A eficácia das palavras certas

Havia um cego sentado numa calçada em Paris. A seus pés, um chapéu e um cartaz em madeira escrito com giz branco gritava: “Por favor, ajude-me. Sou cego”. Um publicitário que passava por ele parou e viu umas poucas moedas no boné. Sem pedir licença, pegou o cartaz e com o giz escreveu outro conceito. Colocou o pedaço de madeira aos pés do cego e foi embora. Ao cair da tarde, o publicitário voltou a passar em frente ao cego que pedia esmola. Seu chapéu, agora, estava cheio de notas e moedas. O cego reconheceu as pisadas do publicitário e perguntou se havia sido ele quem reescrevera o cartaz, sobretudo querendo saber o que ele havia escrito. O publicitário respondeu: “Nada que não esteja de acordo com o conceito original, mas com outras palavras”. E, sorrindo, continuou o seu caminho. O cego nunca soube o que estava escrito, mas seu novo cartaz dizia: “Hoje é primavera em Paris e eu não posso vê-la”.

Faça uma dieta de leituras

Passar o dia inteiro lendo bobagem nas redes sociais é tão saudável para a mente quanto viver à base de fast-food é para o corpo. Esse é o tema do artigo de opinião a seguir, escrito por Danilo Venticinque e publicado na revista Época:


O Facebook está insuportável hoje. Pelo menos foi isso o que um amigo me disse. Não duvido: com a quantidade de assuntos polêmicos em pauta, poucos resistem à tentação de entrar em debates acalorados e intermináveis sobre tudo. Quanto mais pitoresco o tema, maior a vontade de se debruçar sobre ele para escrever um post “definitivo”. Perdi a conta de quantas vezes sucumbi a essas armadilhas. Tenho tentado não cair nelas. Estou de dieta. Houve um tempo em que os pessimistas diziam que, no futuro, passaríamos o dia inteiro assistindo à televisão e não leríamos mais nada. Estavam errados. Ironicamente, nunca lemos tanto quanto hoje. E, infelizmente, nunca lemos tão mal.

Nutricionistas costumam organizar os tipos de alimentos numa pirâmide. Na base estão os cereais, frutas e verduras que precisamos comer várias vezes ao dia. O meio é reservado às carnes magras e derivados do leite, que devemos comer com moderação. No topo, tudo aquilo que devemos evitar no dia-a-dia, como doces, frituras e carnes gordurosas. Poderíamos fazer um gráfico semelhante com as leituras. Na base estariam os livros. No topo, as discussões vazias nas redes sociais. No meio ficariam os artigos e reportagens, online e offline. Alguns podem ser tão enriquecedores quanto um livro. Outros, tão superficiais quanto uma polêmica no Facebook.

Não é preciso levar o exercício mental muito adiante para perceber que nossa dieta anda péssima. As redes sociais tomam a maior parte do nosso tempo de leitura. Elas nos levam com frequência a blogs ou sites de notícias. Aproveitamos um texto ou outro, mas nos esquecemos da imensa maioria. Aos livros, que teoricamente deveriam ser nossa principal fonte de leituras, reservamos apenas uma pequena fração do nosso tempo. Por acreditar que os livros exigem concentração e silêncio, preferimos nos distrair com textos irrelevantes o dia inteiro e deixar as leituras sérias para o dia seguinte ou para mais tarde, quando já estamos cansados de ler bobagens e mal aguentamos manter os olhos abertos. É como se tivéssemos um banquete à nossa disposição, mas nos entupíssemos de balas, guloseimas e salgadinhos antes de sentar à mesa.

O primeiro passo para mudar a sua dieta de leituras é reconhecer que aproveitamos muito mal nosso tempo. Vale repetir a pergunta proposta pelo escritor suíço Rolf Dobelli em seu livro A arte de pensar claramente: “De todas as notícias e posts em redes sociais que você leu no último ano, quantos realmente fizeram diferença na sua vida?”. Minha resposta foi alarmante: apenas dois ou três posts em blogs e, com sorte, meia dúzia de reportagens. Nenhum post em redes sociais. Nada que justifique as dezenas de horas que dedico a essas leituras semanalmente. Quanto aos livros, lembro de todos os que li durante o período. Mesmo os que não gostei de ler me ensinaram algo.

Definitivamente, era hora de mudar meus hábitos. Seria um exagero abandonar o Facebook completamente, do mesmo modo que nenhum nutricionista que se leve a sério diria para alguém cortar os doces para todo o sempre. O mesmo vale para o fast-food da informação. As redes sociais nem sempre são prejudiciais. Basta usá-las com moderação e tirar algum proveito delas. Cada um sabe sua forma de aproveitá-las. Desde que decidi fazer uma dieta de leituras, abandonei as discussões no Facebook e no Twitter. Em vez disso, tenho usando as duas redes para receber e compartilhar reportagens sobre literatura. Por falar em reportagens, também reduzi o tempo que dedico a elas. Descobri que posso sobreviver tranquilamente lendo somente as principais notícias do dia e assinando três ou quatro publicações essenciais para quem trabalha na minha área.

O resultado? Além de conseguir mais tempo para os livros, não sinto a menor falta das polêmicas digitais. Da próxima vez que o seu Facebook estiver insuportável, não reclame dele. Feche a aba do navegador. Procure outras leituras. Se alguém insistir para que você diga algo sobre o assunto polêmico do dia, experimente a sensação libertadora de não ser obrigado a expressar sua opinião sobre tudo. Peça desculpas. Diga que está de dieta.


Antes de ler, faça o teste do “e daí?”

Nosso cotidiano foi tomado por leituras inúteis, mas há um método simples para evitá-las. É o que propõe Danilo Venticinque no artigo a seguir, publicado na revista Época.


Não custa repetir: lemos muito menos livros do que poderíamos porque desperdiçamos uma enorme quantidade de tempo lendo bobagens na internet. Deixar de gastar tempo com textos inúteis é a maneira mais eficiente de abrir espaço para os úteis. Nosso tempo de leitura é limitado. Meia hora dedicada a acompanhar a última fofoca é meia hora a menos de um bom livro. Mas o desinteresse por fofocas não é suficiente para garantir que fugiremos das leituras inúteis. O pior tipo de bobagem é a bobagem supostamente relevante. Você começa a ler achando que vai se informar e, quando percebe, já perdeu muito tempo e não aprendeu absolutamente nada de útil.

Nas faculdades de jornalismo, os alunos aprendem que uma notícia deve responder a seis perguntas: o que, quem, como, onde, quando e por que. A elas, alguns professores mais rigorosos acrescentavam uma sétima: e daí? O que aquela notícia traz de relevante para a vida de quem lê? Era impressionante a quantidade de sugestões de reportagens que desmoronavam quando submetidas a esse último teste. E são raríssimos os sites de notícias e blogs que aplicam essa lição. Isso para não falar na imensidão de bobagens que tomam as redes sociais. Publicamos primeiro e pensamos depois. Pior: lemos tudo indiscriminadamente sem fazer a pergunta fundamental: e daí?

Antes, a tarefa de perguntar “e daí” era de quem publicava algo, mas isso mudou. Diante de uma infinidade de textos que não trazem absolutamente nenhuma consequência ou aprendizado para quem lê, cabe ao leitor a tarefa de filtrá-los. Experimente aplicar o teste do “e daí?” às suas leituras online. Observe como a maioria delas fracassa vergonhosamente. Meia dúzia de manifestantes querem a volta da ditadura. E daí? A vice Miss Bumbum perdeu as chaves do carro em Ipanema. E daí? O primo de um amigo comprou um filhote de gato. E daí? Quanto mais rigorosos forem seus filtros, mais tempo sobrará para ler o que importa. São horas de leitura que você pode ganhar sem perder quase nada. No máximo, você se sentirá um pouco desinformado. Talvez você não fique por dentro dos delírios autoritários de meia dúzia de pessoas. Talvez a vice Miss Bumbum passe na sua frente e você não a reconheça. Tudo bem. E daí?


Três anos sem ler notícias

A decisão radical de um escritor para dedicar mais tempo aos livros – e o que podemos aprender com seus conselhos. Esse é o tema do artigo de opinião a seguir, escrito por Danilo Venticinque e publicado na revista Época.


Já imaginou se, depois de dedicar um ano inteiro à leitura, você percebesse que não conseguiu aproveitar nada do que leu? Descrita assim, a experiência parece ser a premissa de um livro de ficção científica ou uma doença neurológica à espera de um diagnóstico. Mas é um fenômeno comum. Entre atualizações de redes sociais, posts de blogs e notícias curtas, uma pessoa com acesso à internet dedica várias horas de seu dia à leitura. A quantidade de informações fragmentadas é grande e difícil de reter. Há uma enorme probabilidade de que este texto seja inútil – e de que, daqui a poucos meses, você não se lembre nada do que escrevi aqui.

A vida de um leitor, desde o início do dia, é uma maratona de decisões. Na internet ou no papel, a oferta de textos diferentes sobre os mais diversos assuntos é enorme. Como sei que o tempo de leitura é escasso, vou pular a parte óbvia deste texto em que eu diria que é impossível ler tudo. Também vou resistir à tentação de dizer que tipo de leitura é indispensável: cada leitor tem a sua resposta para essa pergunta, e o que é imprescindível para alguns pode ser menos importante para outros. Passo, então, para a questão principal: quais textos não merecem o tempo que gastamos com eles?

O escritor suíço Rolf Dobelli acredita ter a resposta. Em seu livro A arte de pensar claramente (Editora Objetiva, 210 páginas, R$ 29,90, tradução de Karina Janini), ele afirma que as notícias são o principal inimigo do leitor. Elas estão fazendo mal para nossos cérebros, e todos nós deveríamos desistir de lê-las. “As notícias são para a mente o que o açúcar é para o corpo: apetitosas, fáceis de digerir – e muito destrutivas no longo prazo”, diz Dobelli. Ele afirma que somos estimulados por informações chocantes, escândalos e fofocas, mas nos sentimos desmotivados diante de textos complexos. A vontade de atrair a atenção do público levaria os meios de comunicação a privilegiar o conteúdo mais superficial. Com o tempo, as notícias deixariam de ser relevantes, e o sensacionalismo nos tornaria incapazes de lidar com as sutilezas da vida. É uma análise pessimista, mas que faz algum sentido quando estamos lendo a trigésima notícia do dia… e já nos esquecemos da primeira.

A profissão e a nacionalidade do autor, reconheçamos, facilitam sua missão de evitar notícias. Os políticos suíços são tradicionalmente mais comportados que os brasileiros, e talvez suas travessuras não mereçam ser acompanhadas diariamente pelo público. E, sendo escritor, Dobelli dificilmente se verá em apuros por não ler notícias. Um investidor ou executivo desinformado, por exemplo, seria um desastre. Mesmo nesses casos, Dobelli adverte que as informações, sozinhas, não fazem um bom profissional. “Se as notícias realmente ajudassem as pessoas a progredir, os jornalistas estariam no topo da pirâmide. Eles não estão lá – muito pelo contrário”, afirma. A provocação dolorosa não impediu que sites jornalísticos como o The Guardian e o Huffington Post publicassem resenhas do livro e reproduzissem seu capítulo sobre notícias. Não que o autor se importe: ele não deve ter lido nenhum deles.

Dobelli segue seus próprios conselhos à risca. Diz estar há três anos sem ler notícias e não tem planos para mudar seus hábitos. As principais informações do mundo, segundo ele, chegam por meio de conversas com amigos. Imagina-se que esses amigos leiam notícias – do contrário, as conversas não cumpririram o papel de informar o autor. Quando quer saber mais sobre um tema atual, ele recorre a livros (“Nada é melhor do que os livros para entender o mundo”) e a textos analíticos longos – que podem estar disponíveis em revistas, jornais ou sites, em maior ou menor quantidade. No mundo ideal de Dobelli, há espaço para o jornalismo que informa, mas não para o que distrai.

Desistir das notícias para sempre é uma solução radical, que dificilmente funcionaria para todos. Dobelli dá a impressão de estar exagerando para chamar a atenção dos leitores – curiosamente, um pecado tradicional do tipo de jornalismo que ele critica. Ainda assim, em tempos cheios de distrações, seu conselho merece ser ouvido. Antes de ler qualquer texto, pense se ele fará diferença na sua vida nas próximas semanas ou meses. Em caso de dúvida, parta para o próximo da lista. Se dedicarmos muitas horas a leituras fragmentadas, sobrará pouco tempo para textos mais longos e nenhum intervalo para a reflexão. Às vezes é preciso ler menos para ler melhor.

Da pedra à internet

internetA humanidade demorou para evoluir suas formas de comunicação. Antes de inventar a escrita, passamos milhares de anos usando basicamente gestos e grunhidos. Até a fala custou a aparecer; quando começou a ser desenvolvida, as pinturas rupestres já existiam. Em compensação, depois disso, tudo se acelerou. Na base da conversa, começamos a trocar conhecimentos, principalmente de caráter mitológico e religioso. A escrita não demorou a surgir, como uma forma de registro do sonoro. No século 8 a.C., os poemas gregos Ilíada e Odisseia foram escritos a partir de relatos orais. Da linguagem escrita em diante, começamos a aplicar a tecnologia à comunicação. Nas últimas décadas, chegamos ao ponto em que um único emissor transmite sua mensagem para milhões de pessoas – é o caso do rádio e da televisão. Temos à disposição telefones fixos, celulares e internet. E o futuro promete.


3800 a.C. – desenhos livres

Enquanto o homem não sabia falar, do jeito como fazemos hoje, valia fazer desenhos em cavernas a partir de pigmentos de argila, hematita e carvão vegetal. A motivação das pinturas não era clara, mas certamente elas transmitiam conhecimento.

3200 a.C. – Primeiras letras

Os sumérios criaram alfabetos formados por figuras que representam objetos do cotidiano. Com a sistematização desse tipo de desenhos, os fenícios também desenvolveram um modelo de escrita. Acabava a Pré-História, e a comunicação começava a evoluir bem mais rápido.

3000 a.C. – Telégrafo de fogo

Surgia o sinal de fumaça, uma maneira de informar à distância. Indígenas americanos foram os primeiros a usar os sinais, que seguiam um princípio depois adotado nos telégrafos: um cobertor abafava o fogo e soltava a fumaça em intervalos regulares.

2900 a.C. – Voe depressa!

Começava a ser usada uma das formas de se enviar dados mais resistentes ao tempo: o transporte de mensagens com pombos-correios. Os registros mais antigos datavam do Egito de Ramsés II, mas até 2002 as aves ainda eram usadas pela polícia indiana.

550 a.C. – Cartas a galope

O tataravô do correio atual nasceu com Ciro II, rei da Pérsia, que desenvolveu um sistema de postos de parada para os homens que levavam cartas a cavalo. Essa estrutura permitia que uma correspondência viajasse 2500 quilômetros com segurança.

1455 – Livros em série

Para a mídia surgir e facilitar o acesso à informação, foi necessário que Johannes Gutenberg melhorasse a impressão, que existia havia 14 séculos na China. Sua sacada foi criar uma forma com letras independentes.

1837 – Contatos imediatos

O americano Samuel Morse (1791-1872) criava o telégrafo. Ele queria um jeito de trocar mensagens que o governo americano não entendesse. Em 1835, ele tinha inventado o Código Morse, que seria fundamental para a navegação e a aviação.

1876 – Fala que eu te escuto

O inventor escocês Alexander Graham Bell (1847-1922) patenteava nos Estados Unidos seu aparelho de telefone. Há quem diga que o italiano Antonio Meucci (1808-1889) teria desenvolvido seu protótipo antes, mas foi Bell que o popularizou.

1893 – Ondas sonoras

Aparecia o rádio, atribuído ao italiano Guglielmo Marconi (1874-1937). No futuro, o croata Nikola Tesla (1856-1943) ganharia o crédito, porque a invenção de Marconi usava 19 patentes suas. Os primeiros aparelhos transmitiam apenas Código Morse. A emissão de áudio só começaria a partir de 1918.

1929 – Imagens na sala

O cientista russo Vladimir Zworykin (1889-1982) apresentava o kinoscópio, o precursor da televisão. Vários desenvolvimentos posteriores do aparelho de Zworykin levariamà industrialização e disseminação da TV, acelerada a partir de 1945.

1960 – Balão espacial

Lançado pelos Estados Unidos, o primeiro satélite refletia sinais enviados a partir da Terra. Batizado de Echo 1, o aparelho consistia em um balão de náilon de 30 metros de diâmetro, visível a olho nu em vários pontos do globo.

1994 – Todo mundo online

O governo americano liberava a circulação da World Wide Web, uma versão civil do sistema de troca de informações entre as redes de computadores militares.

Fonte: Guia do Estudante.

Cientistas já discutem os procedimentos padrão em caso de contato alienígena

Há décadas mandamos sinais (deliberados ou acidentais) ao espaço, além de procurar por emissões de sinais enviados por alienígenas. Mas qual seria o plano caso um dia ouvíssemos alguma coisa? Se isso acontecer, é mais provável que os cientistas da Seti (sigla em inglês para Search for Extra-Terrestrial Intelligence, ou “Busca por Inteligência Extraterrestre”) percebam primeiro os sinais. Este grupo de cerca de 20 cientistas monitora constantemente o universo na esperança de captar comunicações alienígenas, geralmente contando com recursos parcos e sendo ridicularizados. Eles buscam por algo estranho nos sinais dos maiores telescópios do mundo. A Seti começou com um único homem e um telescópio, em 1959. Hoje, computadores são usados para vasculhar ondas de rádio, enviando para astrônomos possíveis indícios de vida alienígena.

Mas o que aconteceria caso fosse detectada uma comprovada comunicação alienígena? Teorias da conspiração defendem que os governos impediriam a divulgação desta informação, mas o principal astrônomo da Seti, Seth Shostak, pensa diferente. “A ideia de que os governantes iriam manter isso em segredo para evitar pânico não faz sentido”, diz ele. A primeira coisa a ser feita caso os computadores detectem algo seria confirmar a autenticidade com outros telescópios, o que levaria alguns dias. “Neste período, você pode ter certeza de que muita gente falaria sobre isso em e-mails ou blogs: o assunto não ficaria secreto”. É provável, portanto, que a notícia de um contato alienígena fosse divulgada primeiro por um astrônomo da Seti. Em 1997, um “alarme falso” mostrou a reação provável. “Observamos este sinal durante todo o dia e a noite, aguardando alguém de algum governo se manifestar. Nem mesmo políticos locais telefonaram. Os únicos interessados eram da imprensa”, revelou Shostak. Não há nenhum plano de ação detalhando quais organismos internacionais devem ser informados primeiro. “O protocolo é simplesmente fazer o anúncio”, diz Shostak.

As Nações Unidas têm um pequeno escritório em Viena chamado Office for Outer Space Affairs (UNOOSA), ou “Escritório para Assuntos do Espaço Sideral”. Os cientistas da Seti tentam sem sucesso há anos estabelecer um plano comum de ação. Perguntados o que aconteceria no caso de mensagem alienígena, a UNOOSA respondeu que seu mandato atual “não inclui nada referente à questão colocada”. Portanto, o planejamento fica a cargo de pessoas como Paul Davies, da Universidade do Arizona (EUA), que lidera a equipe de pós-detecção da Seti. Mas não sabemos que tipo de informação estaria contida em algum sinal. E sua decodificação poderia levar anos ou mesmo décadas. E o que eles poderiam dizer? Poderia ser uma saudação simples, como um “Olá, terráqueos, estamos aqui”. Poderia ser algo totalmente transformador e revolucionário, como a forma de controlar o processo de fusão nuclear, que resolveria a crise energética mundial.

Pergunte a qualquer um na comunidade Seti se deveríamos responder e o consenso é de que sim. Mas o que dizer e como é motivo de discórdia. “Quando lidamos com uma mente alienígena – o que eles poderiam apreciar, o que eles considerariam interessante, belo ou feio – será muito relacionado com o desenho de sua arquitetura neurológica que realmente não podemos adivinhar”, diz Davies. “Portanto, a única coisa que devemos ter em comum pode ser no terreno da matemática e da física”. De volta ao instituto Seti na Califórnia, o diretor de composição de mensagens interestelares, Doug Vakoch, concorda. “É difícil entender como alguém poderia construir um transmissor de rádio se não souber que dois mais dois são quatro”, diz ele. “Mas como usamos este conhecimento em comum para comunicar algo que é mais idiossincrático para outras espécies? Como diremos a eles como é ser humano?”.

Alguns cientistas da Seti argumentam que, uma vez que saibamos para onde mandar um e-mail interestelar, poderíamos simplesmente enviar todo o conteúdo da internet por meio de um raio laser. Alienígenas teriam então informação bastante para construir padrões, identificar linguagens e ver imagens, de todos os tipos, sobre o que é ser humano. Mas Vakoch acredita que mandar um “carregamento de dados digitais” seria uma aproximação “feia”. “Deve existir algo mais elegante para dizer sobre nós mesmos do que isso”. Poderíamos expressar nossa ideia de beleza, embora de forma simples, ao enviar um sinal representando a sequencia de Fibonacci, na qual cada número é a soma dos dois anteriores: 1, 2, 3, 5, 8, 13 e assim por diante. Em uma sequência vista em galáxias espirais e como algumas conchas nautilus crescem, uma constante algébrica conhecida como Proporção Áurea, esteticamente prazerosa e usada na arquitetura clássica.

Vakoch também espera mostrar características possivelmente idiossincráticas como o altruísmo. Para isto, ele preparou uma animação simples de uma pessoa ajudando outra a subir um penhasco. Mas qualquer mensagem precisaria de consenso internacional antes de ser enviada, coisa que só seria atingida por meio de negociações se um sinal realmente for captado. Até lá, ele pretende continuar pensando no que dizer. “Talvez mais importante do que se comunicar com extraterrestres, este exercício de compor mensagens é uma oportunidade para refletir sobre nós mesmos, sobre com o que nos importamos e como expressamos o que é importante para nós”, diz.

Fonte: BBC Brasil.

Grande Edgar – L. F. Verissimo

Crônica extraída do livro As Mentiras que os Homens Contam
(Rio de Janeiro: Objetiva, 2001).

grande edgar - verissimoJá deve ter acontecido com você.

— Não está se lembrando de mim?

Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra? Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir. O primeiro é curto, grosso e sincero:

— Não.

Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O “não” seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta (Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem). Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.

— Não me diga. Você é o… o…

“Não me diga”, no caso, quer dizer “me diga, me diga!”. Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como:

— Desculpe, deve ser a velhice, mas…

Este também é um apelo à piedade. Significa “não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!”. É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor ideia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua. E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe:

— Claro que estou me lembrando de você!

Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata:

— Há quanto tempo!

Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.

— Então me diga quem sou.

Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:

— Pois é.

Ou:

— Bota tempo nisso.

Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse cara, meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras:

— Como cê tem passado?

— Bem, bem.

— Parece mentira.

— Puxa…

Um colega da escola? Do serviço militar? Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus? E ele continua falando:

—Pensei que você não fosse me reconhecer.

—O que é isso?!

—Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.

—E eu ia esquecer de você? Logo você?

—As pessoas mudam. Sei lá…

— Que ideia.

É o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O… o… como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. “Que bom encontrar você!” e paf, chuta uma perna. “Que saudade!” e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?

— É incrível como a gente perde contato.

— É mesmo.

Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso:

— Cê tem visto alguém da velha turma?

— Só o Pontes.

— Velho Pontes!

Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes…

— Lembra do Croarê?

— Claro!

— Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.

— Velho Croarê.

Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte:

— Rezende…

— Quem?

Não é ele. Pelo menos isto está esclarecido.

— Não tinha um Rezende na turma?

— Não me lembro.

— Devo estar confundindo.

Silêncio. Você sente que está prestes a ser desmascarado. Ele fala:

— Sabe que a Ritinha casou?

— Não!

— Casou.

— Com quem?

— Acho que você não conheceu. O Bituca.

Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador . Você está tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?

— Claro que conheci! Velho Bituca…

— Pois casaram.

É a sua chance. É a saída. Você passou ao ataque:

— E não avisou nada?

— Bem…

— Não. Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, o Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?

— É que a gente perdeu contato e…

— Mas meu nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.

— É…

— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim.

— Desculpe, Edgar. É que…

— Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam.

Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima ideia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele está na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de “Já?!”.

— Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?

— Certo, Edgar. E desculpe, hein?

— O que é isso? Precisamos nos ver mais.

— Isso.

— Reunir a velha turma.

— Certo.

— E olha, quando falar com a Ritinha e o Manuca…

— Bituca.

— E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?

— Tchau, Edgar!

Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer “Grande Edgar”. Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar “Você está me reconhecendo?” não dirá nem não. Sairá correndo.

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