A percepção do tempo no passado

Crônica de Carlos Bacellar, historiador e professor, publicada no portal Brasil Post.

Veja também: O tempo parece mais acelerado?

Há quase 20 anos que observo uma norma sagrada em minhas férias: esconder o relógio de pulso na gaveta, já no primeiro dia, e assim fazer questão de não saber as horas. Acordar no momento que acabar o sono, comer quando bater a fome, fazer tudo livremente, sem as amarras opressoras do tempo. Esta operação, simples em sua aparência, é na realidade difícil e quase impossível para muitos. Implementá-la é verdadeiramente uma operação de guerra, de tal modo que estamos pautados pelo controle do tempo. Tempo é dinheiro, já se diz por aí, mas eu penso que o tempo e seu controle é umas das razões para vivermos estressados.

Na realidade, o homem controla o tempo desde sempre. Olhando o sol, tentava estimar o andar das estações do ano, para garantir o melhor usufruto da lavoura. Diversas ruínas do passado demonstram preocupação em identificar os ciclos do ano, buscando capturar o momento exato do solstício solar. Mas, afora isso, temos certa dificuldade em imaginar como nossos antepassados se viravam sem o célebre relógio, seja ele de pulso, de bolso ou de parede. Ou, hoje, na telinha informatizada do celular e dos computadores. “Como nossos antepassados agendavam seus compromissos?”, perguntou-me certa vez um aluno. Bem, antes de tudo, não podemos imaginar que, no passado, as pessoas vivessem no mesmo ritmo alucinado de nossos tempos. Esse tempo corrido, curto, sempre insuficiente é coisa recente na civilização humana.

Se tentarmos imaginar o dia-a-dia de nossos antepassados, podemos chegar à conclusão de que o tempo deles era de outra magnitude. Não tinham compromissos em série, necessidade de controlar as horas do dia. Para eles, os compromissos se davam no âmbito dos dias da semana, e olhe lá. Na rotina repetitiva de pequenos lavradores, os compromissos eram preparar a terra, plantar e colher, tarefas que não ocupavam horas, mas sim dias ou semanas. Essa era a referência básica: saber-se o dia da semana, para se lembrar com precisão quando seria o domingo, dia de se ir para a vila mais próxima, para fazer compras, participar da missa e tratar de assuntos que exigiam a coletividade.

O dia da semana ou do mês era fundamental, também, para identificar os compromissos impostos pela Igreja: Quaresma, Semana Santa, Advento, dentre os mais importantes. Esse controle do tempo era fundamental para se garantir a observância dos ritos católicos. A interdição de se comer carne na Semana Santa, a interdição ao sexo na Quaresma e no Advento, eram obrigações temporais impostas pela Igreja, mas que, nas sociedades do Velho Mundo, estavam intimamente relacionadas ao calendário da lavoura. Evitar o sexo na Quaresma e no Advento estava diretamente relacionado aos tempos do plantio e da colheita, momentos em que todos o esforço da família camponesa deveria se voltar para a garantia da sobrevivência material.

No entanto, ao se mudarem para o Novo Mundo, os colonos europeus depararam com um calendário agrícola invertido, por se estar, agora, no hemisfério Sul. Como bons católicos, mantiveram a estrita observância do calendário religioso, a despeito de seu conflito com as datas do campo. A Igreja venceu este desafio. Mantinha, assim, o controle do tempo, manifestado claramente pelos sinos das igrejas, que, ao soarem, indicavam aos fiéis os horários das missas e, por tabela, referenciavam o tempo da vida cotidiana. Mas, como se sabe, o Brasil era um país eminentemente rural há até poucas décadas e, portanto, poucos podiam ouvir, de seus sítios, os badalares marcadores do tempo.

De qualquer maneira, estas populações do passado não tinham relógios, que somente foram se tornar usuais no século 20. Com o início do processo de modernização capitalista, essa realidade era um problema óbvio. Como implementar, por exemplo, a ferrovia, com seus trens devendo sair a horários firmemente pré-estabelecidos? Ainda hoje, os ingleses, inventores da ferrovia, têm verdadeira obsessão pelo tempo, obrigando-nos a acreditar que aquele trem marcado para as 18h03 efetivamente sairá, sem atrasos, nesse horário quebrado. Mas a grande solução para garantir os passageiros na estação na hora certa foi construir grandes torres com um formoso e grande relógio no topo. Hoje, com nossas cidades tomadas de edifícios altos, fica um tanto difícil imaginar tal preocupação. Mas se imaginarmos a São Paulo de casario baixo de finais do século 19, é fácil entendermos que o relógio da Estação da Luz poderia ser visível de muito longe!

Mas talvez a mais impressionante faceta da despreocupação com o tempo que caracterizava nossos antepassados era a idade. Número fatídico e cambiante, a nós atrelado ao nascermos, que aumenta de maneira perversa e irreversível ao longo dos anos e que leva muitas mulheres a ocultá-lo em verdadeira operação de guerra. Quem não sabe sua idade, afinal de contas? Esta óbvia constatação é recente em termos históricos: a maioria das pessoas efetivamente não sabia, ou sabia muito mal, quantos anos tinha. Mas afinal, para que necessitamos saber nossa idade? O mundo contemporâneo exige o controle de nossa idade para que nossos direitos e obrigações sejam observados. São as idades que regulamentam o acesso à escola, bem como à série de vacinas que nos são dolorosamente reservadas. Precisamos alcançar certa idade para sermos legalmente aptos para casar. E é a idade que nos define a maioridade e o momento em que podemos alcançar a sempre sonhada carteira de habilitação. Para os rapazes, completar 18 anos representa, também, o sempre temido risco de servir às Forças Armadas.

Ainda no século 19, e mesmo no 20 em diversos rincões desse Brasil, a idade pessoal era algo desconsiderado. Proliferava a velha fórmula do contar com “20 anos mais ou menos”, o máximo de aproximação possível nos tempos de outrora. Ter “para mais de 80” era indicativo de velhice extrema, mesmo que a idade efetiva fosse inferior aos 80: na verdade, perdia-se a noção do tempo de vida à medida que as décadas passavam. Aos 50 anos de idade, qualquer indivíduo já era tratado como “velho”. Em recenseamentos coloniais da população paulista era usual um indivíduo declarar, em anos sucessivos, idades díspares como 26, 29, 25 e 29, impedindo que saibamos ao certo sua real idade. Outros tempos, em que condições de vida, de saúde e de saneamento cobravam seu custo físico muito precocemente: a vida era curta, rápida e perigosa em tempos sem uma medicina efetiva.

Os tempos do passado eram, portanto, muito distintos de nosso tempo afoito e estressante atual. Mas vale a pena tentar cumprir o desafio a que me proponho anualmente. Tente, em suas próximas férias, viver sem seu relógio. Abra mão mesmo que ele seja aquela fortuna que você coloca no pulso mais para exibir do que para marcar o tempo. Proponha-se este desafio: liberte-se do controle do tempo por alguns dias: o temor e a insegurança dos primeiros dias será substituído por uma sensação de libertação única! Vale o esforço!

Recado ao senhor 903

Vizinho, quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava do barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito a repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor; é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros.

Eu, 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 – que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos: apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão: ao meu número) será convidado a se retirar às 21h45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22h às 7h pois as 8h15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará ate o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada: e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas – e prometo silêncio.

…Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: “Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou”. E o outro respondesse: “Entra vizinho e come do meu pão e bebe do meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e a cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela”. E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.

BRAGA, Rubem. In: ANDRADE, Carlos Drummond de et alii.
Para gostar de ler; crônicas. São Paulo: Ática, 1975. v. 1, p. 74-5.

A complicada arte de ver – Rubem Alves

Crônica de Rubem Alves publicada no jornal Folha de S.Paulo do dia 26/10/2004.

olhoEla entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto”.

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”. Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física. William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”. Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo. Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”. Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

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