O que temos a perder

A nossa civilização é mais preciosa e mais frágil do que a maioria das pessoas supõe.
É o que defende o médico britânico Theodore Dalrymple no artigo abaixo, publicado originalmente no City Journal no outono de 2001. O texto foi traduzido na íntegra por Aluízio Couto e publicado no portal Crítica na Rede.


Sempre que nos informamos de acontecimentos que abalam o mundo, de catástrofes ou massacres, tendemos não apenas a sentir vergonha das preocupações rabugentas que temos com nossos problemas secundários, mas também a questionar o valor mais geral de todas as nossas atividades. Não sei se, como se diz, as pessoas que encaram a morte de perto por alguns segundos vêem, diante de si, um flash de suas vidas e sobre elas emitem um juízo final; mas sempre que escuto algo assim reflito sobre a minha própria vida e detenho-me um pouco na insignificância dos meus esforços, no egoísmo dos meus interesses e na estreiteza das minhas simpatias.

Foi o que aconteceu quando soube do atentado ao World Trade Center. Eu me ajeitava para escrever a resenha de um livro: não de um grande trabalho, mas de uma biografia competente, cuidadosa e um pouco aborrecida de uma figura histórica não muito relevante. O que poderia ser menos importante do que essa atividade quando comparada com o terrível destino de milhares de pessoas presas nos prédios em chamas — e que logo implodiriam? Uma resenha de livro, comparada às mortes de mais de trezentos bombeiros que perderam a vida cumprindo seu dever, sem falar nas outras milhares de perdas? Qual era o sentido de terminar uma tarefa tão insignificante quanto a minha?

No meu trabalho como médico de uma prisão, salvo umas poucas vidas por ano. Quando me aposentar, não terei salvo em toda a minha carreira a quantidade de vidas que foram perdidas em Nova York naqueles momentos horríveis, mesmo contando o tempo em que passei na África, onde era ridiculamente fácil, com os recursos médicos mais simples, salvar uma vida humana. Quanto ao que escrevo, talvez não tenha o peso de um grão de poeira numa balança: o que faço agrada a alguns, enraivece outros e é desconhecido da vasta maioria de meus vizinhos mais próximos, para não falar de círculos mais amplos. Impotência e futilidade são as duas palavras que vêm ao espírito.

E mesmo enquanto penso sobre mim, uma imagem é recorrente: a da pianista Myra Hess tocando Mozart na Galeria Nacional de Londres enquanto as bombas caíam sobre a cidade durante a Segunda Guerra Mundial. Nasci depois do fim da guerra, mas o heroísmo sereno daqueles concertos e recitais, transmitidos para todo o país, era ainda simbolicamente forte durante minha infância. O gesto de Myra Hess se tornava ainda mais forte porque ela era judia e o antissemitismo do inimigo era central na sua depravada visão do mundo; e também porque a música que ela tocava — uma das conquistas mais sublimes dentre as realizações humanas — emanava da mesma terra natal do líder dos inimigos, que representava as profundezas da barbárie.

Ninguém perguntou “Para quê esses concertos?” ou “Por que razão tocar Mozart quando o mundo está em chamas?”. Ninguém pensou “Quantas divisões militares tem Myra Hess?” ou “Qual é o poder de fogo de um rondo de Mozart?”. Todos entenderam que esses concertos eram, não no sentido material ou militar, um gesto desafiador de humanidade e cultura em face da brutalidade sem precedentes. Eram acerca do que estava em causa na guerra. Uma afirmação da crença de que nada poderia ou poderá corromper o valor da civilização; e de que nenhum revisionismo histórico, por mais cínico que seja, jamais subverterá essa nobre mensagem.

Lembro-me também de uma história contada pelo filósofo Karl Popper, um refugiado austríaco que fez da Grã-Bretanha o seu lar. Quatro homens cultos aguardavam, em Berlim, a sua esperada prisão pela Gestapo. Decidiram passar sua última noite juntos — possivelmente a última na Terra — tocando um quarteto de Beethoven. Não foram presos naquela noite, mas também expressaram com essa ação a fé de que a civilização transcende a barbárie, de que não obstante a aparente inabilidade da civilização de, naquela altura, resistir às investidas dos bárbaros, ainda valia a pena defendê-la. De fato, é a única coisa que vale a pena defender, porque é o que dá sentido às nossas vidas. Continue reading “O que temos a perder” »

Casos famosos de crianças selvagens

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Existem muitos casos conhecidos de crianças selvagens. Trata-se de pessoas que foram perdidas ou abandonadas quando ainda eram bebês e, por alguma razão do destino, pura sorte ou providência divina, conseguiram sobreviver mesmo sem ter nenhum contato com outros humanos, sendo criados e alimentados por animais. Essas histórias fantásticas inspiraram muitos filmes no cinema e personagens fictícios como Mogli e Tarzan. A maioria das crianças nesse estado acabam morrendo, obviamente. Mas algumas conseguem sobreviver e são encontradas, depois de muitos anos, por outras pessoas, as quais tentam, quase sempre inutilmente, introduzi-las tardiamente na sociedade. Veja abaixo quatro casos famosos:

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Oxana Malaya, a garota cachorro

Oxana Malaya

Oxana Malaya foi encontrada na Ucrânia em 1991. Na ocasião ela aparentava ter 8 anos de idade, tendo vivido grande parte desse tempo na companhia de cachorros. Acredita-se que Malaya foi abandonada por seus pais aos 3 anos de idade e, por pelo menos 5 anos, viveu entre cães e sobreviveu comendo carne crua e restos de comida. A garota adaptou-se a uma série de hábitos de cachorro e não aprendera falar. Quando foi achada, estava correndo de quatro e latindo. Se tinha uma coceira atrás da orelha, coçava com o pé. Ela foi levada para um orfanato, onde foi educada até a idade adulta. Lá ela aprendeu a andar em pé, comer usando as mãos e, com muita dificuldade, também aprendeu a falar.

Especialistas concordam que, a não ser que uma criança aprenda a falar até os 5 anos, o cérebro fecha a janela de oportunidade de aprender uma língua. Malaya só conseguiu aprender a falar de novo porque ela tinha uma fala infantil antes de ser abandonada aos 3 anos. Ela tem apenas 1,52 m de altura, mas quando brinca de empurrar com os amigos, há um palpável ar de ameaça e força bruta. Como um cachorro com um osso, o seu primeiro instinto é esconder tudo que lhe é dado. Quando, em 2006, aos 23 anos, ela mostrou ao seu namorado o que ela um dia foi e o que ainda podia fazer (se comportando como um cachorro) ele se assustou e o relacionamento acabou. Atualmente ela vive numa clínica para deficientes mentais na cidade de Odessa, Ucrânia. Veja a seguir algumas imagens gravadas em 2006:

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Victor de Aveyron, o garoto selvagem

L'enfant Sauvage

Victor de Aveyron (1788-1828) foi uma criança selvagem encontrada na França em 1799. No dia 9 de Janeiro daquele ano, uma estranha criatura surgiu dos bosques próximos ao povoado de Saint-Serin, no sul da França. Apesar de andar em posição ereta, se assemelhava mais a um animal do que a um ser humano, porém, imediatamente foi identificado como um menino de uns 11 ou 12 anos. Ele não falava: emitia apenas estridentes e incompreensíveis grunhidos. Parecia carecer do sentido de higiene pessoal: fazia suas necessidades onde e quando lhe apetecia. Foi conduzido para a polícia local e, mais tarde, para um orfanato, de onde escapava constantemente. Era difícil voltar a capturá-lo. Negava-se a vestir-se e rasgava as roupas quando lhes punham. Nunca houve pais que o reclamassem.

O menino foi submetido a um minucioso exame médico no qual não se encontrou nenhuma anormalidade importante. Quando foi colocado diante de um espelho, viu sua imagem sem reconhecer a si mesmo. Em uma ocasião, tentou alcançar através do espelho uma batata que viu refletida (a batata era segurada por alguém atrás de sua cabeça). Depois de várias tentativas, e sem voltar a cabeça, colheu a batata por cima de seu ombro. Um padre que observava ao menino diariamente descreveu esse incidente da seguinte forma: “Todos estes pequenos detalhes, e muitos outros que poderiam aludir, demonstram que este menino não carece totalmente de inteligência, nem de capacidade de reflexão e raciocínio. Contudo, nos vemos obrigados a reconhecer que, em todos os aspectos que não tem a ver com as necessidades naturais ou a satisfação dos apetites, se percebe nele um comportamento puramente animal. Se possui sensações não desembocam em nenhuma idéia. Nem sequer pode comparar umas as outras. Poderia pensar-se que não existe conexão entre sua alma e seu corpo”.

Posteriormente, o menino foi levado para Paris, onde ocorreram tentativas sistemáticas de transformar-lhe “de besta em humano”. O esforço resultou só parcialmente satisfatório. Aprendeu a utilizar o banheiro, aceitou usar roupa e aprendeu a vestir-se sozinho. No entanto, não lhe interessavam nem as brincadeiras nem os jogos e nunca foi capaz de articular mais que um reduzido número de palavras. Até onde sabemos pelas detalhadas descrições de seu comportamento e suas reações, a questão não era a de que fosse retardado mental. Parece que ou não desejava dominar totalmente a fala humana ou que era incapaz de fazê-lo. Com o tempo fez escassos progressos e morreu em 1828, quando tinha por volta de 40 anos.

Em 1970, o cineasta francês François Truffaut dirigiu um filme sobre a história de Victor, chamado L’enfant Sauvage (“O Garoto Selvagem”, na versão brasileira). Assista abaixo:

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Sujit Kumar, o garoto galinha

sujit1Em um remoto vilarejo no interior de Fiji, um país arquipélago composto por mais de 300 ilhas no sul do Pacífico, um menino cresceu com as galinhas. Sujit Kumar perdeu os pais ainda criança. A mãe cometeu suicídio e o pai foi assassinado logo depois. Sem saber o que fazer com o menino, os avós colocaram o garoto no galinheiro, no andar debaixo da casa. Lá, ele viveu por 6 anos. O menino dormia no poleiro, se alimentava com as galinhas e aprendeu a andar e a se comunicar como os animais. Sujit Kumar nunca foi ensinado a falar, mas sabe cacarejar. Ele sacode a cabeça e cisca como os galináceos. Durante toda sua vida, pegou a comida com a boca em formato de bico tentando imitar os bichos ao “bicar” os alimentos.

Sujik Kumar não tinha contato com o mundo exterior. Sua família e seus amigos eram as aves com quem conviveu até ser removido pelo poder público, aos 8 anos de idade. Era para ser a salvação do menino, mas a mudança se transformou em outro triste capítulo de sua história. No final dos anos 1970, Fiji não tinha orfanato. Sem chances de ser adotado por causa do seu comportamento, Sujit foi colocado em um asilo de idosos. Ele praticamente não havia visto gente durante a maior parte da vida; então, muitas vezes, se tornava agressivo. Por isso, ficou os 22 anos seguintes preso à cama, amarrado com lençóis. As cicatrizes ainda estão bem claras em volta de sua cintura. Sujit passou o final da infância, a adolescência e grande parte da vida adulta dentro do quarto. Era ali que comia e fazia suas necessidades.

No final de 2002, a visita de um grupo do Rotary Clube seria o começo de uma nova vida para o “garoto-galinha”, como ficou conhecido pela comunidade. Elizabeth Clayton fazia parte da comitiva que foi doar mesas de plástico para a instituição. A australiana era uma empresária de sucesso, que fez fortuna fabricando e exportando móveis em Fiji, para onde tinha se mudado há 10 anos. Poucos meses antes do encontro com Sujit, ela ficou viúva. O marido Roger Buick morreu tentando escalar o monte Everest. Elizabeth nunca esquece o primeiro momento em que viu o rapaz. “Ele estava tão debilitado e mal-tratado. Apanhou no rosto e tinha os dedos inchados, além dos dentes e o nariz quebrados. Quando o vi, eu não sabia se era uma criança ou um homem. Sua aparência era decrépita. A barba estava longa e as pessoas pensavam que ele era selvagem”, recorda. Naquele momento, ela tomou a decisão que mudaria também seu próprio destino. “Eu vi um brilho nos olhos dele. Não podia simplesmente virar minhas costas”, declarou.

As frequentes visitas ao asilo aumentaram o vínculo entre os dois, até que Elizabeth decidiu levar o garoto para morar com ela. Precisou de muito amor e paciência para superar a fase inicial. “Ele ‘bicava’ a parede e coisas assim. Sujit também não conseguia dormir na cama; então, se levantava e se empoleirava na cadeira, por exemplo”, conta. Da mesma forma, o rapaz usaria o vaso sanitário. Algumas vezes, o comportamento era violento. “Ele me mordia, me arranhava e me empurrava. Meu maior sonho é que ele seja independente nos seus hábitos pessoais. Assim, conseguirá escovar seus dentes, ir sozinho ao banheiro e até se barbear. Meu maior sonho, na verdade, é que ele consiga falar”, diz. “Por causa das crises, os familiares pensaram que era um espírito demoníaco e daí quiseram se livrar dele. Lá (em Fiji), as pessoas pensam que o espírito do mal é a causa dos problemas da família”, explica. Para se dedicar totalmente a Sujit, Elizabeth vendeu o negócio e viajou com o garoto para a Austrália, onde consultou diversos especialistas: fonoaudiólogos, patologistas, professores de educação especial, neurologistas…

sujit5Sua dedicação ao garoto recebeu críticas e enfrentou resistências. O irmão da australiana chegou a dizer que era uma “perda de tempo, porque Sujit é animalesco e não vai melhorar”. Já  governo de Fiji tirou o rapaz da casa dela. “Eles não me deram nenhuma explicação. Fiquei devastada e chorei muito. Eles não perceberam a importância do nosso vínculo. Tinha que lutar por ele e acabei nos tribunais”, recorda. No dia do julgamento, Sujit correu para os braços dela e o juiz acabou concedendo a custódia. Com cerca de 40 anos (já que ninguém tem certeza absoluta da verdadeira idade do rapaz), Sujit ainda não consegue falar, mas já se comunica através de gestos. Quando quer água, ele pega um copo; quando quer passear, ele pega a chave do carro. De vez em quando, Sujit ainda sacode a cabeça, cisca ou pega a comida com as pontas dos dedos, mas está aprendendo. Ele já caminha quase normalmente e circula entre as pessoas sem medo. Elizabeth investiu o dinheiro da venda da empresa na criação de um lar para crianças. Hoje, a australiana recolhe meninas e meninos nas ruas de Fiji e vive com eles no local chamado “Happy House” (Casa Feliz).

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O Enigma de Kaspar Hauser

Kaspar HauserKaspar Hauser (1812-1833) foi uma criança abandonada, envolta em mistério, encontrada numa praça em Nuremberg, na Alemanha. Passou os primeiros anos de sua vida aprisionado numa cela, não tendo contacto verbal com nenhuma outra pessoa, fato que o impediu de se expressar em um idioma. Porém, com o seu posterior contacto com a sociedade, na adolescência, logo lhe foram ensinadas as primeiras palavras e ele pôde paulatinamente aprender a falar, da mesma maneira que uma criança o faz. A exclusão social de que foi vítima não o privou apenas da fala, mas também de uma série de conceitos e raciocínios, o que fazia, por exemplo, com que Hauser não conseguisse diferenciar sonhos de realidade durante o período em que passou aprisionado.

Supostamente com 15 anos de idade, Hauser foi abandonado em uma praça pública de Nuremberg, em 26 de maio de 1828, portando apenas algumas peças de roupas velhas, um chapéu, um livro de orações e uma carta endereçada ao oficial chefe da guarda da cidade, explicando parte de sua história e contendo indicações de que ele provavelmente pertencia a uma família da nobreza. Ele se recusava a comer e beber qualquer coisa além de pão e água, com o que provavelmente se alimentara durante todos os anos de cativeiro. Aprendeu a falar, a ler e a se comportar socialmente, e a sua fama correu a Europa. Obteve um desenvolvimento do lado lógico e racional do cérebro notoriamente maior que o do lado emotivo e social, o que lhe proporcionou avanços consideráveis no campo da música. Em dezembro de 1833, Hauser foi assassinado com uma facada no peito enquanto caminhava pelos jardins do palácio de Ansbach. As circunstâncias, motivações e autoria do crime jamais foram esclarecidas, apesar da recompensa de 10 mil guldens (algo em torno de 180 mil euros hoje) oferecida pelo rei Luís I da Baviera.

A intrigante história de Kaspar Hauser foi adaptada para o cinema no filme “Jeder für sich und Gott gegen alle” (“Cada um por si e Deus contra todos”, em tradução livre), de 1974, dirigido pelo cineasta alemão Werner Herzog e lançado em português com o título “O Enigma de Kaspar Hauser”. Assista abaixo o filme completo e legendado:

O Ocidente e o Islã

Artigo de opinião do historiador, teólogo e pastor presbiteriano Alderi Souza de Matos, publicado originalmente no portal da Mackenzie.

Veja também: O Oriente e o Ocidente

mesquitaNos últimos anos, uma série de acontecimentos dramáticos tem chamado a atenção de todos para as enormes tensões existentes entre o mundo muçulmano e o Ocidente cristão. A ressurgência do fundamentalismo islâmico, a intensificação do terrorismo, os conflitos entre Israel e Palestina e a invasão americana no Iraque transformaram a interação desses dois mundos em um dos temas mais candentes do nosso tempo. Ao que parece, essa interação terá vastas consequências para a humanidade ao longo do século 21. Para se entender melhor a complexidade dos eventos atuais é preciso conhecer um pouco de história.

Quando o islamismo surgiu na primeira metade do século VII da era cristã (ano 622), o cristianismo já era uma religião consolidada e estava a caminho de criar a grande civilização européia conhecida como “cristandade”. O antigo Império Romano Ocidental havia desaparecido e dentro de um século e meio haveria de surgir o Sacro Império Romano Germânico, sob a liderança do imperador dos francos, Carlos Magno (que reinou de 771 a 814). O islamismo foi fruto da genialidade de um notável líder religioso, Maomé (ou Muhammad, 570-632), que transformou os povos árabes, até então inexpressivos e desunidos, em uma poderosa força no contexto internacional. Inspirados pela nova fé, em poucas décadas os muçulmanos conquistaram todo o Oriente Médio, a Mesopotâmia e o norte da África, bem como passaram a ameaçar a Europa cristã tanto no Oriente (Ásia Menor) quanto no Ocidente (Península Ibérica).

É importante lembrar que o islamismo foi, desde o início, uma religião conscientemente rival do cristianismo e do judaísmo, ainda que se considerasse herdeira dessas duas tradições religiosas. Além disso, enquanto os cristãos por vários séculos expandiram a sua fé por meios pacíficos, os muçulmanos o fizeram, desde o início, também pela força, isto é, mediante a conquista militar. É verdade que eles geralmente se mostravam tolerantes com as populações cristãs conquistadas, mas estas eram relegadas a um status inferior e sofriam toda uma série de limitações religiosas, sociais e econômicas.

A cristandade sofreu por cerca de quatro ou cinco séculos contínuas incursões islâmicas em seus territórios. Foi somente depois do ano 1000 que surgiu uma reação ampla e organizada – na Península Ibérica, a chamada Reconquista, e no Oriente Médio, as Cruzadas (1095-1291). Estas últimas, que visavam libertar os locais sagrados do cristianismo, na Palestina, foram especialmente significativas por causa de seus objetivos, motivações e amplas consequências.

Do ponto de vista político e militar, as Cruzadas foram um fracasso, mas intensificaram o intercâmbio cultural e econômico entre o Oriente e o Ocidente. Ao longo da Idade Média, os muçulmanos criaram florescentes civilizações em regiões como Iraque, Síria, Egito e Espanha, dando notáveis contribuições ao Ocidente nas áreas da filosofia, literatura e ciência. Ao mesmo tempo, as violências perpetradas pelos cruzados produziram marcas profundas na consciência islâmica e se tornaram um fator perene de ressentimento e amargura em relação ao cristianismo e ao Ocidente.

Outra consequência adversa foi o maior distanciamento entre a cristandade ocidental (católica romana) e a cristandade oriental (ortodoxa grega). Após as cruzadas, surgiu uma poderosa força muçulmana na Ásia Menor – o Império Otomano (1300-1924), que por vários séculos atacou continuamente a Europa cristã, conquistando boa parte dos Bálcãs. Em 1683, os turcos foram derrotados durante o segundo cerco de Viena, em sua última tentativa de invadir a Europa central. O mundo islâmico estava entrando em um longo período de declínio, tornando-se uma sombra do que havia sido em séculos anteriores, e cessaram por longo tempo os seus conflitos com o Ocidente.

No início do século 20, o fim do império turco, a partilha dos territórios árabes entre vários países europeus (colonialismo), a criação do Estado de Israel e a descoberta de petróleo no Oriente Médio deram nova visibilidade à região e produziram renovados conflitos com o Ocidente. O descumprimento de promessas no que diz respeito à independência dos países árabes, à criação de Israel e à preservação dos direitos dos palestinos gerou forte sentimento anti-europeu e anti-americano naquela região.

O sentimento de trauma e frustração do mundo muçulmano, em virtude de se considerar injustiçado pelo Ocidente, aliado à ameaça de secularização, ocidentalização e dissolução dos valores tradicionais, alimentou uma corrente intolerante e agressiva dentro do islamismo, que resultou no fundamentalismo militante das últimas décadas. A partir dos anos 1950, essa reação conservadora produziu resistência política, revolução e finalmente o horrendo flagelo do terrorismo.

Para a restauração da confiança entre as duas comunidades, o mundo ocidental precisa reconhecer e sanar os seus erros: sua arrogância e prepotência, suas ações imperialistas (políticas e culturais), sua falta de simpatia e sensibilidade acerca de questões essenciais como a causa palestina. Por outro lado, as nações islâmicas não estão isentas de falhas, entre elas a ausência de instituições democráticas e o desrespeito aos direitos humanos e a intolerância contra minorias religiosas (em contraste com a plena liberdade que os muçulmanos usufruem no Ocidente). Os muçulmanos devem reconsiderar alguns aspectos do conceito de jihad (guerra santa), a incitação à violência nas mesquitas, e o radicalismo em nome de Alá, “clemente e misericordioso”. Enfim, é necessária a ação dos governos, dos organismos internacionais, dos grupos religiosos e de todas as pessoas de boa-vontade para que sejam curadas as feridas antigas e recentes e se renove a harmonia nas relações entre os muçulmanos e o Ocidente, o que trará benefícios extraordinários para todo o mundo.

Direitistas querem liberdade, esquerdistas querem igualdade: essa é a diferença

liberdade igualdade fraternidade

Toda a nossa filosofia política ocidental, pelo menos após o iluminismo, é baseada em três grandes princípios, os quais compõem o lema da Revolução Francesa: LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE. Historicamente, a bandeira da fraternidade sempre foi defendida pelas religiões e pela filosofia humanista. Desde que Igreja e Estado se separaram, isto é, desde que a sociedade se laicizou, promover a fraternidade entre os homens deixou de ser uma atribuição da política. Na civilização ocidental contemporânea, portanto, liberdade e igualdade reinam hoje absolutos como os dois valores mais fundamentais de toda a nossa filosofia política.

O problema que alimenta praticamente todas as nossas diferenças políticas, partidárias e ideológicas é que esses dois princípios são mutuamente excludentes, ou seja, formam uma proporcionalidade inversa. Isto significa que, em qualquer sociedade politicamente organizada, quanto mais liberdade, menos igualdade temos; de igual modo, quanto mais igualdade, menos liberdade. Não é difícil entender esta lógica: deixadas livres para agir social e economicamente, as pessoas tendem a potencializar as suas diferenças naturais, gerando desigualdade social. Por outro lado, quando o Estado intervém na sociedade para reduzir a desigualdade, as liberdades individuais são reduzidas em nome daquilo que se convencionou chamar “justiça social”.

Imperativo torna-se, então, escolher aquilo que deve ser priorizado em determinada sociedade: liberdade ou igualdade. Esta, no fim, é a briga ideológica entre direita e esquerda: direitistas querem liberdade, esquerdistas querem igualdade. Nessa acirrada disputa política, há ainda os que se posicionam como “centro”, seja porque defendem um suposto equilíbrio entre esses dois princípios, seja por pura indecisão, ou simplesmente para não abrir mão da situação confortável e conveniente de não se posicionar, angariando simpatia e votos de ambos os lados, em nome de uma suposta isenção. Deixemos, pois, esses indecisos de lado – ou melhor, no centro mesmo – e vejamos o que pensam a esquerda e a direita em política. Tentei ser imparcial o máximo possível. Talvez isso ajude a tirar muita gente de cima do muro.

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O QUE PENSA A ESQUERDA

socialismoO discurso político de quem prefere se posicionar à esquerda é todo baseado na noção de “justiça social”. Teoricamente, todas as suas ações políticas têm como objetivo principal reduzir a desigualdade social entre ricos e pobres, que para eles é o maior problema que enfrentamos. Os esquerdistas entendem que uma das principais funções do governo é arrecadar dinheiro dos mais ricos por meio de impostos e redistribuir essa riqueza para a população mais pobre através de programas sociais. Com vistas a esse fim, defendem políticas públicas que promovam a redistribuição de renda, tais como reforma agrária e assistencialismo.

Seu pensamento encontra suporte teórico nas doutrinas econômicas e sociais do marxismo, socialismo e comunismo – ideologias revolucionárias baseadas na noção de “luta de classes”. Segundo essa ideologia, todas as nossas interações sociais refletem um conflito de interesses entre ricos e pobres, burguesia e proletariado. Para defender os interesses dos mais pobres frente ao poder econômico das elites, os esquerdistas costumam apoiar governos populistas, altas cargas tributárias, intervenção estatal no comportamento das pessoas, movimentos sociais em defesa das minorias, políticas de ações afirmativas (cotas), greves e sindicalismo. Alguns mais extremistas defendem ainda uma ditadura do proletariado, que seria alcançada depois de uma revolução socialista. Os principais exemplos contemporâneos de regimes socialistas no mundo são Cuba, Venezuela, Coreia do Norte e China, além da extinta União Soviética.

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O QUE PENSA A DIREITA

americaO discurso político de quem prefere se posicionar à direita baseia-se nas noções de liberdade e meritocracia. Pelo menos em teoria, suas ações políticas têm como objetivo principal reduzir a presença estatal nos assuntos privados e promover o capitalismo de livre marcado, assegurando as liberdades individuais dos cidadãos. Os direitistas entendem que uma das principais funções do governo é garantir serviços básicos como educação, saúde e segurança pública, mantendo sua atuação discreta, restrita ao que é essencial, sem maiores intervenções nas demais esferas da sociedade. Com vistas a esse fim, defendem políticas públicas e atitudes que promovam o Estado mínimo, tais como privatizações e empreendedorismo.

Seu pensamento encontra suporte teórico nas doutrinas do liberalismo econômico e do conservadorismo clássico – visão de mundo baseada em valores que perduram por séculos e sustentam os três grandes pilares da civilização ocidental, a saber: moral judaico-cristã, filosofia grega e direito romano. Para defender o direito à propriedade privada frente ao poder político do Estado, os direitistas costumam apoiar a redução dos impostos e da burocracia, controle da inflação, iniciativa privada, família e valores tradicionais. No Brasil, alguns extremistas, temendo a ascensão do comunismo, defendem ainda uma intervenção militar, culminando com a volta da ditadura – solução claramente contrária ao princípio da liberdade. Os principais exemplos contemporâneos de regimes capitalistas no mundo são EUA, Reino Unido, França, Alemanha e Japão.

Os três maiores impérios de todos os tempos

Antique Map of Europe 1595Para definir quais foram os maiores impérios da história, não basta levar em conta apenas a extensão territorial. “Existiram os muito grandes, mas que foram também muito efêmeros”, diz o professor doutor Pedro Paulo Funari, do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas (Unicamp). Segundo ele, a duração e o legado de cada um deles também são fatores importantes nessa definição. É a partir desses critérios que são apontados o romano, o russo e o britânico como os 3 maiores impérios da história:

“O mongol teve extensão maior que o romano, por exemplo, mas sua duração foi muito curta. Já o de Alexandre, o Grande, durou somente dez anos e chegou ao fim com sua morte. O império romano, por sua vez, além de ser muito extenso, existiu por quase oito séculos e deixou consequências muito duradouras, como as estradas construídas na época e que são usadas até hoje, e as leis, que foram transmitidas para diversas civilizações. Já os britânicos expandiram a língua inglesa e difundiram aquilo que caracteriza o mundo de hoje, que é a industrialização e a globalização.”

Embora tenham ocorrido em épocas diferentes, os três impérios carregam algumas características em comum. “Eles conviviam com um poder central e a diversidade cultural dos povos dominados – porém, de maneiras diferentes em cada um deles. Além disso, nos três casos fazia-se uso de uma língua de comunicação entre as elites: o latim, no romano; o inglês, no britânico; e o russo. Não é à toa que esses idiomas se tornaram tão importantes mundialmente”, explica Pedro Funari. Mas as semelhanças não passam muito para além dessas esferas. Individualmente, cada um possuía características muito peculiares, desde a forma de conquista e administração até na sua relação com os povos dominados.

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Império Romano

rome wolfÉ o mais antigo entre os três. Teve suas origens no século 4 a.C. O poder centralizado não era tão forte, mas utilizavam-se mecanismos que garantiam a dominação dos povos conquistados. “O exército romano era poderosíssimo, baseado na tecnologia do ferro. Havia uma organização militar bem consolidada. Além disso, os colonizados eram aceitos como cidadãos romanos. Isso foi muito importante”, afirma o professor Funari. Sua administração também era bastante organizada. “Era um tipo de império fundado em cidades, onde a vida girava em torno delas. Havia um excelente sistema viário – o melhor até a invenção dos trens – que fazia a comunicação entre elas, permitindo o transporte das tropas”. O império teve seu fim entre os anos de 410 e 480, quando diversas áreas começaram a se desmembrar no ocidente e deixou de existir um governo centralizado, dando origem à formação de reinos bárbaros.

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Império Russo

RUSSIAN-FLAG-GIFTeve início no século 16 e terminou com a Revolução Russa em 1917. “Formalmente, ele acabou, mas de certa forma continuou existindo como União Soviética até 1989”, diz Pedro Funari. “Hoje em dia, a Rússia ainda mantém características de império. Sua extensão não é mais tão ampla como foi no passado, porém, ela chega até a China e ainda possui várias regiões que falam línguas diferentes”. Essa foi, aliás, uma marca importante do poder russo: ao conquistar povos tanto do oriente quanto do ocidente, permitia-se que eles mantivessem suas línguas e culturas. Isso porque o poder político era fortemente centralizado na figura do czar. “Era um governo teocrático, e o principal elemento de aglutinação foi a igreja ortodoxa. Os chefes locais eram mantidos prestando tributos ao czar”, explica o historiador. O império foi o maior em continuidade geográfica, diferentemente do romano, que se organizava em torno do Mar Mediterrâneo, e do britânico, que teve colônias espalhadas por todos os continentes.

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Império Britânico

reino-unidoFoi o maior império da história. Já no século 16, conquista a Irlanda, formando seus primeiros embriões. Mas foi só nos séculos 18 e 19 que os britânicos se consolidaram como grande império, ao dominar parte do continente africano e países como Índia, Austrália e Canadá. “Havia uma frase que dizia: ‘O sol nunca se põe no império britânico’, porque ele se espalhou por todo o mundo”, comenta Pedro Funari. Suas principais características foram a fortíssima marinha e o domínio econômico sobre as colônias, que forneciam matéria-prima para a Inglaterra e consumiam seus produtos industrializados. “Era um império capitalista, enquanto o romano era escravista, e o russo era feudal”, destaca.

Veja também:
Qual é a diferença entre Inglaterra, Reino Unido e Grã-Bretanha?

O desenvolvimento da indústria no país foi o fator chave que permitiu um acúmulo de capital para investir em frotas marinhas e, com isso, conquistar suas colônias. Suas formas de controle também eram eficazes. “Eles fizeram alianças com elites locais, beneficiando-as, como, por exemplo, os marajás indianos”, explica Pedro. O fim pode ser datado a partir da independência da Índia, em 1947. “Foi o primeiro grande golpe contra a coroa, em que sua maior joia foi perdida. As colônias na África também foram conquistando sua independência nos anos 1950, e, já em 1970, a Inglaterra já não formava mais um império – embora ainda hoje englobe as comunidades britânicas de suas ex-colônias”, diz o professor.

Fonte: Revista Nova Escola.

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