Para bom bebedor, meia garrafa basta

Crônica de Fernando Sabino. Veja também: Detesto gente bêbada.

A primeira vez que provei bebida alcoólica foi aos 11 anos. Estávamos acantonados nos galpões vazios da antiga Feira de Amostras, ali onde é hoje o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Havia latas de doce vazias, invólucros sem conteúdo, rótulos sem produto — restos da última exposição: nada que satisfizesse a nossa gula. Em companhia de outro pivete (que acabaria regenerado tornando-se hoje um competente cirurgião), arrombei a janela de um galpão que supúnhamos cheio de comedorias, para acabarmos apanhados em pleno malfeito pelo vigia do lugar (o que nos valeu um esculacho pouco digno da nossa condição de escoteiros). Até que alguém mais esperto descobriu num desvão da antiga feira um depósito de garrafas cheias.

Cheias de que? Só vim a saber quando vi os mais velhos fazendo correr uma garrafa de mão em mão, bebendo pequenos goles furtivos entre risinhos de malícia. Fui buscar meu caneco e pedi que me dessem um pouco. Tanto insisti que acabaram se enchendo, e encheram o caneco para se verem livres de mim. Eu imaginava que aquilo tivesse o gosto delicioso de alguma soda limonada, groselha ou guaraná. E virei tudo de uma vez só. Era cachaça pura! Só não morri ali mesmo porque quis Deus me experimentar ao longo da vida, propiciando-me generosamente outras espécies de bebida. Mas passei a noite delirando, depois de haver vomitado a própria alma até o rabo. Hoje sinto náuseas ao mais leve cheiro de cachaça.

Aos 15 anos tomei o primeiro grande pileque de minha vida. De gim, que até hoje me lembra a loucura e tem gosto de consequências fatais. Na manhã seguinte fui curar minha ressaca enfrentando a ressaca ainda mais poderosa do mar. Se não morri de beber na véspera, poderia ter morrido afogado. Mas eu era jovem, e como todo jovem, imortal. Até que chegou o momento, com alguns chopes de permeio, de finalmente me iniciar no uísque, a que permaneci fiel. Era um baile no Automóvel Clube, em Belo Horizonte, e o uísque da moda era Old Parr. Tomado com guaraná! Entrei no uísque como se fosse refrigerante, e entrei bem.

Meu irmão me encontrou em coma alcoólico debaixo do chuveiro aberto, ainda vestido no elegante dinner-jacket da minha primeira festa a rigor — rigorosamente ensopado e vomitado. Com tantos fracassos sucessivos, não sei como não caí na mais intransigente das abstinências. É que em pouco surgia a hora da verdade, no grupo de quatro amigos já composto para a vida inteira. Encharcados de chope e literatura, enchíamos de desvario a silenciosa noite de Minas, convertendo a bebida em indispensável combustível de nossa rebeldia. Rebeldia contra que? Contra tudo. Tínhamos de beber para justificar a embriaguez da mocidade em que vivíamos.

Deixemos, pois, que falem os entendidos — no caso, os mestres Luís Lobo e Leopoldo Adour da Câmara. Assim se expressam eles no seu admirável receituário “A Arte do Rabo de Galo”, um “breve discurso em torno de copos e garrafas”: “Não há motivo para criticar a bebida em razão dos que se embriagam. Como ninguém critica a comida simplesmente porque há gente capaz de comer até morrer de indigestão”. Falou, ou melhor, falaram — e está falado: como a comida, assim a bebida, em quantidade razoável, é perfeitamente inofensiva, tendo o efeito de estimular o apetite, ajudar a digestão, relaxar os nervos e tornar a vida mais agradável. Mas, aqui entre nós, onde ficam os limites do razoável?

Não será, certamente, na primeira dose. Esta apenas prepara o caminho para a segunda. E a segunda dose… Já dizia o prefeito de Rochester a Henrique Savile (dois indivíduos de quem eu nunca ouvira falar, mas competentes, desde que citados pelos autores acima mencionados): “Oh, aquela segunda dose; é o mais sincero, o mais sábio, o mais imparcial amigo nosso; diz a verdade sobre nós mesmos e força-nos a dizer a verdade sobre os outros. Barra a lisonja das nossas bocas e a desconfiança dos nossos corações; coloca-nos acima da política dos preconceitos de cortesia, os quais nos fazem mentir de dia com receio de sermos traídos à noite”.

E a terceira dose? A partir da terceira dose, reconheço, as coisas se complicam um pouco. Se a humanidade está atrasada de três uísques, como dizia Humphrey Bogart, ao recuperar o atraso a gente se vê de súbito, copo vazio na mão, ante o dilema de tomar mais um ou se dar por satisfeito com a recuperação. E é aí que intervém a já referida sabedoria da dupla Lobo e da Câmara, afirmando: “Um bom conselho em relação à quantidade é parar de beber quando sentir que dá para beber mais um, porque dois será demais. Este um provavelmente também o será”. Por isso é que um velho amigo meu, conhecido pelo hábito de sempre tomar mais um, afirmava outro dia num bar que, de sua parte, jamais passava de três uísques. Ante o protesto geral, insistiu, com a mais cínica das convicções: “Eu só tomo três; depois do terceiro me transformo noutro sujeito, e este sim, bebe como gente grande”. Fiquemos, pois, no terceiro. Ainda que a contagem varie de bebedor para bebedor, podendo começar a partir do terceiro, ou mesmo ser regressiva, como no lançamento de foguetes.

Por falar em foguetes: e a ressaca? Entendidos de lado, falo de experiência própria: não há cura mais eficiente do que evitá-la. Mas eis que um cientista sueco, que por sinal ganhou o Prêmio Nobel, descobriu recentemente uma substância capaz de neutralizar a toxidez do álcool, impedindo sua metabolização no organismo, sem inibir seus agradáveis efeitos no cérebro. Esta descoberta terá, em relação à bebida, o mesmo impacto que a pílula teve em relação ao sexo: agora é que eu quero ver o que será da humanidade, bebendo sem parar, e se sentindo fisicamente cada vez melhor. Por enquanto, dentre as causas da ressaca, talvez a mais comum seja a bebida de má qualidade. É incrível como tantos que se dizem bons bebedores são capazes de aceitar como bebida legítima as mais grosseiras falsificações. No entanto, um mínimo de atenção e cuidado ao beber seria o suficiente para denunciá-las. O bom uísque, por exemplo, não morde a gente: cai bem, sem causar estranheza, sem chamar atenção sobre a língua, redondo dentro da boca, sem arestas, sem azinhavre nas bordas, sem largar ferrugem ao longo da garganta, sem deixar gosto de lápis no esôfago, sem levantar poeira no estômago. O bom uísque, enfim, é aquele sobre o qual não resta a menor dúvida.

Enquanto escrevo, entre um gole e outro de uísque, penso se serei capaz de me revestir da seriedade que o assunto exige. A sabedoria, que faz de beber uma arte, talvez repouse nos mesmos princípios de proporção, equilíbrio e harmonia que regem as outras artes. E que estabelecem o primado da qualidade sobre a quantidade. Beba bem e viva melhor — seria o slogan que eu proporia a uma campanha publicitária de apologia da bebida. A essa altura, já ouço o leitor abstêmio comentar, indignado: “Apologia da bebida. Esse cretino ousa sugerir publicidade para um dos mais terríveis males que afligem a humanidade”. Ouso sugerir que a humanidade é afligida não pelo álcool, mas pelo alcoolismo. A arte de bem beber se contrapõe justamente ao vício de beber mal. O álcool em si não é bom nem mau, e existe desde que o homem é homem. Todas as civilizações conhecidas produziram alguma espécie de bebida alcoólica.

O mal não está no que entra no homem, mas no que dele sai, como afirmou Jesus Cristo. Ele próprio não consagrou a água, o leite ou a coca-cola: consagrou o pão e o vinho, como alimentos do corpo e do espírito. É preciso respeitar a bebida — não saber beber é que constitui um dos mais terríveis males que afligem a humanidade. Esta é uma lição que todos deveriam saber de cor antes de beber e não na manhã seguinte, como geralmente acontece. Ao fim de minhas digressões, vejo que não cheguei a sair do princípio, ou seja, sinto que mal cheguei a entrar no assunto. Agora é tarde: só me resta tomar mais uma e dar por atingido o meu propósito (ou despropósito) de enaltecer a bebida como fator de bom entendimento entre os homens. Ou, pelo menos, do homem consigo mesmo.

A ousadia dos sabiás

Em São Paulo, passarinho canta e gente reclama. Como melhorar esse humor? Cristiane Segatto responde em sua coluna no site da Época.


passaro-sabiaOs sabiás de São Paulo ousam cantar. Não estão nem aí para as reclamações que circulam nas redes sociais. Paulistanos piam contra tudo. E agora também contra os passarinhos. Segundo os incomodados, a cantoria durante a madrugada atrapalha o sono. Nesta semana, a discussão esquentou. Os bichos seguem cantando. Não sabem que a cidade se tornou uma fábrica de implicantes compulsivos. Talvez saibam, mas não perdem tempo com eles. Se gastarem energia com bate-bico morrem de fome ou na bocarra do gato vira-lata. No território dos passarinhos, aquele que usurpamos descaradamente, vale um ditado bem conhecido entre nós: “os incomodados que se mudem”. Sábios sabiás. Deveríamos aprender com eles. Deveríamos ouvi-los mais. Ouço um agora mesmo, enquanto escrevo este texto. Mais de um. Não só sabiás. Outras espécies aqui e ali. Volta e meia um beija-flor me surpreende na sacada do meu apartamento, atraído pelas plantas. Moram nos míseros e últimos nacos de verde que nos cercam. Aqueles raros quintais que ainda não cederam espaço a monstruosidades de 20 andares com 5 vagas de garagem por apartamento.

A presença dos passarinhos é um privilégio. Eles cantam e eu caio no sono. Eles me incomodam tanto quanto uma chuvinha fina batendo na janela. Incômodo zero. Desconfio que a maioria das pessoas considera que o som das aves seja relaxante – e não perturbador. É o seu caso? Conte pra gente. Uma experiência interessante aconteceu recentemente no Forth Valley Royal Hospital, na Escócia. Para ajudar pacientes com extrema dificuldade de dormir, o artista Mark Vernon criou uma trilha sonora especial para a estação de rádio interna. O objetivo era fazer adormecer o mais desperto dos insones. Para isso, Vernon pesquisou uma série de sons suaves e fez uma mistura poderosa. Ouvi um trecho e, quando percebi, estava bocejando em frente ao computador. Precisei levantar, dar uma volta, agarrar uma xícara de café. Quase adormeci com a mistura de piano, água corrente, marreco e… pássaros. Muitos pássaros.

Parece ser o caso do sabiá-laranjeira que, a partir do final de inverno, se reproduz. Os machos andam cantando à beça em São Paulo. Cantam para demonstrar às fêmeas que são um bom partido. O canto vigoroso é entendido como uma demonstração da capacidade de alimentar os filhotes e de defender o território nas disputas com outros machos. Segundo um especialista consultado pela Folha de S.Paulo, é de madrugada que o macho ensina a melodia aos filhotes. Ele fica a até 5 metros de distância do ninho. Se fizesse isso durante o dia, os filhotes ficariam na mira dos predadores. São boas as razões do sabiá. O levante contra ele pode ser fruto de rabugice crônica. Sabe aquele tipo de pessoa que num dia reclama da chuva, no outro do sol, durante a semana pragueja contra o barulho da capital e, num feriadão prolongado, diz que não suporta o tédio da cidade vazia? Quando o mau humor é constante, dura mais de 2 anos e vem acompanhado de outros sintomas (falta ou excesso de apetite; insônia ou sono excessivo; fadiga; baixa autoestima; dificuldade de concentração), a pessoa pode estar sofrendo de distimia – um tipo de depressão com sintomas menos graves. O mau humor (crônico ou circunstancial) é agravado pelas noites mal dormidas. Ou é provocado por elas. Dormir bem é fundamental para a manutenção do equilíbrio geral do organismo, para a consolidação da memória e do aprendizado, entre outras funções. Algumas dicas para melhorar a qualidade do sono:

• Praticar atividade física
• Ter horários regulares para dormir e despertar
• Dormir num ambiente limpo, escuro, confortável, sem ruído de TV
• Não consumir álcool, café e refrigerantes perto do horário de dormir
• Não usar medicamentos para dormir sem orientação médica
• Se tiver dormido pouco nas noites anteriores, evite dormir de dia
• Jantar com moderação e em horário regular
• Não levar problemas para a cama
• Realizar atividades repousantes e relaxantes preparatórias para o sono

Quem sabe assim o sabiá deixe de ser um problema…

O preço do churrasco

Calcula-se que, para produzir apenas um quilo de carne bovina, gasta-se 15 mil litros de água potável. Acresça-se a isso a quantidade de ração que o animal ingere durante toda a vida e a quantidade de gases poluentes que expele na atmosfera. Se você, como eu, não está familiarizado com os números da pecuária, saiba ao menos que há muito trabalho, tempo e recurso natural envolvido no processo. Não quero, com isso, incentivar o vegetarianismo. Até porque amo carne e acho que não conseguiria retirá-la da minha dieta. Quero apenas dizer que, desprezando por um momento o gasto econômico e considerando apenas o gasto ecológico da produção da carne bovina, ela deveria, no mínimo, ser consumida com mais responsabilidade e menos desperdício.

É um absurdo a quantidade de carnes nobres que vão pro lixo todos os dias após o expediente de uma churrascaria que serve rodízio. Carnes de excelente qualidade são rejeitadas no prato por clientes ricos e mimados apenas por terem esfriado durante a conversa e o chope. E o pior de tudo nem é isso: é que essas carnes rejeitadas não podem ser doadas aos pobres, aos mendigos, aos famintos, aos miseráveis. Por norma da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), elas devem ir para o lixo, sob pena de o estabelecimento ser multado e até interditado se isso não acontecer. Eu até entendo, em parte, a preocupação da Anvisa; até entendo que consumir carnes rejeitadas de um rodízio pode ser prejudicial à saúde das pessoas. Mas não estou convencido de que passar fome é menos prejudicial. Para evitar esse pecado, penso que o ideal seria mudarmos nossa relação com a carne. Como nos velhos tempos, aquele que, com água na boca, desejasse devorar uma suculenta picanha na brasa, deveria ele próprio empunhar uma faca e abater um boi, em vez de apenas ir ao açougue do supermercado e pedir os cortes já prontos, apenas esperando pelo sal grosso. Isso certamente mudaria muito a nossa relação com a carne, tornando-nos muito mais responsáveis no seu consumo, pois teríamos plena consciência de que, por aquele sabor, por aquele cheiro gostoso de gordura assada, pelo deleite daquele banquete, muitos recursos naturais foram gastos e pelo menos uma vida animal foi sacrificada.

Gosto muito da cena de Avatar em que Neytiri está ensinando Jake a ser um verdadeiro Na’vi. Entre outras coisas, ela o ensina a usar com destreza o arco e flecha. Quando este finalmente consegue, para fins de alimentação, caçar e abater um animal de forma rápida, dando-lhe uma “morte limpa”, ele se ajoelha ao lado do bicho morto e, com as mãos impostas sobre ele, diz algo como “vá em paz, irmão, una-se novamente a Eiwa (divindade da Natureza)”. Após isso, Neytiri, que o tempo todo estava observando de perto a caçada, diz a Jake: “Você está pronto”. Eu sei que não há a mínima chance disso acontecer, isto é, de todos nós passarmos a abater nossa própria comida. Mas eu tenho esperança que, após refletir sobre este assunto, você pelo menos mude de atitude. Não espero que você deixe de comer carne, mas apenas que passe a comê-la com responsabilidade e consciência ecológica, em uma atitude mínima de reverência à vida animal que foi sacrificada para o seu deleite. Você está pronto?

Reportagem de 1994 relata um Brasil sem televisão e sem energia elétrica

Desisti de estudar jornalismo por um motivo muito simples: os textos jornalísticos não resistem ao tempo. Uma notícia incrivelmente bem escrita hoje, na qual o jornalista investiu tanto tempo, esforço e talento, estará velha amanhã. Os textos jornalísticos relatam fatos, e estes estão sempre presos ao tempo em que aconteceram. Passam-se os dias e aquela reportagem magnífica já ficou ultrapassada por novos fatos, novas notícias, novos tempos. Em vez de jornalismo, resolvi estudar filosofia. Motivo: os bons textos filosóficos, ao contrário dos jornalísticos, pretendem-se atemporais, almejam a imortalidade, resistem aos séculos. Platão e Aristóteles, 25 séculos depois, continuam atuais; enquanto que ninguém mais lembra o que William Bonner disse semana passada no Jornal Nacional.

Como eu disse, textos jornalísticos não resistem ao tempo. Mas não podemos generalizar. Alguns, de tão bem escritos, sobrevivem por décadas. Se não servem mais para relatar fatos atuais, permanecem vivos como importantes registros históricos de outras épocas. Um dos mais felizes exemplos disso é a reportagem a seguir, publicada no dia 05 de janeiro de 1994 na revista Veja. Apesar de estar mais de 20 anos “atrasada”, de relatar uma realidade social que ficou no passado e de ainda contar dinheiro em cruzados, ela continua viva como relato histórico, ao deixar registrado como era a vida nos pequenos municípios do interior do Brasil antes da chegada definitiva da energia elétrica e, principalmente, da TV.

Leia a reportagem na íntegra:

A vida em Estouros, povoado a 290 km de Belo Horizonte, segue um ritmo que parece eterno. Não é necessário relógio. Acorda-se com o raiar do Sol e dorme-se quando as estrelas começam a surgir. Os homens trabalham a terra e as mulheres cuidam da casa e dos filhos. Nas refeições, as famílias se alimentam daquilo que a terra lhes devolve. Feijão, arroz, couve, abóbora. De vez em quando, carne de porco ou de galinha, criados no quintal. Ali não se conhece hambúrguer, pizza nem maionese. Tem gente que no mês passado tomou Coca-Cola pela primeira vez na vida. Os jornais só aparecem para embrulhar encomenda. Estouros é um lugar sem aquele eletrodoméstico que ocupa o lugar central na residência da maioria dos brasileiros — um aparelho de TV.

O que é a TV? O menino Ivanei Carlos Martins, 10 anos, 7 irmãos criados por um lavrador de Estouros, que todos os dias caminha 12 km para ir à escola e voltar, explica: “É uma caixa de som com um espelho na frente”. O irmão mais velho, Wilson, já viu TV nas redondezas. Mas, se pudesse, Wilson não compraria um aparelho. Uma égua de 3 anos teria maior utilidade: “Eu descansaria das pernas. A gente anda sempre a pé ou no caminhão do leite”. Wilson assistiu a uma exibição do programa Aqui Agora, do SBT, e ficou de olhos esbugalhados. Não se conforma até hoje: “A gente vê batida de carro, roubo”, espanta-se. “Tem bandido que mata a pessoa à toa. Aqui não tem nada disso. Aqui a gente mata porco. E para comer”. Outro habitante de Estouros, Luciano Felisberto Filho, tem outra lembrança do único programa de TV a que já assistiu. “Não dá para assistir tanta coisa junta. Não entendo o que vejo. O povo fala muito”.

É mesmo estranha a vida sem o espelho falante do pequeno Ivanei. O povoado de Serra Velha, em Santa Catarina, que tem 300 habitantes e 60 casas, fica encravado numa montanha e o acesso é restrito a uma única estrada. Ali nunca se ouviu falar do ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Tampouco de Roberto Carlos ou Pelé. O ídolo naquelas paragens é o professor Santanor Petersen, único na região, proprietário de uma caminhonete que faz 30 km/h como velocidade máxima. Bem diferente dos veículos saídos de uma linha de montagem, a caminhonete do professor Petersen tem a carroceria de madeira, que sobrou de um corte de árvores, e o motor de um barco. Pessoa mais bem informada da cidade, o professor não sabe que o atual presidente da República se chama Itamar Franco.

Esse país indiferente à passagem do tempo, com muito menos dinheiro e conforto, menos violência e perversidade, integra uma das mais bem-sucedidas utopias nacionais. A do Brasil rural, de pessoas simples e valores estabelecidos, de pequenos heróis e pequenos vilões naturais em qualquer parte. É um país delicioso de ver e explorar, como descobriram as novelas rurais que a Globo produz e eles não vêem. Mas é uma utopia urbana achar que o povo desses lugares quer ficar assim. TV é eletricidade, eletricidade é progresso, e não há como preferir um lampião de querosene a uma lâmpada, nem é possível achar que o cidadão que não sabe o nome do presidente é mais feliz do que aquele capaz de recitar a lista de todos os ocupantes do Planalto de 1964 para cá. É só mais ignorante.

Há 6 meses, em Lagoa do Oscar, lugarejo do interior de Minas, correu o boato de que, enfim, os postes de luz chegariam ao local. Foi um alvoroço. O roceiro Domingos Ferreira Conceição, um senhor já de meia-idade, percorreu 110 km apenas para fazer uma troca. Entregou uma espingarda nova para um muambeiro, que lhe deu uma TV portátil trazida do Paraguai. O roceiro aguardou 4 meses pela luz. Como ela não veio, vendeu a TV para um caminhoneiro, que pagou 20 mil cruzeiros reais por ela. Mas não desistiu. “As crianças só falam do dia em que terão uma TV em casa”, diz.

Com 3 mil moradores, a 700 km de Salvador, Muquém do São Francisco é outro exemplo. Ali não existe luz elétrica, água encanada nem rede de esgoto. Mas tem TV. Um aparelho, de propriedade da prefeitura, ligado a um gerador a óleo diesel. Todos os dias, o funcionário Francisco Raimundo Cardoso pega o televisor de 20 polegadas em um barraco onde ele fica trancado e o transporta até a praça da cidade. Ali, cercada com arames farpados, a TV fica ligada das 6 da tarde até às 11 da noite.

Muquém é um município paupérrimo, com orçamento de 10 milhões de cruzeiros reais por mês. Com esse dinheiro, o prefeito Carlos Moreno Pereira paga o salário de 130 funcionários públicos e investe 2 milhões de cruzeiros reais na área de saúde. As escolas da cidade lhe custam o mesmo que a conta do gerador da TV: 4 milhões por mês. Até o prefeito acha um absurdo. “É um luxo gastar dinheiro com o gerador”, reconhece. Mas não há alternativa. Desde que a TV foi instalada, no final de 1991, é sucesso absoluto. Nos dias normais, reúne 30 pessoas na praça. Em grandes momentos, passa de 80. Quando se transmite futebol, a plateia se divide. As mulheres querem ver as novelas; e os homens, futebol. A última palavra é da primeira-dama, Vera Lúcia Pereira, que sempre acaba dando preferência à plateia feminina.

Captava por antena parabólica diretamente do Rio de Janeiro e de São Paulo, a TV de Muquém tem uma peculiaridade: não apresenta comerciais. Enquanto os telespectadores do país inteiro assistem a um carrocel de anúncios publicitários, ali a tela fica escura. O impacto sobre os hábitos de consumo é menor. A plateia só é atingida pelo merchandising inserido dentro dos programas. Por essa razão, as donas de casa começam a trocar os temperos caseiros por industrializados e ficam satisfeitas quando descobrem que a TV mostra a mesma pasta de dentes que guardam na despensa.

“A TV é vista em muitas comunidades como símbolo de status“, afirma a socióloga Sara Chicid da Via, da Universidade de São Paulo (USP). “As pessoas mudam de comportamento em função do que passam a ver”. Um dos mais antigos hábitos dos adolescentes de Muquém era o “papo do comitê”. Eles se encontravam todas as noites nas escadarias de um prédio utilizado como comitê de um partido político para conversar e fazer brincadeiras. “Eram mais de 20 pessoas”, lembra Carla Rejane Almeida, 18 anos. Nesses papos se falava , por exemplo, de Noemi, a garota mais bonita da cidade, e de Reivaldeo e Gildásio, os “gatos” mais paquerados. Agora não se fala mais disso. Estão todos assistindo à televisão na praça.

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