Manual do sono

O que é e para que serve o sono? Quais são as cinco fases do sono? O que seu corpo faz enquanto você dorme? Qual a quantidade de sono necessária? Como funciona o seu relógio biológico? Como conseguir descansar melhor? Todas essas perguntas são respondidas por médicos, psicólogos e outros especialistas neste manual do sono, publicado pela fabricante de colchões Ortobom; com alguns acréscimos extraídos de matérias da Superinteressante, HypeScience Mega Curioso.


O que é e pra que serve o sono?

Passamos cerca de um terço de nossa vida dormindo. Dormir bem é essencial não apenas para ficar acordado no dia seguinte, mas para manter-se saudável, melhorar a qualidade de vida e até aumentar a longevidade. Os médicos sabem que o processo do sono é regido por um relógio biológico ajustado num ciclo de 24 horas. Os ponteiros desse mecanismo são moldados geneticamente e sua sincronia depende de fatores externos, como iluminação, ruídos, odores, hábitos, vida social etc. Os especialistas acreditam que a principal peça dessa engrenagem é a melatonina – hormônio produzido no cérebro pela glândula pineal. Ele começa a ser secretado assim que o sol se põe, como um aviso de que o organismo deve começar a se preparar para dormir. Quando o processo tem início, a temperatura corporal cai de 1 a 2 graus Celsius e a pressão arterial também sofre uma leve queda. Daí ao primeiro cochilo é um piscar de olhos.

Nosso desempenho físico e mental está diretamente ligado a uma boa noite de sono. O efeito de um dia sem dormir é semelhante ao de uma embriaguez leve: a coordenação motora e a capacidade de raciocínio ficam comprometidas. Ou seja: sem o merecido descanso, o organismo deixa de cumprir uma série de tarefas importantíssimas. Em estudo realizado pela Universidade de Chicago, onze pessoas com idades entre 18 e 27 anos foram impedidas de dormir mais de quatro horas durante seis dias. O efeito foi assustador. No final do período, o funcionamento do organismo delas era comparável ao de uma pessoa de mais de 60 anos. E os níveis de insulina eram semelhantes aos de diabéticos. Em pesquisas de laboratório, ratos usados como cobaias não aguentaram mais de dez dias sem dormir. A consequência: morte por infecção generalizada.

Enquanto dormimos, uma exército de reconstrução atua recuperando as “baixas” acumuladas no período em que ficamos acordados. Isso prepara o corpo para a guerra do dia seguinte. Durante o sono profundo, as proteínas são sintetizadas em grande escala. Isso tem o objetivo de manter ou expandir as redes de neurônios ligados à memória e ao aprendizado. Nesse processo, o cérebro comanda a produção e a liberação de hormônios, como a melatonina e o próprio hormônio de crescimento. Este garante ao indivíduo longevidade com maior jovialidade. Também regula os níveis de outras substâncias responsáveis pela regeneração das células e cicatrização da pele.


Por que a gente dorme?

Dormir é uma delícia – mas, do ponto de vista da evolução, é um comportamento difícil de explicar. Para o homem das cavernas, dormir podia significar nunca mais acordar, pois a chance de ser atacado por um predador era grande. E, mesmo hoje, em que esse risco é muito menor, o sono continua sendo meio paradoxal, porque nos faz desperdiçar um terço do nosso tempo de vida consciente. O sono é uma das áreas mais jovens da ciência. Até a metade do século 20, os cientistas acreditavam que o cérebro se desliga totalmente durante a noite, com o único objetivo de descansar. Hoje, sabemos que não é bem isso. Dormimos por três motivos: para economizar energia, para fazer manutenção do corpo e para consolidar a memória. O primeiro é fácil de entender. Enquanto você dorme, seu corpo consome menos energia – pelo simples fato de você estar imóvel e relaxado. Se não dormíssemos, teríamos de consumir um número muito maior de calorias para sobreviver, o que seria extremamente difícil para os homens primitivos. Num mundo onde o alimento era escasso, dormir era fundamental para não morrer de fome – mesmo que isso aumentasse o risco de ser atacado por animais selvagens durante a noite.

A segunda função do sono tem a ver com os processos reparadores que o corpo executa enquanto dormimos. Na década de 1980, cientistas da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, comprovaram isso realizando um teste com ratos. Após duas semanas impedidos de dormir, os bichos simplesmente morreram. Eles tinham desenvolvido manchas e feridas que não saravam e, independente da quantidade de comida que ingerissem, só perdiam peso. Até que, de uma hora para a outra, apagavam e não acordavam mais. Morte. O mesmo estudo foi repetido no ano 2000, e a conclusão foi a mesma: não dormir mata. Mas os pesquisadores nunca tinham conseguido entender o porquê disso. A possível explicação só veio no ano passado, em um estudo da Universidade de Surrey, no Reino Unido.

Os cientistas mantiveram pessoas acordadas por 29 horas e perceberam uma alteração: o nível de células brancas no sangue delas aumentou bastante, atingindo a mesma quantidade registrada em pessoas feridas. As células brancas são o elemento central do sistema imunológico. Quando você fica sem dormir, ele dispara – o que, em tese, poderia comprometer a habilidade do organismo de combater infecções. E não é só isso: “O organismo libera hormônios como cortisol e adrenalina, respostas típicas de situações de estresse”, diz a médica Luciana Palombini, do Instituto do Sono. E isso desencadeia uma série de processos já nas primeiras 24 horas. Primeiro, a pressão sanguínea aumenta. Logo depois, o metabolismo se desregula, e a pessoa sente uma vontade incontrolável de ingerir carboidratos – um estudo da Universidade Northwestern, nos EUA, constatou que quem dorme mal tende a ingerir quase 250 calorias a mais por dia.

Em seguida, se a pessoa continuar acordada, começam as alucinações. Sim, alucinações. Veja o caso do estudante americano Randy Gardner. Em 1965, ele aceitou participar de uma experiência na Universidade Stanford – na qual ficou 264 horas (exatos 11 dias) sem dormir. É a maior experiência de privação do sono já registrada cientificamente; e teve efeitos terríveis sobre o pobre Randy. A partir do terceiro dia, ele começou a perder a capacidade de raciocínio, a ficar paranoico e enxergar coisas que não existiam. Ao final da experiência, Randy dormiu 14 horas seguidas. Segundo apontaram testes na época, não ficou com nenhuma sequela do experimento. Mas não dormir, ou dormir mal, pode estar na raiz de doenças neurológicas gravíssimas. Num estudo recém-publicado, pesquisadores da Universidade de Rochester, em Nova York, mostram que o cérebro aproveita o sono para fazer uma limpeza – descartando células mortas e moléculas da proteína beta-amiloide, cujo acúmulo impede as conexões entre neurônios e provoca Alzheimer, doença incurável que leva à perda de memória. O que nos leva à terceira função do sono: gravar – e destruir – as suas memórias.


Quais são as cinco fases do sono?

Em 1953, descobriu-se a existência de uma fase de sono profundo, justamente quando sonhamos. A novidade foi batizada de REM (Rapid Eyes Moviment – Movimento Rápido dos Olhos). Hoje, os cientistas já sabem que o sono se divide em cinco fases, repetidas em ciclos, durante a noite. Nas primeiras horas da noite, predominam as fases 3 e 4. Pela manhã, percorre-se de quatro a cinco vezes o circuito do sono completo.

1ª fase: É a fase do adormecimento. Essa fase pode durar de alguns instantes até 15 minutos e ocupa de 5% a 8% da noite de sono. Funciona como uma espécie de fase intermediária entre estar acordado e dormindo. O cérebro produz ondas irregulares e rápidas e a tensão muscular diminui. A respiração fica suave e os pensamentos do mundo desperto flutuam pela mente. Se for acordada nessa fase, a pessoa reagirá rapidamente, negando que estava dormindo.

2ª fase: É a fase de um sono mais leve. A temperatura corporal e os ritmos cardíaco e respiratório diminuem ainda mais. Essa fase ocupa metade do tempo total do sono, durando cerca de 20 minutos cada ciclo. As ondas do cérebro alongam-se, regularizam-se e são afetadas somente por alguma atividade elétrica repentina. Nessa fase, a pessoa cruza definitivamente o limite entre estar acordada e dormindo. Se alguém levantar suavemente a pálpebra de uma pessoa nessa fase do sono, ela não acordará. Os olhos já não respondem a um estímulo.

3ª fase: O corpo começa a entrar no sono profundo. As ondas cerebrais tornam-se grandes e lentas. É uma fase rápida. Dura cerca de 10 minutos por ciclo, o que corresponde a uma média de 5% do tempo de sono.

4ª fase: É o sono profundo, no qual o corpo se recupera do cansaço diário. Essa fase é fundamental para a liberação de hormônios ligados ao crescimento e para a recuperação de células e órgãos. Dura cerca de 55 minutos, não mais que 20% da noite. A pessoa fica totalmente inconsciente, de modo que nem uma tempestade poderá acordá-la.

5ª fase: A atividade cerebral está a pleno vapor e desencadeia o processo de formação dos sonhos. Os músculos ficam paralisados, as frequências cardíaca e respiratória voltam a aumentar e a pressão arterial sobe. É o momento em que o cérebro faz uma espécie de faxina geral na memória. Fixa as informações importantes captadas durante o dia e descarta os dados inúteis. Durante o sono REM, os músculos do tronco, braços e pernas ficam paralisados, mas os dedos das mãos e dos pés podem contrair-se. O fluxo sanguíneo em direção ao cérebro aumenta e a respiração fica mais rápida e entrecortada. Se a pessoa for acordada nessa fase, provavelmente recordará fragmentos de seus sonhos. Depois de 10 minutos de sono REM, volta-se a descer às fases de sono quieto.


10 fatos curiosos sobre os sonhos

Os sonhos são uma das experiências mais misteriosas da nossa vida. As histórias que vivemos durante o sono intrigam especialistas e curiosos. Na busca de explicações para esse fenômeno, descobriu-se curiosidades que valem a pena compartilhar. Veja abaixo uma lista com 10 fatos curiosos sobre os sonhos:

1. Todo mundo sonha, inclusive cegos: Se você acha que não sonha, é porque simplesmente não consegue se lembrar dos seus sonhos. A verdade é que, com exceção de algumas pessoas com distúrbios psicológicos extremos, todo mundo sonha, inclusive cegos. Pessoas que ficaram cegas depois do nascimento podem ver imagens durante os sonhos. Já as que nascem cegas não enxergam nada, mas possuem sonhos igualmente vívidos envolvendo os outros sentidos.

2. Animais também sonham: Estudos realizados com diversos animais mostraram que eles apresentam a mesma frequência de ondas cerebrais que os humanos durante o sono. Se você quiser ver isso acontecendo de perto, assista a um cão ou gato dormir por alguns minutos. É comum flagrar esses animais movendo as patas como se estivessem correndo e fazendo sons como se estivessem caçando algo em seus sonhos.

3. Sonhamos em média 4 a 7 vezes por noite: O sonho acontece na fase REM, período que corresponde de 20% a 25% do período que estamos dormindo. Portanto, se descansarmos aproximadamente 8 horas por dia, permanecemos nessa fase entre um hora e meia e duas horas diariamente. Esse momento é caracterizado pelo movimento rápido dos olhos e pela atividade cerebral semelhante à quando estamos acordados. Em média, é possível ter de 4 a 7 sonhos em uma única noite, cada um com duração de 5 a 20 minutos. Uma pessoa normal passa, em média, 6 anos da sua vida sonhando.

4. Esquecemos 95% dos sonhos: Já percebeu como é difícil se lembrar de um sonho? Isso acontece porque costumamos esquecer a metade do sonho apenas 5 minutos depois de acordarmos. E após 10 minutos, você já esqueceu cerca de 90% do que sonhou. Se você for acordado durante o sono REM, no entanto, tem mais chances de lembrar do sonho mais vividamente do que quando acorda naturalmente pela manhã.

5. Todos os rostos são conhecidos: Nosso cérebro não é capaz de inventar rostos. Se algum estranho aparecer nos seus sonhos, saiba que você já viu esse rosto antes. Todas as feições com as quais sonhamos são de pessoas reais, quer você se recorde delas ou não. Como temos contato com milhares de pessoas ao longo da vida, nosso cérebro tem um repertório enorme de personagens para incrementar suas histórias.

6. Nem todo mundo sonha em cores: Sabe-se que 12% das pessoas com visão normal sonham exclusivamente em preto e branco. Para o restante, as imagens são sempre coloridas. Curiosamente, estudos realizados entre 1915 e 1950 apontavam que a maior parte das pessoas sonhava em preto e branco, mas isso começou a mudar a partir da década de 1960. Atualmente, apenas 4,4% dos sonhos de pessoas com menos de 25 anos são em preto e branco. Pesquisas recente acreditam que isso seja um reflexo da modernização do cinema e da televisão que passaram a ser exibidos em cores.

7. Estímulos externos invadem os sonhos: É comum que nosso cérebro interprete os estímulos externos que recebemos durante o sono e faça com que eles participem dos sonhos. Isso explica porque o som do seu despertador pode ser interpretado como uma sirene que toca no meio de um sonho, mas nada mais é do que a incorporação desse estímulo sonoro. Esse fenômeno é tecnicamente chamado de “incorporação”. Um exemplo similar ocorre quando você sente sede ou vontade de urinar no mundo real enquanto dorme e isto é transportado para o sonho. A maioria das crianças urinam na cama por causa de incorporação: estão com a bexiga cheia, sonham que estão apertados e urinam no sonho ao mesmo tempo em que molham a cama. Pessoas com sede durante o sono relatam tomar copos de água dentro do sonho para, minutos depois, ficar com sede e tomar outro copo. O ciclo se repete até que a pessoa acorda.

8. Homens, mulheres e crianças sonham diferente: É estranho, mas cerca de 70% dos personagens dos sonhos dos homens são outros homens. As mulheres, por outro lado, costumam apresentar um equilíbrio entre personagens homens e mulheres em seus sonhos. Além disso, homens têm comprovadamente mais sonhos eróticos do que as mulheres. Já as crianças não sonham sobre si mesmas até aproximadamente os 3 anos. À partir desta idade, elas têm muito mais pesadelos do que os adultos até completar 7 ou 8 anos. Muitas sofrem de terrores noturnos e acordam gritando.

9. Sonhos recorrentes e sonhos lúcidos: Algumas pessoas têm sonhos recorrentes. Trata-se do mesmo sonho que se repete durante longos períodos de tempo, até anos. Geralmente possui aspectos de pesadelo e pode ser causado por estresse pós-traumático. Um sonho lúcido, por sua vez, é aquele em que você está consciente de que está sonhando, mesmo estando realmente dormindo. Durante essa experiência, você pode direcionar ou controlar o conteúdo do sonho. Aproximadamente metade de nós pode lembrar da experiência de um sonho lúcido. Alguns indivíduos podem ter sonhos lúcidos com bastante frequência.

10. Alguns sonhos são universais: Os sonhos normalmente são influenciados por experiências pessoais, mas certos temas são muito comuns em todas as culturas. Por exemplo, pessoas de todo o mundo frequentemente relatam a desconfortável sensação estar sendo perseguidas, fugindo, sendo atacadas ou despencando em queda livre. É muito comum também a sensação de tentar correr e não conseguir sair do lugar, sentir-se congelado e incapacitado de se mexer. Outras experiências comuns incluem eventos escolares, como estar sempre atrasado ou despreparado para um prova importante, sair de casa sem roupa e estar nu em público.


Sono, sonhos e memória

Seu cérebro não fica “desligado” enquanto você dorme. Longe disso. O sono é neurologicamente agitado, com quatro etapas que se sucedem e se repetem durante a noite. A mais interessante é justamente a quarta, identificada pela sigla REM – “movimento rápido dos olhos”, em inglês. É o momento em que a pessoa mais descansa, e também é a fase em que ela sonha – movendo os olhos rapidamente, como se estivesse vendo coisas. Quando uma memória se forma na sua mente, o cérebro constrói uma relação semipermanente entre os neurônios envolvidos com aquilo.

Vamos supor que você vá a um churrasco. Está fazendo um sol insuportável, o churrasqueiro deixa queimar a carne, você fica com fome. Mas nem tudo foi ruim – você conheceu uma nova pessoa, Maria, que se tornou sua amiga. Essas experiências todas ativam uma enorme quantidade de neurônios no seu cérebro – os que registram a sensação de calor, os responsáveis por processar cheiros (no caso, de carne queimada) e vários grupos que analisam todas as características da Maria, como sua altura, formato do rosto, voz, cor dos olhos, etc. E o cérebro fortalece as ligações entre essa rede de neurônios. É como se eles ficassem “amigos”. Passam a se comunicar mais facilmente entre si. Aí, quando você se lembrar de algum detalhe do churrasco ou da Maria, aquele mesmíssimo conjunto de neurônios será acionado – e todos os detalhes daquele dia voltarão à sua mente. É assim que a memória funciona.

Mas ela também age enquanto você dorme. Sabe quando você vivencia algo durante o dia, e aquela memória reaparece – muitas vezes exagerada ou distorcida – durante os sonhos? Acontece com todo mundo. Um estudo feito pelo psicólogo inglês Mark Blagrove constatou que os acontecimentos costumam aparecer nos sonhos pelo menos três vezes: na primeira, na quinta e na sétima noite de sono após vivenciados. Mas por quê? E por que as memórias surgem distorcidas, às vezes apimentadas com fantasia e coisas que jamais aconteceram? Existe uma teoria para explicar isso. É a hipótese da homeostase sináptica, criada por dois psiquiatras da Universidade de Wisconsin.

Apesar do nome complicado, o conceito é simples: durante o sono, o cérebro desfaz algumas das conexões entre neurônios, ou seja, ele apaga memórias. O corpo libera ácido gama-aminobutírico, uma substância que enfraquece as relações entre os neurônios e deleta algumas das memórias adquiridas durante o dia. Objetivo: liberar “espaço”, capacidade cerebral, para que você continue sendo capaz de aprender coisas novas. Essa tese foi reforçada por uma pesquisa do National Institutes of Health (laboratório do governo americano), que este ano descobriu algo intrigante. Durante o sono, os neurônios do hipocampo, região cerebral que coordena a formação de memórias, disparam “ao contrário”. Ou seja, eles emitem sinais elétricos na direção oposta de quando a pessoa está acordada. Para os cientistas, isso é um indício de que há memórias sendo apagadas.

Para determinar quais lembranças são menos importantes e podem ser deletadas, o cérebro vê se elas têm ligação com outras informações já armazenadas na sua mente. É por isso que, se você e a Maria tiverem algum conhecido em comum, a chance de que você se lembre dela é maior. Senão, o cérebro irá apagá-la. “Esse processo funcionaria como um desfragmentador de disco no computador, arrumando as nossas memórias”, explica a neurologista Dalva Poyares, da Unifesp. Esse apagamento supostamente acontece na terceira fase do sono, que antecede os sonhos. Ou seja: quando os sonhos começam, é possível que o cérebro ainda esteja sob influência da destruição de memórias, ou haja resíduos incompletos delas – e isso explique o teor de fantasia nos sonhos. Mas não existem estudos comprovando a relação.

Já a conexão entre sono, memória e aprendizado é fartamente conhecida. Diversas experiências demonstraram que nossa capacidade de aprender é maior de manhã, logo após acordar, do que de noite. Dormir ajuda a aprender. Mas não é só isso. Também é possível aprender… dormindo. Nos anos 1970 e 1980, essa promessa era muito usada por charlatães, que tentavam vender cursos de inglês “durante o sono”. A pessoa escutava uma fita com lições do idioma enquanto dormia e supostamente acordava sabendo falar inglês. Não funcionava, claro. Mas um estudo da Universidade Northwestern constatou que é possível manipular e reforçar o aprendizado de uma pessoa enquanto ela dorme.

Na experiência, 50 voluntários foram expostos a uma longa sequência de imagens. Cada imagem vinha acompanhada de um som específico (como o barulho de uma explosão, por exemplo). Feito isso, os voluntários foram dormir. Só que metade deles recebeu um estímulo durante a noite. Quando eles atingiram a terceira fase do sono, os cientistas tocaram os sons que tinham sido associados às imagens. No dia seguinte, todo mundo acordou e os voluntários fizeram um teste de memorização. Quem tinha sido exposto aos sons conseguiu se lembrar de mais imagens, e em ordem mais correta.

“Estímulos externos durante o sono podem ter influência (sobre o aprendizado)”, diz o psicólogo Ken Paller, líder do estudo. “A nossa pesquisa mostra que a memória é reforçada, com a reativação de informações durante à noite”, explica o psicólogo Paul J. Reber, coautor da experiência. Ou seja: não é possível aprender algo do zero enquanto se dorme. Mas é possível reforçar, dormindo, a memorização de algo que se aprendeu acordado. Vale lembrar que a experiência da Northwestern envolve informações triviais (uma sequência de imagens). Não há comprovação, ao menos por enquanto, de que esse efeito se estenda a aprendizados mais complexos, como idiomas ou as disciplinas da faculdade. Não vale a pena dormir ouvindo uma fita com a voz dos seus professores. Melhor garantir uma boa noite de sono. Só que isso está ficando cada vez mais difícil.


O que seu corpo faz enquanto você dorme?

Liberação de hormônio: Na infância, cerca de 90% dos hormônios do crescimento são liberados durante o sono. Crianças que dormem pouco ou mal têm mais chances de ter problemas no seu desenvolvimento físico.

Eliminação do estresse: Uma noite bem dormida evita que o organismo acumule altos teores de cortisona, hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais que é liberado em situações de estresse e contribui para o mau humor depois de uma noite em claro.

Reposição de hormônio: O hormônio do crescimento continua sendo liberado mesmo na fase adulta. Embora em doses menores, isso continua acontecendo durante o sono. Em gente grande, ele evita a flacidez muscular e garante vigor físico.

Imunidade: Durante o descanso, o corpo libera as interleucinas, substâncias que ajudam o organismo a se defender de invasores, como vírus e bactérias.

Apetite em equilíbrio: É durante o sono que o organismo libera maior quantidade de leptina, o hormônio que controla a sensação de saciedade e mantém as pessoas longe dos eventuais ataques à geladeira durante a madrugada.

Envelhecimento precoce e tumores: Enquanto uma pessoa dorme, o organismo se livra com mais facilidade dos radicais livres, moléculas que podem causar o envelhecimento precoce e até tumores.

Memória: O sono interfere na regulação térmica do cérebro, função essencial para o bom funcionamento dos mecanismos de memória. Estudos indicam que a fase do sono REM é responsável pela fixação de informações incomuns e estressantes, enquanto o sono não REM (fases 1 a 4) se encarrega das informações de conteúdo emocionalmente neutro.


Qual a quantidade de sono necessária?

Não há uma fórmula para definir qual deveria ser a duração adequada de um bom sono noturno. Acreditar que todas as pessoas necessitam da mesma quantidade de sono é tão absurdo quanto crer que cada um deva ingerir a mesma quantidade de alimentos todos os dias. Podemos supor que sete horas e meia seja uma média adequada. Cada indivíduo parece ter um apetite inato de sono, que provém de sua programação genética tanto como a cor do seu cabelo, pele ou peso corporal.

Uma maneira simples de investigar sobre sua necessidade de sono é levantar todas as manhãs na mesma hora, não importando a hora em que foi deitar no dia anterior. Você está atordoado depois de cinco ou seis horas de sono? Talvez uma hora a mais lhe desse mais energia? Seria muito agregar duas horas? Se prestarmos atenção na linguagem de nosso corpo e respondermos essas perguntas relacionando as resposta às horas de sono, poderemos determinar um hábito de sono adequado.

Outra alternativa válida é ter um diário de sono. Anote nele, durante uma semana, a que horas vai deitar e a que horas levanta; como e sentia ao deitar e quanto tempo levou para dormir. Depois, anote como se sentiu, revise qual foi o dia em que se sentiu com maior energia e vitalidade. Controle quantas horas havia dormido no dia anterior e tome essa quantidade como o tempo máximo de horas que dedicará a dormir na próxima semana. Repita a metodologia e encontrará seu padrão. Não existe uma fórmula para dormir menos e sentir-se bem depois. Mas pode ser uma questão de tempo.


O mito das 8 horas de sono

É comum nos preocuparmos em perder o sono durante a noite, sem saber que isso poderia nos ajudar. Tanto a ciência como a história parecem confirmar, cada vez mais, que 8 horas de sono poderiam ser antinaturais. No começo da década de 1990, o psiquiatra Thomas Wehr realizou uma experiência na qual se deixava um grupo de pessoas na escuridão durante 14 horas por dia durante um mês. Levou algum tempo para que o sono se normalizasse, mas na quarta semana os indivíduos haviam adquirido um padrão muito diferente: primeiro dormiam durante 4 horas e depois ficavam acordados por uma ou duas horas antes de cair em outro sono de 4 horas. Mas ainda que os cientistas tenham ficado impressionados com a pesquisa, a ideia de que devemos dormir por 8 horas consecutivas se mantém entre o público em geral.

Em 2001, o historiador Roger Ekirch, da universidade Virginia Tech, publicou um artigo baseado em 16 anos de investigação que se mostrou premonitório. Este estudo revelava uma enorme quantidade de provas históricas de que os humanos costumavam dormir em dois turnos diferentes. Seu livro At day’s close: Night in the past (um jogo de palavras em inglês, parecido com “Perto do dia: Noite no passado”) foi publicado há quatro anos e desenterrava mais de 500 referências de padrões segmentados de sono, que ele havia encontrado em diários, livros de medicina e literatura, além de notas de tribunais, desde a Odisseia de Homero até resenhas antropológicas de tribos modernas da Nigéria. Assim como na experiência de Wehr, essas referências descrevem um primeiro sono que começa por volta de duas horas depois do anoitecer, dura em média quatro horas, seguido por um período de uma ou duas horas de vigília e por um segundo período de sono de aproximadamente quatro horas.

“O relevante não é somente a quantidade de referências, mas como elas se referem a esse fato, como se fosse algo muito bem conhecido por todos”, diz Ekirch. Durante o período de vigília, as pessoas ficavam bastante ativas. Frequentemente se levantavam, iam ao banheiro, fumavam… Alguns inclusive visitavam os vizinhos. A maioria das pessoas ficava na cama, lendo, escrevendo ou rezando. Incontáveis manuais de oração do final do século 15 traziam rezas especiais para as horas de vigília. E essas horas não eram completamente solitárias. As pessoas costumavam conversar ou ter relações sexuais com seus companheiros de cama. Um manual médico francês do século 16 inclusive aconselhava aos casais que o melhor momento para conceber não era no final de um dia longo de trabalho, quando estavam ambos cansados, mas “depois do primeiro sono”, quando “se desfruta mais e se faz melhor”.

Ekirch descobriu que as referências ao primeiro e segundo sono começaram a desaparecer no final do século 17. Esta tendência começou nas classes altas da Europa e, ao longo de 200 anos, se espalhou ao resto da sociedade ocidental. Já em 1920, a ideia de um primeiro e segundo sono havia desaparecido por completo do imaginário coletivo. Uma das razões para essa mudança, segundo o especialista, se deveu às melhoras na iluminação pública, à chegada da eletricidade às casas e à proliferação dos salões de café, que em certas circunstâncias ficavam abertos durante toda a noite. Na medida em que a noite se converteu em um momento legítimo para realizar atividades e a atividade noturna aumentou, diminuiu o tempo que as pessoas dedicavam ao descanso.

Em seu novo livroEvening’s Empire (“O Império do Entardecer”), o historiador Craig Koslofsky propõe uma versão de como isso aconteceu. “Aquilo que se relacionava à noite, antes do século 17, não era bom”, assegura. A noite era um momento povoado por pessoas de má reputação, como criminosos, prostitutas e bêbados. “Inclusive os ricos, que podiam comprar muitas velas, tinham coisas melhores nas quais gastar seu dinheiro. Não havia prestígio nem algum valor social associado ao fato de se manter acordado por toda a noite”. Isso mudou na época da Reforma Protestante e da Contra-Reforma. Protestantes e católicos se acostumaram a celebrar missas e cultos secretos à noite durante os períodos de perseguição. Se anteriormente a noite havia pertencido aos depravados, agora as pessoas “respeitáveis” se habituavam a aproveitar as horas de escuridão. Esta tendência se transferiu também ao âmbito social, mas somente no caso daqueles que podiam ter luz artificial em casa. Com a chegada da iluminação às ruas poder socializar à noite começou a se estender às classes sociais mais baixas.


Medieval versus moderno

Um estudo da Universidade da Virgínia, nos EUA, estudou a rotina das pessoas no século 15, e descobriu que as pessoas costumavam dormir em duas etapas. Primeiro, elas dormiam do entardecer até a meia-noite. Aí acordavam, ficavam despertas por uma ou duas horas e depois voltavam a dormir até o dia clarear. Isso foi comprovado na prática pelo psiquiatra americano Thomas Wehr, do National Institute of Medical Health. Nos anos 1990, ele confinou um grupo de voluntários em alojamentos sem luz elétrica. Eles eram obrigados a realizar atividades durante o dia, com o sol, e descansar durante a noite, por causa da ausência de luz.

Após algumas semanas nessa rotina, algo curioso aconteceu: os voluntários passaram a apresentar o mesmo tipo de sono segmentado da Idade Média. E estavam sempre bem relaxados – descobriu-se que, no intervalo entre esses dois sonos, o corpo liberava prolactina, o mesmo hormônio que causa a sensação de relaxamento após o orgasmo. Hoje em dia, dormimos de outra forma, em apenas um bloco. Isso é um subproduto da revolução industrial, que elevou a jornada de trabalho a 16 horas por dia – e limitou quando, e quanto, as pessoas poderiam dormir. Até hoje, dormir durante o dia é visto com preconceito.

“Precisamos descansar. Descanso faz parte da vida. Ele ajuda nossa produtividade, melhora nosso humor e nos deixa mais criativos”, diz a psicóloga americana Sara Mednick, autora de estudos que mostram o efeito positivo da soneca. “As pessoas tomam café para ficarem acordadas e quando chega a noite tomam um remédio para dormir. Será que esse é mesmo o melhor jeito de encarar uma semana de trabalho?”, questiona. Fato é que cada vez mais gente toma remédios para dormir. No Brasil, os três medicamentos tarja-preta mais vendidos (Rivotril, Lexotan e Frontal) são ansiolíticos, que acalmam e ajudam a dormir – e juntos vendem quase 15 milhões de caixas por ano. O problema é que eles, como todos os remédios que induzem sonolência, podem causar dependência física.

A indústria farmacêutica ainda não conseguiu desenvolver uma droga para dormir que seja totalmente eficaz e tenha risco zero. Mas continua tentando. Sua nova esperança é o suvorexant, um remédio que inibe a hipocretina, um neurotransmissor responsável pela vigília. Ou seja: em vez de induzir o sono, como os medicamentos atuais, simplesmente anula a substância que deixa a pessoa acordada. “Estamos entusiasmados, pois a expectativa é que esse remédio não seja viciante”, diz Belen Esparis, médica do hospital Mount Sinai, em Nova York, e uma das principais especialistas do mundo em sono. Mas o suvorexant foi barrado pela FDA (órgão do governo americano que aprova a comercialização de remédios), que pediu mais testes.

Uma solução mais segura, e possivelmente muito eficaz, é um aparelho chamado Somneo. Ele nasceu de pesquisas da Darpa (divisão de projetos avançados do Pentágono), que queria encontrar um jeito de fazer soldados ficarem até 100 horas acordados sem sofrer. Não deu certo, mas levou à criação do aparelho, que usa várias técnicas para melhorar a qualidade do sono. Trata-se de uma máscara que cobre o rosto, as orelhas e parte da cabeça e aquece levemente a região dos olhos – o que, estudos comprovaram, faz a pessoa adormecer mais rápido e passar mais rapidamente à fase de sono profundo. A máscara também permite ao usuário programar exatamente a quantidade de tempo que deseja passar dormindo. Ela tem sensores de eletroencefalografia, que monitoram a transição entre as fases do sono e determinam qual o melhor momento para despertar a pessoa – liberando uma luz que aumenta de maneira gradual. A ideia é que essa máscara seja distribuída aos militares em guerras. Mas, como muitas das tecnologias inventadas para uso militar, ela provavelmente acabará tendo uma versão comercial.

Uma possibilidade ainda mais ousada é manipular diretamente as ondas cerebrais, ajudando a pessoa a se manter dormindo ou pular para estágios mais profundos do sono. A técnica se chama ETCC (estimulação transcraniana por corrente contínua), e consiste em aplicar uma corrente elétrica bem fraca, por meio de eletrodos, em certas áreas do cérebro. Cientistas da Universidade de Lübeck, na Alemanha, usaram a ETCC para fazer com que voluntários passassem mais rapidamente pelas duas primeiras fases do sono e ficassem mais tempo na terceira, mais profunda e relaxante. Uma experiência similar, desta vez na Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, mostrou que é possível desencadear diretamente o sono profundo emitindo campos magnéticos sobre o cérebro.

Segundo os pesquisadores, isso significa que seria possível ter os mesmos benefícios fisiológicos de 8 horas de sono em apenas 6. Isso seria o equivalente a um mês de vida acordado a mais por ano. Algo extremamente tentador para muita gente. E os voluntários não apresentaram efeitos colaterais. Mas as máquinas necessárias ainda são grandes, caras e seu uso constante pode ter consequências imprevisíveis a longo prazo. Não devem chegar ao seu quarto tão cedo. Mas existe uma solução para dormir melhor. E não é remédio nem máquina.


Problemas com seu relógio biológico

Alguns problemas para dormir surgem como respostas à agressão exercida sobre o nosso ritmo biológico normal. Quando se pensa em relógio biológico, a primeira coisa que vem a cabeça é o ciclo do sono: ficar acordado durante o dia e dormir à noite. De fato, esse ciclo é regulado pelo chamado relógio biológico. Mas não é o único. As demais funções do corpo que ocorrem em momentos específicos do dia, como o controle da fome e da pressão arterial, também fazem parte desse processo. O corpo precisa do relógio biológico para funcionar corretamente. O relógio fica no cérebro, próximo ao hipotálamo. Essa região atua como um metrônomo, dando o compasso em que os sistemas do organismo são acionados. As várias funções do corpo se modificam de maneira ordenada durante as 24 horas do dia.

Corujas noturnas: Indivíduos que têm maior energia ao entardecer, quando a grande maioria está cansada. Essas pessoas têm um ritmo de temperatura corporal diferente da normal, frio e lento pela manhã e com mais calor e energia pela noite.

Acorda com as galinhas: Indivíduos com uma síndrome oposta à anterior. Eles sempre acordam muito cedo, não importando a hora em que foram dormir. Com o passar dos anos, muitas pessoas dormem cada vez mais cedo e levantam-se antes do amanhecer.

Problemas com fuso-horário: Os aviões atuais cruzam oceanos e continentes em somente algumas horas, mas o nosso organismo não está preparado para uma mudança assim tão brusca. Geralmente diante de mudanças bruscas, o organismo necessita de um dia para recompor ou reajustar seu relógio biológico. Quanto mais avançada a idade, mais marcante será a desordem e mais lenta será a recuperação. Deve-se viajar de dia para descansar à noite e reiniciar a atividade no dia seguinte.

Trabalhos e turnos rotativos: As pessoas que devem mudar seu trabalho de horário diurno para noturno têm média de 5 a 6 horas de sono e manifestam fadiga, problemas psicológicos, digestivos e até no casamento. Não importando os tipos de tarefas que desempenham, apresentam, no período de descanso, duas vezes mais distúrbios do que aquelas pessoas que trabalham sempre de dia. Por isso os regimes de trabalho nestas condições são específicos e assegurados.

Veja também: O notívago é o novo canhoto


Conselhos para um melhor descanso

O que você faz durante o dia causa um enorme impacto sobre o sono. A melhor maneira de garantir um bom sono é revisar as atividades que você desenvolve muito antes de ir para a cama. Estes são os dez conselhos para ajudá-lo a descansar melhor:

1. Mantenha horários regulares: Trate de levantar-se sempre na mesma hora, não importando a hora que tenha ido deitar. Se você for deitar mais tarde na sexta e no sábado só porque sabe que pode levantar mais tarde no sábado e no domingo, com certeza terá problemas na segunda para tornar a acordar cedo. Se viajar muito, tente conservar sua rotina e volte a ela logo que possa.

2. Faça exercícios regularmente: Com não mais 30 minutos diários de caminhada, corrida, natação, bicicleta, ou a prática de algum esporte 3 vezes por semana, você alcançará sua meta de chegar à cama relaxado, física e mentalmente. O melhor momento para realizar exercícios que beneficiem um bom sono noturno é ao final da tarde e no início da noite.

3. Cuidado com os estimulantes: Os amantes de café, chá, chocolate e refrigerantes devem saber que os efeitos dos estimulantes destes produtos, consumidos em excesso, fazem-se presentes entre duas a quatro horas depois da ingestão. Ao ingerir substâncias que contenham estimulantes, ao final da tarde ou durante a noite, contribui-se para a diminuição da profundidade do sono.

4. Beba com moderação: Embora o álcool seja o mais antigo e popular sonífero, deve-se ter cuidado com a quantidade e com o horário em que o ingere. Muito álcool no jantar provocará sono precoce. Em ambos os casos, o ciclo normal será alterado.

5. Qualidade antes da quantidade: Seis horas de sono profundo podem fazer com que você sinta-se melhor do que oito horas de sono leve e interrompido. Não se deve dormir mais do que o necessário. A medida será dada pelo quanto você irá sentir-se bem na manhã seguinte. Se você sentir que recarregou adequadamente suas baterias com seis horas de sono, não será porque você dormiu pouco e sim porque dormiu o suficiente.

6. Evite o sono da tarde: Se você tem problemas para dormir à noite, não durma à tarde. Muitas pessoas têm inclinação a tirar uma soneca após almoço e, sem dúvida, isto avança com a idade. Mas se isso prejudica seu sono noturno, quando sentir sonolência durante o dia trate de evitar dormir realizando alguma atividade física que estimule a pulsação durante dez minutos, isso acelera o metabolismo espantando o sono.

7. Esvazie a mente: Deixe suas preocupações e planos para outro momento. Antes de deitar, escreva uma lista de coisas que deveria fazer, planos para o dia seguinte. Tal tarefa irá tirar dos seus ombros a responsabilidade de lembrar, isto relaxará seu inconsciente. Se seguir mentalizando, não irá resolvê-los e nem conseguirá relaxar.

8. Faça uma refeição leve: Não se deite após ter comido em excesso ou se estiver de barriga vazia. Se comer muito antes de deitar-se, obrigará o sistema digestivo a trabalhar demais. Talvez sinta uma sonolência agradável, mas logo terá sensação de peso que não o deixará dormir bem. Por outro lado, não durma sem ter comido algo de baixa caloria. Não se pode tentar dormir quando se discute com o estômago. Todo tipo de incômodo orgânico ou físico contribui para o “despertar súbito”, evitando entrar em sono profundo.

9. Desenvolva um ritual: As crianças leem ou escutam histórias e rezam orações antes de dormir. Você pode escolher seu ritual: ouvir música, relaxar os músculos, tomar uma ducha ou ler um livro pode ajudá-o a conciliar o sono. O importante é que, uma vez escolhido o ritual, este deve ser repetido todas as noites.

10. Ambiente agradável: Um ambiente agradável é fundamental. Deixe o quarto bem escuro, evite lugares barulhentos e, se possível, regule a temperatura. Evite assistir TV, usar o celular ou comer na cama. Sua cama não deve ser associada a outras atividades além de dormir. Isso garantirá um ato mecânico a seu organismo. Toda vez que o inconsciente começa a decodificar seu ritual para dormir, seu corpo imediatamente funcionará para que tudo esteja de acordo.


A chave do bom sono

Você já deve ter ouvido as recomendações mais manjadas. Faça exercícios. Tenha uma alimentação balanceada. Tente evitar o estresse. Não tome café de noite. Maneire no álcool. Tudo isso é verdade – e é essencial para dormir bem. Mas a epidemia de insônia no mundo tem outra raiz. O sono é coordenado por um hormônio chamado melatonina. Ela é produzida pela glândula pineal, bem no meio do cérebro, e é a chave do “relógio interno” que nos faz dormir e acordar em ciclos de 24 horas. A melatonina também está presente em outros animais, em plantas e até em micróbios. Ela é um mecanismo que a natureza criou para adaptar os seres vivos ao ritmo do Sol. Conforme começa a escurecer, o organismo começa a liberar mais melatonina – e você sente cada vez mais sonolência, até apagar. De manhã, com tudo claro, o nível de melatonina cai, e você acorda. Essa é a ordem natural das coisas.

O problema é que o mundo moderno, e em especial a tecnologia, está bagunçando essa ordem. Depois que anoitece, continuamos a ver televisão e usar celular, computador, tablets, etc. A humanidade vive rodeada por telas que emitem luz. E isso desregula o ritmo do organismo. “Como o cérebro não sabe qual a diferença entre luz artificial e a do Sol, ele pensa que ainda é de dia”, diz Simone Petera, especialista em medicina do sono. Com isso, o corpo reduz a produção de melatonina, e a pessoa não consegue dormir bem. Existe gente que toma melatonina em comprimidos para tentar dormir melhor. Ela não tem registro oficial na Anvisa, mas não é proibida – pode ser encontrada em lojas de suplementos nutricionais. Mas não é recomendada. “A melatonina não é uma pílula para dormir muito boa, pois o organismo já a produz naturalmente”, diz Belen Esparis. Se for tomada em doses erradas, pode atrapalhar o sono. Isso sem contar possíveis efeitos colaterais de longo prazo, como alterações no ciclo menstrual. O melhor a fazer é controlar a iluminação durante a noite – e com isso aumentar naturalmente o nível de melatonina no corpo.

As telas de TV e de gadgets emitem luz com temperatura (tonalidade) de 5.500 graus Kelvin, a mesma que o Sol emite ao meio-dia. Ou seja: são especialmente ruins para o sono. Mas uma experiência feita pela Universidade de Basileia, na Suíça, constatou que a luz avermelhada, típica do pôr do sol, é muito menos danosa. E você pode regular suas telas para que elas tenham esse tom. Na televisão, basta selecionar o modo “Cinema”. Nos celulares e tablets Android, instalar um aplicativo chamado Twilight. E no PC e Mac, um programa chamado F.lux. São todos grátis, ou seja, não custa experimentar. E nunca use lâmpadas de luz fria no quarto. Fazer esses ajustes deixa o ambiente mais agradável e dá resultado: o estudo de Basileia mostrou que as pessoas expostas à luz “quente” durante a noite produzem até 40% mais melatonina do que quem recebe luz fria. Mas à noite o ideal é deixar as telas de lado e ler algo que não emita luz, como um livro ou revista. E, se mesmo assim o sono não vier, não se culpar por isso. Dormir meio mal, de vez em quando, é a coisa mais normal do mundo.

Veja também: A ousadia dos sabiás

Filósofos John Searle e Daniel Dennet falam sobre o mistério da consciência

Os filósofos americanos John Searle e Daniel Dennet, considerados talvez os dois maiores especialistas vivos em filosofia da mente, palestraram no TED sobre aquele que parece ser o principal problema dessa área da filosofia: a consciência. Note que ambos rejeitam o dualismo metafísico, defendem uma posição materialista e não representam a minha opinião. De qualquer modo, lançam alguma luz sobre o problema e são importantes referenciais teóricos para qualquer estudante sério de filosofia.

Dicas de estudo #2 – O ciclo diário

No primeiro post da série, eu disse qual acredito ser a atitude correta diante dos estudos. Em suma, sugeri que o encarássemos como uma preparação para a vida e não apenas para as provas. Hoje, vou revelar como é o meu dia-a-dia de estudante. Basicamente, minha rotina de estudos é baseada num método que o professor Pierluigi Piazzi ensina em suas palestras sobre estimular a inteligência. Esse método consiste em obedecer um ciclo diário composto de três etapas: (1) assistir aula para entender; (2) estudar para aprender; e (3) dormir bem para fixar. Nessa ordem. Calma que eu explico:


1. ASSISTIR AULA PARA ENTENDER

Antes de tudo, é preciso entender a função das aulas. O estudante brasileiro médio tem o péssimo hábito de achar que aula serve para aprender, e por isso não estuda depois da aula. Um erro comum é fazer dois cursinhos para ter um maior número de aulas, achando que isso vai melhorar o seu rendimento. Isso não vai ajudar, e o motivo é bem simples: Assistir aula não serve para aprender, mas para entender a matéria e tirar dúvidas. É o estudo pós-aula que serve para aprender. A diferença entre entender e aprender pode parecer muito sutil, mas não é. Quando o professor explica uma matéria, seu objetivo é que o aluno consiga acompanhar o raciocínio e então possa dizer consigo mesmo: “Ah, entendi!”. Se o aluno prestou atenção na aula e entendeu o que ele disse, a função da aula foi cumprida. Ao fim da aula, porém, o aluno ainda não aprendeu o assunto, ele apenas o entendeu. Ele pode até lembrar de tudo na prova que será aplicada uma semana depois, tirar uma boa nota e passar com facilidade. Mas ele ainda não aprendeu de verdade.


2. ESTUDAR PARA APRENDER

O que faz o estudante absorver a matéria e realmente aprender não é a aula. Como eu disse, aula serve pra te fazer entender o assunto. É o estudo pós-aula que serve para aprender. Assistindo aula com atenção, o aluno entende o que o professor disse, mas aquela informação fica guardada na memória de curto prazo (uma espécie de memória RAM do cérebro) e, se nada for feito, será perdida em poucos dias. Para que isso não aconteça, o aluno precisa revisar e reforçar o mesmo conteúdo sozinho depois da aula. Só depois que ele faz essa espécie de backup é que aquelas informações vão para a memória de longo prazo (algo como o HD do cérebro) e pode-se dizer que houve de fato aprendizado. Portanto, o que realmente vai fazer a diferença é o momento em que você estuda sozinho, não o número de aulas que assistiu. Mas isso não significa que vale “gazear” ou dormir nas aulas: como já foi dito, elas são importantes para entender a matéria e tirar dúvidas. Ou seja, as aulas servem para nortear o estudo individual. Se o sujeito tem aula o dia inteiro, quando é que vai poder estudar? Ele vai só entender momentaneamente a matéria, mas não vai aprender; a sua cabeça vai virar uma bagunça e ele vai esquecer logo, porque o conhecimento não foi sedimentado.

Sobre aumentar a quantidade de aulas, especialmente em cursinhos, penso o seguinte: Nada contra fazer cursinho, mas esteja sempre ciente de que nenhum cursinho, por mais caro que seja e por mais professores famosos que tenha, pode te fazer passar em nada. A função do cursinho é te orientar, te ajudar a estudar. O seu estudo individual é que te fará passar. Ademais, a própria existência de cursinhos é a evidência de que o sistema educacional brasileiro não funciona; porque se funcionasse não existiria o cursinho. Qual é o perfil do aluno de cursinho? É o cara que descobriu tarde demais que fez tudo errado na escola e agora está correndo atrás do prejuízo. Eu mesmo, como sempre estudei em escola pública, uma vez resolvi fazer cursinho para complementar algo que supostamente teria faltado na minha formação básica. Isso foi logo após eu ter concluído o ensino médio. Comecei a trabalhar, me matriculei na turma da noite, paguei as mensalidades, comecei a ir, mas devo confessar que não aguentei passar mais de dois meses naquele ambiente. Eu ficava me perguntando o que estava fazendo ali. No segundo mês deixei de ir para ter mais tempo de estudar sozinho em casa. Foi uma ótima decisão.

O professor Pierluigi Piazzi costuma dizer que o maior problema da educação brasileira é que ela tem milhões de alunos, mas pouquíssimos estudantes. Mas não são a mesma coisa? Qual é a diferença? Segundo ele, aluno é quem assiste às aulas. A coisa mais fácil do mundo é ser um aluno. Basta estar matriculado e frequentar as aulas que você já é um aluno. Mas ainda não é um estudante. Estudante é quem estuda. E estudar não significa assistir aula, mas revisar o conteúdo da aula em casa. Portanto, quando você assiste aula, você é um aluno; quando chega em casa, faz os exercícios e revisa o conteúdo da aula, você é um estudante.


3. DORMIR BEM PARA FIXAR

As neurociências já mostraram que é muito importante, após um dia de aula e estudo, que você tenha uma boa noite de sono. Você entende o assunto na aula, estuda para reforçar, mas é durante o sono que o seu cérebro organiza aquelas informações e consolida o conhecimento. Somente após essa consolidação é que o aprendizado é definitivo, para o resto da vida. Por isso é importante que você revise o conteúdo das aulas no mesmo dia, antes que se passe uma noite de sono, enquanto as informações ainda estão frescas na memória. Além de evitar acúmulo, estudar o conteúdo visto em sala de aula no mesmo dia fará com que seu cérebro entenda que aquilo é importante e memorize com mais facilidade. Se você assiste aula hoje e deixa para estudar aquele assunto no outro dia, não é a mesma coisa, porque você certamente já perdeu muita informação. Recapitulando: Na aula você entende, no estudo você aprende e numa boa noite de sono você fixa. Esse é o ciclo. Vale mais estudar pouco e todo dia do que estudar muito mas sem regularidade.


Outros posts da série dicas de estudo:

1 – A atitude correta
2 – O ciclo do aprendizado
3 – Individual e ativo
4 – Educação egoísta
5 – Concentração e foco
6 – As quatro etapas
7 – Pierluigi Piazzi
8 – Lúcia Helena Galvão
9 – Como estudar sozinho em casa
10 – Como estudar para uma prova

Viagra para o cérebro

viagra-cerebroÉ assim que usuários se referem às pílulas que prometem turbinar o raciocínio, a memória e o aprendizado. Saiba mais na reportagem abaixo, publicada na revista Época.


Imagine tomar uma pílula e ser capaz de estudar a noite inteira sem sentir sono nem se distrair. Ou, com outra pílula, tornar-se mais criativo e destacar- se entre os colegas de trabalho. Pois é exatamente isso que uma nova geração de suplementos promete: um atalho para o sucesso ao turbinar a memória, afiar o raciocínio e aprimorar a capacidade de atenção. Entre quem usou e resolveu contar a experiência na internet, as pílulas ganharam o apelido de “viagra cerebral”, uma referência ao medicamento que revolucionou o mercado ao tratar a impotência sexual masculina. Os ingredientes que prometem prodígios cerebrais são velhos conhecidos da indústria farmacêutica: vitaminas e estimulantes naturais, como a cafeína. Agora, combinações dessas substâncias foram agrupadas em cápsulas, produzidas por pequenas empresas, interessadas no apetite de estudantes e jovens profissionais por soluções miraculosas. Faltam estudos sobre a eficácia dessas combinações e seus possíveis efeitos colaterais. Vale a pena assumir o risco e apostar nas pílulas?

Nos Estados Unidos, esse tipo de suplemento virou uma febre. Em vídeos na internet, centenas de usuários relatam suas experiências. Discutem as vantagens de cada uma das combinações com o mesmo entusiasmo e dedicação com que halterofilistas falam de novos produtos para aumentar os músculos. “São fisiculturistas do cérebro”, diz o pesquisador Sean Duke, da Universidade Trinity, na Irlanda. “Eles querem aumentar as capacidades mentais como os halterofilistas desejam melhorar o corpo”, compara.

A mais nova sensação desse universo anabolizado é um suplemento chamado OptiMind, lançado em junho. Ele foi criado pelos americanos Lucas Siegel, de 23 anos, e Timothy West, de 21, depois da morte de um colega de faculdade que usara uma quantidade excessiva de medicamentos tarja preta para afastar o cansaço e aumentar a concentração. “Essa experiência trágica nos inspirou a criar um produto seguro, que ajudasse os estudantes a manter a concentração sem se preocupar com riscos para a saúde”, diz West, que trabalha como chefe de vendas da empresa AlternaScript, que produz o OptiMind. O produto mistura estimulantes, vitaminas e moléculas de proteína; e promete aumentar a disposição física e aprimorar a memória e a concentração. West diz tomar dois comprimidos por dia e jura que não há perigo para a saúde.

O OptiMind não é o único suplemento desse tipo no mercado. Nos EUA, há pelo menos 20 produtos à venda pela internet. O AlphaBrain, produzido pela empresa Onnit, é popular entre jogadores de pôquer, para aprimorar o foco e diminuir o estresse. Cada pílula contém 11 substâncias. Os fabricantes estão de olho num público que já buscava esses efeitos, mas tinha de recorrer ao uso ilegal de remédios controlados. Algumas das substâncias favoritas desse público eram drogas para o Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Pessoas com esse diagnóstico costumam ser desatentas, inquietas e impulsivas. Os remédios, prescritos por médicos, são usados para manter esses sintomas sob controle. Sem receita, eles são usados por pessoas saudáveis que querem melhorar sua capacidade de concentração – ainda que não haja nenhum consenso médico atestando que são eficazes nessa situação.

As drogas costumam ser vendidas clandestinamente, pela internet, por pessoas que conseguiram uma receita ou o remédio com amigos. Há quem tente enganar o médico. “Precisamos ficar atentos com pessoas que simulam os sintomas para conseguir uma receita”, diz o psiquiatra paulistano Mario Louzã. É exatamente nesse nicho que os novos suplementos fazem sucesso. Os entusiastas não precisam recorrer a estratégias ilegais para ter acesso às drogas que procuram. Nos EUA, os novos coquetéis podem ser comprados livremente na internet, sem receita, porque foram considerados como “suplementos alimentares” pela agência que regula medicamentos, a FDA.

A venda sem receita não significa que as novas fórmulas sejam isentas de riscos. Faltam estudos para provar sua segurança. “É possível que, no futuro, pesquisas sugiram que esses suplementos podem causar algum grau de dependência, como já aconteceu com a nicotina e a cafeína”, afirma o pesquisador Mitul Mehta, do King’s College, em Londres. Outra possibilidade é que as fórmulas prejudiquem áreas do cérebro ligadas a outras funções. Pode ser um risco muito grande, considerando que os efeitos desejados pelos consumidores também não foram comprovados cientificamente. “Há a possibilidade de que a melhora do rendimento seja apenas placebo e autossugestão”, afirma a psicóloga Denise Barros, que estudou essas substâncias em seu doutorado na UERJ.

Os brasileiros entusiasmados com os novos suplementos devem conter a empolgação. Eles podem até ser importados de outros países, mas apenas para uso pessoal. Não podem ser distribuídos comercialmente no Brasil. Para isso, precisam ser aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Por ora, não há nenhum pedido de fabricantes ou importadores para regulamentar os produtos no país. O jeito é confiar na velha fórmula da inteligência: alimentação equilibrada, sono em dia e muita dedicação para estudar. Costuma dar trabalho, mas é infalível.

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Como manter seu cérebro jovem

Dicas de Cristiane Segatto publicadas na revista Época.

A capacidade de armazenar informações pode ser comparada ao desempenho de um atleta. É na juventude – entre os 20 e os 30 anos – que a memória costuma estar em sua melhor forma. Depois dos 50, a maioria das pessoas começa a notar falhas aqui e ali. Trata-se de um processo normal, lento e gradativo, que começa décadas antes. Não é, necessariamente, sinal de doença grave. Com o passar dos anos, fica mais difícil lembrar algumas informações ou reter novas memórias. Outras continuam acessíveis como sempre estiveram. É por isso que um idoso é capaz de contar histórias da infância, em mínimos detalhes, mesmo quando não lembra onde colocou as chaves de casa.

Quando as falhas se tornam frequentes, muitos idosos e familiares procuram exercícios, suplementos alimentares ou fórmulas mágicas para estimular a memória. Existirá alguma? Ler, talvez? Tocar piano? Resolver exercícios mentais pelo computador? Sozinha, nenhuma dessas atividades basta. O importante é diversificá-las. Desde 2000, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) acompanham mais de 2 mil moradores paulistanos. Todos têm mais de 60 anos. Alguns já passaram dos 100. “Os que envelhecem bem fazem de 5 a 7 atividades diferentes por dia”, diz Yeda Duarte.

Sem estímulos novos, diminui a capacidade natural que o cérebro tem de criar conexões alternativas entre os neurônios – algo que compensa, ao menos em parte, a perda dessas células nervosas na velhice. Com pequenas adaptações,  atividades cotidianas podem trazer benefícios. Quem é destro submeterá o cérebro a um belo treino se começar o dia escovando os dentes com a mão esquerda (ou vice-versa). Outra boa providência é desligar o GPS do carro e se aventurar por um caminho diferente. Desde, é claro, que isso seja feito em segurança. Vale considerar também as vantagens da terapia do dinheiro curto. “Ir às compras com o orçamento apertado é um excelente exercício”, diz o médico Edson Amaro Jr., coordenador científico do Instituto do Cérebro do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. É preciso andar de loja em loja (atividade motora), comparar preços (raciocínio), registrar mentalmente as ofertas (memória), prever os gastos (planejamento), interagir com os vendedores (comunicação) e ler nos olhos deles a intenção de cada um (empatia) para conseguir negociar.

Mexer o corpo é fundamental. “Atividade física é muito mais importante para o cérebro do que fazer palavras cruzadas”,  diz Amaro. Os músculos dos sedentários perdem volume. Essa condição, comum na velhice, aumenta o risco de quedas. O prejuízo vai além das fraturas. Uma alteração na capacidade de interagir com o meio pode provocar a perda das funções cognitivas. A consequência pode ser dramática: mudança na conexão entre os neurônios, perda de volume de algumas regiões cerebrais e uma degeneração irreversível, como o Alzheimer. Por enquanto, os medicamentos disponíveis apenas retardam a progressão da doença. A maioria das pessoas que apresentam  sintomas depois dos 65 anos não tem histórico familiar. A genética pode ser responsável por um pequeno número de casos. Alguns genes aumentam o risco de desenvolvimento do Alzheimer. Mas seu peso é relativo. “A alteração genética não é determinante”, diz o pesquisador Michel Naslavsky, do Centro de Estudos do Genoma Humano, da USP. “Outros componentes favorecem o aparecimento da doença, como o AVC e até outros fatores genéticos ainda desconhecidos”, afirma. Em menos de 5% dos casos, os genes não apenas aumentam o risco, mas causam a doença. Nessas famílias, o Alzheimer acomete gerações. Em geral, precocemente. Com exceção dessas pessoas, diminuir o risco de declínio cerebral é algo que está ao alcance da maioria. O que protege contra o Alzheimer não é ter mais neurônios – e sim ter mais conexões entre eles. Nunca é tarde para criá-las.


Como aumentar a sua inteligência

Artigo de Adonai Santanna, professor de matemática da UFPR.

Esta postagem se refere àquilo que psicólogos cognitivos chamam de inteligência fluida, a capacidade de aprender novas informações, mantê-las em nossos cérebros e usar este novo conhecimento para resolver problemas e desenvolver novas habilidades. O texto abaixo é baseado em uma palestra ministrada por Andrea Kuszewski na Universidade Harvard em 2010. Veja uma versão escrita e detalhada desta palestra aqui. As técnicas relatadas na palestra permitiram, entre outros resultados, aumentar o QI de uma criança autista de 80 para 100 pontos, em três anos. Por conta de uma propriedade cerebral chamada de neuroplasticidade, é possível aumentar significativamente a inteligência fluida de qualquer pessoa. Aqui estão as atividades que Kuszewski aponta como fundamentais para o desenvolvimento da inteligência fluida:

1. Buscar novidades: Os grandes gênios sempre tiveram múltiplos interesses intelectuais. Estagnar o cérebro em uma única área do conhecimento ou atividade intelectual é uma péssima ideia. É fundamental a abertura para novas experiências. Aquilo que é novo para o seu cérebro desencadeia novas conexões sinápticas, aumentando a atividade neuronal. Além disso, novidades ativam a dopamina, um neurotransmissor que, entre outras coisas, aumenta a motivação. Ou seja, a busca por novidades estimula a própria busca.

2. Enfrentar desafios: Existe vasta literatura sobre o papel de jogos para melhorar a inteligência, mas ela geralmente carece de fundamentação científica. Jogar tetris pode melhorar temporariamente certas habilidades cognitivas. Mas uma vez que o jogador domine o jogo, persistir com tetris inevitavelmente resultará em queda de atividade cerebral. Desafios precisam ser renovados. Ou seja, deve haver uma incessante busca por problemas. Quanto mais difíceis de serem resolvidos, melhor. Caso contrário, sua atividade cerebral diminuirá e sua inteligência será comprometida.

3. Pensar criativamente: Ao contrário do que diz a crença popular, criatividade envolve ambos os hemisférios do cérebro, não apenas o direito. Criatividade nada tem a ver com produção artística, mas com cognição criativa. Cognição criativa envolve a associação entre ideias aparentemente distantes, intercâmbio entre formas tradicionais e formas atípicas de pensamento, e a geração de ideias originais que sejam adequadas para as atividades que você exerce. Resolver problemas de matemática, por exemplo, apelando apenas para analogias com o mundo real, é o mesmo que matar a criatividade.

4. Seguir o caminho mais difícil: A tecnologia tem tornado o mundo mais eficiente, permitindo que as pessoas tenham mais tempo para se concentrar naquilo que é realmente importante. Certo? Errado. O emprego sistemático de GPS, por exemplo, piora a noção de localização espacial das pessoas. Mas nem todas as novas tecnologias são nocivas para o intelecto humano, ainda que compensações sejam necessárias. Faça contas sem usar calculadoras. Siga para um destino desconhecido sem usar GPS. Escreva textos impecáveis sem usar corretores ortográficos; e reescreva esses textos, para que fiquem realmente atraentes. Leia textos em idiomas estrangeiros sem usar tradutores. Faça sua própria comida. John Kennedy disse, no mais belo discurso que já ouvi: “Nós iremos para a Lua não porque é fácil, mas porque é difícil”.

5. Formar redes sociais: Não importa se suas redes sociais operam via Facebook ou contato pessoal. O fato é que a condição humana é de caráter social. Coloque a cara para bater. Exponha suas ideias. Mantenha contato com quem sabe muito mais do que você; é preciso aprender. Mantenha contato com quem sabe muito menos do que você; é preciso ensinar. Mantenha contato com aqueles que pensam como você, mas também com aqueles que pensam diferente. Troque ideias sobre ciência, educação, música, cinema, teatro, história, religião, vida. Uma vida social rica é fonte de novidades, é a oportunidade de encontrar desafios, é a inspiração para soluções criativas. Mas vida social rica não se traduz na forma de quantia de pessoas, porém na forma de diversidade de visões.

Como o advento da internet está mudando o funcionamento do cérebro humano

Artigo de Nicholas Carr, publicado originalmente em inglês no portal The Atlantic.

Há alguns anos tenho a impressão de que algo vem mexendo com meu cérebro, remapeando os circuitos neuronais, reprogramando a memória. Minha mente está mudando. Não estou mais pensando como costumava pensar. Percebo isso de modo mais acentuado quando estou lendo. Mergulhar num livro, ou num longo artigo, costumava ser fácil. Minha mente se enredava na narrativa ou nas voltas do argumento e eu passava horas lendo longos trechos de prosa. Isso raramente ocorre atualmente. Agora minha atenção começa a divagar depois de duas ou três páginas. Eu fico inquieto, perco o fio de meada, começo a procurar outras coisas para fazer. Sinto como se estivesse sempre arrastando meu cérebro divagante de volta ao texto. A leitura fluida e profunda que costumava ser tão natural para mim agora se tornou uma luta.

Creio que sei o que está acontecendo. Por mais de uma década venho passando mais tempo online, procurando, surfando e algumas vezes acrescentando informação à grande biblioteca da internet. A internet tem sido uma dádiva para um escritor como eu. Pesquisas que antes exigiam dias de procura em jornais ou na biblioteca agora podem ser feitas em minutos. Algumas procuras no Google, alguns cliques rápidos em hiperlinks e eu consigo os fatos reveladores ou as citações exatas que procurava. Mesmo quando não estou trabalhando acabo me surpreendendo, mais frequentemente do que deveria, à caça de informação na web ou lendo e escrevendo e-mails, escaneando manchetes e blogs, assistindo vídeos, ouvindo podcasts ou apenas vagando de um link para outro. Ao contrário das notas de rodapé, às quais eles são comparados, hiperlinks não apenas nos referem a trabalhos relacionados; eles nos arremessam em direção a eles.

A internet está se tornando um meio universal, o conduíte por onde passa a maior parte da informação que chega aos meus olhos, ouvidos e mente. As vantagens de ter acesso rápido a quantidades inacreditavelmente ricas de informação são muitas, e elas têm sido extensivamente descritas e justamente aplaudidas. Mas isso tem seu preço. Como disse o teórico da comunicação Marshall McLuhan nos anos 1960, a mídia não é apenas um canal passivo para o tráfego de informação. Ela fornece a matéria, mas também molda o processo de pensamento. E o que a internet parece fazer é pulverizar minha capacidade de concentração e contemplação. Minha mente agora espera absorver informação do modo como a internet as distribui: num fluxo veloz e intermitente de partículas. Antes eu era um mergulhador num mar de palavras. Agora eu deslizo pela superfície.

Não sou o único. Quando menciono meu problema com a leitura a amigos e conhecidos – tipos literários, em sua maioria – muitos dizem ter experiências similares. Quanto mais eles usam a web, mais precisam lutar para permanecerem concentrados em longos textos. Alguns dos blogueiros que acompanho também começaram a mencionar o fenômeno. Scott Karp, que escreve um blog sobre mídia online, confessou recentemente ter parado completamente de ler livros: “Eu era um graduando em literatura na faculdade e costumava ser um leitor voraz. O que houve?”. E especula em sua resposta: “E se eu leio exclusivamente na web não apenas porque o modo como eu leio mudou, isto é, estou apenas buscando conveniência, mas porque o modo como eu penso mudou?”.

Bruce Friedman, que escreve regularmente sobre o uso de computadores na medicina, também descreveu como o uso da internet alterou seus hábitos mentais. “Eu agora praticamente perdi toda a habilidade para ler e absorver um artigo mais extenso na web ou na mídia impressa”, confessou. Patologista e professor há algum tempo na Escola de Medicina da Universidade de Michigam, Friedman elaborou melhor suas impressões sobre o assunto numa conversa comigo por telefone. “Não consigo mais ler Guerra e Paz”, ele admite. “Perdi a capacidade de fazer isso. Mesmo posts de blogs com mais de três ou quatro parágrafos são demais para absorver. Eu apenas passo os olhos”.

Continuamos esperando pelos experimentos psicológicos e neurológicos de longa duração que irão desenhar o quadro definitivo sobre o modo como a internet afeta a cognição. Contudo, um recente estudo sobre hábitos de pesquisa online, conduzido por pesquisadores da University College London, sugere que podemos estar no meio de uma mudança radical no modo como lemos e pensamos. Parte do estudo, que durou 5 anos, consistia na análise de arquivos de acesso que documentavam o comportamento dos visitantes de dois sites populares de pesquisa, um operado pela Biblioteca Britânica e outro pelo Consórcio Britânico de Educação. Esses sites permitem acesso a artigos de jornais, e-books, e outras fontes de informação escrita. Os pesquisadores descobriram que os usuários dos sites apresentaram “uma forma de atividade mental associada à identificação rápida, na leitura, das ideias principais de um texto (em inglês, skimming)”, saltando de uma fonte a outra e raramente retornando a fontes já visitadas. Eles tipicamente não leem mais do que uma ou duas páginas de um artigo ou livro antes de pular para outro. Algumas vezes eles salvam algum artigo, mas não há nenhuma evidência de que realmente leem posteriormente o que salvaram.

Os autores afirmam: Está claro que os usuários não estão lendo online no sentido tradicional; de fato há sinais de que um modo novo de leitura está aparecendo na medida em que os usuários navegam horizontalmente através de títulos, conteúdos de páginas e resumos buscando resultados rápidos. Parece até que eles procuram a informação online para evitar ler no sentido tradicional. Graças à ubiquidade do texto na internet – sem falar na popularidade das mensagens de texto nos telefones celulares – é realmente possível que estejamos lendo muito mais hoje do que nas décadas de 1960 e 1970, quando a televisão era o meio da moda. Mas é um tipo diferente de leitura, e por trás dele está um tipo diferente de pensamento – talvez até mesmo um novo senso de si mesmo.

“Nós não somos apenas o que lemos”, diz Maryanne Wolf, psicóloga da Universidade de Tufts. “Nós somos como lemos”. Wolf acredita que o estilo de leitura promovido pela internet, um estilo que coloca a eficiência e a imediatidade acima de qualquer outra coisa, pode estar diminuindo nossa capacidade de leitura profunda que emergiu quando uma antiga tecnologia, a prensa, tornou os longos e complexos romances algo comum. Quando lemos online, ela afirma, tendemos a nos tornar “decodificadores de informação”. Nossa habilidade para interpretar textos, para fazer as ricas conexões mentais que se formam quando lemos em profundidade e sem distrações, fica desligada.

Ler, explica Wolf, não é uma habilidade instintiva para os seres humanos. Não está impressa em nossos genes do mesmo modo que falar está. Somos obrigados a ensinar nossa mente a traduzir os caracteres simbólicos que vemos na linguagem que compreendemos. E a mídia e outras tecnologias que usamos no processo de aprendizado da arte de ler têm um papel importante na formação dos circuitos neurais em nosso cérebro. Experimentos demonstram que leitores de ideogramas, tais como os chineses, desenvolvem um circuito mental para leitura que é diferente do circuito encontrado naqueles, como nós, em que a linguagem escrita é alfabética. As variações se estendem por várias regiões do cérebro, incluindo aquelas funções cognitivas altamente importantes como a memória e a interpretação de estímulos visuais e sonoros. Nós podemos esperar, do mesmo modo, que os circuitos tecidos pelo uso da internet serão diferentes da trama costurada pela leitura de livros e outros tipos de mídia impressa.

Em algum momento de 1882, Nietzsche comprou uma máquina de escrever. Sua visão estava falhando e manter o foco na página havia se tornado um esforço doloroso e exaustivo, provocando fortes dores de cabeça. Ele foi forçado a limitar sua escrita e temia logo ser obrigado a desistir de escrever por completo. A máquina datilográfica o salvou, pelo menos por um tempo. Uma vez tendo dominado a habilidade de datilografar, ele conseguia escrever com os olhos fechados, usando apenas as pontas dos dedos. As palavras podiam mais uma vez fluir da sua mente para a página em branco. Mas a máquina teve um efeito bastante sutil no seu trabalho. Um dos amigos de Nietzsche notou a mudança de estilo na sua escrita. Sua prosa, já muito concisa, tornou-se telegráfica. “Talvez você, através deste instrumento, acabe criando um novo idioma”, escreveu o amigo numa carta. “Você está certo”, respondeu Nietzsche, “o equipamento para a escrita participa da formação dos nossos pensamentos”.

O cérebro humano é quase infinitamente maleável. Pensava-se que nossa malha mental, as densas conexões formadas pelos 100 bilhões de neurônios dentro dos nossos crânios, estava quase completamente formada quando atingíamos a idade adulta. Mas pesquisas descobriram que não é bem assim. James Olds, professor de neurociência e diretor do Instituto Krasnow para Estudos Avançados, afirma que até a mente adulta ainda é “muito plástica”. Células nervosas rotineiramente quebram velhas conexões e formam novas. “O cérebro”, de acordo com Olds, “possui a habilidade de se reprogramar, alterando o modo como geralmente funciona”. Quando usamos o que o sociólogo Daniel Bell chama de “tecnologias intelectuais” – as ferramentas que estendem nossas capacidades mentais – nós inevitavelmente começamos a assimilar as qualidades destas tecnologias.

O relógio mecânico, que teve seu uso popularizado no século 14, serve como exemplo particularmente convincente. Em Technics and Civilization, o historiador e crítico cultural Lewis Mumford descreve como o relógio “desassociou o tempo dos eventos humanos, ajudando a gerar a crença num mundo independente de sequências matematicamente mensuráveis”. A “estrutura abstrata do tempo dividido” tornou-se “a referência tanto para as ações quanto para o pensamento”. O tique-taque metódico do relógio ajudou no nascimento da mente científica e do homem científico. Mas também levou algo embora. Como observou o cientista da computação do MIT Joseph Weizenbaum em seu livro de 1976, Computer Power and Humam Reason: From Judgment to Calculation, o conceito de mundo que emergiu do uso disseminado do instrumento de medição do tempo “permanece uma versão empobrecida do antigo conceito de mundo, pois ele se baseia na rejeição daquelas experiências diretas que formavam a base e, na verdade, constituíam a antiga realidade”. Ao decidirmos quando comer, trabalhar, dormir, acordar, nós paramos de ouvir nossos sentidos e passamos a obedecer ao relógio.

O processo de adaptação a novas tecnologias reflete-se nas metáforas que usamos para nos compreendermos. Quando o relógio mecânico apareceu, as pessoas começaram a imaginar que seus cérebros operavam “como relógios”. Hoje, na era do software, nós imaginamos que eles operam “como computadores”. Mas as mudanças, diz-nos a neurociência, vão bem mais fundo do que a metáfora sugere. Graças à plasticidade do nosso cérebro, a adaptação se estende ao nível biológico. A internet promete um impacto de longo alcance na cognição. Num artigo publicado em 1936, o matemático britânico Alan Turing provou que um computador digital, naquele tempo apenas uma hipótese, poderia ser programado para cumprir a função de qualquer outro aparelho de processamento informacional. E é isso que vemos hoje. A internet, uma espécie de imensamente poderoso sistema computacional, está subsumindo a maioria das outras tecnologias intelectuais. Está se tornando nosso mapa e nosso relógio, nosso jornal e nossa máquina de escrever, nossa calculadora e nosso telefone, nosso rádio e nossa TV.

Quando a internet absorve uma mídia, essa mídia é recriada à imagem da internet. Ela contamina o conteúdo do meio com hiperlinks, anúncios, e outras bugigangas digitais; e encapsula o conteúdo com o conteúdo de todas as outras mídias já absorvidas. Um novo e-mail, por exemplo, pode anunciar sua chegada enquanto passamos os olhos pelas últimas manchetes num site de notícias. O resultado é a pulverização da atenção e a difusão da concentração. A influência da internet não acaba nas bordas do monitor, ademais. À medida que a mente das pessoas vai se ajeitando ao estofo maluco da internet, a mídia tradicional vai sendo obrigada a se adaptar às novas expectativas da audiência. Programas de televisão passaram a usar legendas e anúncios pop-ups; revistas e jornais diminuíram o tamanho das suas reportagens, introduziram boxes explicativos e lotaram suas páginas com infográficos didáticos.

Quando o New York Times decidiu reservar duas páginas de cada edição diária a resumos de artigos e reportagens, seu diretor gráfico, Tom Bodkin, justificou a opção explicando que estes “atalhos” iriam proporcionar aos leitores mais apressados um rápido “gostinho” das notícias do dia, poupando-os de realmente virar as páginas do jornal para ler os artigos. A velha mídia tem pouca opção a não ser jogar pelas regras da nova. Nunca os sistemas de comunicação cumpriram tantos papéis em nossas vidas – ou exerceram influência tão marcante em nossos pensamentos. Contudo, apesar do quanto se escreve sobre a internet atualmente, há pouca consideração sobre como, exatamente, ela está nos reprogramando. A ética intelectual da internet permanece obscura.

A internet é uma máquina desenhada para coletar, transmitir e manipular informação com o máximo de eficiência possível; e sua legião de programadores está empenhada em encontrar “o melhor método” – o algoritmo perfeito – para dar conta de cada movimento mental envolvido no que costumamos chamar “trabalho intelectual”. O quartel general do Google em Montain View, California, é a catedral da internet, e a religião praticada dentro de seus muros é o taylorismo. O Google, afirma seu presidente, Eric Schmidt, é “uma companhia fundada sobre a ciência da mensuração”, e luta para “sistematizar tudo”.

Baseado nos terabytes de informações comportamentais que coleta através de seu motor de busca e outros sites, a empresa realiza centenas de experimentos por dia, de acordo com a Harvard Business Review, e aplica os resultados no refinamento dos algoritmos que cada vez mais controlam como as pessoas encontram informação e as interpretam. A empresa declarou que sua missão é “organizar toda a informação do mundo e torná-la universalmente acessível e útil”. Quer desenvolver “o motor de busca perfeito”, que ela define como algo que “compreenda exatamente o que você quer dizer e te devolve exatamente o que você quer”. Na visão do Google, informação é um tipo de commodity, um recurso utilitário que pode ser minerado e processado com eficiência industrial. Quanto mais informação “acessamos” e mais rápido extraímos o que há de importante nela, mais produtivos nos tornamos enquanto pensadores.

Onde isso vai parar? Sergey Brin e Larry Page falam do desejo de transformar seu motor de busca num tipo de inteligência artificial que poderia conectar-se diretamente aos nossos cérebros. “O motor de busca perfeito deverá ser tão esperto quando as pessoas – ou mais”, afirmou Page numa conferência há alguns anos. “Para nós, trabalhar com buscas é um modo de trabalhar com inteligência artificial”. Numa entrevista à revista Newsweek, Brin disse: “Certamente, se você tiver toda a informação do mundo ligada diretamente no seu cérebro, você estará em vantagem”. Ano passado, Page disse a um grupo de cientistas que o Google está “tentando construir uma inteligência artificial”.

Tal ambição é natural, até mesmo admirável para um par de gênios matemáticos com muita grana e um pequeno exército de cientistas da computação. Um empreendimento fundamentalmente científico, o Google é motivado pelo desejo de usar a tecnologia, nas palavras de Eric Schmidt, “para resolver problemas que ninguém resolveu ainda”, e a inteligência artificial é o mais difícil deles. Porque Brin e Page não iriam querer resolvê-lo? Contudo, a pressuposição fácil de que estaríamos todos “melhores” se nossos cérebros fossem suplementados ou mesmo substituídos por uma inteligência artificial é preocupante. A ideia parece sugerir que a inteligência é o resultado de um processo mecânico, de uma série discreta de etapas que podem ser isoladas, medidas e otimizadas. No mundo do Google, há pouco espaço para a incompletude da contemplação. A ambiguidade não é vista como uma abertura para a criatividade, para o insight, mas um bug a ser corrigido. O cérebro humano é apenas um computador ultrapassado que precisa de um processador mais rápido e de um HD maior.

A ideia de que nossas mentes deveriam operar como máquinas de processamento de alta velocidade não está implicada apenas nas fundações da internet; ela é, na verdade, o modelo de negócios reinante na rede. Quando mais rápido surfamos na web – mais links seguimos, mais páginas vemos – mais oportunidades a Google e outras companhias têm de coletar informação sobre nós e nos enviar propaganda. A maior parte dos proprietários da internet comercial está financeiramente engajada na coleta de pedaços de informação que deixamos para trás ao saltar de um link para outro. A última coisa que estas companhias querem é encorajar a leitura prazerosa ou o pensamento concentrado e lento. Está em seu interesse econômico nos levar constantemente à distração.

Talvez eu seja apenas um paranoico. Do mesmo modo que há uma tendência à glorificação da tecnologia, há a tendência inversa de se esperar o pior de cada nova ferramenta ou máquina. No diálogo platônico Fedro, Sócrates reclama com tristeza do desenvolvimento da escrita. Ele temia que, a medida que as pessoas confiassem na linguagem escrita como um substituto para o saber que elas costumavam carregar na cabeça, elas iriam, nas palavras de uma das personagens do diálogo, “deixar de exercitar a memória e se tornar esquecidas”. E porque elas seriam capazes de “receber uma maior quantidade de informação sem a devida instrução”, elas iriam “se considerar muito sábias quando na verdade seriam, em grande parte, ignorantes”. Elas iriam estar “repletas do conceito de sabedoria ao invés de serem realmente sábias”. Sócrates não estava errado – a nova tecnologia teve, em grande parte, o efeito que ele temia – mas não viu longe o suficiente. Não percebeu que, de formas diversas, a escrita e a leitura iriam servir para disseminar informação, gerar novas ideias e expandir o conhecimento humano.

O aparecimento da imprensa, no século 15, disparou outra rodada de ranger de dentes. O humanista italiano Hieronimo Squarciafico defendia que a disponibilidade de livros levaria à preguiça intelectual, tornando os homens “menos estudiosos” e enfraquecendo suas mentes. Outros argumentavam que livros mais baratos e panfletos poderiam corroer a autoridade religiosa, tornar menos importante o trabalho de acadêmicos e escribas, além de espalhar a sedição e a concupiscência. Como afirma o professor da Universidade de Nova York, ClayShirky, “a maioria dos argumentos contra a invenção da imprensa estavam corretos, alguns eram até prescientes”. Porém, novamente, os apocalípticos não conseguiram imaginar a miríade de bençãos que a palavra impressa iria possibilitar.

Portanto, sim, você deveria ser cético quanto ao meu ceticismo. Talvez aqueles que descartam as críticas à internet classificando-as como nostálgicas e retrógradas estejam corretos e das nossas mentes hiperativas e abarrotadas de informação nasça uma era de ouro de descobertas intelectuais e verdades universais. Entretanto, a internet não é o alfabeto, e mesmo que ela substitua a mídia impressa, colocará algo diferente no lugar. O tipo de leitura profunda, dedicada, que uma sequência de páginas impressas promove possui valor não apenas pelo conhecimento que adquirimos das palavras do autor, mas também pelas vibrações intelectuais que tais palavras provocam em nossas mentes. Nos espaços tranquilos que se abrem através da leitura concentrada e sem distrações de um livro, ou por qualquer outro ato de contemplação, nós operamos nossas associações, produzimos nossas analogias e inferências, cultivamos nossas ideias. Ler profundamente, argumenta Maryanne Wolf, é indistinguível de pensar profundamente.

Se nós perdermos estes espaços de tranquilidade, ou preenchê-los com “conteúdos”, sacrificaremos algo importante não apenas em nós mesmos, mas em nossa cultura. Num recente ensaio, o dramaturgo Richard Foreman descreveu com eloquência o que está em jogo: “Eu venho de uma tradição da cultura ocidental na qual o ideal (meu ideal) era o de uma densa, complexa, altamente educada e articulada personalidade – um homem ou mulher que carregasse em si mesmo uma versão pessoal e única de toda a herança ocidental. Mas agora eu vejo em nós todos (eu incluso) a substituição de uma complexa densidade interior por um novo tipo de Eu (Self) – evoluindo sob a pressão do excesso de informação e da tecnologia do instantaneamente disponível”. A medida em que somos drenados do nosso “repertório interior da densa herança cultural”, conclui Foreman, nos arriscamos a nos tornarmos “pessoas pó-de-arroz” – espalhadas e superficiais a medida em que nos conectamos à vasta rede de informação acessível.

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