Qual é o seu ikigai?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Na cultura de Okinawa, no Japão, há um conceito muito simples e profundo, com infinitas camadas, conhecido como ikigai (生き甲斐). Em uma tradução aproximada, significa “razão de viver”. Também tem sido traduzido, de maneira bem livre, como “razão pela qual você se levanta de manhã”. No tradutor do Google, a tradução literal é “sal da vida”. No Ocidente, o conceito de ikigai tem sido aplicado à orientação vocacional e ao coaching no mundo corporativo. Graças a alguns estudos muito interessantes e à menção do conceito em palestras para grandes públicos, ele tem sido estendido a várias outras áreas. Veja uma síntese gráfica do ikigai:

ikigai

Vamos considerar que qualquer atividade que desenvolvemos pode cair em um desses quatro grandes conjuntos: (1) aquilo que amamos, (2) aquilo que fazemos bem, (3) aquilo do que o mundo precisa, e (4) aquilo que te pagam para fazer. Esses conjuntos têm diferentes interseções entre si. Pode haver uma atividade que você ame e faça bem; se você descobri-la, saiba que essa é a sua paixão. Outra atividade você faz bem e é rentável; essa é sua vocação. Em alguns casos, há uma atividade que você e ama e da qual o mundo precisa; essa é sua missão. Quando o mundo precisa de uma atividade, está disposto a pagar por ela e você está disposto a realizá-la, essa é sua profissão.

A maioria das pessoas tem apenas uma ocupação, que é um emprego ou bico que paga as contas, por mais que elas o detestem ou ganhem mal por ele. Outras mais realizadas têm uma profissão. Aquelas que têm mais sorte ainda encontram uma vocação e a realizam. Poucas pessoas conseguem ganhar dinheiro com uma paixão, deixando essa atividade no campo do hobby. Menos pessoas ainda conseguem botar pão na mesa com uma missão, mas, por acreditarem muito nela, acabam realizando-a no campo do voluntariado. Qualquer uma dessas quatro interseções pode levar a uma vida produtiva e feliz. Contudo, para viver uma vida plena, o ideal é conseguir colocar a principal atividade que você desenvolve na interseção dos quatro conjuntos. Este é o ikigai. Ou seja: uma vida plena envolve ocupar a maior parte do seu tempo e energia com algo que você ama, faz bem, o mundo precisa e ainda te pagam para fazer.

Além dessa atividade principal, é saudável dedicar-se também a atividades paralelas, como hobbies e voluntariado. Por exemplo, pode ser que você trabalhe como cientista, mas também goste muito de praticar artes marciais. Como essas duas coisas são muito diferentes entre si e exigem talento, treinamento e prática, é improvável que o seu ikigai esteja nas duas. Pode ser que você ame ambas, mas faça uma bem melhor do que a outra. Se isso for verdade, provavelmente as pessoas estarão dispostas a te pagar por uma delas, mas não pela outra. Assim, a decisão mais sábia para alguém que presta atenção à própria voz interior é focar naquela em que pode ter um desempenho mais elevado e fazer dela sua ocupação principal, mantendo a outra como hobby.

Em alguns casos mais raros, acontece de a pessoa amar muito uma atividade, fazê-la bem, mas o mundo achar que não precisa dela e, por isso, ninguém estar disposto a pagar a conta. Quem cai nesse tipo de combinação pode se perder em um vórtice de frustração e auto-piedade, como muitos gênios incompreendidos que não dão em nada. Contudo, algumas dessas pessoas à frente do próprio tempo têm uma ambição tão grande e uma capacidade de convencimento tão forte que conseguem mostrar ao mundo que ele realmente precisa de algo que sequer sabia existir. Pense no exemplo dos produtos criados pelo Steve Jobs, que não era bom em programação ou engenharia eletrônica, mas sabia como ninguém enxergar dois passos à frente e reger “orquestras” formadas por excelentes profissionais de diferentes áreas.

E já que estamos falando nele, recomendo que você assista abaixo ao famoso discurso de Steve Jobs na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, em 2005. Ele fala sobre ligar os pontos e descobrir o seu ikigai. Siga o conselho dele e não viva a vida de outra pessoa. Ninguém pode dizer a você qual é o seu ikigai. Descobri-lo é uma jornada pessoal, íntima e introspectiva. Contudo, você deve ficar constantemente atento aos sinais que indicam se você está ou não no caminho certo. Além disso, procure se cercar de pessoas que te puxam para cima e te deixam mais próximo do seu ikigai. Procurar o próprio ikigai pode parecer uma meta egoísta, mas uma pessoa plenamente realizada torna o mundo um lugar melhor para as outras pessoas, enquanto uma pessoa frustrada leva outras para o buraco com ela. Antes de arrumar o mundo, arrume o seu quarto.

O que faz um trabalho científico ser original?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

A originalidade é a principal diferença entre uma monografia de bacharelado (também conhecida como TCC), uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado. Enquanto nos dois primeiros níveis não é necessário apresentar um trabalho original, no terceiro a originalidade é uma condição obrigatória. No geral, isso significa dizer que, em uma monografia ou dissertação, não é necessário gerar conhecimento novo; basta o aluno resumir o conhecimento acumulado sobre um assunto de sua escolha, muitas vezes sem nem ao menos incluir uma opinião própria. Já no doutorado, o aluno é obrigado a apresentar uma novidade, senão seu trabalho de conclusão não pode ser chamado de tese. Mas o que garante a originalidade de um trabalho? Como diferenciar entre novidades e “mais do mesmo”? Essas perguntas não são tão fáceis de responder quanto parecem. A definição da originalidade de um trabalho científico depende basicamente do nível de rigor do curso de pós-graduação, da postura do orientador e da ambição do próprio aluno. Na média, o rigor varia muito entre culturas, atingindo seu nível máximo nos países anglo-saxões.

Em muitos cursos de pós-graduação de países latinos, como o Brasil e a Argentina, para uma tese ser considerada original é preciso muito pouco. Por exemplo, o doutorando pode simplesmente tomar como base um trabalho que ache interessante e aí mudar o táxon modelo ou a área de estudo, repetindo todo o resto da fórmula, e mesmo assim sua tese poderá ser aprovada. Obviamente, quem faz isso não está incorrendo em plágio. Mas por outro lado também não está sendo treinado corretamente no método científico e nem aprendendo a fazer boa ciência. Está apenas aprendendo um trabalho técnico, uma repetição de fórmulas. Já em países como EUA e Alemanha, um aluno de doutorado precisa ter uma nova ideia e testá-la para que seu trabalho possa ser chamado de tese. Não basta brincar de fazer um pouco diferente. É preciso pensar diferente, identificar os limites do conhecimento dentro do assunto escolhido e, a partir daí, criar e testar perguntas, hipóteses e previsões. Por exemplo, o aluno pode tomar como base diferentes fatos, hipóteses e teorias relacionadas ao táxon ou fenômeno de interesse, que já foram estudadas por colegas, e a partir delas fazer um raciocínio dedutivo que o leve a criar uma nova hipótese a ser testada.

É claro que essas diferenças não são uma questão de preto-e-branco. Há muitos trabalhos originais e relevantes que são desenvolvidos em outras culturas que não a anglo-saxã, assim como trabalhos repetitivos e monótonos desenvolvidos no Primeiro Mundo. Aliás, nos países desenvolvidos, às vezes vemos teses brilhantes que, na verdade, não saíram da cabeça do aluno, mas sim da cabeça do orientador. O orientador pensa de forma integrada em vários projetos, em diferentes níveis e numa escala de tempo grande, e apenas contrata doutorandos que trabalham como testadores das suas ideias. Nesses casos, qual é a relevância de uma tese dessas para a formação do jovem cientista? Por outro lado, há orientadores em países subdesenvolvidos que não ficam nada a dever aos seus colegas do Primeiro Mundo em termos de criatividade e originalidade e, além disso, treinam seus alunos corretamente.

Mas não dá para ignorar que, nos países subdesenvolvidos, o problema mais comum é a falta de treinamento no método hipotético-dedutivo. Considerando que a formação de um jovem cientista deveria ser focada principalmente no aprendizado desse método (além das outras habilidades básicas, como a comunicação escrita e oral), chega-se à conclusão lógica de que mesmo uma monografia de bacharelado deveria ser baseada em uma pergunta original. Senão, como o aluno vai aprender a usar o conhecimento acumulado para gerar conhecimento novo? Faz sentido obrigar o aluno a simplesmente mastigar e mastigar conhecimento na monografia e na dissertação, só cobrando dele criatividade no doutorado? Eu acho que não. Aliás, eu tenho certeza que não. Afinal de contas, em uma pós-graduação stricto sensu, queremos formar cientistas e não meros pesquisadores. A diferença entre os trabalhos de conclusão exigidos nos diferentes níveis acadêmicos deveria ser o grau de complexidade e aprofundamento, e não a originalidade. Desde a iniciação científica, os alunos precisam aprender a encontrar e processar conhecimento com o objetivo de produzir novidades.

Para concluir, sugiro aos cientistas aspirantes que procurem orientadores que valorizem a criatividade e a originalidade. Muitos alunos com bom potencial acabam mudando de carreira simplesmente por terem uma péssima primeira impressão da ciência no bacharelado, causada por professores que tratam seus laboratórios acadêmicos como se fossem linhas de produção de montadoras de carros. Você, que anda desapontado com a Academia: saiba que tem muita ciência interessante sendo desenvolvida por aí! Acorde, pois o seu laboratório não é o mundo! Não deixe que uma experiência ruim defina o conceito que você tem da ciência como um todo. Acredite: elaborar um projeto original dá um trabalhão, mas é infinitamente mais divertido e dá muito mais satisfação!

O que vi no TEDx Portal do Sol 2015

tedxpbNo último sábado (7), participei da primeira conferência TEDx na Paraíba. O evento aconteceu no Centro Cultural Ariano Suassuna, um espaço agradabilíssimo cedido pelo Tribunal de Contas da União (TCU), no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa. Apesar de ter sido realizado na capital paraibana, o evento não foi chamado TEDx João Pessoa, mas TEDx Portal do Sol. Não consegui descobrir o motivo dessa escolha, mas há uma chance de os organizadores concordarem comigo que a cidade mais oriental das Américas merecia um nome melhor. O TEDx Portal do Sol teve como tema um desafio: “Encare a possibilidade do salto”. Ao todo, 11 palestrantes subiram ao palco para contar suas histórias e comunicar suas ideias inovadoras. Eis um breve resumo dos talks:

Veja também: O que vi no TEDx Recife 2014

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EDUARDO VARANDAS
Um eterno inconformado

O procurador do trabalho e professor universitário Eduardo Varandas também é escritor e roteirista de cinema. No Ministério Público, atua contra o trabalho escravo, o trabalho infantil e todo tipo de injustiça social que, em pleno século 21, ainda afeta a nossa sociedade. No palco do TEDx, ele escolheu falar sobre um tema muito sério: a exploração sexual de crianças e adolescentes. Mostrando fotos e histórias de personagens reais com quem lidou durante muitos anos de carreira, ele compartilhou um pouco de sua experiência e sensibilizou a todos da importância de combater esse problema e promover um futuro mais digno para as nossas crianças.

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MURILO CAVALCANTI
Uma dor transformada em causa

Até 2004, Murilo era empresário, dono das melhores casas noturnas de Recife. Depois de sua irmã ser baleada durante um assalto e ficar paraplégica, ele começou a se interessar por segurança pública, estudou o tema a fundo e se tornou um dos maiores especialistas em políticas públicas de combate à violência urbana, sendo um grande estudioso do modelo de segurança cidadã implantado em cidades como Bogotá e Medellín, na Colômbia. Até poucas décadas, essas cidades estavam entre as mais violentas do mundo, conhecidas mundialmente pelos cartéis do narcotráfico liderados por Pablo Escobar. Atualmente, Murilo é secretário de Segurança Urbana da cidade do Recife e é co-autor do livro “As Lições de Bogotá e Medellín”, um relato com fotos e fatos de como essas cidades passaram a ser referência em políticas públicas de cidadania e prevenção à violência.

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FÁTIMA SOUTO
O canto das Sereias da Penha

Psicóloga por formação, Fátima souto lidera o projeto Sereias da Penha, que está gerando renda e mudando a vida das donas de casa moradoras da praia da Penha através do artesanato e do empreendedorismo. Ela montou uma cooperativa com as mulheres dos pescadores para produzir biojóias, acessórios e peças decorativas usando como matéria prima as escamas dos peixes que seus maridos diariamente trazem do mar. Essas escamas, que antes não tinham nenhum valor comercial, são hoje vendidas por cerca de 100 reais o quilo (mais caro que a própria carne dos peixes!). As peças produzidas são de tamanha beleza que elas já exportam para países como Suíça e Argentina, e já foram parar até no São Paulo Fashion Week.

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NAZARENO ANDRADE
Quem é quem na câmara?

Pesquisador e professor de computação da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Nazareno sempre foi interessado em política. Um dia ele resolveu usar seus conhecimentos de computação para desenvolver, junto com um grupo de alunos sob sua orientação, dois sistemas online bastante úteis à uma democracia mais eficaz. São os sites Quem me representa, onde o cidadão pode comparar as suas convicções pessoais com a forma como cada deputado votou em cada projeto de lei; e o House of Cunha, que mostra através de gráficos o posicionamento político de cada deputado e de cada partido.

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MARCOS PIRES
Advogado de poucas causas

Ele nasceu em berço de ouro, filho da família mais rica da Paraíba entre as décadas de 1950 e 1970. Cresceu numa mansão em Miramar, e recebeu em casa hóspedes ilustres como Roberto Carlos, Jô Soares, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Toquinho, Elza Soares e dois ex-presidentes da República: Castelo Branco e Costa e Silva. Morou em diversas cidades da Europa e gozou de quase tudo que o dinheiro pode comprar. Em 1979, no entanto, os negócios de sua família quebraram; os Pires faliram. Para defender o patrimônio dos pais, Marcos estudou Direito e virou advogado. Em sua palestra ele conta como era rico, ficou pobre e recomeçou tudo de novo. Basicamente, é isso; só que contado de uma maneira muito engraçada e com um cativante storytelling.

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OUTROS PALESTRANTES

Além desses, subiram ao palco do TEDx Portal do Sol outros seis palestrantes. Os escoteiros André Sena e Edmilson Fonseca contaram como cruzaram a Paraíba toda de bicicleta, passando por várias cidades, conhecendo muita gente, incentivando a doação de sangue para o Hemocentro e arrecadando doações em dinheiro para uma ONG que cuida de crianças com câncer. O publicitário Sérgio Aires contou um pouco da sua experiência com o ensino de música a crianças carentes de comunidades pobres através de um projeto social. Flávio Gomes contou como criou um banco comunitário e uma moeda própria que é usada na comunidade São Rafael, onde mora. O psicólogo Vital Queiroga contou como atende os garis de João Pessoa. E o designer Rodrigo Medeiros alertou sobre a importância do descarte adequado do lixo eletrônico.

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TEDx Portal do Sol

Coleção Guia do Estudante

Essa semana eu encontrei, sobre a mesa de estudos de um vestibulando, a coleção completa de apostilas para vestibular e Enem do site Guia do Estudante. São apostilas em formato de livros didáticos com o resumo dos assuntos e muitas questões para exercícios. Um volume para cada matéria do ensino médio. Não deu tempo de analisar os conteúdos, mas os livros são belíssimos, bem impressos em um papel de boa qualidade, com tabelas, gráficos e ilustrações bem coloridas.

guia do estudante 2015

O que mais me chamou a atenção, porém, é que cada volume trás na capa (vide fotos acima) um slogan muito criativo, sempre fazendo algum trocadilho com os assuntos das matérias para criar frases motivacionais. Como disse, não sei se o conteúdo supre as expectativas, mas a editora Abril deu um show de publicidade e marketing na escolha dos slogans. Olha que bem pensado:

REDAÇÃO – “Ponto final nas dúvidas”

PORTUGUÊS – “Prepare-se com realismo”

MATEMÁTICA – “A fórmula certa para aprender”

FÍSICA – “Acelere nos estudos”

QUÍMICA – “A solução ideal para você”

BIOLOGIA – “É hora de se adaptar às provas”

HISTÓRIA – “Revolucione suas notas”

GEOGRAFIA – “Siga as coordenadas certas”

Pirataria e direitos autorais

Série de três artigos de opinião de Dani Duc sobre este polêmico tema.


A ideia de direitos autorais parece bastante simples: se alguém produziu uma obra de arte, esta lhe pertence. Simples, moralmente justificável, quem seria contra? Mas a ideia de que os direitos autorais servem para proteger o autor já foi, há muito, pervertida. Hoje em dia o que temos são instituições usando a ideia moralmente defensável para proteger seu lucro e não o direito do criador sobre sua criatura. Eu abro o livro “O Guarani” da Martin Claret, e está escrito lá que xerocar o livro é crime e que estou prejudicando o direito do autor. Além disso consta o copyright de 2005 by Martin Claret.

A última vez que verifiquei, José de Alencar morreu em 1877. Como poderia eu prejudicar o seu direito ao xerocar a obra, que está amplamente disponível e pela qual nem a própria Martin Claret pagou nada, porque os direitos de autor expiraram há muito? Não posso, mas a repressão ao xerox está lá. A justificativa moral do direito do autor está a serviço da proteção do interesse da empresa, não do autor! Amigos, o que prejudica o autor é colocar o meu nome no trabalho de alguém, não xerocar ou escanear um livro! Copiar ou digitalizar um livro não prejudica o autor, nem tampouco a empresa que fez o livro.

A noção de que uma edição possa encalhar porque as pessoas estão xerocando loucamente a obra não entra em minha cabeça. O que eu vejo é que as pessoas xerocam livros quando elas não iriam comprá-lo de qualquer maneira, por um motivo ou outro. As vezes elas não tem dinheiro para comprar o livro, então xerocam. Mas o que eu sempre vejo nestes casos é que a pessoa compra o livro e abandona a cópia xerocada assim que consegue o dinheiro. As vezes a obra é rara, e não tem como comprar. Nesse caso a edição já está esgotada, então a xerox não está causando encalhe, e só existe porque a compra não é possível em primeiro lugar. Ela está ajudando a manter viva a obra.

Outras vezes, a pessoa não precisa da obra inteira, mas de apenas algumas páginas ou capítulos para consulta. A noção de que, se fosse impossível o xerox, a pessoa gastaria o preço de uma edição inteira para ter algumas páginas, é no mínimo cínica e no máximo cruel. Se a pessoa não precisa da obra inteira, é lamentável desperdício comprá-la, e ela sabe disso! Então irá até a biblioteca, pedirá emprestado e tirará uma cópia, mas o fato é que ela não iria comprar o livro em primeiro lugar! E eu conheço casos em que a pessoa, se vendo obrigada a xerocar uma parte da obra, gostou tanto que foi e comprou o livro!

Se você publica um livro acredito que seja seu direito vetar que outra editora publique o mesmo texto. Tudo bem você proibir outras edições do livro, mas não faz sentido impedir a cópia xerox para uso privado! Tudo o que as editoras dizem em contrário é simplesmente mentira! Conheço casos de autores que liberaram a sua obra na internet, mesmo tendo lançado a versão em papel. Isto não parece ter prejudicado as vendas, ao contrário. Um destes autores é o Aurélio Marinho. Ele publicou pela Novatec o Expressões Regulares – guia de consulta rápida. Mas não precisa comprar, se não quiser. Está disponível online. Em vez de fracassar, agora saiu uma nova edição, revista e ampliada.

Frases como “A fotocópia de qualquer folha deste livro é ilegal e configura uma apropriação indevida dos direitos intelectuais e patrimoniais do autor” são simplesmente mentirosas! A primeira mentira é de que a reprodução de uma folha do livro é ilegal. Veja a lei de direitos autorais, artigo 46: “Não constitui ofensa aos direitos autorais: (…) II – a reprodução, em um só exemplar de pequenos trechos, para uso privado do copista, desde que feita por este, sem intuito de lucro”. Então eu posso reproduzir uma folha do livro para meu próprio uso sem ferir a lei.

A segunda mentira é que estarei me apropriando dos direitos intelectuais do autor. Isso só ocorreria se eu pegasse o texto dele e colocasse meu nome, como se eu fosse o autor. Reproduzir “qualquer folha” do livro não é me apropriar dos direitos intelectuais do autor! E nem dos materiais, aliás. Seria apropriação dos direitos materiais se eu fosse uma editora que pegasse o texto, fizesse uma edição e lançasse nas livrarias sem sequer consultá-lo ou pagá-lo. Proibir o xerox de “qualquer folha” do livro chega a ser irônico, uma vez que seria impossível a um autor se graduar em qualquer área do saber sem nunca sequer ter lido um xerox.

Na verdade, a editora está tentando se defender do que ela acredita que irá prejudicá-la, e não o autor. E este é o meu principal ponto: quando as editoras alegam estar defendendo os direitos do autor, fazendo você se sentir um monstro porque xerocou uma obra, estão mentindo. Elas não estão interessadas no autor, estão apenas deturpando aquele conceito simples, moral e justificável que eu citei no começo deste post, para seus próprios fins. Elas tem sua parcela de lucro e quando olham aqueles estudantes xerocando pensam que poderiam estar ganhando ainda mais, se apenas eles comprassem em vez de xerocar.

Notem que as editoras não estão perdendo as vendas dos estudantes, porque – convenhamos – estas nunca pertenceram às editoras. O que elas pretendem, na verdade, é expandir as suas vendas, forçando os estudantes a comprar. É bem diferente. Aparentemente, é como se as editoras vendessem 100 livros normalmente, mas, por causa das xerox, estão vendendo apenas 70. Isso não é verdade. O mercado deles sempre foi de 70 livros, como expliquei anteriormente. No entanto eles querem expandi-lo à força para 100 livros, na base da coerção moral e legal. E isso, não uma xerox, é que é injustificável.


Eu fico lendo sobre a Indústria de Entretenimento choramingando sobre a injustiça e a maldade humana, com todas essas pessoas ruins que ficam pirateando, roubando conteúdo de pobres autores que dependem apenas de seu talento para sobreviver, e dou risada. Os estertores de uma indústria em extinção, processando seus antigos clientes, berrando sobre pirataria e autores explorados chama a atenção de ativistas e analistas. Eles enchem jornais e blogs escrevendo – digo, formando nossa opinião – que o problema da indústria é que o modelo de negócios mudou e a Indústria do Entretenimento vai ter que se adaptar, vender mp3 pela internet, fazer que nem a Apple, sempre tão à frente de seu tempo.

Mas o problema de verdade, que essa Indústria já percebeu e por isso berra e late na esperança vã de que as pessoas não percebam, não é a mudança do modelo de negócios. O problema de verdade é que os artistas, com a internet e o mp3, não precisam mais da Indústria! A Indústria do Entretenimento não está só com um modelo de negócios obsoleto, ela própria está obsoleta. Quando se vendia música em objetos físicos, uma Industria era necessária para prensar, encaixotar, distribuir e divulgar o disco… Sem essa Indústria, o artista não tinha como chegar no público.

As peças novas foram se encaixando e derrubando todo o esquema anterior. Com um site cheio de mp3 você distribui sua música para o mundo todo, instantaneamente. E quanto à divulgação, a internet já mostrou que cria seus próprios fenômenos e celebridades sem dar a mínima pro que a Time Warner acha ou quer promover. Muitos memes e virais estouraram e lá foi a velha mídia correr atrás, pensando “como não vimos isso?”. Inventaram uma expressão descoladinha para a coisa, “marketing viral”, mas o grande lance é: o artista não precisa mais da Indústria. Ele pode entrar em contato direto com o público e pensar ele mesmo em um novo modelo de negócio.


Das mentiras que mais me incomodam na atual campanha de copyright é a de que a lei está sendo usada para proteger o trabalho de pessoas criativas. Isso é para o que a lei deveria estar sendo usada. Mas hoje ela está sendo usada é para proteger lucros de uma indústria em obsolência, e como efeito colateral disso, está tendo o efeito exatamente inverso de seu propósito original. A lei de copyright está matando a arte caseira, feita sem a anuência das grandes indústrias. Ou, ao menos, está sufocando.

Um artista é, na verdade, um transformador mais do que um criador. Arte não sai do zero, do nada. A cultura humana, incluindo a arte, é um fenômeno social. Não existe “originalidade” em seu estado puro e destilado. Um artista sempre estará sob influência de outros. Aliás, originalidade, tal como a conhecemos hoje, é conceito novo, datado do romantismo. Até o século 18, ser “original” era uma característica ruim em arte. Existiam modelos a serem seguidos, e artista bom era quem seguia com maestria estes modelos. Não é apenas natural, mas é vital que trabalhos de arte, junto com toda uma outra gama de coisas, claro, sejam usados e transformados em novos trabalhos de arte.

A ideia de copyright é boa:  se você faz uma obra de arte, ela é sua. E é mesmo! Arte é trabalho (apesar do que muitas sogras acham), e o fruto de seu trabalho é, por direito incontestável, seu. Portanto, se você faz algo, eu não posso pegar esse algo e dizer que fui eu que fiz, ou publicar esse algo em algum lugar e ganhar dinheiro sem te falar nada, ou mudar esse algo em uma coisa nova e dizer que foi você que fez. A baderna se complica quando corporações entram na jogada. Corporações têm, legalmente, direitos e responsabilidades como pessoas.

O problema é que uma corporação não é uma pessoa. Ela é composta de várias pessoas, e na maioria dos casos, um monte de pessoas tem muito, mas muito mais poder do que uma só. E quando ela usa esse poder contra indivíduos é como um cara entrar no ringue contra 15 comandos da SWAT bem treinados que “são uma pessoa só”. A corporação posa como vítima de abusos de copyright que são questionáveis em primeiro lugar, age como se fosse um artista prejudicado em seu trabalho e usa o poder de milhares de indivíduos combinados contra um só.

Claro que as corporações não esperam que você as veja como, literalmente, uma pessoa que compôs a obra de arte, então ela antropomorfiza – diz estar agindo em nome das pessoas que o fizeram, quando não está. Ela, ou melhor, os indivíduos que a compõem, agem em seus próprios nomes. Ao usar o poder de milhares de pessoas agindo coordenadamente contra apenas uma de modo a sufocar algo que não apenas é natural, mas necessário para a evolução da arte, as corporações estão sufocando a arte.

Eu não acredito que corporações devam ser tratadas como indivíduos. Corporações são o resultado da soma do trabalho de muitos indivíduos, e devem ser tratadas como tal. As relações legais indivíduo-corporação, indivíduo-indivíduo e corporação-corporação são diferentes e devem ser tratadas como diferentes. Se alguém quiser transformar, usar, adaptar, mudar, ilustrar ou musicar um trabalho meu, vá em frente. Não precisa me pedir permissão, me avisar, ou pagar nada – apenas me dê o crédito quando eu merecer.

Se alguém quiser compartilhar algo que leu meu, reproduzir no seu blog, repostar nas redes sociais, imprimir em panfletos, citar em livros, usar para ilustrar um conto seu, vá em frente. Não precisa me avisar, pedir permissão nem me pagar nada (a não ser que queira, dinheiro é bem-vindo). Basta me dar o crédito quando eu merecer o crédito. Se você tem uma empresa, ou está agindo em nome de uma, fale comigo primeiro. Vamos conversar. Seu caso é diferente.

 

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