O que vi no TEDx Portal do Sol 2015

tedxpbNo último sábado (7), participei da primeira conferência TEDx na Paraíba. O evento aconteceu no Centro Cultural Ariano Suassuna, um espaço agradabilíssimo cedido pelo Tribunal de Contas da União (TCU), no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa. Apesar de ter sido realizado na capital paraibana, o evento não foi chamado TEDx João Pessoa, mas TEDx Portal do Sol. Não consegui descobrir o motivo dessa escolha, mas há uma chance de os organizadores concordarem comigo que a cidade mais oriental das Américas merecia um nome melhor. O TEDx Portal do Sol teve como tema um desafio: “Encare a possibilidade do salto”. Ao todo, 11 palestrantes subiram ao palco para contar suas histórias e comunicar suas ideias inovadoras. Eis um breve resumo dos talks:

Veja também: O que vi no TEDx Recife 2014

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EDUARDO VARANDAS
Um eterno inconformado

O procurador do trabalho e professor universitário Eduardo Varandas também é escritor e roteirista de cinema. No Ministério Público, atua contra o trabalho escravo, o trabalho infantil e todo tipo de injustiça social que, em pleno século 21, ainda afeta a nossa sociedade. No palco do TEDx, ele escolheu falar sobre um tema muito sério: a exploração sexual de crianças e adolescentes. Mostrando fotos e histórias de personagens reais com quem lidou durante muitos anos de carreira, ele compartilhou um pouco de sua experiência e sensibilizou a todos da importância de combater esse problema e promover um futuro mais digno para as nossas crianças.

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MURILO CAVALCANTI
Uma dor transformada em causa

Até 2004, Murilo era empresário, dono das melhores casas noturnas de Recife. Depois de sua irmã ser baleada durante um assalto e ficar paraplégica, ele começou a se interessar por segurança pública, estudou o tema a fundo e se tornou um dos maiores especialistas em políticas públicas de combate à violência urbana, sendo um grande estudioso do modelo de segurança cidadã implantado em cidades como Bogotá e Medellín, na Colômbia. Até poucas décadas, essas cidades estavam entre as mais violentas do mundo, conhecidas mundialmente pelos cartéis do narcotráfico liderados por Pablo Escobar. Atualmente, Murilo é secretário de Segurança Urbana da cidade do Recife e é co-autor do livro “As Lições de Bogotá e Medellín”, um relato com fotos e fatos de como essas cidades passaram a ser referência em políticas públicas de cidadania e prevenção à violência.

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FÁTIMA SOUTO
O canto das Sereias da Penha

Psicóloga por formação, Fátima souto lidera o projeto Sereias da Penha, que está gerando renda e mudando a vida das donas de casa moradoras da praia da Penha através do artesanato e do empreendedorismo. Ela montou uma cooperativa com as mulheres dos pescadores para produzir biojóias, acessórios e peças decorativas usando como matéria prima as escamas dos peixes que seus maridos diariamente trazem do mar. Essas escamas, que antes não tinham nenhum valor comercial, são hoje vendidas por cerca de 100 reais o quilo (mais caro que a própria carne dos peixes!). As peças produzidas são de tamanha beleza que elas já exportam para países como Suíça e Argentina, e já foram parar até no São Paulo Fashion Week.

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NAZARENO ANDRADE
Quem é quem na câmara?

Pesquisador e professor de computação da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Nazareno sempre foi interessado em política. Um dia ele resolveu usar seus conhecimentos de computação para desenvolver, junto com um grupo de alunos sob sua orientação, dois sistemas online bastante úteis à uma democracia mais eficaz. São os sites Quem me representa, onde o cidadão pode comparar as suas convicções pessoais com a forma como cada deputado votou em cada projeto de lei; e o House of Cunha, que mostra através de gráficos o posicionamento político de cada deputado e de cada partido.

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MARCOS PIRES
Advogado de poucas causas

Ele nasceu em berço de ouro, filho da família mais rica da Paraíba entre as décadas de 1950 e 1970. Cresceu numa mansão em Miramar, e recebeu em casa hóspedes ilustres como Roberto Carlos, Jô Soares, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Toquinho, Elza Soares e dois ex-presidentes da República: Castelo Branco e Costa e Silva. Morou em diversas cidades da Europa e gozou de quase tudo que o dinheiro pode comprar. Em 1979, no entanto, os negócios de sua família quebraram; os Pires faliram. Para defender o patrimônio dos pais, Marcos estudou Direito e virou advogado. Em sua palestra ele conta como era rico, ficou pobre e recomeçou tudo de novo. Basicamente, é isso; só que contado de uma maneira muito engraçada e com um cativante storytelling.

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OUTROS PALESTRANTES

Além desses, subiram ao palco do TEDx Portal do Sol outros seis palestrantes. Os escoteiros André Sena e Edmilson Fonseca contaram como cruzaram a Paraíba toda de bicicleta, passando por várias cidades, conhecendo muita gente, incentivando a doação de sangue para o Hemocentro e arrecadando doações em dinheiro para uma ONG que cuida de crianças com câncer. O publicitário Sérgio Aires contou um pouco da sua experiência com o ensino de música a crianças carentes de comunidades pobres através de um projeto social. Flávio Gomes contou como criou um banco comunitário e uma moeda própria que é usada na comunidade São Rafael, onde mora. O psicólogo Vital Queiroga contou como atende os garis de João Pessoa. E o designer Rodrigo Medeiros alertou sobre a importância do descarte adequado do lixo eletrônico.

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TEDx Portal do Sol

O mundo em que nasci

Minha primogênita nasceu e eu fiquei refletindo sobre o quanto esse mundo em que ela chegou é diferente daquele que eu conheci na infância. Cheguei à conclusão que, em certo sentido, sou velho. Pra começo de conversa, eu e ela nascemos em milênios diferentes: eu no segundo e ela no terceiro milênio da era cristã. Além disso, nascemos em séculos diferentes: eu no século 20 e ela no 21. Quando eu cheguei aqui, em 1989, haviam menos de 5 bilhões de pessoas no mundo, enquanto ela deve ser a pessoa viva de número 7 bilhões e alguma coisa. Ela talvez nunca entenderá completamente as coisas que vou lembrar agora, mas quem, como eu, nasceu nos lendários “anos 80” e viveu a infância intensa dos “anos 90”, com certeza entenderá a nostalgia.

1989

Veja também: Murilo Gun nos anos 80

Nasci na época da Guerra Fria. O capitalismo representado pelos Estados Unidos e o socialismo representado pela União Soviética dividiam o mundo em dois, e essa divisão era simbolizada pelo Muro de Berlim, que só foi derrubado meses depois da minha chegada ao mundo. O Brasil tinha acabado de sair da ditadura militar e eu fui testemunha (sem entender nada, é claro) das primeiras eleições presidenciais após a redemocratização do país. Collor foi eleito presidente, mas sofreu o impeachment pelo envolvimento em casos de corrupção. O dinheiro que ele supostamente desviou dos cofres públicos era muito diferente desse que usamos hoje. Até a implantação do Plano Real em 1994 pelo governo FHC, ou seja, até os meus 5 anos de idade, usávamos uma moeda chamada “cruzeiro”, que valia muito pouco. Sou ou não sou velho?

Naquelas eleições de 1989, pouca gente sabe, mas até Silvio Santos se candidatou a presidente! Ele mesmo: o dono do SBT. E por falar em dono de emissora de TV, foi nesse mesmo ano que o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal, comprou a rede Record. Já naquela época, porém, era a rede Globo que dominava a preferência nacional. Quando eu ainda era um bebê, meus pais assistiam um Jornal Nacional bem diferente: sem cenário, vinhetas e grafismos. Menos de um ano após o fim do Cassino do Chacrinha, a Globo estreava o Domingão do Faustão, no ar até hoje. Eram comuns comerciais de cigarro, bem como dos carros da moda: Fusca, Chevette, Kombi… Por falar em carros da moda, a modinha das manhãs de domingo era assistir as corridas de Ayrton Senna na Fórmula 1. E já que falamos de esporte, cheguei a ver Zico jogar e comemorei o tetra do Brasil na Copa de 1994. Ainda na primeira infância, convivi com grandes bandas e músicos, como Legião Urbana e Luiz Gonzaga. Além disso, vi surgir os Mamonas Assassinas; e chorei as suas mortes naquele trágico acidente aéreo.

Eu sou da época em que se vendiam discos de vinil. Lembro de colocá-los para tocar na radiola do meu pai e de gravar fitas cassete por cima de outras no rádio, sempre precisando girar para rebobinar com uma caneta Bic. Naquela época analógica, dificilmente ouvíamos música ou TV sem algum chiado. Eu assistia filmes e desenhos no vídeo cassete, sempre cuidando de rebobinar a fita VHS antes de devolvê-la à locadora para não pagar multa. Eu jogava Mario World num Nitendo, e precisava soprar a fita para ela pegar. Eu sou do tempo dos disquetes, dos minigames e dos celulares “tijolão” com toques monofônicos. Eu sou do tempo de “bater um retrato” com câmera analógica e depois levar o filme de “36 poses” para revelar as fotos, torcendo para nenhuma ter queimado. Eu sou do tempo de enviar pelos correios cartas redigidas em máquina de escrever. Sou da época em que curso de datilografia enriquecia o currículo.

Vivi toda a infância e adolescência em uma época analógica, na qual o uso de computadores e o acesso à internet eram atividades restritas a poucos especialistas. Muito pela condição econômica da minha família, até a vida adulta eu não sabia absolutamente nada de informática. Só quando comecei a trabalhar foi que pude fazer um curso básico e perder o medo de mexer em computador. Catarina, ao contrário, chega num mundo onde as crianças praticamente já nascem sabendo mexer em smartphones e tablets de última geração, mas que, no entanto, parecerão as mesmas velharias quando ela for contar a meus netos.

Anunciação de Catarina

Senhoras e senhores, é com grande emoção e com muito prazer que vos anuncio que, às 17 horas e 27 minutos do dia 22 de agosto de 2015, na cidade de João Pessoa, minha primogênita Catarina Teixeira Andrade nasceu saudável, pesando 3,480 quilos e medindo 50 centímetros de altura. Rebeka está bem e se recupera na materidade CLIM, localizada no comecinho da avenida Epitácio Pessoa, no centro da capital. Aos parentes e amigos, ela informa que visitas são bem vindas. Aproveito a ocasião para lembrar a quem estiver vindo do oriente que tragam ouro, porque incenso e mirra nós já temos o suficiente. No mais, obrigado pela vossa atenção. Tenham todos uma ótima semana.

Catarina 2

Para reflexão, quero compartilhar com vocês este texto do poeta e escritor libanês Khalil Gibran (1883–1931), claramente inspirado no Salmo 127:3-5. “Vossos filhos não são vossos filhos”, diz ele. “São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas para longe. Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria: pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável”.

O que mudou na educação em 40 anos

Esta famosa charge foi publicada em 2009 pelo jornal francês Ouest-France.
Ela sintetiza bem o que mudou na educação nas últimas 4 décadas.

que-notas

“As escolas particulares vivem em pânico, com medo de perder alunos, e a questão financeira se sobrepõe à pedagógica, gerando uma tolerância que leva ao caos. Antigamente, ao ocorrer um problema entre um professor e um aluno, a família era chamada para enquadrar o aluno. Hoje, quem é enquadrado é o professor! (…) O professor, atualmente, é um profissional desprestigiado, muito mal remunerado e que foi destituído de autoridade (…). No passado, o pai entregava o aluno à professora com a seguinte recomendação: ‘Se ele não se comportar direitinho, por favor, me avise que eu dou um jeito nele!’. Hoje, pelo contrário, as famílias processam o professor por ter exigido melhora no comportamento do aluno e, o que é pior, ouvem apenas a versão do pequeno delinquente!” (professor Pier (Pierluigi Piazzi), em seu livro Estimulando Inteligência (São Paulo: Aleph, 2014, páginas 68 e 152).

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Leia abaixo o relato de uma professora de matemática do município de Santo Antônio do Aventureiro, interior de Minas Gerais:

Semana passada comprei um produto que custou R$ 15,80. Dei à balconista R$ 20,00 e peguei na minha bolsa 80 centavos, para evitar receber ainda mais moedas. A balconista pegou o dinheiro e ficou olhando para a máquina   registradora, aparentemente sem saber o que fazer. Tentei explicar que ela tinha que me dar R$ 5,00 de troco, mas ela não se convenceu e chamou o gerente para ajudá-la. Ficou com lágrimas nos olhos enquanto o gerente tentava explicar e ela aparentemente continuava sem entender. Por que estou contando isso? Porque me dei conta da evolução do ensino de matemática desde 1950, que foi assim:

Ensino de matemática em 1950:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é igual a 4/5 do preço de venda.
Qual é o lucro?

Ensino de matemática em 1970:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é igual a 4/5 do preço de venda, ou seja, R$ 80,00.
Qual é o lucro?

Ensino de matemática em 1980:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
Qual é o lucro?

Ensino de matemática em 1990:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
Escolha a resposta certa que indica o lucro:
( )R$ 20,00 ( )R$ 40,00 ( )R$ 60,00 ( )R$ 80,00 ( )R$ 100,00

Ensino de matemática em 2000:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
O lucro é de R$ 20,00.
Está certo?
( )SIM ( )NÃO

Ensino de matemática em 2010:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
Se você souber ler, coloque um X no R$ 20,00.
( )R$ 20,00 ( )R$ 40,00 ( )R$ 60,00 ( )R$ 80,00 ( )R$ 100,00

Ensino de matemática em 2015:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
Se você souber ler, coloque um X no R$ 20,00.
(Se você é afrodescendente, especial, homossexual ou de qualquer outra minoria social, não precisa responder pois é proibido reprová-los.)
( )R$ 20,00 ( )R$ 40,00 ( )R$ 60,00 ( )R$ 80,00 ( )R$ 100,00

Motivando crianças a estudar

Artigo de Adonai Santanna, professor de matemática da UFPR.

A palestra mais marcante em minha carreira foi para uma turma de quarta série do primário de uma pequena escola particular de Curitiba. A professora daquela turma queria que eu falasse com seus alunos sobre água. É claro que fiz uma breve apresentação sobre o tema pedido. Mas logo em seguida aproveitei a oportunidade para provocar aquelas criaturas ainda pouco contaminadas pelo desestimulante sistema educacional de nosso país. O tema da água foi usado apenas como um gancho para falar sobre ciência.

Pedi às crianças que fizessem uma lista de três artistas brasileiros. Todos rapidamente citaram dezenas de nomes (apesar de demonstrarem conhecer apenas atores e atrizes de telenovelas). Em seguida pedi três nomes de atletas brasileiros, e eles também citaram, sem dificuldade, dezenas de nomes amplamente divulgados pela mídia e que se destacam principalmente no futebol. Por último, solicitei uma lista de três cientistas brasileiros. O silêncio foi absoluto. O mais surpreendente, porém, foi a conclusão deles: Disseram que não sabiam nomes de cientistas brasileiros simplesmente porque eles não existem. Expliquei àquelas crianças que existem, sim, cientistas brasileiros, sendo que muitos deles são conhecidos no mundo inteiro por trabalhos muito importantes. Mas não quis perder tempo com citações de nomes e obras que eles imediatamente esqueceriam.

Procurei, então, seguir o caminho da provocação. E eu adoro perturbar a acomodada paz intelectual de pessoas, principalmente crianças. Falei para elas que a estrutura molecular da água é estudada, em parte, por um ramo da ciência conhecida como física quântica. Uma vez que o ramo mais elementar da física quântica é a mecânica quântica não relativística, parecia sensato falar algo sobre essa fabulosa teoria centenária. Ninguém sabe ao certo o que é mecânica quântica. Não existe na literatura especializada qualquer formulação axiomática que seja amplamente aceita como uma definição precisa dessa área do conhecimento. Mas sabe-se que a mecânica quântica tem características notáveis que se opõem drasticamente à mecânica clássica e até mesmo aos nossos modos intuitivos de pensar sobre o mundo que nos cerca.

Sobre o que eu poderia discutir com aquelas crianças? Eu poderia falar sobre probabilidades em mecânica quântica, sobre o fenômeno de não-localidade, sobre a discretização de níveis de energia e de estados de sistemas de partículas, sobre as peculiares propriedades topológicas de spin, sobre o problema da não-individualidade, etc. Mas tudo isso parece muito difícil de adaptar para uma linguagem acessível a crianças de 9 anos. Então decidi discutir com elas sobre realismo. Um realista é aquele que considera que o mundo dos fenômenos mensuráveis independe do ato da observação. E a mecânica quântica colocou em desconfortante xeque a visão realista que tão bem se aplica à mecânica clássica.

O teorema de Bell, por exemplo, e sua confirmação experimental devida a Alain Aspect, foi uma grande façanha intelectual que despertou discussões até hoje muito ativas sobre os aspectos não realistas da mecânica quântica. Evidências muito convincentes apontam que o ato da observação, de fato, afeta sistemas físicos quânticos. Lembrando disso e apontando para a mesa da professora, fiz a seguinte pergunta para a turma: “Se todo mundo sair desta sala e ninguém estiver olhando para a mesa da professora, esta mesma mesa continua existindo?”. A resposta imediata, animada e unânime foi: “Claro!”. Insisti: “Mas se ninguém estiver olhando para a mesa, como saber se ela continua existindo?”. A resposta agora foi um novo silêncio.

Meninos e meninas pareciam estar engajados em agoniados pensamentos. Aos poucos fui explicando para aquelas perturbadas criaturinhas que ninguém sabe ao certo se a mesa continua existindo ou não, se não houver pessoa alguma a observando. Falei para as crianças que algumas teorias dizem que a mesa ainda está lá; mas outras dizem que não. E as teorias que dizem que a mesa não está necessariamente no mesmo lugar onde foi observada pela última vez são as mesmas teorias físicas que ajudam a compreender a estrutura molecular da água. Os olhares daqueles alunos foram assombrosos. Ficaram simplesmente desnorteados.

O resultado mais animador dessa palestra veio dois ou três dias depois. Recebi uma carta de uma das meninas da turma. O nome dela é Sarah. Na carta, que ainda guardo, ela agradecia pela palestra e dizia que ainda estava pensando no problema da mesa da professora. Bingo! Objetivo alcançado. Educação científica não se faz com amontoados de fatos ou teorias que visem estabelecer uma zona de conforto intelectual. Educação científica se faz com o estímulo à busca pelo conhecimento. E a busca ao conhecimento somente pode ser promovida onde houver perguntas relevantes não respondidas.

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