir e debater as grandes ideias – verdadeiras ou falsas, conhecidas e possíveis, saudáveis ou perigosas – tornando-se intelectualmente preparadas para defender e expandir a civilização democrática e liberal.

Às vezes, o impulso à censura foca no simbolismo de permitir que livros malignos sejam publicados. Não censurar Mein Kampf, por exemplo, poderia ser uma declaração, pelas autoridades, de que consideram as ideias nacional-socialistas dentro do limite da opinião aceitável. Contudo, nós deveríamos lembrar que a sociedade livre rejeita a ideia de que é função das autoridades decidirem quais opiniões são aceitáveis. Esse é o nosso trabalho, de cada um de nós, individualmente. Em sua opinião dissidente em um caso clássico de censura americana, o juiz Potter Steward fez uma observação pertinente: “A censura reflete a falta de confiança de uma sociedade em si mesma”. Existe um importante simbolismo intrínseco ao encorajamento da livre expressão: nós podemos lidar com isso. Então, vamos fortalecer tal autoconfiança. Nós temos a inteligência e o caráter para lidar com os Hitlers potenciais, assim como seus talentosos teóricos.

Uma proposta de solução inteligente e criativa para a questão da maioridade penal

Artigo de opinião do professor Pirluigi Piazzi, que propõe uma solução bem inteligente para superar a polarização dos “contra” e “a favor” da redução da maioridade penal.


Assassinatos bárbaros com requintes de crueldade e outros crimes hediondos cometidos por “quase maiores” estão revoltando a população brasileira, cuja indignação está sendo insuflada pela mídia sensacionalista. Reações indignadas dos defensores das “pobres criancinhas”, por outro lado, rebatem exageros com exageros. Do alto de minha vetusta idade, se não adquiri sabedoria, pelo menos consegui um pouco de experiência que me ensinou a desconfiar das polarizações. Das aulas de latim, ainda lembro da frase: Virtus in medium est (A virtude está no meio). Deve haver uma forma de conciliar opiniões tão conflitantes de forma a se chegar em um consenso.

Acho que a forma existe e quero propor aqui um esboço de solução. Afinal das contas nossos alunos estão se envolvendo nessa polêmica e, se de um lado isso pode aguçar o espírito crítico e a habilidade de argumentação, por outro lado pode também incentivar radicalismos nem um pouco benéficos ao desenvolvimento emocional deles. Para encontrar esse esboço de solução (esboço este que está longe de ser uma versão definitiva), tentei identificar o porquê de tanto radicalismo. A resposta é simples: discute-se apenas com base emocional, e não racional. Minha proposta é transformar o conflito em um problema matemático em vez de um embate emocional. Em vez de discutir se a maioridade penal deve ser reduzida para 16 ou 14 anos (ou aumentada para 21, como querem outros), vamos tentar encarar as coisas de forma diferente.

Há muitos anos fui a um teatro assistir uma peça do Jô Soares e um dos trechos me chamou a atenção. Descrevia a perplexidade de alguém olhando a data de validade de um produto qualquer, por exemplo, uma lata de atum. De forma extremamente divertida, o personagem se perguntava: O que acontece dentro desta lata exatamente à meia-noite da data fatídica? Que brusca e fantástica mutação ocorrerá ao conteúdo dessa embalagem quando soarem as doze badaladas? E se eu comprar em um país, pegar um avião e à meia-noite já estiver em outro, com fuso horário diferente, a súbita transformação ocorrerá em qual das meia-noites?

Vendo e ouvindo todas as discussões e os comentários do tipo “daqui a três dias ele seria imputável, mas agora vai sair da delegacia sorrindo, valendo-se de uma lei estúpida”, percebi que a estupidez não está na lei, mas na forma com que ela determina a data de validade da adolescência. Até 17 anos, 11 meses e 30 dias, o sujeito tem um cérebro de adolescente, ainda não amadurecido o suficiente para perceber a gravidade do crime cometido. Exatamente à meia-noite, o cérebro sofre uma abrupta transformação e o sujeito torna-se um cidadão plenamente consciente e responsável por seus atos. Pode haver suposição mais estúpida?

Por que tanta estupidez? Um dos motivos é que a maioria de nossos juristas e legisladores é constituída por pessoas que enveredaram por essas carreiras para fugir do terror do ciclo médio: a matemática. Não têm, portanto, a capacidade intelectual de perceber a enorme vantagem de uma função contínua em relação a essa loucura de verdadeiros saltos quânticos que as leis promovem. Vamos então pegar uma função contínua: a sigmoide. Para quem não lembra, a derivada da sigmoide é justamente a curva de Gauss, tão usada em cálculo de probabilidade. Usando um pouco de fuzzy logic poderíamos construir um gráfico como o da figura:

SIGMOIDE

Segundo um gráfico desse tipo, uma criança de 14 anos seria 0% imputável, ou seja, totalmente inimputável. Já alguém de 15 anos teria uma imputabilidade de 5%, ou seja, ficaria detido em uma instituição ressocializadora por 5% do tempo correspondente à pena que um adulto cumpriria ao cometer o mesmo crime. Nesse gráfico, a sigmoide tem seu máximo de velocidade de mudança aos 16 anos, idade que coincide com o máximo de mudanças neurais no cérebro. Com 16 anos, o indivíduo pode votar e até pilotar um avião. Nesse caso, ao cometer um crime, teria que cumprir metade da pena que um adulto cumpriria. Aos 17, cumpriria 95% da pena e, aos 18, cumpriria a pena completa.

Essa pena proporcional seria cumprida sempre em uma instituição especial “para menores” até que o apenado completasse 21 anos. Só depois ele cumpriria pena em uma cadeia comum. Trata-se obviamente de um esboço, longe de ser uma solução. Tenho certeza, porém, que a solução estaria não tanto nos valores a serem atribuídos ou na função matemática a ser aplicada, mas no conceito de função contínua, ou seja, no fato de se tornar a responsabilidade penal algo gradual e não em algo determinado por absurdos saltos quânticos.

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