Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo – Galileu Galilei

800px-Galileos_Dialogue_Title_Page

Galileu Galilei (1564-1642), físico, matemático e astrônomo italiano, é considerado o pai da ciência moderna. Vivendo a maior parte de sua vida em Pisa e Florença, desenvolveu os primeiros estudos sistemáticos do movimento uniformemente acelerado e dos movimentos pendulares. Descobriu a lei dos corpos e enunciou o princípio da inércia, ideias precursoras da mecânica newtoniana. Aprimorando o uso do telescópio refrator, foi um dos primeiros astrônomos a registrar as manchas solares, as montanhas da Lua, as fases de Vênus, quatro dos satélites de Júpiter e os anéis de Saturno. Foi também um dos mais corajosos defensores do heliocentrismo, desafiando a Inquisição e os dogmas da Igreja, e contribuiu decisivamente para o estabelecimento do método científico empírico.

A famosa obra Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo cobre o período de 1610 a 1632, no qual Galileu realiza uma impressionante campanha a favor do copernicanismo e da liberdade de pensamento, que ultrapassa as fronteiras da ciência para dirigir-se ao público em geral, ao conjunto da cultura organizada de sua época. Por isso, o Diálogo é uma obra de combate, cujo objetivo indisfarçável é o de fazer rever o édito de 1616 da Inquisição romana que proibia o livro De revolutionibus, de Copérnico. Ao afirmar assim o caráter planetário da Terra, Galileu destrói os fundamentos antropocêntricos da visão católica tradicional. E, de fato, será condenado em 1633 por esta obra que inaugura a ciência moderna e redesenha o mapa da cultura ocidental.

Argumentos contra as cotas raciais

São vários os nomes: ação afirmativa, discriminação positiva, política com­pensatória… Mas a ideia é uma só: corrigir a desigualdade social entre negros e brancos dando benefícios ao lado considerado “mais fraco”. Conheça abaixo os principais argumentos usados por quem é contra a política de cotas raciais nesta matéria da Superinteressante.

color-range

Para poder se beneficiar das cotas, é preciso fazer uma escolha: ou se é branco ou se é negro. Essa proposta de divisão explícita dos brasileiros em duas categorias bem delimitadas é o primeiro ponto a tirar do sério os opositores das cotas. Questiona-se a criação de um sistema que subverte um pilar da democracia: a ideia de que todos somos iguais perante a lei. Para a antropóloga Yvonne Maggie, da UFRJ, o efeito dessa produção artificial de etnias e raças é o fim da identidade nacional. Deixamos de ser simplesmente cidadãos do Brasil para nos tornar brasileiros negros ou brasileiros brancos. “É o caminho para a difusão do ódio racial no Brasil”, afirma o sociólogo Demétrio Magnoli.

Outra distorção, na opinião dos críticos da política de cotas, é a supressão do mérito como critério de recompensa. Uma organização meritocrática é aquela que dá as melhores oportunidades a quem demonstrar mais habilidade e talento. Ao derrubar essa ideia, as cotas podem estigmatizar quem é beneficiado por elas. “Nos Estados Unidos, os estudantes asiáticos tiram dos brancos mais vagas nas universidades de ponta do que os negros. Mesmo assim, nas não são obrigados a lidar com o mesmo ressentimento. Isso porque existe a percepção comum de que eles entraram por mérito e não ajudados por um sistema de cotas. Ou seja: o ressentimento não é em relação à perda de vagas, mas ao modo injusto como isso acontece”, diz Thomas Sowell, economista da Universidade Stanford e autor de Ação Afirmativa ao Redor do Mundo.

Há ainda o temor de que a qualidade do ensino nas universidades piore com a entrada de alunos que não necessariamente obtiveram as melhores notas de acesso. Para os críticos das cotas, as funções primordiais da universidade pública são a pesquisa e a formação de alto nível, não a prestação de um auxílio social ao país. “Quando as universidades admitem alunos por critérios não acadêmicos, há um risco real de que percam qualidade”, alerta Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE.

Por fim, o time anticotas não tem dúvidas de que o seu caráter supostamente temporário é uma grande farsa. A maioria dos países que adotam a política de cotas acaba por prorrogá-la indefinidamente. Qual político quer se expor à impopularidade de suspender um benefício social? Ao contrário: as cotas costumam ser sempre ampliadas para beneficiar outros grupos em desvantagem. Quando a Índia adotou a ação afirmativa, em 1949, foi determinado um prazo de 10 anos. A reserva está até hoje em vigor. O motivo? Cotas não custam nada ao governo; e ainda dão aos políticos a chance de se gabarem por promover o avanço racial. Quem não quer uma mamata dessas?

Voltemos á realidade brasileira. Suponhamos que determinado governo analisou algumas estatísticas e decidiu que é preciso aumentar a presença de negros nas universidades públicas do país. Como seria possível fazer isso? Como determinar quem é negro e quem não é em um país miscigenado como o Brasil? Recentemente, a Universidade de Brasília (UnB) instituiu uma comissão para julgar se a autodeclaração de raça é verdadeira. Os integrantes da banca, cujos nomes não são revelados, dão uma bela olhada na foto do candidato e decidem, assim no olho, quem é negro e quem não é. Em 2005, 48% dos candidatos inscritos tiveram suas fotos rejeitadas e foram impedidos de concorrer a uma vaga pelo sistema de cotas. O “tribunal racial” da UnB, como ficou conhecido, recebeu uma enxurrada de críticas. Houve até um caso de dois irmãos gêmeos idênticos que se inscreveram nas cotas: um deles foi considerado negro e o outro não.


O que diz a ciência sobre a existência de raças humanas?

Nunca entendi por que sou obrigado a preencher, em formulários e documentos oficiais do governo, uma declaração de cor ou raça. Não vejo nenhum sentido em dividir as pessoas por cor ou raça, principalmente se isso é feito com a desculpa de combater o racismo. Na minha opinião, esse hábito é que é um tipo de racismo. Talvez o pior tipo: o racismo institucionalizado. Sorte a nossa que a ciência tem atuado para combater essa ideia equivocada de que cor ou raça é geneticamente importante nos humanos. É o que mostra o artigo abaixo, de Alexandre Varsignassi para a revista Superinteressante.


A cor da pele não é assunto entre os chimpanzés. Se você depilar um, uma pele branca vai aparecer por baixo da manta de pelos. Passa a gilete em outro e surge uma pele preta. Manda mais outro para a cera quente e quem sai do centro de depilação é um chimpanzé rosa. Na verdade, eles mudam de cor ao longo da vida: nascem mais claros e vão escurecendo. Mas não importa. A cor da pele é tão relevante para eles quanto a do pâncreas é para a gente. Não que eles não sejam racistas. No mundo chimpanzé, o pelo pode ser de qualquer cor, contanto que seja preto. Quando nasce algum albino, com pêlo branco, não tem jeito: os outros chimpanzés não aceitam. Ele vai apanhar, ficar isolado e morrer logo – ou linchado ou de fome.

Nosso ancestral comum com os chimpanzés, um símio que viveu há 6 milhões de anos, provavelmente obedecia a mesma regra. A cor da pele não tinha importância, só a dos pelos. Mas uma hora essa história mudou. Há coisa de 2 milhões de anos alguns dos descendentes desse ancestral comum começaram a perder pelos. A cada mil partos nascia um macaco pelado. Um mutante. Algumas dessas aberrações genéticas tinham o mesmo destino dos albinos: bullying e morte prematura. Outros não. Talvez a falta de pelos os tenha ajudado a lidar melhor com o calor africano, e eles conseguiam ir mais longe para arranjar comida. Assim, viviam mais e melhor, então se reproduziam mais.

Deu tão certo que, uma hora, esses macacos pelados tinham formado uma super espécie – eram maiores e bem mais inteligentes que seus antepassados peludos. Nada mal para quem começou a vida evolutiva apanhando. Hoje esse animal sem pelos é conhecido como Homo erectus – são os nossos avós diretos. E as mutações não pararam, lógico. Quanto maior a inteligência de um erectus, maior era a chance de ele deixar mais descendentes. Então 1,8 milhão de anos depois já havia alguns erectus com cérebro gigante, e, de quebra, com traços idênticos aos dessa maravilha genética que você vê no espelho todas as manhãs. Era o Homo sapiens.

E você era negro. A pele escura era a melhor para aguentar o sol africano sem a proteção de uma camada de pêlos, já que é menos propensa a brindar seu dono com um câncer de pele. Por essas, nossa linhagem trocou o arco-íris de pigmentação que provavelmente tinha antes de perder os pêlos por uma tonalidade só. Ficamos monocromáticos. Mas não demorou e o sapiens começou a colonizar outras partes do mundo. Um dos momentos mais definidores dessa fase foi quando chegamos à Europa, há 40 mil anos, e exterminamos os neandertais. Eles eram nossos primos, também descendentes do erectus. A diferença é que os ancestrais deles tinham saído da África há 400 mil anos (200 mil antes de a nossa espécie surgir).

Por essas, os neandertais já nasciam adaptados ao frio: eram fortes que nem um bisão e, como todo mamífero que vive no gelo, tinham pele e cabelos claros. Não que camuflagem na neve fosse tão importante para eles quanto é para um urso polar ou uma raposa siberiana. Os neandertais mantiveram a mutação dos seus avós africanos – a de não ter pêlos (pelo menos não tantos pêlos). Então precisavam se cobrir de peles o tempo todo para aguentar as temperaturas negativas. A vantagem da pele clara era outra: ela sintetiza melhor a vitamina D nas altas latitudes, onde não existe sol o bastante para fazer esse trabalho a contento. Num tempo em que nutriente era tudo o que faltava, qualquer vantagem na absorção de algum deles fazia toda a diferença. O processamento mais eficaz de vitamina D era uma vantagem. Assim os neandertais foram embranquecendo.

Não que isso tenha ajudado muito quando nós, negros Homo sapiens, entramos na Europa. Nossa tecnologia àquela altura era bem superior à dos neandertais, com lanças mais leves e afiadas. Mas o que fazia mesmo a diferença era a nossa organização social: andávamos em grupos de 100, 200 pessoas. Eles, em famílias com no máximo 10 indivíduos. Cada encontro, então, era um massacre. Não demorou e já tínhamos matado todos os neandertais. Algumas fêmeas de neandertal, no entanto, conseguiam escapar da morte trabalhando como escravas sexuais.

A maior evidência disso é que 20% do genoma neandertal continua vivo no nosso DNA. Todo não-africano tem entre 2% e 3% de DNA neandertal dentro de suas células. Bom, pode ser também que machos neandertais tenham inseminado nossas fêmeas ao longo do processo, mas dificilmente essa foi a regra: mulheres são um espólio de guerra constante na nossa história, e talvez mais ainda na nossa pré-história.  Mas não foi a hibridização com os neandertais que empalideceu o sapiens na Europa. Não havia neandertais o bastante para fazer a diferença no pool genético da pigmentação e, provavelmente, os machos nascidos desses encontros eram inférteis, como acontece com machos filhos de tigres com leoas – aí complica mais ainda.

sapiens embranqueceu pelo mesmo processo de sempre: a cada mil, dez mil nascimentos, aparecia um mutante. Em alguns casos, a mutação era ter uma pele mais clara. Esses indivíduos deviam levar seus pescotapas na infância, por serem diferentes do resto. Alguns certamente eram mortos pela própria família logo que viam a luz. Mas naquele ambiente ser branco ainda era vantagem, também por causa da vitamina D. Uma vantagem grande o bastante para que, em poucas dezenas de milhares de anos, só nascessem sapiens de pele clara nas latitudes mais altas. Era a evolução emulando dentro da nossa espécie o que já tinha acontecido entre os ancestrais dos neandertais num passado ainda mais remoto.

Hoje a cor da pele não faz diferença do ponto de vista evolutivo: por mais que a nossa dieta não seja uma maravilha, temos acesso a tantos nutrientes que a capacidade de sintetizar mais vitamina D não tem mais com apitar na cor da pele. Nem a vitamina D nem a quantidade de sol do ambiente. Um Nigeriano vai viver o mesmo tempo (e ter o mesmo sucesso reprodutivo) vivendo em Copenhague ou em Salvador. Um dinamarquês, idem. O mais provável, então, é que fiquemos todos marrons em alguns milhares de anos, já que mais hora menos hora todos os genes de pigmentação dos sapiens vão acabar misturados, em todos os indivíduos.

Não que isso vá ser a panaceia da humanidade. Na Índia todo mundo é marrom faz tempo, e isso não impediu que surgisse o sistema de castas. Os Hutus e os Tutsis, de Ruanda, são quase idênticos, mesmo para os ruandeses, nem por isso deixaram de protagonizar um dos maiores massacres étnicos da história, com 800 mil Tutsis assassinados por Hutus. Um corintiano pode ser geneticamente indiscernível de um palmeirense, mas mesmo assim, de vez em quando um acha motivo para espancar e matar o outro pela cor da camisa.

O problema é que sempre nos juntamos em tribos de “iguais” para lutar contra qualquer coisa que pareça “diferente”. É parte da nossa natureza. É parte da natureza de qualquer animal – por isso todos os mutantes sofrem, em todas as espécies. Mas, ironicamente, são os mutantes, os diferentes, que fazem a espécie evoluir. Não fossem por eles, a evolução simplesmente não teria acontecido. Mas, graças a ela, hoje temos neurônios o bastante para decidir não nos comportar como amebas, para entender que o próprio conceito de raça é uma ilusão, ainda que perpetrada por um instinto estúpido.

skin color


Os negros loiros das Ilhas Salomão

Nas Ilhas Salomão, cerca de 10% da população nativa, de pele negra, tem cabelo loiro. Alguns insulares acreditam que a cor seria resultado da exposição excessiva ao sol, ou de uma dieta rica em peixe. Outra explicação seria a herança genética de ancestrais distantes — mercadores europeus que passaram pelo arquipélago. Mas essas hipóteses foram derrubadas por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos.

A variante genética responsável pelo cabelo loiro dos insulares é diferente da que causa a mesma característica nos europeus. “Este caso acaba com qualquer noção simplória que podemos ter sobre raça. Nós, humanos, somos diferentes, e esta é apenas a ponta do iceberg“, revela o geneticista Carlos Bustamante. Ele e sua equipe publicaram as descobertas na edição desta semana da revista americana Science, especializada em divulgação científica. Eles analisaram amostras da saliva de mais de mil insulares (com atenção especial para um subconjunto de 43 loiros e 42 pessoas de cabelos escuros) e conseguiram rapidamente identificar um gene responsável por essa variação. Chamado de TYRP1, ele é conhecido por influenciar a pigmentação nos humanos. Sua variante encontrada nos cabelos loiros dos nativos não é encontrada no genoma dos europeus.

negros_loiros1

negros_loiros3

negros_loiros2

Cientistas já discutem os procedimentos padrão em caso de contato alienígena

Há décadas mandamos sinais (deliberados ou acidentais) ao espaço, além de procurar por emissões de sinais enviados por alienígenas. Mas qual seria o plano caso um dia ouvíssemos alguma coisa? Se isso acontecer, é mais provável que os cientistas da Seti (sigla em inglês para Search for Extra-Terrestrial Intelligence, ou “Busca por Inteligência Extraterrestre”) percebam primeiro os sinais. Este grupo de cerca de 20 cientistas monitora constantemente o universo na esperança de captar comunicações alienígenas, geralmente contando com recursos parcos e sendo ridicularizados. Eles buscam por algo estranho nos sinais dos maiores telescópios do mundo. A Seti começou com um único homem e um telescópio, em 1959. Hoje, computadores são usados para vasculhar ondas de rádio, enviando para astrônomos possíveis indícios de vida alienígena.

Mas o que aconteceria caso fosse detectada uma comprovada comunicação alienígena? Teorias da conspiração defendem que os governos impediriam a divulgação desta informação, mas o principal astrônomo da Seti, Seth Shostak, pensa diferente. “A ideia de que os governantes iriam manter isso em segredo para evitar pânico não faz sentido”, diz ele. A primeira coisa a ser feita caso os computadores detectem algo seria confirmar a autenticidade com outros telescópios, o que levaria alguns dias. “Neste período, você pode ter certeza de que muita gente falaria sobre isso em e-mails ou blogs: o assunto não ficaria secreto”. É provável, portanto, que a notícia de um contato alienígena fosse divulgada primeiro por um astrônomo da Seti. Em 1997, um “alarme falso” mostrou a reação provável. “Observamos este sinal durante todo o dia e a noite, aguardando alguém de algum governo se manifestar. Nem mesmo políticos locais telefonaram. Os únicos interessados eram da imprensa”, revelou Shostak. Não há nenhum plano de ação detalhando quais organismos internacionais devem ser informados primeiro. “O protocolo é simplesmente fazer o anúncio”, diz Shostak.

As Nações Unidas têm um pequeno escritório em Viena chamado Office for Outer Space Affairs (UNOOSA), ou “Escritório para Assuntos do Espaço Sideral”. Os cientistas da Seti tentam sem sucesso há anos estabelecer um plano comum de ação. Perguntados o que aconteceria no caso de mensagem alienígena, a UNOOSA respondeu que seu mandato atual “não inclui nada referente à questão colocada”. Portanto, o planejamento fica a cargo de pessoas como Paul Davies, da Universidade do Arizona (EUA), que lidera a equipe de pós-detecção da Seti. Mas não sabemos que tipo de informação estaria contida em algum sinal. E sua decodificação poderia levar anos ou mesmo décadas. E o que eles poderiam dizer? Poderia ser uma saudação simples, como um “Olá, terráqueos, estamos aqui”. Poderia ser algo totalmente transformador e revolucionário, como a forma de controlar o processo de fusão nuclear, que resolveria a crise energética mundial.

Pergunte a qualquer um na comunidade Seti se deveríamos responder e o consenso é de que sim. Mas o que dizer e como é motivo de discórdia. “Quando lidamos com uma mente alienígena – o que eles poderiam apreciar, o que eles considerariam interessante, belo ou feio – será muito relacionado com o desenho de sua arquitetura neurológica que realmente não podemos adivinhar”, diz Davies. “Portanto, a única coisa que devemos ter em comum pode ser no terreno da matemática e da física”. De volta ao instituto Seti na Califórnia, o diretor de composição de mensagens interestelares, Doug Vakoch, concorda. “É difícil entender como alguém poderia construir um transmissor de rádio se não souber que dois mais dois são quatro”, diz ele. “Mas como usamos este conhecimento em comum para comunicar algo que é mais idiossincrático para outras espécies? Como diremos a eles como é ser humano?”.

Alguns cientistas da Seti argumentam que, uma vez que saibamos para onde mandar um e-mail interestelar, poderíamos simplesmente enviar todo o conteúdo da internet por meio de um raio laser. Alienígenas teriam então informação bastante para construir padrões, identificar linguagens e ver imagens, de todos os tipos, sobre o que é ser humano. Mas Vakoch acredita que mandar um “carregamento de dados digitais” seria uma aproximação “feia”. “Deve existir algo mais elegante para dizer sobre nós mesmos do que isso”. Poderíamos expressar nossa ideia de beleza, embora de forma simples, ao enviar um sinal representando a sequencia de Fibonacci, na qual cada número é a soma dos dois anteriores: 1, 2, 3, 5, 8, 13 e assim por diante. Em uma sequência vista em galáxias espirais e como algumas conchas nautilus crescem, uma constante algébrica conhecida como Proporção Áurea, esteticamente prazerosa e usada na arquitetura clássica.

Vakoch também espera mostrar características possivelmente idiossincráticas como o altruísmo. Para isto, ele preparou uma animação simples de uma pessoa ajudando outra a subir um penhasco. Mas qualquer mensagem precisaria de consenso internacional antes de ser enviada, coisa que só seria atingida por meio de negociações se um sinal realmente for captado. Até lá, ele pretende continuar pensando no que dizer. “Talvez mais importante do que se comunicar com extraterrestres, este exercício de compor mensagens é uma oportunidade para refletir sobre nós mesmos, sobre com o que nos importamos e como expressamos o que é importante para nós”, diz.

Fonte: BBC Brasil.

Artur Avila é o primeiro brasileiro a conquistar a Medalha Fields, o “Nobel da matemática”

artur-avilaAlguns dizem que a Medalha Fields é o equivalente do Prêmio Nobel para a matemática. Outros dizem que é ainda mais valiosa, pois é concedida apenas a cada 4 anos e só premia pesquisadores que se destacaram antes de completar 40 anos – o que os obriga, necessariamente, a ter algo de prodigioso. Seja como for, o Brasil acaba de ter o primeiro medalhista Fields de sua história: o matemático carioca Artur Avila, de 35 anos. Ele recebeu a honraria na abertura do Congresso Internacional de Matemáticos, realizado em Seul, capital da Coreia do Sul, juntamente com outros três premiados: Manjul Bhargava (Universidade de Princeton, EUA), Martin Hairer (Universidade de Warwick, Reino Unido), e Maryam Mirzakhani (Universidade de Stanford, EUA), a primeira mulher a receber o prêmio. Artur é o primeiro latino-americano a ganhar o prêmio.

Ele é pesquisador do IMPA (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), com sede no Rio de Janeiro, e do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), órgão de pesquisa do governo francês; e foi escolhido não por uma realização específica, mas por diversas contribuições ligadas à compreensão de sistemas dinâmicos, análise e outras áreas, em muitos casos provando resultados decisivos que resolveram problemas em aberto há muito tempo. O trabalho de Artur Avila provavelmente não vai mudar o mundo ou produzir alguma revolução na nossa compreensão dos fenômenos que ocorrem à nossa volta. Até porque as abstrações em que ele trabalha muitas vezes não têm relação alguma com a realidade. São construções abstratas e lógicas de difícil apreensão – exercícios ultrassofisticados para a mente. Mas isso não o incomoda nem um pouco. “Eu sou uma pessoa que faz matemática porque gosta, não sou ligado às aplicações”, declarou o pesquisador logo após a cerimônia de premiação.

Os trabalhos de Avila lançam luz sobre sistemas físicos tão diversos quanto a evolução de populações, o embaralhamento de cartas em um baralho e a agitação de moléculas de um gás, para não falar em certos aspectos bem complicados da mecânica quântica e no simples padrão de movimento de bolas de bilhar. Mas nada disso realmente interessa a ele. Como matemático, sua única paixão são os problemas lógicos envolvidos nessas questões. Aplicando sua criatividade e intuição, Avila destravou impasses na matemática que já duravam décadas e envolviam diferentes questões ligadas aos chamados sistemas dinâmicos, que obedecem regras matemáticas e evoluem com o tempo. Avila demonstrou um interesse particular por sistemas que, mesmo que assentados sobre alguma regra simples, eventualmente atingiam um padrão caótico, imprevisível. E, de certa forma, domou o caos, ao determinar em que circunstâncias gerais o sistema se apresenta ordenado e quando ele se transforma numa bagunça aleatória.

Mas como provar isso matematicamente? A resposta veio de Avila, que, em um trabalho publicado em 2003 em colaboração com o brasileiro Welington de Melo e o russo Mikhail Lyubich, produziu um entendimento mais completo dessa questão, confirmando essa dualidade entre regularidade e caos para todos os sistemas que produzem mapas com uma forma parabólica, os chamados “mapas unimodais”. Essa é apenas uma das contribuições citadas pela União Internacional de Matemática para justificar a premiação. Há outras, revelando um padrão no trabalho de Avila: a forma criativa e decisiva com que ele aborda os problemas, encontrando novas formas de atacá-los e debelá-los, como fez no caso dos mapas unimodais. “Com sua característica combinação de poder analítico e profunda intuição sobre sistemas dinâmicos, Artur Avila certamente ainda será um líder na matemática por muitos anos”, afirma a comissão responsável pela Medalha Fields.

A solução de problemas como esses causa profundo êxtase nos matemáticos, como se eles estivessem diante de algo sublime, uma realidade de abstração suprema, existente apenas na mente. Nas entrevistas que deu, Avila demonstra ter esse prazer, e indica que o interessante em seu trabalho é encontrar novos ângulos para atacar esses desafios e, com a lógica inabalável que dá consistência à matemática, debelá-los. Nesse contexto, até mesmo compartilhar a solução com outros colegas é o de menos. Aplicá-la a algum problema real, físico, então, nem se fale. Seria então nada mais que um capricho pessoal? De jeito nenhum. O avanço da ciência depende de pesquisadores assim, que desenvolvem teoremas e provas matemáticas por puro prazer, sem se preocupar com suas aplicações. Além de expandir o alcance do intelecto humano, eles estão, mesmo sem querer, construindo ferramentas que podem vir a ser muito úteis no futuro.

Tome como exemplo o físico alemão Albert Einstein. É indiscutível a revolução que ele causou na nossa compreensão do universo, ao propor a famosa Teoria da Relatividade, nas versões especial e geral. O que pouca gente discute é que, apesar de suas teorias serem fortemente assentadas em matemática avançada, ele não era um supremo matemático. Na teoria da relatividade especial, em que ele determina que o tempo e o espaço se contraem e se esticam de acordo com a velocidade do observador, suas contas foram baseadas em derivações de equações de transformação obtidas pelo físico holandês Hendrik Lorentz. E a relatividade geral, considerada hoje o grande feito de Einstein, ao entrelaçar a gravidade com a flexibilidade do espaço-tempo, não teria sido possível não fosse a contribuição do matemático alemão Georg Bernhard Riemann.

Na década de 1850 (65 anos antes que o físico alemão publicasse sua teoria, portanto), Riemann desenvolveu uma estrutura geométrica que incluía mais dimensões do que as três da clássica geometria euclidiana. Seu trabalho era puramente matemático, como o é o do brasileiro Artur Avila. Mas foi graças a seu interesse por esse tema puramente abstrato que Einstein encontrou a estrutura matemática adequada para mais tarde formular sua teoria. As aplicações da teoria da relatividade geral hoje são imensas, e permitem desde o funcionamento correto dos satélites de GPS até a decifração da origem e da evolução do Universo. Da mesma maneira, Artur Avila pode estar contribuindo hoje com revoluções científicas que por ora fazem parte apenas do porvir. Mas ele não se importa com isso. No fundo, a única coisa que lhe agrada é enfrentar o desafio de estender as fronteiras da matemática, atividade que, segundo a comissão julgadora da Medalha Fields, ele ainda deve conduzir com grande sucesso por muitos e muitos anos.

Fonte: Superinteressante.

Parmênides e “Interestelar”

Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo me impele, conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso da divindade, que leva o homem sabedor por todas as cidades. Por aí me levaram os habilíssimos corcéis, puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho. O eixo silvava nos cubos como uma siringe, incandescendo ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente o impeliam de um e de outro lado, quando se apressaram as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam.

Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia, encimado por um dintel e um umbral de pedra; o portal, etéreo, fechado por enormes batentes, dos quais a Justiça vingadora detém as chaves que os abrem e fecham. A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras, persuadindo-a habilmente a erguer para elas por um instante a barra do portal. E ele abriu-se, revelando um abismo hiante, enquanto fazia girar, um atrás do outro, os estridentes gonzos de bronze, fixados com pregos e cavilhas. Por aí, através do portal, as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis. E a deusa acolheu-me de bom grado, mão na mão direita tomando, e com estas palavras se me dirigiu:

“Ó jovem, acompanhante de aurigas imortais, tu, que chegas até nós transportado pelos corcéis, Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar por este caminho – tão fora do trilho dos homens –, mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender: o coração inabalável da verdade fidedigna e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína. Mas também isso aprenderás: como as aparências têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo.”


O poema acima¹ foi escrito há 25 séculos na Grécia Antiga por um filósofo pré-socrático chamado Parmênides, natural de Eleia (no sul da Itália). Na continuação do poema (postumamente intitulado “Sobre a Natureza”), Parmênides funda, segundo alguns filólogos e comentaristas, a disciplina filosófica a que chamamos “metafísica” ou “ontologia”. Mas não é isso que nos interessa agora. O que por ora nos encanta é a beleza literária do trecho acima, o proêmio do poema. E o que ele representa: uma fantástica viagem para bem longe do “trilho dos homens”. Com certa licença poética, podemos dizer que este é também o tema do filme Interestelar, de Christopher Nolan.

Pablo Capistrano sugeriu certa vez que todas as grandes histórias já contadas, em verso ou em prosa, se reduzem a apenas três tipos: as que falam sobre um amor; as que falam sobre um Deus que morre; e as que falam sobre uma viagem. Esta última temática engloba desde as grandes epopeias homéricas (Ilíada e Odisseia) até o recente O Senhor dos Anéis, de Tolkien. É também nessa categoria que se enquadram o poema de Parmênides e o filme de Nolan. Diferente das demais histórias, tanto o poema quanto o longa-metragem têm algo em comum: a grandeza da viagem. Sobre o poema de Parmênides, Capistrano diz o seguinte:²

“Do ponto de vista de Parmênides e de seus seguidores, o movimento é uma ilusão. A geração de todas as coisas, o crescimento e a corrupção; o tempo, com seus ciclos de apogeu, decadência e morte, são apenas erros dos sentidos falhos, que não alcançam a verdade bem redonda do Ser. Se qualquer um de nós, amigo leitor, entrasse no carro de Parmênides, seríamos alçados a um ponto de vista privilegiado. Poderíamos ver o mundo em sua totalidade, de fora dele, como se tivéssemos sido pegos na carona de um objeto voador não identificado e pudéssemos contemplar não apenas a terra, não apenas o sistema solar ou a via láctea, mas todo o universo, bem de longe, em sua totalidade. Se pudéssemos ter essa experiência, se pudéssemos ver o mundo como a poesia de Parmênides nos induz, teríamos a sensação de que ele seria inteiro, esférico, inabalável e sem fim; tudo junto, uno, contínuo. Seríamos tomados pela deliciosa sensação de que o tempo, a morte e a decomposição são reflexões, projeções, sombras de nossa mente que tomam o caminho errado do entendimento e pensam que as coisas são como aparecem.”

É também a este extremo distanciamento do mundo cotidiano, a essa magnífica aventura do pensamento, a essa grandiosa ousadia da imaginação humana que nos guia, como cavalos selvagens, o filme Interestelar. Christopher Nolan nos faz pensar grande, para além da superficialidade da vida com a qual estamos acostumados. “Ao adentrar o Universo”, diz um trecho do filme, “devemos encarar a realidade de uma viagem interestelar. Devemos alcançar além da nossa expectativa de vida. Temos que pensar não como indivíduos, mas como uma espécie”. Em outra cena, o protagonista reconhece: “Este mundo é precioso, mas nos diz parar partirmos já faz algum tempo. A humanidade nasceu na Terra, mas não morrerá aqui”.

Em outra cena impactante (e neste ponto eu recomendo que você pare de ler se ainda não assistiu o filme, porque vem spoiler) fica claro que o cientista da NASA responsável pela viagem interestelar, Dr. Brand, precisava encontrar uma forma de salvar a humanidade da extinção, já que o planeta Terra tornara-se um ambiente hostil e impróprio para a vida. Como o custo para levar pessoas ao espaço era alto demais e não havia recursos disponíveis para salvar muita gente da hecatombe, a única solução viável era declarar como perdido o caso das pessoas na Terra e tentar salvar ao menos a espécie, enviando ao espaço uma “bomba populacional” com 5 mil óvulos humanos fertilizados e congelados, que serviria para criar colônias e povoar outro mundo caso houvesse ao menos um com condições favoráveis à vida, o que ainda era incerto.

Dr. Brand conseguiu convencer alguns astronautas a partirem em missões suicidas em busca de pistas de um mundo habitável em outra galáxia, com potencialidade de se tornar o novo lar dos seres humanos. Atravessando buracos de minhoca, sendo atraídos por um gigantesco buraco negro, viajando em velocidades próximas à da luz e experimentando a dilatação do tempo, esses heróis altruístas sentiram na pele o que Albert Eisntein queria dizer com a sua famosa teoria da relatividade geral. Um grave problema ético surge quando o Dr. Brand precisa mentir para alguns desses astronautas para convencê-los a aceitarem a missão. Ao descobrir a farsa, Cooper, o protagonista, sente-se enganado e traído por Brand, e com razão. Nesse momento, entra em cena a defesa de Dr. Mann, outro astronauta que tripulava a nave:

“Dr. Brand sabia o quão difícil seria unir as pessoas para salvar a espécie em vez de a si mesmos ou a seus filhos. Você nunca teria vindo se não achasse que os salvaria. A evolução ainda não superou essa barreira. Podemos nos importar muito, de forma altruísta, com quem conhecemos; mas a empatia raramente vai além do que podemos ver. A mentira foi imperdoável e ele sabia disso. Ele abriu mão da própria humanidade para salvar a espécie. Foi um sacrifício incrível. O caso das pessoas na Terra é um caso perdido. Nós somos o futuro.”

Pensar na espécie em detrimento dos indivíduos, na humanidade em vez da própria família, contemplar séculos (ou milênios) à frente de seu tempo, enxergar a vida, o Universo e tudo o mais de um ponto de vista mais alto, mais distante, se afastar para conseguir ver o todo… Tudo isso o filme tem em comum com o poema de Parmênides. Embora lide a todo momento com dilemas científicos, com problemas de física quântica e da cosmologia contemporânea, quando chega nos limites da razão humana, a temática do filme deixa de ser meramente científica para se tornar filosófica. É por esse motivo que Interestelar é um dos melhores filmes que já assisti (e reassisti outras quatro vezes).


Não vás tão docilmente nessa noite linda
Que a velhice arda e brade ao término do dia
Clama, clama contra o apagar da luz que finda!
Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.³


  1. PARMÊNIDES. Da Natureza. Tradução: José Gabriel Trindade Santos. São Paulo: Loyola, 2002.
  2. CAPISTRANO, Pablo. Simples Filosofia – A história da filosofia em 47 crônicas de jornal. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
  3. THOMAS, Dylan. Do not go gentle into that good night. In: CAMPOS, Augusto de (trad. e org.). Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Pág. 10 de 17Pág. 1 de 17...91011...Pág. 17 de 17
%d blogueiros gostam disto: