Entenda a polêmica e o movimento que quer mudar o nome da capital da Paraíba

Joao_Pessoa_Cavalcanti_de_AlbuquerqueVeja também: João Pessoa: 430 anos

“João Pessoa nunca foi um herói. A verdade é que ele foi um grande filho da mãe”, diz o vereador Flávio Eduardo Ribeiro, popularmente conhecido como Fuba. Agitador cultural e presidente do maior bloco carnavalesco da capital paraibana, o Muriçocas do Miramar, Fuba é uma das principais lideranças de um movimento que vem ganhando força na Paraíba. Criado em fevereiro de 2008, o movimento “Paraíba, capital Parahyba” luta para mudar o nome da capital, retirando o nome do político João Pessoa.

A cidade ganhou esse nome em setembro de 1930 em homenagem ao então presidente da província e candidato a vice-presidente da República na chapa de Getúlio Vargas. Até então, a cidade chamava-se Parahyba. A mudança do nome aconteceu em meio a um clima de comoção após o assassinato de João Pessoa, em julho de 1930, no Recife. A morte é apontada por historiadores como o estopim da Revolução de 1930, que derrubou o então presidente Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder.

João Pessoa foi um político controverso. Implantou uma forte política de taxação do comércio, com barreiras tributárias a cada 20 km de estradas. Colecionou inimigos e perseguiu vários deles, sobretudo entre as famílias tradicionais do sertão paraibano. A morte dele, inclusive, é apontada como resultado de perseguição ao advogado João Dantas, membro de uma das principais oligarquias locais. Por ordem de Pessoa, Dantas teve um caso amoroso exposto para toda a sociedade. Meses depois, o rival se vingou dando três tiros em João Pessoa numa confeitaria no Recife. “A morte de João Pessoa não teve nada de crime político ou passional. Foi um crime de lavagem de honra”, diz Fuba, autor de Parahyba 1930: a verdade omitida e Contando a real história da Paraíba.

Fuba credita ao magnata das comunicações Assis Chateaubriant a criação do mito em torno do então governador paraibano. Como seu assassinato impulsionou a revolução de 1930, João Pessoa virou herói. Passou a ser visto como um grande revolucionário, desses que mereciam todas as homenagens possíveis. E foram muitas homenagens. Muitas. Estátuas, passeatas com foto de corpo inteiro, nas quais as pessoas tinham que se ajoelhar ao passar, e até atribuição de milagres! Tudo em nome do “grande herói”. José Américo de Almeida – que, inclusive, dá nome a um bairro da capital – refere-se a esse tempo como “loucura coletiva e demência generalizada”, já que essa veneração criada em volta de João Pessoa era na verdade desmerecida. João Pessoa havia virado mito e seus partidários souberam usar sua morte a favor de um golpe de estado.

A verdade é que João Pessoa nunca viveu na cidade que recebeu seu nome. Nasceu em Umbuzeiro, no interior da Paraíba, viveu em Recife e foi enterrado no Rio de Janeiro. Em 1930, era candidato a vice na chapa de Getúlio Vargas, o maior ditador que o Brasil já teve, e tudo que conseguiu na política foi através do seu tio, Epitácio Pessoa – que dá nome à principal avenida da capital. Ele brigou com os presidentes dos três estados vizinhos: Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte, assim como seus irmãos e primos, e até com fazendeiros que anteriormente eram aliados. Cobrou pedágios absurdos pra quem viajasse por estradas paraibanas, aglomerando lucros exorbitantes.

Para levar a cabo a mudança de nome da capital, o movimento evoca a Constituição do Estado da Paraíba, que em seu artigo 82 prevê a realização de um plebiscito para a escolha do nome da capital, mas soa como letra morta desde a promulgação da Constituição de 1988. Na classe política local, o tema é tratado como um tabu: até hoje nenhum deputado estadual apresentou projeto de lei para a realização do plebiscito.

bandeira atual e antiga da paraiba

O grupo também defende a retomada da antiga bandeira da Paraíba (imagem acima à direita). A bandeira atual (acima à esquerda), criada em 1930, traz o preto do luto pela morte de João Pessoa e o vermelho que representa seu sangue. A palavra “NEGO”, escrita em branco, representa a negação do apoio de João Pessoa a Júlio Prestes, candidato a presidente da situação apoiado pelo então presidente Washington Luís. A versão é contestada pelos “mudancistas”: João Pessoa só teria negado apoio a Júlio Prestes após ter sido rejeitado para uma composição política com ele, de quem tentou ser vice. Em suma, todo o simbolismo da atual bandeira da Paraíba – o preto, o vermelho e a palavra “NEGO” – significam, respectivamente, o luto, o sangue e a politicagem. Dificilmente poderíamos encontrar outra bandeira tão negativa.

Com informações de: Folha de S.Paulo e Portal Paraíba.

Na China, mulher atropelada agoniza enquanto outras pessoas passam ao lado e a ignoram

Um vídeo divulgado na última quarta-feira (7) mostrando o duplo atropelamento de uma mulher nas ruas de Zhumadian, na província chinesa de Henan, provocou uma onda de indignação em todo o mundo, segundo publicou o jornal americano The New York Times. Durante o incidente, que ocorreu em 21 de abril, é possível observar uma pedestre cruzando a faixa e sendo atingida violentamente por um táxi. Durante muito tempo, as pessoas passam ao lado fingindo que nada aconteceu e ninguém faz nenhum esforço para socorrê-la, até que outro carro passa por cima dela e a arrasta mais alguns metros.

Mesmo após o segundo atropelamento, ninguém moveu um dedo para ajudá-la. A mulher morreu pouco tempo depois como resultado dos múltiplos ferimentos e fraturas. Depois de uma semana de críticas da opinião pública, a polícia chinesa anunciou ter identificado os dois motoristas; e o governo anunciou que os familiares da vítima receberam uma indenização. Mesmo assim, o debate continua acalorado sobre a frieza e a falta de compaixão, empatia e humanidade dos moradores daquela cidade. Veja o vídeo:

O que temos a perder

A nossa civilização é mais preciosa e mais frágil do que a maioria das pessoas supõe.
É o que defende o médico britânico Theodore Dalrymple no artigo abaixo, publicado originalmente no City Journal no outono de 2001. O texto foi traduzido na íntegra por Aluízio Couto e publicado no portal Crítica na Rede.


Sempre que nos informamos de acontecimentos que abalam o mundo, de catástrofes ou massacres, tendemos não apenas a sentir vergonha das preocupações rabugentas que temos com nossos problemas secundários, mas também a questionar o valor mais geral de todas as nossas atividades. Não sei se, como se diz, as pessoas que encaram a morte de perto por alguns segundos vêem, diante de si, um flash de suas vidas e sobre elas emitem um juízo final; mas sempre que escuto algo assim reflito sobre a minha própria vida e detenho-me um pouco na insignificância dos meus esforços, no egoísmo dos meus interesses e na estreiteza das minhas simpatias.

Foi o que aconteceu quando soube do atentado ao World Trade Center. Eu me ajeitava para escrever a resenha de um livro: não de um grande trabalho, mas de uma biografia competente, cuidadosa e um pouco aborrecida de uma figura histórica não muito relevante. O que poderia ser menos importante do que essa atividade quando comparada com o terrível destino de milhares de pessoas presas nos prédios em chamas — e que logo implodiriam? Uma resenha de livro, comparada às mortes de mais de trezentos bombeiros que perderam a vida cumprindo seu dever, sem falar nas outras milhares de perdas? Qual era o sentido de terminar uma tarefa tão insignificante quanto a minha?

No meu trabalho como médico de uma prisão, salvo umas poucas vidas por ano. Quando me aposentar, não terei salvo em toda a minha carreira a quantidade de vidas que foram perdidas em Nova York naqueles momentos horríveis, mesmo contando o tempo em que passei na África, onde era ridiculamente fácil, com os recursos médicos mais simples, salvar uma vida humana. Quanto ao que escrevo, talvez não tenha o peso de um grão de poeira numa balança: o que faço agrada a alguns, enraivece outros e é desconhecido da vasta maioria de meus vizinhos mais próximos, para não falar de círculos mais amplos. Impotência e futilidade são as duas palavras que vêm ao espírito.

E mesmo enquanto penso sobre mim, uma imagem é recorrente: a da pianista Myra Hess tocando Mozart na Galeria Nacional de Londres enquanto as bombas caíam sobre a cidade durante a Segunda Guerra Mundial. Nasci depois do fim da guerra, mas o heroísmo sereno daqueles concertos e recitais, transmitidos para todo o país, era ainda simbolicamente forte durante minha infância. O gesto de Myra Hess se tornava ainda mais forte porque ela era judia e o antissemitismo do inimigo era central na sua depravada visão do mundo; e também porque a música que ela tocava — uma das conquistas mais sublimes dentre as realizações humanas — emanava da mesma terra natal do líder dos inimigos, que representava as profundezas da barbárie.

Ninguém perguntou “Para quê esses concertos?” ou “Por que razão tocar Mozart quando o mundo está em chamas?”. Ninguém pensou “Quantas divisões militares tem Myra Hess?” ou “Qual é o poder de fogo de um rondo de Mozart?”. Todos entenderam que esses concertos eram, não no sentido material ou militar, um gesto desafiador de humanidade e cultura em face da brutalidade sem precedentes. Eram acerca do que estava em causa na guerra. Uma afirmação da crença de que nada poderia ou poderá corromper o valor da civilização; e de que nenhum revisionismo histórico, por mais cínico que seja, jamais subverterá essa nobre mensagem.

Lembro-me também de uma história contada pelo filósofo Karl Popper, um refugiado austríaco que fez da Grã-Bretanha o seu lar. Quatro homens cultos aguardavam, em Berlim, a sua esperada prisão pela Gestapo. Decidiram passar sua última noite juntos — possivelmente a última na Terra — tocando um quarteto de Beethoven. Não foram presos naquela noite, mas também expressaram com essa ação a fé de que a civilização transcende a barbárie, de que não obstante a aparente inabilidade da civilização de, naquela altura, resistir às investidas dos bárbaros, ainda valia a pena defendê-la. De fato, é a única coisa que vale a pena defender, porque é o que dá sentido às nossas vidas. Continue reading “O que temos a perder” »

Qual foi o primeiro atentado terrorista da história moderna?

Em tempos de terrorismo ocupando as manchetes com cada vez mais frequência pelo mundo, é natural questionarmos como e quando essa barbárie começou. A reportagem exibida no Fantástico deste domingo (03) saciou nossa curiosidade: O primeiro atentado terrorista de que se tem registro na era moderna aconteceu em Paris, no final do século XIX, deixando toda a sociedade da época em pânico. Ao contrário do que você deve estar pensando, ele não teve qualquer ligação com extremistas muçulmanos. Mas teve, isto sim, tudo a ver com o ódio ao Ocidente: foi motivado por ideais socialistas. Em 12 de fevereiro de 1984, o espanhol Émile Henry detonou uma bomba caseira de dinamite dentro de um café lotado. Saiba mais sobre esse triste episódio na reportagem de Marcos Uchôa, direto de Paris (clique no link para assistir no site do Fantástico).

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Interrogatório de Émile Henry na delegacia após sua prisão.

Sobre a reimpressão de “Mein Kampf”

Artigo de opinião de Stephen Hicks, professor de filosofia na Rockford University (EUA).

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As autoridades alemãs permitirão a reimpressão da obra Mein Kampf (Minha Luta) de Adolf Hitler, após décadas de censura. Pessoas decentes podem argumentar que o livro é muito perigoso para ser publicado. Mas o fato é que Mein Kampf é muito perigoso para não ser publicado. O grande medo é que as ideias de Hitler não estejam mortas e que seu livro precipite outro movimento social terrivelmente patológico. O nacionalismo e o socialismo ainda apelam a muitos. As combinações das duas ideologias atraem novos adeptos a cada dia na Europa e ao redor do mundo. Mein Kampf está disponível em muitas edições, em muitos idiomas e até mesmo online. Portanto, o furor relativo à sua reimpressão está mais ligado aos próprios alemães: eles podem lidar com isso? É sempre engraçado cutucar a reputação histórica alemã. Mas já se passaram três gerações desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mudanças culturais importantes ocorreram na Alemanha com respeito ao militarismo, autoritarismo, antissemitismo e outros elementos nacional-socialistas. Existe muita evidência de que a Alemanha de hoje está muito acima da média em civilidade e decência. Isso significa que o “controle cultural” pós-nazismo pode ser abolido.

Mesmo além do caso particular da Alemanha, existe um ponto importante e geral sobre a proibição de, até mesmo, as ideias mais repulsivas: a censura enfraquece nossa habilidade de combatê-las. Levi Salomon, palestrando para o Fórum Judaico para a Democracia e Contra o Antissemitismo, sediado em Berlim, opõe-se à reimpressão do livro Mein Kampf: “Esse livro está fora da lógica humana”. Talvez isso seja verdade. Mas o livro não está fora da experiência humana. Nós devemos entender a “lógica” das crenças nacional-socialistas, não importando o quão ilógicas possam ser na realidade. Estas crenças continuam a ter um apelo psicológico e social poderoso para muitos, então é crucial que toda a geração saiba exatamente quais são, por que atraem tantas pessoas – e como combatê-las. Os nazistas não eram somente alguns caras loucos que, por um golpe de sorte, chegaram ao poder. Por muito tempo uma visão caricatural do nacional-socialismo tomou conta da opinião pública.

Considere uma questão: Anos antes de os nazistas tomarem o poder, 3 vencedores do prêmio Nobel – Johannes Stark, Gerart Hauptmann e Philipp Lenard – apoiavam os nazistas. Também antes da chegada dos nazistas ao poder, muitos intelectuais com doutorado das melhores universidades alemãs escreveram livros que apoiavam a ideologia nacional-socialista. Entre eles estavam o historiador Dr. Oswald Spengler, que publicou seu best-seller The Decline of the West (A Decadência do Ocidente) em 1918. Spengler era o mais famoso intelectual alemão da década de 1920. O teórico jurista Dr. Carl Schmitt escreveu livros que ainda são reconhecidos como clássicos do século 20. O teórico e cientista político Moeller van den Bruck publicou The Third Reich (O Terceiro Reich) em 1923, o qual foi sucesso de vendas durante a década de 1920. E o filósofo Dr. Martin Heidegger, considerado por muitos como o detentor da mente filosófica mais original do século, apoiou ativamente os nazistas tanto na teoria como na prática. Muitos dos gênios apoiadores do nacional-socialismo eram extremamente cultos e se consideravam discípulos de Hegel, Marx e Nietzsche – e como responsáveis pelo trabalho vital e idealista de aplicação daquelas filosofias abstratas à política do mundo real. Então, o problema não é somente Adolf Hitler. Além do mais, se resolvermos censurar todos os escritos que influenciaram ou induziram ao nazismo, a lista seria muito longa.

Também é um fato relevante que muitos milhões de alemães votaram no Partido Nacional Socialista. Na decisiva eleição democrática de 1933, os nazistas venceram com 43% dos votos – mais que o total dos outros três partidos combinados. Em segundo lugar, estavam os Socialistas e em terceiro, os Comunistas, o que nos fala muito do clima político e intelectual da época. O sucesso eleitoral dos nazistas não foi também produto de um conjunto de ideias contidas somente em livros. Na construção do seu movimento, os nazistas utilizaram princípios modernos de marketing, logística e administração. Eles aplicaram novas teorias da psicologia e da sociologia para formar um movimento central de centenas de ativistas devotos, expandindo-se a um movimento de massa de milhões de seguidores. Mas por que tantos intelectuais concordavam com as ideias nacional-socialistas? Por que tantos voluntários, doadores e profissionais devotaram suas energias para a criação de um notável movimento político? Por que milhões de cidadãos alemães votaram – com frequência de forma entusiasmada – nos nazistas? Eram todos simplesmente estúpidos, depravados e insanos? Não, não eram. Gostando ou não do fato, o nazismo incorpora uma profunda filosofia de vida – e isso explica seu poder.

Pode-se argumentar que a filosofia nazista não é lógica e racional. Eu concordo. Ainda assim, poucas filosofias o são. Também pode-se argumentar que o nazismo, se seguido à risca, leva à psicose. Concordo novamente. Mesmo assim, isso se aplica também a muitas outras filosofias. Mas tampouco é lógico, racional ou sadio ignorar um conjunto de ideias que continua a inspirar movimentos ao redor do mundo. Suprimir ideias perigosas é muito mais perigoso que lutar contra elas abertamente. Uma sociedade livre pode funcionar somente se a maioria de seus membros entender quais os princípios que a norteiam e a razão pela qual são melhores que as alternativas. Isso pressupõe que eles sabem quais são alternativas, obviamente. Portanto, não existem atalhos em nossa educação cultural continuada. Todas as gerações devem discutir e debater as grandes ideias – verdadeiras ou falsas, conhecidas e possíveis, saudáveis ou perigosas – tornando-se intelectualmente preparadas para defender e expandir a civilização liberal.

Às vezes, o impulso à censura foca no simbolismo de permitir que livros malignos sejam publicados. Não censurar Mein Kampf, por exemplo, poderia ser uma declaração, pelas autoridades, de que consideram as ideias nacional-socialistas dentro do limite da opinião aceitável. Contudo, nós deveríamos lembrar que a sociedade livre rejeita a ideia de que é função das autoridades decidirem quais opiniões são aceitáveis. Esse é nosso trabalho, de cada um de nós, individualmente. Em sua opinião dissidente em um caso clássico de censura americana, o juiz Potter Steward fez uma observação pertinente: “A censura reflete a falta de confiança de uma sociedade em si mesma”. Existe um importante simbolismo intrínseco ao encorajamento da livre expressão: nós podemos lidar com isso. Então, vamos fortalecer tal autoconfiança. Nós temos a inteligência e o caráter para lidar com os Hitlers potenciais, assim como seus talentosos teóricos.

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