As 30 cidades mais altas do Brasil

Estas são as 30 cidades brasileiras com mais de 1200 metros de altitude. Note que 18 delas ficam no estado de Minas Gerais, a maioria na região da Serra da Mantiqueira, ao sul do estado, próximo às fronteiras com São Paulo e Rio de Janeiro. Dentre as 11 restantes, 5 ficam em Santa Catarina, uma em São Paulo, uma no Paraná, uma no Rio Grande do Sul, uma no Distrito Federal, uma em Goiás e uma na Bahia.

Campos do Jordão, cidade mais alta do Brasil
Campos do Jordão, cidade mais alta do Brasil

1. Campos do Jordão (SP) – 1.620m
2. Monte Verde (MG) – 1.554m
3. Senador Amaral (MG) – 1.505m
4. Bom Repouso (MG) – 1.360m
5. Gonçalves (MG) – 1.350m
5. São Joaquim (SC) – 1.350m
7. Urupema (SC) – 1.335m
8. Caldas (MG) – 1.300m
9. São Thomé das Letras (MG) – 1.291m
10. Diamantina (MG) – 1.280m
11. Marmelópolis (MG) – 1.277m
12. Alto Paraíso de Goiás (GO) – 1.272m
13. Santana do Garambéu (MG) 1.270m
13. Ceilândia (DF) – 1.270m
15. Piatã (BA) – 1.268m
16. Campos Gerais (MG) 1.266m
17. Maria da Fé (MG) 1.258m
18. Nova Resende (MG) – 1.250m
18. Bom Jardim de Minas (MG) – 1.250m
20. Bom Jardim da Serra (SC) – 1.245m
21. Munhoz (MG) – 1.235m
22. Datas (MG) – 1.231m
23. Matos Costa (SC) – 1.220m
23. Serra do Salitre (MG) 1.220m
23. Bocaina de Minas (MG) 1.210m
26. Inácio Martins (PR) – 1.209m
27. Bueno Brandão (MG) – 1.204m
28. Delfim Moreira (MG) – 1.200m
28. São José dos Ausentes (RS) – 1.200m
28. Calmon (SC) – 1.200m

Minha nação nordestina

Os 193 países do mundo (reconhecidos pela ONU) possuem juntos uma área total de aproximadamente 136.620.898 km². Dividindo isso igualmente entre eles, temos que 707.880 km² é aproximadamente o tamanho médio de um país hoje. Considerando apenas o continente europeu, sua área total é de aproximadamente 10.180.000 km². Dividindo isso igualmente entre os 50 países que compõem a Europa, temos que 203.600 km² é aproximadamente o tamanho médio de um país europeu. Ou seja, um país europeu médio teria cerca de 200 mil km² de área, enquanto que, em escala mundial, um país médio teria pouco mais de 700 mil km². Isso significa que boa parte da população mundial considera como sua pátria, sua nação, um território com área entre 200 e 700 mil km² (uma área do tamanho do estado de São Paulo, Minas Gerais ou Bahia).

Com dimensões continentais (8.515.767 km², quase o tamanho da Oceania), o Brasil está muito longe desse padrão; de modo que muitos Estados brasileiros possuem dimensões bem maiores que o tamanho médio de um país. Dizer que o Brasil é um país de proporções continentais já é um clichê. Em área, muitos de nossos Estados são maiores do que grandes potências europeias. Um professor universitário da Nova Zelândia, Roberto Rocco (que pelo nome desconfio que seja brasileiro), criou o mapa abaixo, que compara a área dos Estados brasileiros ao de vários países de todos os continentes:

brasil-estados-paises

Talvez isso explique tantos sotaques e culturas diferentes em cada estado brasileiro. É que, conscientemente ou não, percebemos mais facilmente como nossa pátria ou nação apenas a região geográfica em que vivemos (em alguns casos apenas o nosso estado e/ou estados vizinhos). Muitas vezes sem nos darmos conta disso, pensamos no Brasil da mesma maneira que muitas populações do mundo pensam o seu continente; e acabamos sentindo um certo patriotismo apenas pela nossa região ou estado.

Tomemos como exemplo o meu caso. Sempre vivi na Paraíba e, até hoje, só viajei por terra (moto, carro, ônibus, trem) para o interior paraibano e para os Estados vizinhos de Pernambuco e Rio Grande do Norte. Fora desse território limitado, só fiz viagens aéreas, dada a inviabilidade de percorrer o Brasil por terra. Por esse motivo, considero como minha terra natal, meu lugar de origem, apenas aquele raio que posso facilmente percorrer por terra em apenas um dia. De certa forma, meu “país” (considerando-se a média global) é apenas aquela área para a qual posso ir de moto ou carro quando me der na telha e voltar no mesmo dia. Sendo mais preciso, posso dizer que essa área tem cerca de 406.322 km² e corresponde aos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (em vermelho no mapa). Isso é quase o dobro do tamanho de um país europeu médio e mais de três vezes o tamanho da Inglaterra!

Nordeste

Não quero com isso sugerir uma segregação do Brasil. Meu discurso não é separatista. Pelo contrário, até penso que unir esses 6 estados em um só talvez seria uma boa ideia, visto que estamos falando de unidades federativas relativamente pequenas em área se comparadas com os outros estados, e geograficamente agrupadas, juntinhas. Se isso acontecesse no futuro, seríamos um estado mais forte e representativo, com tamanho parecido com o da Bahia ou Minas Gerais. Já comentei em outro post que a capital seria Recife. Mas não é bem isso que quero defender aqui. O objetivo deste post é apenas expor uma constatação curiosa: a de que, se os países do mundo tivessem todos mais ou menos o mesmo tamanho, a área em vermelho do mapa acima seria a minha nação.

Curiosidade 1: A União Europeia é formada por 28 países, quase como o Brasil, que tem 27 unidades federativas. No entanto, sua área total é de apenas 4.324.782 km², quase a metade do Brasil (8.515.767 km²). Fazendo com a UE os mesmos cálculos acima, temos que a área média de um país membro da UE é de 154.456 km²; enquanto que a área média de um estado brasileiro é mais que o dobro disso: 315.399 km².

Curiosidade 2: A área em vermelho destacada no mapa acima corresponde quase exatamente ao território conquistado pelos holandeses no século 17, que na época era conhecido como Nova Holanda (mapa abaixo), incluindo o litoral do Piauí e Maranhão.

Nova Holanda

Jornal A Tarde: “Je suis Charles”

Esse é o título de um artigo publicado nesta quarta-feira de cinzas no jornal A Tarde, de Salvador-BA, sobre este que vos escreve. Quem assina é Carlos Zacarias de Sena Júnior, doutor em História e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Leia o recorte do jornal abaixo e, para entender melhor o caso, recomendo também a leitura dessas duas matérias, publicadas pelo G1 no começo do mês:

Aprovado em medicina fez prova só para testar conhecimentos
Aprovado em 7 vestibulares e 4 concursos dá dicas de estudo

Je suis Charles - Jornal A Tarde - Salvador (BA)

Apenas uma correção: No texto, o autor refere-se ao “caso do estudante de filosofia paraibano que, após ser aprovado para o curso de medicina na UFPB, resolveu que não ia abandonar a arte de Platão e Aristóteles”. Está errado. Eu não resolvi continuar na filosofia “após” passar em medicina. Na verdade eu jamais cogitei a possibilidade de cursar medicina. Como já cansei de explicar, faço o Enem todos os anos para testar meus conhecimentos e coloquei essa opção no Sisu apenas porque é o curso mais concorrido e eu queria testar se conseguiria passar. Foi apenas um desafio pessoal a que me propus.

Por que Recife é a capital do Nordeste?

Recife

“Imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente”, propõe a música Nordeste Independente, dos paraibanos Bráulio Tavares (escritor e compositor) e Ivanildo Vilanova (poeta repentista), que foi interpretada e gravada pela primeira vez pela cantora paraibana Elba Ramalho no início dos anos 1980. A canção é um manifesto contra a discriminação sofrida pelo Nordeste, que gerou muita polêmica na época. “Já que existe no sul esse conceito que o nordeste é ruim, seco e ingrato… Já que existe a separação de fato, é preciso torná-la de direito… Quando um dia qualquer isso for feito, todos dois vão lucrar imensamente… Começando uma vida diferente da que a gente até hoje tem vivido… Imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente”, sugere a primeira estrofe.

nordeste-independenteSim: a ideia é utópica, improvável, ficcional e conta com muita licença poética, mas o movimento separatista do Nordeste existe há muito tempo e é mais organizado do que você imagina. Já existem trabalhos acadêmicos e livros publicados sobre esse tema e, desde 1992, existe em Pernambuco o GESNI (Grupo de Estudos sobre o Nordeste Independente), que é um movimento pacífico e organizado que examina as possibilidades de independência e melhorias no território nordestino. Jaques Ribemboim, fundador do grupo, é professor doutor em economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e mestre em economia pela University College of London, na Inglaterra. Ele também é autor do livro Nordeste Independente, publicado em 2002 na cidade do Recife. Além do GESNI, o Nordeste já contou com movimentos separatistas mais antigos como a Conspiração dos Suaçunas, Revolução Pernambucana, Confederação do Equador e Revolução Praieira.

Não quero entrar no mérito dessa questão, mas esta semana, conversando com alguns amigos, nos permitimos imaginar essa possibilidade e ficamos a debater sobre qual seria a capital desse novo país. Qual cidade receberia o título de capital do Nordeste? Qual é a cidade mais importante para a região, seja do ponto de vista político, econômico, geográfico, histórico ou cultural? As candidatas logo emergiram, destacando-se das demais: Salvador, Fortaleza ou Recife. E agora? Como decidiríamos? Quais seriam os critérios da escolha? Após muita conversa, chegamos a um consenso: Recife seria a capital do Nordeste; pelos seguintes motivos:


GEOGRAFIA

Observe o mapa do Nordeste. Dentre as três cidades candidatas, Salvador fica bem ao sul, Fortaleza fica bem ao norte, e Recife fica bem no centro da região. Recife tem ao norte as capitais estaduais João Pessoa e Natal separando-a de Fortaleza; e tem ao sul as capitais estaduais Maceió e Aracaju separando-a de Salvador. Se Brasília foi construída praticamente no meio de um deserto para ser a capital federal, apenas porque aquela era uma região geograficamente mais central, isso significa que, para nós, esse quesito é importante. E nele, em se tratando de Nordeste, Recife sai na frente.


HISTÓRIA

A cidade do Recife foi fundada em 1537 e é a capital mais antiga do Brasil. Muitos dos mais importantes eventos da História do Brasil aconteceram lá, como a Guerra dos Mascates (1710-1711), a Revolução Pernambucana (1817), a Confederação do Equador (1824), a Revolta Praieira (1848-1850), entre outros. No início do século 20, antes da ascensão meteórica de São Paulo, Recife só perdia em importância política e econômica para o Rio de Janeiro, que na ocasião era a capital do Brasil (Brasília só foi fundada em 1960). Na década de 1970, Recife era ainda a terceira maior metrópole brasileira, atrás apenas do Rio de Janeiro e São Paulo. Principal centro financeiro do Brasil Colônia até meados do século 18, a metrópole pernambucana abriga importantes cidades históricas, como Olinda, cujo centro histórico é Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.


POLÍTICA

A região metropolitana do Recife é o maior aglomerado urbano do Norte-Nordeste, o 5ª maior do Brasil e um dos 120 maiores do mundo, com uma população de 4,5 milhões de habitantes. Ela é a terceira área metropolitana mais densamente habitada do país, superada apenas por São Paulo e Rio de Janeiro. A capital pernambucana está atrás somente de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo na hierarquia da gestão federal. Recife tem ainda o maior número de consulados estrangeiros fora do eixo Rio-São Paulo, sendo inclusive a única cidade, com exceção daquelas duas, que tem Consulados-Gerais de países como Estados Unidos, China, França e Reino Unido.


ECONOMIA

Recife é a metrópole mais rica do Norte-Nordeste em PIB, além de ser o maior pólo industrial e econômico do Nordeste. Destaca-se por possuir a melhor universidade do Norte-Nordeste, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); o 2º maior polo médico do Brasil; o 9º maior número de arranha-céus das Américas; o melhor aeroporto do Brasil, o Aeroporto Internacional do Recife (Guararapes); e o Complexo Industrial e Portuário de Suape, que abriga o Porto de Suape (melhor porto do Brasil), o Estaleiro Atlântico Sul (maior estaleiro do hemisfério sul), entre outros empreendimentos. O metrô do Recife é composto atualmente de 28 estações, com linhas que somam 39,5 quilômetros de extensão, transportando cerca de 225 mil usuários por dia. O Shopping RioMar, localizado na Zona Sul, é o maior centro de compras do Norte-Nordeste e o 3º maior do Brasil.

A cidade é considerada um dos mais importantes polos de tecnologia da informação do país. O Porto Digital, que abriga mais de 200 empresas, entre elas multinacionais como Motorola, Nokia, IBM e Microsoft, é reconhecido internacionalmente como o maior parque tecnológico do Brasil em faturamento e número de empresas. O Centro de Informática da UFPE fornece mão de obra para o polo, que gera 7 mil empregos e tem participação de 3,5% no PIB do Estado de Pernambuco. Por isso alguns especialistas chamam a capital pernambucana de Vale do Silício brasileira.

A cidade foi eleita por pesquisa encomendada pela MasterCard Worldwide como uma das 65 cidades com economia mais desenvolvida dos mercados emergentes no mundo. Apenas 5 cidades brasileiras entraram nessa lista, e Recife ficou em 4º lugar, após São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Segundo a consultoria britânica PwC, Recife será uma das 100 cidades mais ricas do mundo até 2020, à frente de cidades como Munique (Alemanha), Nápoles (Itália) e Amsterdã (Holanda). Recife destaca-se ainda por ser a capital nordestina com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo dados da ONU de 2010, figurando como a capital mais alfabetizada, com a menor incidência de pobreza e a com a maior renda média domiciliar mensal do Nordeste.


CULTURA

A cidade do Recife deu origem a nomes como Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Joaquim Nabuco, entre outros, como Ariano Suassuna, que nasceu na Paraíba, mas vivia no Recife e se considerava pernambucano de coração. Na música, Recife deu ao Brasil e ao mundo nomes como Luiz Gonzaga, Lenine, Alceu Valença, Reginaldo Rossi, Bezerra da Silva, Michael Sullivan, Chico Science e Nação Zumbi, entre tantos outros. Com atletas e esportistas consagrados, Recife tem a maior representação esportiva do Nordeste. Isso é especialmente verdade no futebol, esporte mais popular do país, já que este ano o Sport é o único clube do Norte-Nordeste na série A do campeonato brasileiro.

Recife também é a casa do Galo da Madrugada, reconhecido pelo Guinness Book (o livro dos recordes) como o maior bloco carnavalesco do mundo, que todos os anos arrasta cerca de 2,5 milhões de foliões pelas ruas do centro histórico. O frevo, um dos principais gêneros musicais nascidos no Recife, foi declarado pela UNESCO, em cerimônia realizada em 2012 em Paris, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Não podemos esquecer ainda do maracatu, ritmo regional responsável pelo surgimento, nos anos 1990, do movimento manguebeat, uma das maiores provas de que momentos de efervescência cultural elevam a auto estima de uma cidade e influenciam no crescimento da economia. Recife possui uma cultura própria e independente. Poetas já chamaram Recife de “Veneza Brasileira”, “Florença dos Trópicos”, “Cidade Maurícia” e “Manguetown“.

Reportagem de 1994 relata um Brasil sem televisão e sem energia elétrica

Desisti de estudar jornalismo por um motivo muito simples: os textos jornalísticos não resistem ao tempo. Uma notícia incrivelmente bem escrita hoje, na qual o jornalista investiu tanto tempo, esforço e talento, estará velha amanhã. Os textos jornalísticos relatam fatos, e estes estão sempre presos ao tempo em que aconteceram. Passam-se os dias e aquela reportagem magnífica já ficou ultrapassada por novos fatos, novas notícias, novos tempos. Em vez de jornalismo, resolvi estudar filosofia porque os bons textos filosóficos, ao contrário dos jornalísticos, pretendem-se atemporais, almejam a imortalidade, resistem aos séculos. Platão e Aristóteles continuam atuais; enquanto que ninguém mais lembra o que William Bonner disse semana passada no Jornal Nacional.

Como eu disse, textos jornalísticos não resistem ao tempo. Mas não podemos generalizar. Alguns, de tão bem escritos, sobrevivem por décadas. Se não servem mais para relatar fatos atuais, permanecem vivos como importantes registros históricos de outras épocas. Um dos mais felizes exemplos disso é a reportagem a seguir, publicada em janeiro de 1994 na revista Veja. Apesar de estar mais de 20 anos “atrasada”, de relatar uma realidade social que ficou no passado e de ainda contar dinheiro em cruzados, ela continua viva como relato histórico ao deixar registrado como era a vida nos pequenos municípios do interior do Brasil antes da chegada definitiva da energia elétrica e, principalmente, da popularização da televisão. Leia a reportagem na íntegra:


A vida em Estouros, povoado a 290 km de Belo Horizonte, segue um ritmo que parece eterno. Não é necessário relógio. Acorda-se com o raiar do Sol e dorme-se quando as estrelas começam a surgir. Os homens trabalham a terra e as mulheres cuidam da casa e dos filhos. Nas refeições, as famílias se alimentam daquilo que a terra lhes devolve. Feijão, arroz, couve, abóbora. De vez em quando, carne de porco ou de galinha, criados no quintal. Ali não se conhece hambúrguer, pizza nem maionese. Tem gente que no mês passado tomou Coca-Cola pela primeira vez na vida. Os jornais só aparecem para embrulhar encomenda. Estouros é um lugar sem aquele eletrodoméstico que ocupa o lugar central na residência da maioria dos brasileiros — um aparelho de TV.

O que é a TV? O menino Ivanei Carlos Martins, 10 anos, 7 irmãos criados por um lavrador de Estouros, que todos os dias caminha 12 km para ir à escola e voltar, explica: “É uma caixa de som com um espelho na frente”. O irmão mais velho, Wilson, já viu TV nas redondezas. Mas, se pudesse, Wilson não compraria um aparelho. Uma égua de 3 anos teria maior utilidade: “Eu descansaria das pernas. A gente anda sempre a pé ou no caminhão do leite”. Wilson assistiu a uma exibição do programa Aqui Agora, do SBT, e ficou de olhos esbugalhados. Não se conforma até hoje: “A gente vê batida de carro, roubo”, espanta-se. “Tem bandido que mata a pessoa à toa. Aqui não tem nada disso. Aqui a gente mata porco. E para comer”. Outro habitante de Estouros, Luciano Felisberto Filho, tem outra lembrança do único programa de TV a que já assistiu. “Não dá para assistir tanta coisa junta. Não entendo o que vejo. O povo fala muito”.

É mesmo estranha a vida sem o espelho falante do pequeno Ivanei. O povoado de Serra Velha, em Santa Catarina, que tem 300 habitantes e 60 casas, fica encravado numa montanha e o acesso é restrito a uma única estrada. Ali nunca se ouviu falar do ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Tampouco de Roberto Carlos ou Pelé. O ídolo naquelas paragens é o professor Santanor Petersen, único na região, proprietário de uma caminhonete que faz 30 quilômetros por hora como velocidade máxima. Bem diferente dos veículos saídos de uma linha de montagem, a caminhonete do professor Petersen tem a carroceria de madeira, que sobrou de um corte de árvores, e o motor de um barco. Pessoa mais bem informada da cidade, o professor não sabe que o atual presidente da República se chama Itamar Franco.

Esse país indiferente à passagem do tempo, com muito menos dinheiro, conforto e violência, integra uma das mais bem-sucedidas utopias nacionais. A do Brasil rural, de pessoas simples e valores estabelecidos, de pequenos heróis e pequenos vilões naturais em qualquer parte. É um país delicioso de ver e explorar, como descobriram as novelas rurais que a Globo produz e eles não vêem. Mas é uma utopia urbana achar que o povo desses lugares quer ficar assim. TV é eletricidade, eletricidade é progresso, e não há como preferir um lampião de querosene a uma lâmpada, nem é possível achar que o cidadão que não sabe o nome do presidente é mais feliz do que aquele capaz de recitar a lista de todos os ocupantes do Planalto de 1964 para cá. É só mais ignorante.

Há 6 meses, em Lagoa do Oscar, lugarejo do interior de Minas, correu o boato de que, enfim, os postes de luz chegariam ao local. Foi um alvoroço. O roceiro Domingos Ferreira Conceição, um senhor já de meia-idade, percorreu 110 km apenas para fazer uma troca. Entregou uma espingarda nova para um muambeiro, que lhe deu uma TV portátil trazida do Paraguai. O roceiro aguardou 4 meses pela luz. Como ela não veio, vendeu a TV para um caminhoneiro, que pagou 20 mil cruzeiros reais por ela. Mas não desistiu. “As crianças só falam do dia em que terão uma TV em casa”, diz.

Com 3 mil moradores, a 700 km de Salvador, Muquém do São Francisco é outro exemplo. Ali não existe luz elétrica, água encanada nem rede de esgoto. Mas tem TV. Um aparelho, de propriedade da prefeitura, ligado a um gerador a óleo diesel. Todos os dias, o funcionário Francisco Raimundo Cardoso pega o televisor de 20 polegadas em um barraco onde ele fica trancado e o transporta até a praça da cidade. Ali, cercada com arames farpados, a TV fica ligada das 6 da tarde até às 11 da noite.

Muquém é um município paupérrimo, com orçamento de 10 milhões de cruzeiros reais por mês. Com esse dinheiro, o prefeito Carlos Moreno Pereira paga o salário de 130 funcionários públicos e investe 2 milhões de cruzeiros reais na área de saúde. As escolas da cidade lhe custam o mesmo que a conta do gerador da TV: 4 milhões por mês. Até o prefeito acha um absurdo. “É um luxo gastar dinheiro com o gerador”, reconhece. Mas não há alternativa. Desde que a TV foi instalada, no final de 1991, é sucesso absoluto. Nos dias normais, reúne 30 pessoas na praça. Em grandes momentos, passa de 80. Quando se transmite futebol, a plateia se divide. As mulheres querem ver as novelas; e os homens, futebol. A última palavra é da primeira-dama, Vera Lúcia Pereira, que sempre acaba dando preferência à plateia feminina.

Captava por antena parabólica diretamente do Rio de Janeiro e de São Paulo, a TV de Muquém tem uma peculiaridade: não apresenta comerciais. Enquanto os telespectadores do país inteiro assistem a um carrocel de anúncios publicitários, ali a tela fica escura. O impacto sobre os hábitos de consumo é menor. A plateia só é atingida pelo merchandising inserido dentro dos programas. Por essa razão, as donas de casa começam a trocar os temperos caseiros por industrializados e ficam satisfeitas quando descobrem que a TV mostra a mesma pasta de dentes que guardam na despensa.

“A TV é vista em muitas comunidades como símbolo de status“, afirma a socióloga Sara Chicid da Via, da Universidade de São Paulo (USP). “As pessoas mudam de comportamento em função do que passam a ver”. Um dos mais antigos hábitos dos adolescentes de Muquém era o “papo do comitê”. Eles se encontravam todas as noites nas escadarias de um prédio utilizado como comitê de um partido político para conversar e fazer brincadeiras. “Eram mais de 20 pessoas”, lembra Carla Rejane Almeida, 18 anos. Nesses papos se falava , por exemplo, de Noemi, a garota mais bonita da cidade, e de Reivaldeo e Gildásio, os “gatos” mais paquerados. Agora não se fala mais disso. Estão todos assistindo à televisão na praça.

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