O Ocidente e o Islã

Artigo de opinião do historiador, teólogo e pastor presbiteriano Alderi Souza de Matos, publicado originalmente no portal da Mackenzie.

Veja também: O Oriente e o Ocidente

mesquitaNos últimos anos, uma série de acontecimentos dramáticos tem chamado a atenção de todos para as enormes tensões existentes entre o mundo muçulmano e o Ocidente cristão. A ressurgência do fundamentalismo islâmico, a intensificação do terrorismo, os conflitos entre Israel e Palestina e a invasão americana no Iraque transformaram a interação desses dois mundos em um dos temas mais candentes do nosso tempo. Ao que parece, essa interação terá vastas consequências para a humanidade ao longo do século 21. Para se entender melhor a complexidade dos eventos atuais é preciso conhecer um pouco de história.

Quando o islamismo surgiu na primeira metade do século VII da era cristã (ano 622), o cristianismo já era uma religião consolidada e estava a caminho de criar a grande civilização européia conhecida como “cristandade”. O antigo Império Romano Ocidental havia desaparecido e dentro de um século e meio haveria de surgir o Sacro Império Romano Germânico, sob a liderança do imperador dos francos, Carlos Magno (que reinou de 771 a 814). O islamismo foi fruto da genialidade de um notável líder religioso, Maomé (ou Muhammad, 570-632), que transformou os povos árabes, até então inexpressivos e desunidos, em uma poderosa força no contexto internacional. Inspirados pela nova fé, em poucas décadas os muçulmanos conquistaram todo o Oriente Médio, a Mesopotâmia e o norte da África, bem como passaram a ameaçar a Europa cristã tanto no Oriente (Ásia Menor) quanto no Ocidente (Península Ibérica).

É importante lembrar que o islamismo foi, desde o início, uma religião conscientemente rival do cristianismo e do judaísmo, ainda que se considerasse herdeira dessas duas tradições religiosas. Além disso, enquanto os cristãos por vários séculos expandiram a sua fé por meios pacíficos, os muçulmanos o fizeram, desde o início, também pela força, isto é, mediante a conquista militar. É verdade que eles geralmente se mostravam tolerantes com as populações cristãs conquistadas, mas estas eram relegadas a um status inferior e sofriam toda uma série de limitações religiosas, sociais e econômicas.

A cristandade sofreu por cerca de quatro ou cinco séculos contínuas incursões islâmicas em seus territórios. Foi somente depois do ano 1000 que surgiu uma reação ampla e organizada – na Península Ibérica, a chamada Reconquista, e no Oriente Médio, as Cruzadas (1095-1291). Estas últimas, que visavam libertar os locais sagrados do cristianismo, na Palestina, foram especialmente significativas por causa de seus objetivos, motivações e amplas consequências.

Do ponto de vista político e militar, as Cruzadas foram um fracasso, mas intensificaram o intercâmbio cultural e econômico entre o Oriente e o Ocidente. Ao longo da Idade Média, os muçulmanos criaram florescentes civilizações em regiões como Iraque, Síria, Egito e Espanha, dando notáveis contribuições ao Ocidente nas áreas da filosofia, literatura e ciência. Ao mesmo tempo, as violências perpetradas pelos cruzados produziram marcas profundas na consciência islâmica e se tornaram um fator perene de ressentimento e amargura em relação ao cristianismo e ao Ocidente.

Outra consequência adversa foi o maior distanciamento entre a cristandade ocidental (católica romana) e a cristandade oriental (ortodoxa grega). Após as cruzadas, surgiu uma poderosa força muçulmana na Ásia Menor – o Império Otomano (1300-1924), que por vários séculos atacou continuamente a Europa cristã, conquistando boa parte dos Bálcãs. Em 1683, os turcos foram derrotados durante o segundo cerco de Viena, em sua última tentativa de invadir a Europa central. O mundo islâmico estava entrando em um longo período de declínio, tornando-se uma sombra do que havia sido em séculos anteriores, e cessaram por longo tempo os seus conflitos com o Ocidente.

No início do século 20, o fim do império turco, a partilha dos territórios árabes entre vários países europeus (colonialismo), a criação do Estado de Israel e a descoberta de petróleo no Oriente Médio deram nova visibilidade à região e produziram renovados conflitos com o Ocidente. O descumprimento de promessas no que diz respeito à independência dos países árabes, à criação de Israel e à preservação dos direitos dos palestinos gerou forte sentimento anti-europeu e anti-americano naquela região.

O sentimento de trauma e frustração do mundo muçulmano, em virtude de se considerar injustiçado pelo Ocidente, aliado à ameaça de secularização, ocidentalização e dissolução dos valores tradicionais, alimentou uma corrente intolerante e agressiva dentro do islamismo, que resultou no fundamentalismo militante das últimas décadas. A partir dos anos 1950, essa reação conservadora produziu resistência política, revolução e finalmente o horrendo flagelo do terrorismo.

Para a restauração da confiança entre as duas comunidades, o mundo ocidental precisa reconhecer e sanar os seus erros: sua arrogância e prepotência, suas ações imperialistas (políticas e culturais), sua falta de simpatia e sensibilidade acerca de questões essenciais como a causa palestina. Por outro lado, as nações islâmicas não estão isentas de falhas, entre elas a ausência de instituições democráticas e o desrespeito aos direitos humanos e a intolerância contra minorias religiosas (em contraste com a plena liberdade que os muçulmanos usufruem no Ocidente). Os muçulmanos devem reconsiderar alguns aspectos do conceito de jihad (guerra santa), a incitação à violência nas mesquitas, e o radicalismo em nome de Alá, “clemente e misericordioso”. Enfim, é necessária a ação dos governos, dos organismos internacionais, dos grupos religiosos e de todas as pessoas de boa-vontade para que sejam curadas as feridas antigas e recentes e se renove a harmonia nas relações entre os muçulmanos e o Ocidente, o que trará benefícios extraordinários para todo o mundo.

Por que a Bíblia católica tem mais livros?

Muita gente simples tem essa dúvida e acaba acreditando em versões completamente equivocadas e imparciais dadas pelos seus líderes religiosos, sejam eles católicos ou protestantes. Por isso, resolvi explicar essa questão aqui de maneira clara, sucinta e direta, para que seja facilmente entendida e finalmente esclarecida para os leigos.

pergaminho

A Bíblia protestante é constituída por 66 livros; 39 dos quais formam o Antigo Testamento (a Bíblia Hebraica, dos judeus), e 27 compõem o Novo Testamento. Já a Bíblia católica possui, além desses 66, outros sete livros completos (Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Baruque, Sabedoria e Eclesiástico) e alguns acréscimos aos livros de Ester (10:4 a 11:1 ou a 16:24) e Daniel (3:24-90; caps. 13 e 14). Todos esses livros e fragmentos adicionais, chamados de deuterocanônicos, pelos católicos, e de apócrifos, pelos protestantes, fazem parte do Antigo Testamento na Bíblia católica, de modo que o Novo Testamento é idêntico em ambas as Bíblias.

Os livros deuterocanônicos ou apócrifos foram produzidos, em sua maioria, durante os dois últimos séculos antes de Cristo; portanto, bem depois que o cânon da Bíblia Hebraica já estava concluído; daí serem chamados de “deuterocanônicos”. Embora nunca tenham feito parte da Bíblia Hebraica, porém, eles foram incorporados à tradução da Bíblia para o latim (Vulgata Latina) em 382 d.C., e declarados autênticos pelo Concílio de Roma, no mesmo ano. Essa versão preservou e popularizou os acréscimos durante a Idade Média. Em 1546, pouco depois da Reforma Protestante, o Concílio de Trento decretou que aqueles que não reconhecessem os acréscimos da Vulgata Latina como genuinamente sagrados e canônicos deveriam ser excomungados. Consequentemente, todas as versões católicas da Bíblia preservam até hoje esses escritos.

Os protestantes, por sua vez, reconhecem o valor histórico dos livros apócrifos, mas não os consideram como canônicos ou inspirados. Essa posição deriva do fato de tais escritos (1) não fazerem parte do cânon hebraico do Antigo Testamento; (2) não haverem sido citados por Cristo ou pelos apóstolos no Novo Testamento; e (3) apresentarem ensinamentos contrários ao restante das Escrituras. Entre esses ensinamentos encontram-se, por exemplo, as teorias da existência do purgatório (Sabedoria 3:1-9; contrastar com Salmo 6:5; Eclesiastes 9:5, 10); das orações pelos mortos (II Macabeus 12:42-46; contrastar com Isaías 38:18 e 19); de que anjos bons mentem (Tobias 5:10-14; contrastar com Mateus 22:30; João 8:44); de que o fundo dos órgãos de um peixe, postos sobre brasas, espantam os demônios (Tobias 6:5-8; contrastar com Marcos 9:17-29); de que as esmolas expiam o pecado (Tobias 12:8 e 9; Eclesiástico 3:30; contrastar com I Pedro 1:18 e 19; I João 1:7-9).

Como ler os clássicos?

Compilação de vários posts do professor e historiador Leandro Karnal (da Unicamp) na sua página no Facebook sobre a importância das obras clássicas da antiguidade para a formação intelectual. Veja também: Por que ler os clássicosQuem gosta de clássicos.


Muita gente pergunta o que faz diferença para formar um espírito crítico , agudo e com base. O que faz uma alma livre e sábia? Eu penso em algumas questões muito específicas, sendo a primeira delas a seguinte: Ler os clássicos. A maioria fala do que vê rapidamente; emite opinião a partir de um site; bate boca sobre um conceito pela internet, sem ter percorrido o caminho que formou o conceito. Ler os clássicos que formaram nosso pensamento é indispensável! O que são clássicos? Obras que, para o bem e para o mal, estruturaram ideias e formas de análise por séculos ou milênios. Foram testados pelo tempo. Foram idolatrados e combatidos. Formaram muitas gerações e o que se fez depois foi feito sobre este debate. Sem eles a arte, o pensamento, as atitudes e até os sistemas de ideias se esvaziam.

Exemplo inicial: Bíblia. Livro formador do pensamento ocidental. Sem ela quase nada faz muito sentido, da Capela Sistina ao Caim de Saramago. Não é religioso? Aprenda que o seu gosto é irrelevante na formação do mundo ocidental. Tem ojeriza a textos religiosos? Você será pó e a Bíblia continuará a ter muita influência no mundo mil anos depois que seu sobrenome tiver virado fumaça nas brumas do tempo. Formação não é preferir coca zero com gelo ou só limão. Formação é processo de diálogo denso e árduo com as bases do mundo. Sugestão: Comece pelo Gênesis. Escolha um tradução direto do hebraico. Depois leia o Êxodo. Evite os seguintes por enquanto.

Terminou Gênesis e Êxodo? Continue com livros históricos e leia o Livro dos Reis. Depois escolha os Salmos, literatura poética. O 23 é o mais conhecido. Com a literatura poética e sapiencial, você está apto a um dos mais belos e antigos textos: . Por fim, leia um profeta: Isaías ou Daniel, ou ambos. Com estas poucas leituras, sem ser um especialista, você terá acesso a muito da tradição do Antigo Testamento. Hora de encarar um evangelho (Lucas, talvez, pela beleza do texto). Leia Atos dos Apóstolos, sobre as origens da Igreja, e as cartas de Paulo (Romanos, Efésios, Coríntios…). Evite o Apocalipse por enquanto. Gostou? Entendeu? Hora de encarar o resto que ficou para trás. Nada disto tem relação com religião, mas com clássicos e formação.

Viu o básico? Hora de passar para a tradição grega e pular de Jerusalém para Atenas. Simplesmente mandar ler a Ilíada, para alunos em geral, mata a vontade de crescer nos clássicos. Livro fascinante, mas que demanda muitos conhecimentos de mitologia. Por isto, sem querer cansar as pessoas eu recomendaria começar por coisas importantes, mas mais acessíveis: Antígona, de Sófocles. O choque entre a consciência individual e o dever. Texto curto (você lerá em menos de uma hora) e fascinante. Prometeu Acorrentado, de Ésquilo. Peça mais antiga do que a anterior , com menos personagens. Uma consciência livre e rebelde (Prometeu) dialogando com o poder dos deuses e com outra vítima do orgulho de Zeus e Hera.

Agora você pode comparar esta peça mais antiga com a anterior. Veja como mudou o papel do Coro entre uma peça e outra. Medeia, de Eurípedes. Peça linda sobre vingança e amor se transformando em ódio. Inspirou a “Gota d’água” de Chico Buarque e Paulo Pontes. O que pode uma mulher de mais de 50 anos abandonada pelo marido que segue uma mais jovem e mais rica? Amou teatro grego? Estas três peças são curtas. Os gregos assistiam muitas ao longo de um dia. Que tal encerrar esta introdução com Édipo Rei? Aristóteles fez um elogio profundo a esta peça. É uma peça política sobre destino, muito embora seja mais conhecida hoje como uma peça sobre desejo pela mãe, algo pouco relevante na trama original.

O mundo grego se abriu para você? É um desafio de anos e fascinante. Ler a cultura clássica transforma nossa visão de mundo. Parece incoerência, mas peço que as pessoas leiam primeiro a Odisseia e depois a Ilíada. A Odisseia trata de Ulisses (Odisseus), o herói astuto, da busca que seu filho faz pelo paradeiro do pai, da perfeição na ilha de Calíope, da inteligência contra a força com Polifemo, da construção da memória da Guerra de Troia e do jogo pessoal e político no retorno a Ítaca. Aqui um conselho importante: ler poesia épica é entrar no caminho do desafio intelectual. Ler com régua, concentrado, sem celular, com um bom dicionário de mitologia ao lado. Leitura lenta, degustada linha a linha, não o rema-rema de um best-seller. A obra clássica lança este desafio quando a abrimos: será que você consegue entender o que lhe trago? O livro comum quer seduzi-lo; a poesia épica diz que o caminho é seu e a escolha é sua.

Qual edição ler? Isto daria muitos posts. Comprei e gostei da edição recente de Christian Werner, fluida e bela. Uso em sala de aula duas edições anteriores: a tradução do professor Donald Schüler e a clássica de Odorico Mendes. Há muitas outras. Ulisses levou 20 anos para fazer a guerra que não queria e retornar para casa. A leitura da Odisseia consumirá menos tempo. Como o rei de Ítaca, amarre-se no mastro do navio e ouça tudo. Desafio final: o primeiro capítulo do livro Mimesis, de Auerbach. Ele compara o estilo bíblico com o grego de narrar. Li ao entrar na pós e lembro do capítulo como uma luz perene na minha vida.

O legado da filosofia clássica greco-romana nunca pode ser esgotado. Mas quero falar do elo entre este legado e o mundo cristão que se inicia: Agostinho. Ele é o último romano ou o primeiro medieval. Sua conversão mudou o pensamento ocidental. Para alguns, suas Confissões são a primeira autobiografia, algo que deveria esperar até Rousseau para se repetir. Mas é um texto bonito, com frases impactantes e reflexões sobre o tempo e a história. Sim, A Cidade de Deus é mais elaborada teologicamente. Mas, o prazer de ler as Confissões é único. O êxtase místico em Óstia, com sua mãe Mônica, é uma chave para entender como a alegoria da caverna platônica pode ser cristianizada.

A noção agostiniana de graça marca a própria justiça ocidental. Nas férias, reli a edição da Editora Vozes. Texto clássico: sempre rico e sempre pronto a tentar melhorar meu mundo. Leu e gostou? Tente um passo além: o livro de Peter Brown: Santo Agostinho, uma biografia. No ano passado, na igreja de Santo Agostinho, em San Gimignano (Toscana), eu mostrava a alguns alunos os afrescos de Benozzo Gozzoli com a vida de Santo Agostinho. Um perguntou: como você sabe estas coisas? Respondi: eu li as Confissões. Clássicos significam isto: o mundo passa a fazer sentido e os links se multiplicam. Não ler é enfrentar o vazio, a falta de elos e a escuridão.

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