Maior fazenda vertical do mundo utilizará 95% menos água com método mais eficiente

Uma enorme fazenda vertical – onde as plantas são cultivadas e colhidas sem sol nem solo – está sendo construída em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Quando estiver concluída, ela será a maior no mundo. São torres com bandejas aeropônicas iluminadas por lâmpadas de LED. As plantas recebem nutrientes através de uma nuvem de gotículas nas raízes. A AeroFarms, empresa responsável pelo projeto, afirma que, por metro quadrado, seu método é 75 vezes mais produtivo que o tradicional, mesmo usando 95% menos água. Além disso, como trata-se de um método interno, não utiliza pesticidas.

Mas nada disso é realmente novo: vegetais vêm sendo cultivados há muito tempo em ambientes internos sob lâmpadas de LED e sem solo. Até mesmo a ideia de uma “fábrica” de vegetais já existe: a empresa japonesa Mirai vem fazendo algo semelhante em uma escala ligeiramente menor. A diferença da fazenda vertical da AeroFarms estará, é claro, em seu tamanho: serão 6500 metros quadrados de área e 9 metros de altura em uma antiga usina siderúrgica. Quando estiver pronta, a fazenda deve produzir 900 toneladas de alface, rúcula, couve e outras verduras por ano.

E quanto a outros vegetais? A AeroFarms não diz, mas Shigeharu Shimamura, CEO da Miraiexplicou em 2014 à National Geographic: “Pelo menos tecnicamente, podemos produzir quase qualquer tipo de planta em uma fábrica. Mas o que faz mais sentido econômico é produzir vegetais de rápido crescimento que podem ser enviados para o mercado rapidamente. Isso significa vegetais folhosos para nós agora. No futuro, porém, gostaríamos de expandir para uma ampla variedade de produtos”.

Há quem diga que a agricultura vertical é o futuro da alimentação, reaproveitando espaços que normalmente não serviriam para plantações – a Mirai usa uma fábrica abandonada da Sony, por exemplo. No entanto, isto se manteve como uma atividade de nicho até o momento. Para que ela realmente decole, precisaremos ver várias operações bem-sucedidas em grande escala, e de forma contínua. Até lá, precisaremos depender da terra para cultivar nossos alimentos.

Fonte: Gizmodo.

Coisas que até um ateu pode ver

Comentários sobre o livro Mind & Cosmos, do filósofo americano Thomas Nagel, escrita pelo Rev. Augustus Nicodemus e publicada originalmente no blog Tempora-Mores.


Um número razoável de cientistas e filósofos ateus ou agnósticos vem em anos recentes engrossando as fileiras daqueles que expressam dúvidas sérias sobre a capacidade da teoria da evolução darwinista para explicar a origem da vida e sua complexidade por meio da seleção natural e da natureza randômica ou aleatória das mutações genéticas necessárias para tal. Poderíamos citar Anthony Flew, o mais notável intelectual ateísta que, no início do século 21, anunciou sua desconversão do ateísmo darwinista e adesão ao teísmo, por causa das evidências de propósito inteligente na natureza. Mais recentemente o biólogo ateu James Shapiro, da Universidade de Chicago, publicou o livro Evolution: A View from 21st Century, que desconstrói impiedosamente o darwinismo.

E agora é a vez de Thomas Nagel, professor de filosofia e direito da Universidade de Nova York, membro da Academia Americana de Artes e Ciências, ganhador de vários prêmios com seus livros sobre filosofia, e um ateu declarado. Ele acaba de publicar o livro Mind & Cosmos (“Mente e Cosmos”), com o provocante subtítulo Why the materialist neo-darwinian conception of nature is almost certainly false” (“Por que a concepção neo-darwinista materialista da natureza é quase que certamente falsa”), onde aponta as fragilidades do materialismo naturalista que serve de fundamento para as pretensões neo-darwinistas de construir uma teoria de tudo. (Não pretendo fazer uma resenha do livro. Para quem lê em inglês, indico a excelente resenha feita por William Dembski e o comentário breve de Alvin Plantinga). Estou mencionando estes intelectuais e cientistas ateus por que quando intelectuais e cientistas cristãos declaram sua desconfiança quanto à evolução darwinista são descartados por serem “religiosos”. Então, tá. Mas, e quando os próprios ateus engrossam o coro dos dissidentes?

Neste post, eu gostaria apenas de destacar algumas declarações de Nagel, no livro, que revelam a consciência clara que ele tem de que uma concepção puramente materialista da vida e de seu desenvolvimento, como a evolução darwinista, é incapaz de explicar a realidade como um todo. Embora ele mesmo rejeite a possibilidade de que a realidade exista pelo poder criador de Deus, ele é capaz de enxergar que a vida é mais do que reações químicas baseadas nas leis da física. A solução que ele oferece – que a mente sempre existiu ao lado da matéria – não tem qualquer comprovação, como ele mesmo admite, mas certamente está mais perto da concepção teísta do que do ateísmo materialista. Ele deixa claro que sua crítica procede de sua própria análise científica e que, mesmo assim, não será bem vinda nos círculos acadêmicos:

“O meu ceticismo [quanto ao evolucionismo darwinista] não é baseado numa crença religiosa ou numa alternativa definitiva. É somente a crença de que a evidência científica disponível, apesar do consenso da opinião científica, não exige racionalmente de nós que sujeitemos este ceticismo [a este consenso] neste assunto. (…) Eu tenho consciência de que dúvidas desta natureza vão parecer um ultraje a muita gente, mas isto é porque quase todo mundo em nossa cultura secular tem sido intimidado a considerar o programa de pesquisa reducionista [do darwinismo] como sacrossanto, sob o argumento de que qualquer outra coisa não pode ser considerada como ciência.” (p.7)

Ele profetiza o fim do naturalismo materialista, o fundamento do evolucionismo darwinista: “Mesmo que o domínio do naturalismo materialista está se aproximando do fim, precisamos ter alguma noção do que pode substitui-lo” (p. 15). Para ele, quanto mais descobrimos acerca da complexidade da vida, menos plausível se torna a explicação naturalista materialista do darwinismo para sua origem e desenvolvimento:

“Durante muito tempo eu tenho achado difícil acreditar na explicação materialista de como nós e os demais organismos viemos a existir, inclusive a versão padrão de como o processo evolutivo funciona. Quanto mais detalhes aprendemos acerca da base química da vida e como é intrincado o código genético, mais e mais inacreditável se torna a explicação histórica padrão [do darwinismo]. (…) É altamente implausível, de cara, que a vida como a conhecemos seja o resultado da sequência de acidentes físicos junto com o mecanismo da seleção natural. (…) “Com relação à evolução, o processo de seleção natural não pode explicar a realidade sem um suprimento adequado de mutações viáveis, e eu acredito que ainda é uma questão aberta se isto poderia ter acontecido no tempo geológico como mero resultado de acidentes químicos, sem a operação de outros fatores determinando e restringindo as formas das variações genéticas.” (pp. 5, 6, 9)

Nagel surpreendentemente sai em defesa dos proponentes mais conhecidos da teoria do design inteligente na atualidade, Michael Behe e Stephen Meyer:

“Apesar de que escritores como Michael Behe e Stephen Meyer sejam motivados parcialmente por suas convicções religiosas, os argumentos empíricos que eles oferecem contra a possibilidade da vida e sua história evolutiva serem explicados plenamente somente com base na física e na química são de grande interesse em si mesmos. (…) Os problemas que estes iconoclastas levantam contra o consenso cientifico ortodoxo deveriam ser levados a sério. Eles não merecem a zombaria que têm recebido. É claramente injusta.” (p.11)

Num parágrafo quase confessional, Nagel reconhece que lhe falta o sentimento do divino que ele percebe em muitos outros: “Confesso (…) que não considero a alternativa do design inteligente como uma opção real – me falta aquele sensus divinitatis [senso do divino] que capacita – na verdade, impele – tantas pessoas a ver no mundo a expressão do propósito divina da mesma maneira que percebem num rosto sorridente a expressão do sentimento humano” (p.12). Para Nagel, porém, o evolucionismo darwinista, com sua visão materialista e naturalista da realidade, não consegue explicar o que transcende o mundo material, como a mente e tudo que a acompanha:

“Nós e outras criaturas com vida mental somos organismos, e nossa capacidade mental depende aparentemente de nossa constituição física. Portanto, aquilo que explica a existência de organismos como nós deve explicar também a existência da mente. Mas, se o mental não é em si mesmo somente físico, não pode, então, ser plenamente explicado pela ciência física. E então, como vou argumentar mais adiante, é difícil evitar a conclusão que aqueles aspectos de nossa constituição física que trazem o mental consigo também não podem ser explicados pela ciência física. Se a biologia evolutiva é uma teoria física – como geralmente é considerada – então não pode explicar o aparecimento da consciência e de outros fenômenos que não podem ser reduzidos ao aspecto meramente físico. (…) Uma alternativa genuína ao programa reducionista [do darwinismo] irá requerer uma explicação de como a mente e tudo o que a acompanha é inerente ao universo. (…) Os elementos fundamentais e as leis da física e da química têm sido assumidos para se explicar o comportamento do mundo inanimado. Algo mais é necessário para explicar como podem existir criaturas conscientes e pensantes, cujos corpos e cérebros são feitos destes elementos. (pp. 15, 20)

Menciono por último a perspicaz observação de Nagel: se a mente existe porque sobreviveu através da seleção natural, isto é, por ter se tornado mais esperta para sobreviver, como poderemos confiar nela? E aqui ele cita e concorda com Alvin Plantinga, um renomado filósofo de fé reformada:

“Eu concordo com Plantinga que, ao contrário da benevolência divina, a aplicação da teoria da evolução à compreensão de nossas capacidades cognitivas acaba por minar nossa confiança nelas, embora não a destrua por completo. Mecanismos formadores de crenças e que têm uma vantagem seletiva no conflito diário pela sobrevivência não merecem a nossa confiança na construção de explicações teóricas sobre o mundo como um todo. (…) A teoria da evolução deixa a autoridade da razão numa posição muito mais fraca. Especialmente no que se refere à nossa capacidade moral e outras capacidades normativas – nas quais confiamos com frequência para corrigir nossos instintos. Eu concordo com Sharon Street [professora de filosofia da Universidade de Nova York] que uma auto-compreensão evolucionista quase que certamente haveria de requerer que desistíssemos do realismo moral, que é a convicção natural de que nossos juízos morais são verdadeiros ou falsos independentemente de nossas crenças.” (p.28)

Não consegui ler Nagel sem lembrar do que a Bíblia diz: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Eclesiastes 3:11). “De um só Deus fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós” (Atos 17:26-27). Nagel tem o sensus divinitatis, sim, pois o mesmo é o reflexo da imagem de Deus em cada ser humano, ainda que decaídos como somos. Infelizmente o seu ateísmo o impede de ver aquilo que sua razão e consciência, tateando, já tocaram.

O notívago é o novo canhoto

Canhotos sempre sofreram para se encaixar em um mundo feito por e para destros. Na idade média, escrever com a mão esquerda era sinal de insubordinação ou dificuldade de aprendizado, um erro que devia ser consertado o mais rápido possível. Crianças sofriam represálias psicológicas, castigos físicos e tinham que aprender a se virar com a mão direita. Hoje, a tolerância com os canhotos pode até ter aumentado, mas eles ainda têm que lidar com um mundo no qual as tesouras e os abridores de lata ainda funcionam para o lado errado. Ser canhoto é fazer um esforço a mais para coisas banais do cotidiano, que não deveriam exigir esforço algum. Saca-rolhas, torneiras, maçanetas – tudo o que gira, gira para a direita na ditadura dos destros. Para os canhotos, de duas, uma: ou vivem um eterno jogo de desmunhecar ou aprendem a lidar com as coisas usando a mão direita.

Situação semelhante vivem os notívagos. Hoje eles sofrem até mais do que os canhotos. Essas pessoas geralmente são injustiçadas e incompreendidas, rotuladas de preguiçosas e irresponsáveis, simplesmente porque não se enquadram naquele esquema, que não sei quem inventou, de que pessoas trabalhadoras e responsáveis dormem e acordam cedo. Estabeleceram que o melhor horário para o funcionamento do comércio, dos bancos, das pessoas, enfim, do mundo, seria a partir de sete ou oito horas da manhã. Horário completamente ilógico, caótico e difícil de ser seguido para os notívagos, ou seja, aquele grupo de pessoas que não consegue, como a maioria dos “normais”, ter sono antes da meia noite e acordar pela manhã esbanjando vitalidade, ânimo e disposição.

Diferentemente dos matutinos, os notívagos conseguem ser mais dinâmicos e produtivos durante a noite e a madrugada. Têm mais atenção, energia, disposição e ânimo justamente naquele horário em que a maioria sente sono. Se você quer saber como é ser um notívago numa sociedade diurna, apenas inverta o horário “normal”: trabalhe à noite por um tempo, dormindo durante o dia. Se você não perder a saúde, a família e a sanidade mental, parabéns. Agora imagine um notívago ligando para alguém, quando está acordado, animado e cheio de ideias, às duas da manhã. Certamente essa atitude seria considerada inconveniente: uma grande falta de etiqueta e respeito. Pois é: o matutino liga para qualquer pessoa às oito da manhã, com a maior naturalidade. Para finalizar este desabafo, quero compartilhar o depoimento da psicóloga e notívaga assumida Maria Aparecida Francisquini, com o qual muito me identifiquei:

“Antes, quando me forçava a entrar nesse esquema matinal, e acordar cedinho com o barulho do despertador, me enquadrava como insone, e a única coisa que conseguia era ficar rolando na cama quase a noite toda, e passar a manhã inteira sonolenta e pouco produtiva. Agora, que me permito respeitar meu horário biológico e me assumir como autêntica notívaga que sou, consigo ser altamente produtiva, criativa e muito mais feliz. Como geralmente não consigo dormir antes das duas horas da manhã, aproveito esse tempo para ler, escrever e pensar em coisas que antes não tinha tempo, pois me obrigava a deitar cedo para inutilmente tentar dormir e conseguir levantar da cama ao amanhecer. Me assumir como notívaga me propicia a capacidade de, por exemplo, estar aqui agora, tranquila e feliz, às duas e quinze da manhã, escrevendo isto, ao invés de estar rolando na cama, impaciente e ansiosa por não conseguir dormir.”


Timelapse “Night Vision” (Visão Noturna) retrata em menos de 4 minutos a beleza da noite nos cartões postais mais fascinantes da Europa.

Explosão demográfica

Trecho do livro Aprendendo Inteligência, do professor Pierluigi Piazzi.

Veja também: Quantas pessoas já viveram no mundo?

Quando eu tinha uns nove anos, um professor propôs o seguinte problema: “Dentro de uma garrafa, cheia de um líquido nutritivo, cai um micróbio. O micróbio se alimenta, cresce e se divide em dois. Os dois se alimentam, crescem e, por sua vez, se dividem dando origem a quatro micróbios. Verificamos que o número de micróbios duplica de minuto em minuto. Sabemos que o primeiro micróbio caiu na garrafa à meia-noite e que a garrafa chegou a se encher pela metade de micróbios em quatro horas, ou seja, ela está pela metade às quatro horas da manhã. A que horas ela estará totalmente cheia?”.

E todos nós, trouxas, caímos na armadilha e respondemos quase em coro: “Às oito horas”. Com muita paciência, o professor nos explicou que, se o número de micróbios duplicava a cada minuto, em apenas mais um minuto a garrafa, que já estava pela metade, iria se encher completamente. A resposta correta, portanto, seria: “Às quatro horas e um minuto!”. Nesse momento, senti a saudável sensação de ser um verdadeiro tonto (sensação essa que se repetiria frequentemente ao longo de minha existência).

O episódio, porém, teria sido completamente esquecido se, muitos anos mais tarde, eu não tivesse lido um artigo escrito por alguém que com certeza conhecia a história dos micróbios. Em resumo, a história começava com a garrafa pela metade e um micróbio político fazendo um pronunciamento ao vivo pela televisão:

“Minhas compatriotas e meus compatriotas! Já faz muito tempo, quatro longas horas para ser exato, que nosso ancestral comum chegou nessa garrafa deserta e, com corajoso espírito pioneiro, a colonizou. Nossa estirpe orgulhosamente cresceu, apesar dos gritos de estúpidos ambientalistas que ficam bradando contra o que eles denominam ‘crescimento desordenado’. Será que eles não enxergam que, no decorrer de toda a nossa história, só consumimos a metade do espaço e dos recursos disponíveis? Toda a outra metade está virgem e intocada para as gerações seguintes! Além disso, para calar esses pessimistas, quero dar uma excelente notícia: Nossa agência espacial enviou algumas sondas para exploração no espaço extragarrafal e descobriu nas vizinhanças seis garrafas idênticas à nossa, completamente desertas e cheias de líquido nutritivo, para as quais já transferimos alguns corajosos colonos. Portanto, se já consumimos o espaço e a comida de apenas meia garrafa em toda a existência de nossa nação, as gerações futuras irão dispor de muitas e muitas eras antes de começar e se preocupar, dando ouvidos a esses chatos dos ambientalistas. Se algum dia nossa garrafa ficar cheia, transferiremos num instante as duas metades da população em duas garrafas virgens.”

Sob aplausos entusiásticos, nosso personagem desce do palanque, sorrindo e acenando para a multidão. Apenas três minutos depois, todos os micróbios de todas as garrafas começam a morrer de fome! “Bonita história”, você dirá. “Mas o que isso tem a ver comigo?”. Pois é, meu caro leitor, você já deve ter ouvido algum professor de história dizendo que devemos estudar o passado para não cometermos os mesmos erros no presente. Acontece que há um erro que jamais foi cometido no passado e que, pela primeira vez na história da humanidade, está sendo cometido agora. E não por falta de aviso. Entre no Google e dê uma pesquisada sobre um tal de Thomas Robert Malthus (1766-1834). Ele certa vez alertou: “A população, quando não controlada, cresce em razão geométrica. Recursos de subsistência crescem apenas em razão aritmética”.

Bem vindo à explosão demográfica! O planeta Terra, nossa garrafa, está se degradando aceleradamente: poluição, desmatamento, buraco na camada de ozônio, aquecimento global devido ao efeito estufa… E as coisas vão piorar! Duvida? Então ouça, a partir desse alerta, os discursos dos políticos: todos eles falam em “crescimento econômico”. Agora entre no Google e digite: “Lemingue”. Leia o que vier e medite um pouco. Depois de meditar, entre no site da WWF e leia alguns relatórios muito esclarecedores. Baseadas nesses dados, todas as escolas, numa falta de originalidade até benéfica, propõem trabalhos sobre o que é considerado o recurso mais escasso do século 21: água potável. Na realidade, há tanta água potável no século 21 quanto havia nos séculos anteriores. O que há de diferente é o excesso de pessoas querendo beber. O bem mais escasso do século 21 não é água, é inteligência!

Pra que eu tenho que saber isso?

Artigo de opinião de Dani Duc.

Uma pergunta que todo professor parece temer que seus alunos façam é: “Pra que eu tenho que saber isso?”. De fato, para que serve saber números complexos, saber que os holandeses invadiram Olinda em 1630, saber balancear equações químicas ou saber o que José de Alencar escreveu há mais de 150 anos num português que nem se usa mais? Pode-se pensar em situações específicas em que essas informações venham a ser úteis, mas por que um adolescente que quer ser advogado tem que aprender sobre números complexos, ou um que quer ser químico deve saber sobre a invasão holandesa?

Bem que poderíamos pegar o tempo gasto ensinando coisas que nem um médico, advogado ou engenheiro irá precisar para continuar seus estudos na faculdade, e usar para ensinar coisas mais práticas, como dirigir, cozinhar ou algo assim. Caso alguém tenha interesse em seguir alguma carreira científica, que faça aulas extras daquela ciência, em outro período, por exemplo. Certamente ele não estará perdendo seu tempo aprendendo a dirigir também, e com isso não obrigamos dezenas milhões de estudantes a decorar coisas que nunca usarão em nome de alguns milhares de possíveis físicos que talvez possam a vir a usar aquelas coisas específicas caso realmente prestem a faculdade. Mas não, em vez disso fazemos todo mundo ler Eça de Queiroz e aprender a resolver contas com matrizes. Por que eu tenho que gastar um tempo, que eu bem que podia estar aprendendo algo útil de verdade, decorando fases da mitose? Para cada adulto que efetivamente usa o conhecimento das fases da mitose em sua vida eu acredito que é possível listar milhares e milhares que não usam, nunca usaram e morrerão após uma vida longa e bem sucedida sem sentir a menor falta de saber isso!

Embora eu acredite que um professor nem sequer admitirá discutir a questão do “pra quê” com o aluno, ela é, na verdade, muito pertinente, e conheço mais de um professor que reconheceu para mim não ter uma boa resposta para ela. Se nem o professor sabe porque ele está lá, muitas vezes em uma hora indecente da manhã, empurrando conhecimento que os alunos não querem, acho que o aluno tem todo o direito de questionar essa prática, classificando-a como arbitrária, abusiva e desnecessária. Entretanto, apesar de acreditar que eles tem esse direito, eu discordo destes alunos. Obviamente há espaço para melhorar nosso sistema de ensino, mas acredito que há um problema na noção que parece estar por trás da famosa pergunta “pra que serve isso”. Refiro-me à ideia errônea de que uma coisa só se justifica se tiver uma finalidade prática imediata, ou pelo menos a médio prazo; de que, se algo não me é útil de uma maneira prática e objetiva, não vale o esforço. Todo o estudo é feito em função de investimento e retorno. O problema que vejo com esta noção é que a escola básica não tem, na minha opinião, como função primordial formar operários, técnicos ou executivos, mas sim cidadãos. Antes de saber que profissão você vai seguir, se determinado conhecimento será prático ou não, você tem que aprender a funcionar em sociedade. Mas como ler Machado de Assis ou aprender matrizes vai te ajudar a ser um cidadão? A respostas tem mais de um nível.

Um monte de coisas que achamos que fazem parte da nossa natureza humana, que vem “de fábrica”, são na verdade habilidades adquiridas, e adquiridas a muito custo. A noção de nação, por exemplo, não nos é inata. Sem educação, é bem possível que um indivíduo não consiga se identificar com nada mais abrangente que sua família, ou grupo de amigos, pessoas de contato imediato. O que nos une é uma ideia abstrata que deve ser aprendida, ou nos esfacelaremos em milhares de pequenas gangues guerreando pelos recursos do outro lado da rua. O Estado moderno, formado por cidadãos, deve por sua vez formar estes cidadãos, pois eles certamente não aprenderão sozinhos a ideia que os une ou a sua função dentro dessa organização abstrata. E uma das coisas que une uma nação é uma cultura comum, um cânone de ideias e trabalhos feitos por outros que nos precederam, pois cultura é trabalho cumulativo. É preciso saber nossa história, como viemos a ser, qual nosso lugar na história mais abrangente da humanidade, que ideias formaram nossa cultura desde suas raízes até os dias atuais.

Então é importante, sim, para você se sentir e ser brasileiro, saber que os holandeses invadiram Olinda e saber o que José de Alencar escreveu, porque essas coisas ajudaram a formar e compõem nossa nação até hoje. Mesmo que o português escrito por Alencar não seja mais usado, ou que um aluno ache o enredo de Iracema mais chato que o filme do Homem-aranha, é preciso conhecer suas ideias, sua linguagem, porque elas são a base do que temos hoje, no centro da nossa nação, da qual você, queira ou não, faz parte. E, para você dar sua contribuição, evoluir o que temos até agora, funcionar plenamente como cidadão, você tem que conhecer suas regras e origens, ou então ficará ignorante de seu papel e portanto incapaz de mudá-lo, incapaz de se conectar com a sua nação.

Mas um cidadão não está conectado somente à sua nação, pois todas as nações estão conectadas por algo em comum: o mundo em que vivemos. É preciso ter uma ideia de como esse mundo funciona, quais são seus princípios fundamentais e regras básicas para que não achemos as coisas ocorrem de maneira aleatória e assim, cairmos facilmente como presas das manipulações de quem efetivamente conhece essas regras. É aí que entra o papel da física, da química e da biologia. Você irá operar dentro deste mundo, e sem conhecer os princípios ficará a mercê de forças que não compreende, como uma criança de quatro anos que tem de viver e trabalhar em um submarino nuclear.

Mas esse aprendizado tem por trás mais um propósito, além de nos “inserir no contexto” do mundo em que estamos vivendo. Existem outras coisas que achamos que nascemos conosco, mas na verdade são habilidades adquiridas: a capacidade de raciocínio lógico e pensamento crítico. De maneira alguma nacemos com eles. Pode-se argumentar que nascemos com a capacidade de adquiri-los, assim como nascemos com a capacidade de falar, mas não nascemos sabendo uma língua. Aprender a falar português e a raciocinar criticamente e logicamente são habilidades duramente conquistadas, a troco de grande trabalho que se estende por anos. Esse é o papel da matemática e das línguas.

Mesmo que você não vá decorar Iracema, você tem que saber ler e interpretar um texto além da historinha óbvia, e perceber que ela é uma alegoria. Ler nas entrelinhas, extrapolar, fazer conexões com outros textos, interpretar, são coisas que devemos praticar muito para aprendermos a fazer. Sem isso, ficaremos eternamente presos no imediato, no aparente, manipulados pela publicidade e propaganda (ideológica ou de outra forma), ingênuos num mundo malicioso. Mesmo que você não lembre como fazer conta envolvendo a raiz quadrada de menos um, a capacidade analítica de abordar um problema permanecerá com você e será ferramenta que te permitirá fugir do procedimento estabelecido por outros. Eu não sou de modo algum contra ensinarmos coisas úteis com finalidades práticas imediatas. Eu sou contra ficarmos apenas ensinando o que será útil e prático imediatamente. Se ficarmos nisso, estaremos formando peças condenadas a repetir apenas essas coisas úteis, sem autonomia, robôs eficientes em seguir roteiros pré-estabelecidos e ordens diretas, sem qualquer identidade com a nação ou mundo que os cerca, apenas recursos sendo explorados.

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