Mapa mundi da produção científica

Se o mundo fosse mapeado de acordo com a quantidade de trabalhos de pesquisa científica que cada país produz, assumiria uma aparência bizarra e irregular. O norte se ampliaria, enquanto o hemisfério sul praticamente desapareceria. Destaque maior para os Estados Unidos, o Japão e praticamente toda a Europa Ocidental.

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Leia a matéria completa em: HypeScience.

Graduados – documentário completo

O documentário a seguir mostra o dia a dia de estudantes brasileiros matriculados em universidades que lideram o ranking das melhores do mundo, como as americanas Harvard, Princeton Yale. Seus sonhos, a saudade da família, a vida no campus, a estranheza de um novo país, novo clima, novos amigos… E os estudos, que nunca terminam. Em três episódios, o documentário revela a rotina acadêmica desses jovens que apostaram na aventura do conhecimento em um país estrangeiro, em busca da excelência do ensino, além de depoimentos de personalidades que vivenciaram essas experiências como Marin Alsop, Gustavo Franco, Paul Krugman e Ron Carter.

Como construir um universo

Trecho do livro de Bill BrysonBreve História de Quase Tudo.

Por mais que você se esforce, jamais conseguirá captar quão minúsculo, quão espacialmente modesto é um próton. Um próton é uma parte infinitesimal de um átomo, que por sua vez é uma coisa insubstancial. Os prótons são tão pequenos que um tiquinho de tinta, como o pingo neste i, pode conter algo em torno de 500 bilhões deles, mais do que o número de segundos contidos em meio milhão de anos. Portanto, os prótons são exageradamente microscópicos, para dizer o mínimo. Agora imagine que você possa (claro que isto é pura imaginação) encolher um desses prótons até um bilionésimo de seu tamanho normal, num espaço tão pequeno que, em comparação, um próton pareceria enorme. Agora compacte nesse espaço minúsculo uns trinta gramas de matéria. Ótimo. Você está pronto para iniciar um universo.

Estou pressupondo que você deseja construir um universo inflacionário. Se você prefere construir um universo mais convencional, do tipo big-bang comum, precisará de materiais adicionais. Na verdade, terá que reunir tudo que existe – cada partícula de matéria daqui até o limite do universo – e comprimir num ponto tão infinitesimalmente compacto que não terá nenhuma dimensão. Trata-se de uma singularidade. Em ambos os casos, prepare-se para um verdadeiro big-bang. Naturalmente, você vai querer se retirar para um local seguro a fim de contemplar o espetáculo. Infelizmente, não há local para onde se retirar, porque fora da singularidade não existe local.

Quando o universo começar a se expandir, não estará se espalhando para preencher um vazio maior. O único espaço que existe é o espaço que ele cria ao se expandir. É natural, mas errado, visualizar a singularidade como uma espécie de ponto grávido solto num vácuo escuro e ilimitado. Não há espaço, nem escuridão. A singularidade não tem nada ao seu redor. Não há espaço para ela ocupar, nem lugar para ela estar. Nem sequer podemos perguntar há quanto tempo ela está ali – se acabou de surgir, como uma boa ideia, ou se estava ali eternamente, aguardando com calma o momento certo. O tempo não existe. Não há passado do qual ela possa emergir. E assim o universo começa. Numa única pulsação ofuscante, num momento de glória demasiado rápido e expansivo para ser descrito em palavras, a singularidade assume dimensões celestiais e inconcebíveis.

No primeiro segundo dinâmico (um segundo ao qual muitos cosmologistas dedicarão suas carreiras tentando descrevê-lo em detalhes crescentes) são produzidas a gravidade e as outras forças que governam a física. Em menos de um minuto, o universo possui 1,6 milhão de bilhões de quilômetros de diâmetro e cresce a grande velocidade. Existe muito calor agora, 10 bilhões de graus, o suficiente para iniciar as reações nucleares que criam os elementos mais leves – principalmente hidrogênio e hélio, com uma pitada (cerca de um átomo em 100 milhões) de lítio. Em três minutos, 98% de toda a matéria existente ou que virá a existir foi produzida. Temos um universo. É um lugar da mais espantosa e gratificante possibilidade. E foi tudo produzido mais ou menos no tempo que se leva para preparar um sanduíche.

Quando ocorreu esse momento é objeto de discussão. Os cosmologistas há bastante tempo vêm discutindo se o momento da criação foi há 10 bilhões de anos, duas vezes essa cifra, ou um valor intermediário. O consenso parece estar se formando em torno de uns 13,7 bilhões de anos, mas essas coisas são notoriamente difíceis de medir, como veremos adiante. Tudo que se pode realmente dizer é que, em certo ponto indeterminado num passado bem remoto, por razões desconhecidas, surgiu o momento conhecido na ciência como t = 0. Estávamos a caminho. Claro que existe muita coisa que não sabemos, e muito do que julgamos saber são descobertas recentes, inclusive a noção do big-bang.

A ideia vinha pipocando desde a década de 1920, quando foi originalmente proposta por Georges Lemaître, um sacerdote e sábio belga, mas só se tornou uma noção ativa na cosmologia em meados da década de 1960, quando dois jovens radioastrônomos fizeram uma descoberta extraordinária e involuntária. Seus nomes eram Arno Penzias e Robert Wilson. Em 1965, eles estavam tentando usar uma grande antena de comunicações de propriedade da Bell Laboratories, em Holmdel, Nova Jersey, mas foram incomodados por um ruído de fundo persistente – um zumbido constante e agitado que impossibilitava qualquer trabalho experimental. O ruído era incessante e disperso. Vinha de todos os pontos do céu, dia e noite, em todas as estações do ano. Durante um ano, os jovens astrônomos fizeram tudo que lhes ocorreu para localizar e eliminá-lo. Testaram todos os sistemas elétricos. Remontaram instrumentos, verificaram circuitos, sacudiram fios, removeram a poeira de plugues. Subiram até a antena e colocaram fita vedante em cada junção e rebite. Voltaram a subir à antena, com vassouras e escovões, e removeram cuidadosamente o que descreveram num artigo posterior como “material dielétrico branco”, ou o que se conhece mais comumente como titica de pássaro. Nada do que fizeram funcionou.

Sem que eles soubessem, a menos de 50 quilômetros de distância, na Universidade de Princeton, uma equipe de pesquisadores, liderada por Robert Dicke, vinha tentando descobrir exatamente aquilo de que eles com diligência procuravam se livrar. Os pesquisadores de Princeton perseguiam uma ideia que havia sido sugerida na década de 1940 pelo astrofísico russo George Gamow. Segundo Gamow, se alguém perscrutasse o espaço a uma profundidade suficiente, encontraria alguma radiação cósmica de fundo remanescente do big-bang. Gamow calculou que, depois de atravessar a vastidão do cosmo, a radiação alcançaria a Terra em forma de microondas. Num artigo mais recente, ele chegou a sugerir um instrumento capaz de detectá-las: a antena da Bell em Holmdel. Infelizmente, nem Penzias, nem Wilson, nem ninguém da equipe de Princeton havia lido o artigo de Gamow.

O ruído que Penzias e Wilson estavam ouvindo era, sem dúvida, o mesmo ruído que Gamow postulara. Eles haviam encontrado o limite do universo, ou pelo menos da parte visível dele, a 145 bilhões de trilhões de quilômetros de distância. Eles estavam “vendo” os primeiros fótons – a luz mais antiga do universo -, embora o tempo e a distância os tivessem convertido em microondas, exatamente como Gamow previra no livro Inflationary Universe. Ainda sem saber o que causava o ruído, Wilson e Penzias telefonaram para Dicke, em Princeton, e descreveram o problema na esperança de que ele pudesse sugerir uma solução. Dicke percebeu imediatamente o que os dois jovens haviam descoberto. “Pessoal, acabamos de ser passados para trás”, ele informou aos colegas ao desligar o telefone.

Pouco depois, a Astrophysical Journal publicou dois artigos: um de Penzias e Wilson descrevendo sua experiência com o zumbido, o outro da equipe de Dicke explicando sua natureza. Embora não estivessem em busca da radiação cósmica de fundo, não soubessem o que era quando a encontraram e não descrevessem nem interpretassem seu caráter em nenhum artigo, Penzias e Wilson receberam o Prêmio Nobel de física em 1978. Os pesquisadores de Princeton obtiveram apenas manifestações de apoio. De acordo com Dennis Overbye, em Lonely hearts of the cosmos (Corações solitários do cosmo), nem Penzias nem Wilson entenderam a importância de sua descoberta até lerem a respeito no New York Times. Aliás, a perturbação da radiação cósmica de fundo é algo que todos já experimentamos. Sintonize sua televisão em qualquer canal que ela não receba. Cerca de 1% da estática saltitante que você vê resulta desse remanescente antigo do big bang. Da próxima vez que reclamar que não tem nada naquele canal, lembre-se de que você pode sempre assistir ao nascimento do universo.

Breve definição de filosofia

Filosofia é o estudo das questões fundamentais. Em uma frase curta, essa é a melhor definição que encontrei – aquela que considero a mais explicativa empregando a menor quantidade possível de palavras. Estendendo-nos um pouco mais, podemos dizer que filosofia é a dedicação intelectual aos problemas mais conceituais, às perguntas mais profundas, às dúvidas mais inquietantes que afetam nosso pensamento. Mas essa é apenas uma das três maneiras de definir filosofia. Podemos definir filosofia a partir de três perspectivas diferentes: (1) objetivamente, dizendo o que ela estuda – qual é o seu objeto de estudo; (2) etimologicamente, dizendo o que significa o termo “filosofia”; e (3) comparativamente, dizendo que diferença há entre ela e outras expressões do saber humano, como a ciência ou a religião, por exemplo. Vejamos como isso é possível.

A definição dada acima é objetiva, pois diz qual é o objeto de estudo da filosofia – a saber, as questões fundamentais. Tradicionalmente, consideramos questões fundamentais aquelas relacionadas à existência, ao conhecimento, à verdade e aos valores. A partir disso, desenvolveram-se as disciplinas principais da filosofia: ontologia (filosofar sobre a existência); epistemologia (filosofar sobre o conhecimento); lógica (filosofar sobre a verdade); e a chamada filosofia prática (filosofar sobre os valores, sejam eles éticos, estéticos, políticos, etc.). Ontologia (comumente chamada também de metafísica), epistemologia (também chamada de teoria do conhecimento) e lógica constituem a parte teórica da filosofia; enquanto que ética, estética e filosofia política constituem a parte prática. É claro que, além desse tronco principal, a filosofia possui ainda outras disciplinas, como por exemplo a filosofia da mente, da linguagem, da natureza, da ciência, da religião, da educação, entre outras tantas “filosofias”.

Por que existe algo ao invés do nada? Há alguma demonstração ou evidência da existência de Deus? Como tudo começou? Por que razão estamos aqui? Nossas vidas têm algum propósito? Nossa mente é de uma natureza diferente do nosso corpo, ou somos seres meramente físicos? Existe livre-arbítrio? Como a linguagem se relaciona com a realidade? Como o conhecimento é possível? O que podemos conhecer? Quais são os limites da ciência? Quais os critérios da verdade? O que faz com que algumas ações sejam moralmente boas e outras más? Qual é a melhor forma de governo? O que define o que é belo? Você provavelmente já se fez algumas dessas perguntas em algum momento da vida. Estas são as últimas perguntas com as quais finalmente deparamos se continuarmos perguntando indefinidamente pelo porquê das coisas.

Essas perguntas não pertencem a uma ciência em particular, ao domínio exclusivo de alguma área especializada do saber, mas afligem todos aqueles que em algum momento deixam de se contentar com a banalidade e a futilidade das coisas cotidianas, do senso comum, das respostas prontas. Há 25 séculos, surgiu na Grécia uma tradição de pensamento que desde então se dedica racionalmente a estas questões. Filósofos desenvolvem-nas de uma forma disciplinada e sistemática, com o objetivo não apenas de respondê-las, mas também de entender exatamente o que está sendo pedido, em primeiro lugar. Eles descobrem pressupostos ocultos e refletem criticamente sobre as razões de nossas crenças e ações, a fim de compreender o mundo e o nosso lugar nele. A esta intensa atividade intelectual é que chamamos “filosofia”.

Podemos ainda definir a filosofia etimologicamente. Nesse sentido, o termo “filosofia” é composto por duas palavras gregas e significa literalmente “amor à sabedoria” (philos = amor, amizade; sophia = sabedoria, sapiência). Por fim, podemos definir a filosofia comparativamente, estabelecendo uma relação entre ela e outros tipos de saber e indicando em que ponto ela se distingue deles. Em suma, a filosofia difere da mitologia e da religião por sua ênfase em métodos e argumentos racionais; e difere da ciência moderna pela pouca importância que atribui e pelo pouco uso que faz de experimentos e observações empíricas, isto é, por geralmente não recorrer a procedimentos empiricamente verificáveis em suas investigações.


NOTA:

Escrevi este texto assim, muito claro, direto, conciso, sucinto, porque textos deste tipo, especialmente quando o que se promete é uma definição de filosofia, são muito raros. A grande maioria dos textos introdutórios que se propõem esclarecer ao leitor leigo o que é a filosofia ou não suprem a expectativa, deixando o leitor frustrado, sem uma resposta, ou oferecem uma definição ampla demais, vaga demais, vazia de significado demais. Isso é parcialmente compreensível e acontece por causa da própria natureza da filosofia, de fazer pensar em vez de fornecer respostas prontas; e principalmente por causa do medo que os autores têm de serem taxados de dogmáticos, por estarem sistematizando demais o assunto, quase que encaixotando uma definição padrão.

Eu não temo tal acusação. Considero uma grande virtude o poder de síntese, a habilidade de concisão, o saber indicar de modo sucinto e em poucas palavras a ideia principal, o ir direto ao ponto, sem enrolação, o não tomar desnecessariamente o tempo e a paciência do leitor ou ouvinte. Acredito que só entendeu realmente uma ideia quem é capaz de explicá-la em poucas palavras; e só compreendeu de fato um texto quem pode resumir a ideia principal em uma frase. Penso que essa irritante prolixidade para definir filosofia acontece porque aqui no Brasil somos muito influenciados pela tradição continental de filosofia contemporânea. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a tradição analítica é mais forte e mais presente, o paradigma é outro. Na página inicial do Departamento de Filosofia da Universidade Harvard, por exemplo, dois grandes botões direcionam os visitantes a textos muito curtos: What is Philosophy? (O que é filosofia?) e Why study Philosophy? (Por que estudar filosofia?). Como no artigo que publiquei acima, o Departamento de Filosofia de Harvard, considerado um dos melhores do mundo, explica a definição de filosofia de forma clara, direta e sucinta, de modo que qualquer leigo possa compreender muito rapidamente o que se faz ali naquele departamento.


“(…) De modo que, se os homens filosofaram para libertar-se da ignorância, é evidente que buscavam o conhecimento unicamente em vista do saber e não por alguma utilidade prática. E o modo como as coisas se desenvolveram o demonstra: quando já se possuía praticamente tudo o de que se necessitava para a vida e também para o conforto e para o bem estar, então se começou a buscar essa forma de conhecimento. É evidente, portanto, que não a buscamos por nenhuma vantagem que lhe seja estranha; e, mais ainda, é evidente que, como chamamos livre o homem que é fim para si mesmo e não está submetido aos outros, assim só esta ciência, dentre todas as outras, é chamada livre, pois só ela é fim para si mesma.” (Aristóteles, Metafísica A, 982 b, 19-27)

8 sugestões para conquistar respeito acadêmico sem esforço

Artigo de Adonai Santanna, professor de matemática da UFPR.

Digamos que você seja intelectualmente vaidoso, ou seja, uma pessoa que moralmente se alimenta de elogios sobre a sua inteligência. Mas, digamos também que você seja intelectualmente preguiçoso, isto é, uma pessoa sem muita disposição para trabalhar duro e realizar conquistas intelectuais reais e significativas. Diante deste quadro, como conquistar respeito e admiração de seus pares profissionais, caso você decida seguir uma carreira acadêmica no Brasil? Para responder esta questão, deixo a seguir 8 sugestões básicas para resolver este aparente paradoxo. É claro que essas recomendações jamais funcionarão para a conquista de respeito e admiração por parte dos genuínos pensadores, aqueles que efetivamente produzem conhecimento relevante e dominam uma visão crítica sobre a ciência. Mas a lista abaixo funciona para a conquista de respeito e admiração entre os seus semelhantes, principalmente se você souber escolher com bastante cuidado a sua área de atuação profissional.

Sugestão 1: Publique o máximo que puder em anais de congressos. Na maioria dos casos, o processo de seleção de artigos ou resumos para fins de publicação em anais de congressos científicos é pouco rigoroso. Isso porque resumos pouco dizem. E mesmo aqueles textos um pouco mais extensos que, do ponto de vista editorial, se qualificam como artigos, podem ser recheados de ideias jamais testadas, mas que parecem sensatas à primeira vista. Neste último caso temos textos usualmente qualificados como artigos completos, sem de fato o serem. Como ninguém mesmo terá qualquer interesse em ler esses artigos e resumos, simplesmente por não serem informativos, você estará intelectualmente seguro. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 2: Organize ou edite livros. Convide colegas ou amigos para contribuírem com artigos a serem publicados em seu livro. Mas nem pense em publicar através de alguma editora de alcance internacional, a não ser que seja uma daquelas que cobram elevadas taxas dos autores e veiculam absolutamente qualquer coisa por dinheiro. Se não quer ou não pode investir com subornos, procure organizar ou editar seus livros através de editoras de universidades federais, estaduais ou privadas de nosso país. Como ninguém lerá estes livros, novamente você estará seguro contra críticas sérias ao seu trabalho. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 3: Faça muitos amigos, participando de congressos nacionais e regionais. Se participar de algum congresso internacional realizado no Brasil, jamais fale em outro idioma que não seja o português. Se assistir a alguma palestra proferida por um renomado cientista, jamais elogie sem fazer ressalvas. E jamais discuta o mérito do tema da conferência. Faça afirmações vagas, mas impactantes. Sempre dê preferência a comentários de ordem pessoal. E não esqueça de falar com uma postura altiva. Muitos perceberão o quão antenado você está com a vida acadêmica. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 4: Oriente a maior quantia possível de monografias de especialização, dissertações de mestrado e teses de doutorado, convidando para membros de suas bancas somente aqueles que o respeitam e/ou admiram. Aqueles que o admiram são pessoas que certamente não gostam de criar polêmica. Eles aprovarão qualquer coisa que você aprove. Para mostrar aos seus orientados como você é brilhante, mas tolerante, sempre aprove as defesas de especialização, mestrado ou doutorado com a seguinte ressalva: “O candidato está aprovado com a condição de que faça as alterações sugeridas pela banca”. Como ninguém lê monografias, dissertações ou teses e como ninguém confere se o candidato fez de fato quaisquer alterações após a defesa, você estará intelectualmente seguro. Ah, sim: não se esqueça de obrigar seus orientados a aceitarem a inserção de seu nome em todos os artigos que escreverem e publicarem. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 5: Se você deseja publicar em algum periódico especializado, para fazer volume em seu Currículo Lattes, basta submeter artigos para publicação em revistas editadas e distribuídas por universidades brasileiras. Na maioria dos casos, essas revistas aceitam artigos escritos em português. Além disso, não são procuradas por pesquisadores de ponta dos grandes centros de pesquisa do mundo. Eles sequer sabem da existência dessas revistas! Portanto, não há muita competitividade e você não precisa se empenhar de fato no artigo. Não se preocupe com conteúdo ou relevância. O que você escrever ficará apenas entre você e o editor. Talvez um ou dois “especialistas” leiam alguns trechos do que escrever. Nada além disso. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 6: Assuma cargos de chefia. Chefes, diretores, reitores e pró-reitores podem facilmente vender a imagem de tomadores de decisões, aqueles que definem quem recebe verbas e benefícios e quem fica de fora. Reclame da mentalidade política nas universidades, mas seja sempre político. Reclame de governos, mas sempre aceite quaisquer benefícios que possam vir deles. Reclame dos pesquisadores que não se envolvem com questões políticas, alegando que eles têm visão estreita de mundo. Reclame dos professores que se envolvem com questões políticas, alegando que eles se distanciam do ensino e da pesquisa. Mais importante: convoque reuniões, muitas reuniões. Reuniões conferem visibilidade. Todos estarão olhando para você. E não se incomode com aqueles que não gostam de você. Invista apenas naqueles que são beneficiados por suas decisões. Esses darão o apoio moral necessário para inflar o seu ego, mesmo diante das críticas.

Sugestão 7: Somente participe de eventos acadêmicos que emitam certificados, não importando quais sejam. Quanto maior a quantia de certificados, maior o volume de seu Curriculum Vitae. Apresente palestras em sua instituição e exija certificado assinado pelo seu chefe imediato. Obrigue seus alunos a participarem de atividades extra-curriculares e exija de seu chefe imediato um certificado de coordenador de evento de extensão universitária. Se algum colega seu estiver organizando um colóquio ou congresso, peça para trabalhar como mestre de cerimônias e exija um certificado. E cada certificado deve ser declarado em seu Currículo Lattes.

Sugestão 8: Sempre fale sobre as suas conquistas. Mas faça isso de maneira sutil, comentando casualmente em algum contexto que nada tem a ver com as suas atividades profissionais. Se souber falar, pode facilmente passar a sensação de que a vida acadêmica é parte fundamental de seu ser. Por exemplo, se alguém está falando sobre viagens, diga o seguinte: “Pois é. Anos atrás, participei de um congresso de engenharia de produção em Itatiaia, no Rio de Janeiro. E, cara, como aquele parque nacional é lindo. A janela de meu quarto dava direto para aquela mata atlântica maravilhosa. Você sabia que tem esquilos em Itatiaia?”.

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