Detesto gente bêbada

Crônica de Gabito Nunes.

Confesso meus julgamentos a respeito de gente bêbada: sinto raiva. Sinto raiva porque odeio os efeitos do álcool, tanto os sociais quanto os hepáticos, neurológicos, etc. Pode me chamar de careta, eu não me importo. Quando acompanhei um parente nas reuniões anônimas, aprendi que o alcoolismo é uma doença, o ébrio é mais um paciente que um sem-vergonha. Mas o primeiro gole, o primeiro teco, a primeira tragada, a primeira injeção é burrice. Por que a maioria das pessoas bebe? A resposta é bem simples. Porque a maioria das pessoas bebe. Que genial, vai dizer? Não conheço essa merda por dentro, nunca fui um usuário abusivo e não controlado. Bebia muito e fumei um carregamento de maconha na adolescência, porque foi complicado: eu gostava de The Doors e as pessoas não, eu escrevia poemas loucos e meus colegas de classe não, eu era feio, não frequentava as festas de arromba, eu não conseguia as garotas que queria, tudo dentro da rotina de um adolescente que se vê como um peixe na contramão da correnteza. Até o dia em que comecei a amar e me sentir responsável por uma menina que enchia a cara, pois tinha sido abusada pelo tio aos 8 anos e ninguém nunca acreditou.

Se eu sei o que é ser dependente químico? Não, graças a mim mesmo. Eu apenas sei o que é tomar conta de uma partidária de Christiane F. Sei o que é ficar esperando a última garrafa esvaziar pra ir embora, sei o que é pagar um rim de fiança pra tirar alguém da cadeia, sei o que é procurar uma chave de casa numa bolsa cheia de vômito, sei o que é buscar alguém que você gosta num bar às quatro da matina, sei o que é ouvir coisas que você não merece, sei o que é um cômodo com espelhos quebrados pela abstinência, sei o que é ter seus discos favoritos trocados por uma trouxinha de pó, sei o que é esperar um teste de HIV por conta de um deslize etílico que não foi seu. Eu sei o que é, tomado por uma dor estratosférica, dar queixa policial da pessoa que você gosta, ser obrigado a largá-la, e um tempo depois descobrir que tudo anda mal, ou pior, pois a novidade agora é que sua ex-namorada acorda com ratos comendo sua pouca comida num quartinho que poderia servir de locação para uma cena de Pulp Fiction. Enfim, minha irredutibilidade tem gordos motivos, então, não me vem com encheção.

Eu detesto gente bêbada, eu odeio essa cultura cervejeira e seus comerciais ilusórios e seus cus faturando dinheiro enquanto quatro jovens perdem suas cabeças embaixo de um caminhão após uma festa, ou enquanto dois irmãozinhos se escondem debaixo da cama porque, assim como anteontem, hoje também é dia da mamãe levar surra do papai. Se você bebe por vício, hábito ou ritual – e não pelo sabor e pelo prazer autêntico –, para metamorfosear sua identidade ou aliviar alguma angústia ou remorso, não há argumento racional que me tire da cabeça que você é um idiota. Você pode ser um doente social agora, tudo bem, coitado, mas algum dia já foi um idiota. Na bocada inicial ou quando passou a glamorizar a alegria ou o conforto dos goles seguintes. Gente bêbada é chata, covarde, prepotente, burra, deprimente, uma personalidade fraudulenta, um prejuízo ambulante, um fardo futurístico, uma estatística lamentável. Quanto de dinheiro você já gastou com destilados, meu amigo, e até onde você foi com isso? E quando você puxa papo e me conta todo empolgado quantas doses variadas você consumiu na noite anterior, achando tudo super legal, silenciosamente eu só consigo te achar idiota.

Eu trocaria – Hélio Fraga

A crônica abaixo me fez chorar. Escrita pelo jornalista Hélio Fraga em meados da década de 1980, ela traz uma trágica e comovente lição de vida. Se você é pai ou mãe, esse depoimento pode mudar a forma como você se relaciona com seus filhos.


O pai moderno, muitas vezes perplexo, aflito, angustiado, passa a vida inteira correndo como um louco em busca do futuro e esquecendo-se do agora. Na luta para edificar esse futuro, ele renuncia ao presente. Por isso, é um homem ocupado, sem tempo para os filhos, envolvido em mil atividades – tudo com o objetivo de garantir o amanhã. E com que prazer e orgulho, a cada ano, ele preenche sua declaração de bens para o Imposto de Renda. Cada nova linha acrescida foi produto de muito esforço, muito trabalho. Lote, casa, apartamento, sítio, casa de praia, automóvel do ano, tudo isso custou dias, semanas, meses de luta. Mas ele está sedimentando o futuro de sua família: se partir de repente, por qualquer motivo, já cumpriu sua missão e não vai deixá-la desamparada. E para ir escrevendo cada vez mais linhas na sua relação de bens, ele não se contenta com um emprego só – é preciso ter dois ou três; vender parte das férias, em vez de descansar junto à família; levar serviço para casa, em vez de ficar com os filhos. É um tal de viajar, almoçar fora, discutir negócios, marcar reuniões, preencher a agenda – afinal, um executivo dinâmico não pode fraquejar nesse mundo competitivo.

No entanto, esse homem se esquece que a verdadeira declaração de bens, o valor mais alto, aquele que efetivamente conta, está em outra página do formulário do Imposto de Renda – mais precisamente naquelas modestas linhas, quase escondidas, onde se lê: “relação dos dependentes”. São os filhos que ele colocou no mundo, e a quem deve dedicar o melhor do seu tempo. Há filhos órfãos de pais vivos, porque estão “entregues” – o pai para um lado, a mãe para outro, e a família desintegrada, sem amor, sem diálogo, sem convivência. Há irmãos crescendo como verdadeiros estranhos,  correndo de um lado para o outro o dia inteiro – ginástica, natação, judô, ballet, aula de música, curso de inglês, terapia, etc. – e só se encontram de passagem em casa, um chegando, outro saindo. Não vivem juntos, não saem juntos, não conversam. Para ver os pais, é quase preciso marcar hora!

Seus filhos são novos demais e não estão interessados em propriedades e no aumento da renda. Eles só querem um pai para conviver, dialogar, brincar. Os anos passam, os meninos crescem, e o pai nem percebe, porque se entregou de tal forma ao trabalho que não viveu com eles, não participou de suas pequenas alegrias, não os levou ou os buscou no colégio, nunca foi a uma festa infantil, não teve tempo para assistir a apresentação da sua filha – pois um executivo não deve desviar sua atenção para essas bobagens. São coisas para desocupados. Depois de uma dramática experiência pessoal e familiar vivida, a única mensagem que tenho para dar é esta: não há tempo melhor aplicado do que aquele destinado aos filhos. Dos 16 anos de casado, passei 15 anos correndo e trabalhando sem parar, absorvido por muitas tarefas, envolvido em várias ocupações, totalmente entregue a um objetivo único e prioritário: construir o futuro para três filhos e minha mulher. Isso me custou longos afastamentos de casa, viagens, estágios, cursos, plantões no jornal, madrugadas no estúdio da televisão, uma vida sempre agitada, atarefada, tormentosa. A apaixonante dedicação à profissão escolhida – que foi, na verdade, mais importante do que minha família. E agora, aqui estou eu, de mãos cheias e de coração aberto, diante de todos vocês.

Aqui está o resultado de tanto esforço: construí o futuro penosamente, e agora não sei o que fazer com ele depois da perda de Luiz Otávio. De que valem casas, carros e tudo o mais que foi possível juntar nesses anos todos de esforço, se ele não está mais aqui para aproveitar isso com a gente? Se o resultado de 30 anos de trabalho fosse consumido agora por um incêndio e, desses bens todos, não restasse mais do que cinzas, isso não teria a menor importância; não ia provocar o menor abalo em nossa vida, porque a escala de valores mudou e o dinheiro passou a ter peso mínimo e relativo em tudo. Se o dinheiro não foi capaz de comprar a cura e a saúde de um filho amado, para que ele serve? Para que ser escravo dele?! Eu trocaria, explodindo de felicidade, todas as linhas de declaração de bens por uma única linha que eu tive de retirar, do outro lado da folha: o nome do meu filho na relação de dependentes. E como doeu retirar essa linha na declaração de 1983!

NOTA: Luiz Otávio morreu aos 12 anos, em novembro de 1982, na cidade de Belo Horizonte, vítima de um tumor cerebral.

Fonte: Revista Raio de Luz (Betel Brasileiro), edição 113.

A Pipoca – Rubem Alves

Crônica de Rubem Alves publicada no jornal
Correio Popular do dia 29 de agosto de 1999.


A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de “culinária literária”. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, picadinho de carne com tomate, feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos… Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo – porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi então a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.

A pipoca é um milho mirrado, sub-desenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros, quebra-dentes, se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer.

A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar. Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser que existe. Mas, de repente, vem o fogo.

O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão – sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação. Imagino que o pobre milho de pipoca, fechado dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ele não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF! – e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Com certeza, existe uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas, “piruá” é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida a perderá”. A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo. Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira.

A arte de desfazer nós – Helena Beatriz

Na janela da varanda haviam três cortinas de bambu, daquelas de enrolar e desenrolar. Não sei por qual motivo,  se era o vento, o balanço das cordinhas ou algum mistério não decifrado, fato é que frequentemente apareciam nós em toda a extensão dos puxadores. Ao erguer as cortinas de manhã, sempre encontrava um novo nó. Caso estivesse retornando de viagem, eram dezenas deles, muitas vezes sobrepostos. Para desfazê-los tinha de lembrar coisas muito simples. A primeira delas era nunca achar que seria impossível. A segunda era: não se afobar. Quem se afoba corta fio, não desmancha nó. Era preciso ter paciência, muita paciência (quando estava muito ansiosa nem começava – deixava a tentativa para outro momento). A terceira era perseverar, não me preocupando em desfazer todos os nós de uma só vez. Era preciso ser humilde e gastar mais de uma empreitada para desenrolar tudo.

Superadas essas fases, eu sentia o nó nas mãos. Percebia o tamanho, a tensão da corda,  a força do laço. Depois, com as pontas dos dedos, carinhosamente beliscava o fio da corda, procurando onde pudesse ceder. Coisa de se fazer aos poucos. Essa coisa de nós enrolados me lembra, como sempre, do vovô. Já devo ter dito mais de uma vez que ele foi um dos meus melhores amigos – principalmente na vida adulta. Ele ouvia atentamente minhas dúvidas existenciais, draminhas e dramalhões. Claro que eram perguntas sem respostas: eram os piores nós! Tão mais fácil ele pegar a tesourinha das respostas prontas e cortar pela raiz, pronto. Mas não. Ele ouvia, ouvia, ponderava. Costumava ficar em silêncio. Não tinha pressa alguma em desfazer o nó. Mas também não desistia dele (no caso, eu). Sem receita nem ciência. Desfazer nó é arte.

Fonte: Timilique.

Rubem Alves e a hora de parar

Rubem Alves resolveu parar de escrever seus artigos e crônicas nas páginas da Folha de S.Paulo. Leia abaixo a sua última crônica para o jornal, intitulada “Despedida”:


Devo ter perdido o juízo. Minha decisão contraria um dos 2 maiores sonhos de cada escritor. Primeiro, o sonho de ser um best-seller. Encontrar algum livro seu nas prateleiras da livraria Laselva, nos aeroportos. Confesso: sou vítima dessa vaidade. Mas não aprendo a lição. Nos aeroportos, vou sempre visitar a Laselva na esperança de lá encontrar um dos meus livros. Saio sempre desapontado. O outro sonho dos escritores é ter seus textos publicados num jornal importante: ser lido por milhares de leitores. O que significa reconhecimento duplo: do jornal que os publica e dos leitores. Isso faz muito bem para o ego. Todo escritor tem uma pitada de narcisismo.

Fernando Pessoa tem um poema que diz assim: “Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas…” E ele se pergunta se “não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas…” Respondo: Sim. Há um cansaço. A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. Mas, agora, meus 78 anos estão pesando. E como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar. A obrigação: é isso o que pesa. Quereria ser capaz de viver um poeminha do Fernando Pessoa: “Ah, a frescura na face de não cumprir um dever… Que refúgio o não se poder ter confiança em nós…” Perco o sono atormentado por deveres, pensando no que tenho de escrever. Sinto -pode ser que não seja assim, mas é assim que eu sinto-que já disse tudo. Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.

Não é qualquer coisa que se pode publicar num jornal. O próprio nome está dizendo: “jornal”, do latim “diurnalis”; de “dies”, dia, diurno; o que acontece no dia; diário. O tempo dos jornais é o hoje, as presenças. Mas minha alma é movida pelas ausências: nos jornais, não há lugar para ressurreições. Acho que aconteceu comigo coisa parecida com o que aconteceu com a Cecília Meireles. Escrevendo sobre ela, Drummond falou o seguinte: “Não me parecia criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me sempre a impressão de que ela não estava onde nós a víamos… Por onde erraria a verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um curioso, admitiu ser seu principal defeito ‘uma certa ausência do mundo'”?

Deve ser alguma doença que ataca preferencialmente os velhos e os poetas. A Cecília descrevia o tempo da sua avó com “uma ausência que se demorava”. E Rilke se perguntava: “Quem assim nos fascinou para que tivéssemos um olhar de despedida em tudo o que fazemos?” O sintoma dessa doença é aquilo que a Cecília disse: uma certa ausência do mundo. O místico Ângelus Silésius já havia notado que temos dois olhos, cada um deles vendo mundos diferentes: “Temos dois olhos. Com um, vemos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro, vemos as coisas da alma, eternas, que permanecem”. Jornais são seres do tempo. Notícias: coisas do dia, que amanhã estarão mortas. E é por isso vou parar de escrever: porque estou velho, porque estou cansado, porque minha alma anda pelos caminhos do Robert Frost, porque quero me livrar dos malditos deveres que me dão ordens desde que me conheço por gente…

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