As 30 cidades mais altas do Brasil

Estas são as 30 cidades brasileiras com mais de 1200 metros de altitude. Note que 18 delas ficam no estado de Minas Gerais, a maioria na região da Serra da Mantiqueira, ao sul do estado, próximo às fronteiras com São Paulo e Rio de Janeiro. Dentre as 11 restantes, 5 ficam em Santa Catarina, uma em São Paulo, uma no Paraná, uma no Rio Grande do Sul, uma no Distrito Federal, uma em Goiás e uma na Bahia.

Campos do Jordão, cidade mais alta do Brasil
Campos do Jordão, cidade mais alta do Brasil

1. Campos do Jordão (SP) – 1.620m
2. Monte Verde (MG) – 1.554m
3. Senador Amaral (MG) – 1.505m
4. Bom Repouso (MG) – 1.360m
5. Gonçalves (MG) – 1.350m
5. São Joaquim (SC) – 1.350m
7. Urupema (SC) – 1.335m
8. Campestre (MG) – 1.300m
9. São Thomé das Letras (MG) – 1.291m
10. Diamantina (MG) – 1.280m
11. Marmelópolis (MG) – 1.277m
12. Alto Paraíso de Goiás (GO) – 1.272m
13. Santana do Garambéu (MG) 1.270m
13. Ceilândia (DF) – 1.270m
15. Piatã (BA) – 1.268m
16. Campos Gerais (MG) 1.266m
17. Maria da Fé (MG) 1.258m
18. Nova Resende (MG) – 1.250m
18. Bom Jardim de Minas (MG) – 1.250m
20. Bom Jardim da Serra (SC) – 1.245m
21. Munhoz (MG) – 1.235m
22. Datas (MG) – 1.231m
23. Matos Costa (SC) – 1.220m
23. Serra do Salitre (MG) 1.220m
23. Bocaina de Minas (MG) 1.210m
26. Inácio Martins (PR) – 1.209m
27. Bueno Brandão (MG) – 1.204m
28. Delfim Moreira (MG) – 1.200m
28. São José dos Ausentes (RS) – 1.200m
28. Calmon (SC) – 1.200m

Minha nação nordestina

Os 193 países do mundo possuem juntos uma área total de aproximadamente 136.620.898 km². Dividindo isso igualmente entre eles, temos que 707.880 km² é aproximadamente o tamanho médio de um país do mundo hoje. Considerando apenas o continente europeu, sua área total é de aproximadamente 10.180.000 km². Dividindo isso igualmente entre os 50 países que compõem a Europa, temos que 203.600 km² é aproximadamente o tamanho médio de um país europeu. Resumindo, um país europeu médio teria cerca de 200 mil km² de área, enquanto que, em escala mundial, um país médio teria pouco mais de 700 mil km². Isso significa que boa parte da população mundial considera como sua pátria, sua nação, um território com área entre 200 e 700 mil km² (uma área do tamanho do Estado de São Paulo, Minas Gerais ou Bahia).

Com dimensões continentais (8.515.767 km², quase o tamanho da Oceania), o Brasil está muito longe desse padrão; de modo que muitos Estados brasileiros possuem dimensões bem maiores que o tamanho médio de um país. Talvez isso explique o porquê de haver tantos sotaques e culturas diferentes, tanto “bairrismo” e uma certa “rivalidade” (que em alguns casos culmina em preconceito e discriminação) entre regiões do Brasil, como o Nordeste e o Sudeste, por exemplo. É que, conscientemente ou não, percebemos mais facilmente como nossa pátria (ou nação) apenas a região geográfica em que vivemos (em alguns casos apenas o nosso Estado e/ou Estados vizinhos). Muitas vezes sem nos darmos conta disso, pensamos no Brasil da mesma maneira que muitas populações do mundo pensam o seu continente. Por isso, acabamos considerando como nossa nacionalidade e sentimos maior patriotismo apenas pela nossa região ou Estado.

Tomemos como exemplo o meu caso. Sempre vivi na Paraíba e, até hoje, só viajei por terra (moto, carro, ônibus, trem) para o interior paraibano e para os Estados vizinhos de Pernambuco e Rio Grande do Norte. Fora desse território limitado, só fiz viagens aéreas, dada a inviabilidade de percorrer o Brasil por terra. Por esse motivo, considero como minha terra natal, meu lugar de origem, apenas aquele raio que posso facilmente percorrer por terra em apenas um dia. De certa forma, meu “país” (considerando-se a média global) é apenas aquela área para a qual posso ir de moto ou carro quando me der na telha e voltar no mesmo dia. Sendo mais preciso, posso dizer que essa área tem cerca de 406.322 km² e corresponde aos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (em vermelho no mapa). Isso é quase o dobro do tamanho de um país europeu médio e mais de três vezes o tamanho da Inglaterra!

Nordeste

Não quero com isso sugerir ou propagandear uma segregação do Brasil. Meu discurso não é nem um pouco separatista. Pelo contrário, eu até penso que unir estes seis Estados em um só talvez seria uma boa ideia, visto que estamos falando de unidades federativas relativamente pequenas em área se comparadas com os outros Estados, e geograficamente agrupadas, juntinhas. Se isso acontecesse no futuro, seríamos um Estado mais forte, mais representativo e com um tamanho parecido com o da Bahia ou Minas Gerais. Já comentei aqui em outro post que a capital seria Recife. Mas não é bem isso que quero defender aqui. O objetivo deste post é apenas expor uma constatação curiosa: a de que, se os países do mundo tivessem todos mais ou menos o mesmo tamanho, a área em vermelho do mapa acima seria a minha Nação Nordestina.

ATUALIZAÇÃO em 05/05/2015:

A União Europeia é formada por 28 países europeus, quase como o Brasil, que tem 27 unidades federativas (os 26 Estados e o Distrito Federal). No entanto (pasmem), sua área total é de apenas 4.324.782 km², quase a metade da área do Brasil, que é de 8.515.767 km². Fazendo com a UE os mesmos cálculos acima, temos que a área média de um país membro da UE é de 154.456 km²; enquanto que a área média de um Estado brasileiro é mais que o dobro disso: 315.399 km².

ATUALIZAÇÃO em 07/04/2017:

A área em vermelho no mapa acima corresponde quase exatamente ao território conquistado pelos holandeses no século 17, que na época era conhecido como Nova Holanda (mapa abaixo).

Nova Holanda

Jornal A Tarde: “Je suis Charles”

Esse é o título de um artigo publicado nesta quarta-feira de cinzas no jornal A Tarde, de Salvador-BA, sobre este que vos escreve. Quem assina é Carlos Zacarias de Sena Júnior, doutor em História e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Leia o recorte do jornal abaixo e, para entender melhor o caso, recomendo também a leitura dessas duas matérias, publicadas pelo G1 no começo do mês:

Aprovado em medicina fez prova só para testar conhecimentos

Aprovado em 7 vestibulares e 4 concursos dá dicas de estudo

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Je suis Charles - Jornal A Tarde - Salvador (BA)

 

Apenas uma correção: No texto, o autor refere-se ao “caso do estudante de filosofia paraibano que, após ser aprovado para o curso de medicina na UFPB, resolveu que não ia abandonar a arte de Platão e Aristóteles”. Está errado. Eu não resolvi continuar na filosofia “após” passar em medicina. Na verdade eu jamais cogitei a possibilidade de cursar medicina. Como já cansei de explicar, faço o Enem todos os anos para testar meus conhecimentos e coloquei essa opção no Sisu apenas porque é o curso mais concorrido e eu queria testar se conseguiria passar. Foi apenas um desafio pessoal a que me propus.

Por que Recife é a capital do Nordeste?

Recife

“Imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente”… É o que propõe a música “Nordeste Independente“, uma composição dos paraibanos Bráulio Tavares (escritor e compositor) e Ivanildo Vilanova (poeta repentista) que foi interpretada e gravada pela primeira vez pela cantora paraibana Elba Ramalho no início dos anos 1980. A canção é um bem-humorado e utópico manifesto contra a discriminação sofrida pelo Nordeste, que gerou muita polêmica na época. “Já que existe no sul esse conceito que o nordeste é ruim, seco e ingrato… Já que existe a separação de fato, é preciso torná-la de direito… Quando um dia qualquer isso for feito, todos dois vão lucrar imensamente… Começando uma vida diferente da que a gente até hoje tem vivido… Imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente”, sugere a primeira estrofe.

nordeste-independenteSim: a ideia é utópica, improvável, ficcional e conta com muita licença poética, mas o movimento separatista do Nordeste existe há muito tempo e é mais organizado do que você imagina. Já existem trabalhos acadêmicos e livros publicados sobre esse tema e, desde 1992, existe em Pernambuco o GESNI (Grupo de Estudos sobre o Nordeste Independente), que é um movimento pacífico e organizado que examina as possibilidades de independência e melhorias no território nordestino. “O Brasil nunca encontrou uma solução para o problema nordestino, porque não tem interesse nisso, mas nós poderíamos encontrar”, diz Jaques Ribemboim, fundador do grupo. Ribemboim é economista, doutor em economia, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre em economia pela University College of London, na Inglaterra, e autor do livro “Nordeste Independente”, publicado em 2002 na cidade do Recife. Além do GESNI, o Nordeste já contou com movimentos de cunho separatista mais antigos como a Conspiração dos Suaçunas, Revolução Pernambucana, Confederação do Equador e Revolução Praieira.

 Não quero aqui entrar no mérito dessa questão e discutir se ela é factível, se traria mais vantagens ou desvantagens para ambas as “partes”, nem nada disso. Mas essa semana, conversando com alguns amigos, nos permitimos imaginar essa possibilidade e, supondo sua deflagração, ficamos a debater sobre qual seria a capital desse novo país. Qual cidade receberia o nobre título de capital do Nordeste? Qual é a cidade mais importante para a região, seja política, econômica, geográfica, histórica ou culturalmente? As candidatas logo emergiram, destacando-se das demais: Salvador (Bahia), Fortaleza (Ceará) ou Recife (Pernambuco). E agora? Como decidiríamos? Quais seriam os critérios da escolha? Após muita conversa, chegamos a um consenso: Recife seria a capital do Nordeste; pelos seguintes motivos:

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GEOGRAFIA

Observe o mapa do Nordeste. Dentre as três cidades candidatas, Salvador fica bem ao sul, Fortaleza fica bem ao norte, e Recife fica bem no centro da região. Recife tem ao norte as capitais estaduais João Pessoa e Natal separando-a de Fortaleza; e tem ao sul as capitais estaduais Maceió e Aracaju separando-a de Salvador. Se Brasília foi construída no meio de um deserto (praticamente) para ser a capital federal, apenas por aquela ser uma região geograficamente mais central, isso significa que, para nós, esse quesito é importante. E nele, em se tratando de Nordeste, Recife sai na frente.

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HISTÓRIA

A cidade do Recife é a capital mais antiga do Brasil e está prestes a completar 500 anos de fundação (em 2037). Muitos dos mais importantes eventos da História do Brasil aconteceram lá, como a guerra dos mascates (1710-1711), a revolução pernambucana (1817), a confederação do Equador (1824), a revolta praieira (1848-1850), etc. No início do século 20, antes da ascensão de São Paulo, Recife só perdia em importância política e econômica para o Rio de Janeiro, que era na ocasião a capital do Brasil (Brasília só foi fundada em 1960). Na década de 1970, Recife era ainda a terceira maior metrópole do Brasil, atrás apenas do Rio de Janeiro e São Paulo. Uma das regiões mais antigas das Américas e principal centro financeiro do Brasil Colônia até meados do século 18, a metrópole pernambucana abriga importantes cidades históricas, como é o caso de Olinda, cujo centro histórico é Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.

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POLÍTICA

A região metropolitana do Recife é o maior aglomerado urbano do Norte-Nordeste, o 5ª maior do Brasil e um dos 120 maiores do mundo, com uma população de 4,5 milhões de habitantes. Ela é a terceira área metropolitana mais densamente habitada do país, superada apenas por São Paulo e Rio de Janeiro. A capital pernambucana está atrás somente de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo na hierarquia da gestão federal. Recife tem ainda o maior número de consulados estrangeiros fora do eixo Rio-São Paulo, sendo inclusive a única cidade, com exceção daquelas duas, que tem Consulados-Gerais de países como Estados Unidos, China, França e Reino Unido.

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ECONOMIA

Recife é a metrópole mais rica do Norte-Nordeste em PIB, além de ser o maior pólo industrial e econômico do Nordeste. Destaca-se por possuir a melhor universidade do Norte-Nordeste, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); o 2º maior polo médico do Brasil; o 9º maior número de arranha-céus das Américas; o melhor aeroporto do Brasil, o Aeroporto Internacional do Recife (Guararapes); e o Complexo Industrial e Portuário de Suape, que abriga o Porto de Suape (melhor porto do Brasil), o Estaleiro Atlântico Sul (maior estaleiro do hemisfério sul), entre outros empreendimentos. O metrô do Recife é composto atualmente de 28 estações, com linhas que somam 39,5 quilômetros de extensão, transportando cerca de 225 mil usuários por dia. O Shopping RioMar, localizado na Zona Sul, é o maior centro de compras do Norte-Nordeste e o 3º maior do Brasil.

A cidade é considerada um dos mais importantes polos de tecnologia da informação do país. O Porto Digital, que abriga mais de 200 empresas, entre elas multinacionais como Motorola, Nokia, IBM e Microsoft, é reconhecido internacionalmente como o maior parque tecnológico do Brasil em faturamento e número de empresas. O Centro de Informática da UFPE fornece mão de obra para o polo, que gera 7 mil empregos e tem participação de 3,5% no PIB do Estado de Pernambuco. Por isso alguns especialistas chamam a capital pernambucana de Vale do Silício brasileira.

A cidade foi eleita por pesquisa encomendada pela MasterCard Worldwide como uma das 65 cidades com economia mais desenvolvida dos mercados emergentes no mundo. Apenas 5 cidades brasileiras entraram nessa lista, e Recife ficou em 4º lugar, após São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Segundo a consultoria britânica PwC, Recife será uma das 100 cidades mais ricas do mundo até 2020, à frente de cidades como Munique (Alemanha), Nápoles (Itália) e Amsterdã (Holanda). Recife destaca-se ainda por ser a capital nordestina com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo dados da ONU de 2010, figurando como a capital mais alfabetizada, com a menor incidência de pobreza e a com a maior renda média domiciliar mensal do Nordeste.

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CULTURA

A cidade do Recife deu origem a grandes nomes de todas as áreas do conhecimento, como, Cristovam Buarque, Paulo Freire, Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Joaquim Nabuco, entre diversos outros, como Ariano Suassuna, que nasceu na Paraíba, mas vivia no Recife e se considerava pernambucano de coração. Na música, Recife deu ao Brasil e ao mundo nomes como Luiz GonzagaLenineAlceu Valença, Reginaldo RossiBezerra da Silva, Michael Sullivan, Clarice FalcãoChico Science e Nação Zumbi, dentre outros tantos. Com atletas e esportistas consagrados, o Recife tem, no cenário brasileiro, a maior representação esportiva do Nordeste. Isso é especialmente verdade no futebol, esporte mais popular do país, já que este ano o Sport é o único clube do Norte-Nordeste na série A do campeonato brasileiro.

Recife também é a casa do Galo da Madrugada, reconhecido pelo Guinness Book (o livro dos recordes) como o maior bloco carnavalesco do mundo, que todos os anos arrasta cerca de 2,5 milhões de foliões pelas ruas do Recife Antigo. O frevo, um dos principais gêneros musicais nascidos no Recife, foi declarado pela UNESCO, em cerimônia realizada em 2012 em Paris, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Não podemos esquecer ainda do maracatu, ritmo regional responsável pelo surgimento, nos anos 1990, do movimento manguebeat, uma das maiores provas de que momentos de efervescência cultural elevam a auto estima de uma cidade e influenciam no crescimento da economia. Por isso e muito mais, pode-se dizer que Recife é a cidade do Nordeste (e quiçá do Brasil) mais rica culturalmente. Ela possui uma cultura própria e independente, além de um sotaque próprio, diferente dos estados à sua volta e que não é falado em nenhum outro lugar. Poetas já chamaram Recife de “Veneza Brasileira”, “Florença dos Trópicos”, “Cidade Maurícia” e “Manguetown“.

O que vi no Campus Festival 2014

campus festival 2014No último fim de semana, emendado com esse feriado da segunda, estive no Espaço Cultural José Lins do Rego (em João Pessoa-PB) participando da segunda edição do Campus Festival – Conferência Universitária de Artes integradas e Tecnologia, o maior evento universitário do Nordeste, que este ano teve como tema “Nômades globais na savana digital”. Como prometi no meu perfil do Facebook, resolvi contar o que vi por lá. Foram basicamente dois dias de palestras e debates sobre os mais variados temas (com cientistas, pesquisadores, artistas, convidados ilustres e palestrantes renomados), duas noites de shows e apresentações musicais (Nação Zumbi, Seu Pereira e Coletivo 401, Os Gonzagas, entre outros), uma exposição de artes visuais (fotografias, pinturas, ilustrações e desenhos de 14 artistas da Paraíba) e uma mostra de cinema (6 filmes de diretores paraibanos) – isso sem mencionar o convívio com um monte de gente bacana. A experiência valeu muito a pena. Foi como o Charlezine: conteúdo inteligente para mentes curiosas. Os R$ 70,00 da inscrição foram um investimento muito bem aplicado. Ano que vem quero participar de novo.

As palestras e debates ocorreram de forma simultânea em 5 espaços diferentes, divididos de acordo com o tema de interesse. Nos quatro auditórios do Espaço Cultural, os estudantes podiam discutir com especialistas de suas respectivas áreas acadêmicas divididas em quatro eixos temáticos: Comunicação, Saúde, Design e Arquitetura, Direito e Sociedade. Enquanto isso, no Teatro Paulo Pontes – que, por sinal, depois da reforma ficou lindo (fotos abaixo) –, as atrações mais aguardadas se revezavam na programação principal. Durante todo o evento, não participei de nada nos auditórios. Preferi ouvir todas as palestras da programação principal no Teatro Paulo Pontes; e não me arrependi. Em um ambiente misto, diverso e multicultural, aprendi um pouco sobre os assuntos mais variados. A experiência foi positiva por me fazer sair um pouco do gueto da minha especialização acadêmica (filosofia) e ter contato com o que de mais interessante está rolando nas universidades como um todo, em outros cursos, outras áreas do saber, outros mundos. Esse contato ampliou minha visão de mundo, abriu minha mente a novas ideias, me possibilitou colidir universos bastante distintos. Saí de lá com ideias fervilhando.

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Teatro Paulo Pontes (Foto: Charles Andrade)
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Teatro Paulo Pontes (Foto: Charles Andrade)

Marcado para ter início às 14h, a abertura do evento no sábado (06) atrasou um pouco. Um show à parte foi o apresentador e mestre de cerimônias, que se apresentou como Dom Quixote, inspirado no icônico personagem de Cervantes. Com sua fantasia pra lá de criativa e sempre recitando versos e poemas famosos, ele deu um toque poético e literário às apresentações. Eu não resisti e quis tirar uma foto com essa figura.

Dom Quixote
Eu e Dom Quixote

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Silvio Meira e Alfredo Júnior

O primeiro bate papo da tarde foi sobre o tema “Negócios sociais: conexões que mudam o mundo” e contou com a participação de Silvio Meira e Alfredo Júnior, ambos de Recife-PE. Silvio Meira é cientista, pesquisador, engenheiro, especialista em ciências da computação e fundador do CESAR Recife – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (veja aqui sua participação no programa De Frente com Gabi). Alfredo Júnior é CEO e co-fundador do Impact Hub Recife, além de organizador do TEDx Recife, a ser realizado no próximo dia 16 (estarei lá e depois conto tudo também). Tanto Silvio quanto Alfredo são especialistas e referências nacionais na área de tecnologia, informática e computação. Dentre os assuntos discutidos, um em especial me chamou a atenção. Descobri que, se tudo correr bem, com o planejamento, o empenho e os investimentos atuais, a cidade do Recife tem tudo para se tornar, nas próximas décadas, o “Vale do Silício” brasileiro, um pólo de relevância mundial na área de tecnologia e inovação. Contribui para isso, hoje, o funcionamento a pleno vigor do Porto Digital, um pólo de desenvolvimento de softwares e economia criativa localizado no centro histórico de Recife desde o ano 2000.

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André Braga e Vinnie

O segundo tema discutido foi voltado ao empreendedorismo criativo e inovador. André Braga e Vinícios Oliveira, ambos de São Paulo, bateram um papo e deram muitas dicas sobre o tema “Transforme sua ideia numa startup” (saiba aqui o que é uma startup). André Braga é CEO e co-fundador do Eventick, site especializado na venda de ingressos online. Vinícios Oliveira, ou Vinnie, como prefere ser chamado, é CEO e fundador do Glocal Arts, portal na internet que reúne e expõe para a venda obras de centenas de artistas plásticos da cidade de Olinda-PE, Recife e região metropolitana. No site do Eventick, ideia do André, você pode criar um evento e centralizar as vendas de ingressos de forma organizada, recebendo pagamentos via cartão de crédito, débito em conta e boleto bancário (os ingressos para o Campus Festival 2014 e para o TEDx Recife 2014 foram vendidos por lá). Após o pagamento, o participante inscrito recebe por e-mail um voucher para imprimir e apresentar no dia do evento. No site Glocal Arts, ideia do Vinnie, qualquer artista plástico pode fazer um cadastro e passar a expor e vender online as suas obras, cobrando por elas o preço que bem entender. Em Pernambuco, o artista plástico que não tem uma conta no Glocal Arts é quase como um cidadão comum que não tem uma no Facebook, por exemplo.

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André Lemos

A palestra principal do primeiro dia de evento ficou por conta de André Lemos, professor da UFBA. Engenheiro, doutor em sociologia e referência nacional em cibercultura, André Lemos palestrou sobre o tema “A internet das coisas”. Em suma, ele desmistificou a ideia equivocada de que a internet é uma rede que liga pessoas apenas. Segundo Lemos, além de conectar pessoas a pessoas, a internet conecta também pessoas a máquinas e até máquinas a máquinas, sem a intervenção de um ser humano. Como tendência para as próximas décadas, Lemos antecipou que, no futuro, será cada vez mais comum que máquinas “conversem entre si”, sem a intermediação de um humano. O avanço da tecnologia fará com que os objetos do cotidiano se tornem cada vez mais inteligentes, fazendo praticamente tudo sozinhos e “aprendendo” tarefas por meio de inteligência artificial. Além de previsões futurísticas, Lemos mostrou como isso já é uma realidade hoje e como esse futuro que parece tão distante está mais próximo do que imaginamos.

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Eduardo Jorge e Alfredo Minervino

No segundo dia do evento, todo mundo queria ver em ação o médico e ex-candidato à presidência da República pelo Partido Verde (PV), Eduardo Jorge. Grande estrela do dia, Eduardo Jorge chegou ao Espaço Cultural caminhando, de camiseta, conversando e tirando foto com todo mundo. Somente depois fiquei sabendo que ele tem uma casa aqui em João Pessoa, bem perto do Espaço Cultural, e por isso foi a pé mesmo. De qualquer modo, essa atitude foi uma amostra de sua humildade. Apesar de discordar dele em algumas questões políticas, tive que me render à sua notável inteligência e sabedoria. Enquanto todos os palestrantes usavam recursos de ponta em suas apresentações, Eduardo Jorge não quis usar datashow. Ele próprio foi o show, armado apenas com um microfone. A julgar pelo que vi, ele é gente finíssima (inclusive fisicamente).

Contrariando a expectativa de todo mundo, a fala de Eduardo Jorge, a mais esperada do dia, foi inconvenientemente interrompida aos 28 minutos pela organização do evento porque havia estourado o tempo. A plateia não teve sequer direito a fazer perguntas, como sempre fazia ao fim de cada apresentação. O motivo dessa escassez de tempo dificilmente poderia ser mais decepcionante. É que a organização do evento resolveu inserir de última hora na programação uma palestra inesperada de Beto Chaves, que, em resumo, falou por quase uma hora sobre como teve uma vida fracassada, nunca conseguiu passar num vestibular decente, abriu dezenas de empresas, faliu todas e hoje ganha a vida dando palestras motivacionais e vive muito bem porque tem besta que paga para ouvir sua história.

Eduardo Jorge fez uma espécie de “debate” com Alfredo Minervino sobre a “Regulamentação para o uso medicinal e recreativo da maconha”. Alfredo Minervino, que é médico psiquiatra e professor de Medicina da UFPB, começou o debate se posicionando contra a descriminalização, legalização e/ou qualquer tipo de liberação do uso da maconha para fins recreativos (muito embora apoie o seu uso para fins medicinais). Ele apresentou muitas estatísticas, dados científicos e argumentos variados mostrando os males que o uso da maconha causa à saúde e à qualidade de vida do indivíduo, à convivência familiar e à sociedade como um todo. Para ele, a maconha deve continuar proibida para o bem da sociedade.

Do modo como o debate foi configurado e conhecendo o estereótipo que se criou em torno da figura de Eduardo Jorge, eu particularmente esperava que, após a fala de Minervino, o ex-candidato à presidência fosse se posicionar do lado contrário, defendendo a legalização e fazendo apologia ao uso da maconha. Mas não foi o que aconteceu. Para minha surpresa, Eduardo Jorge afirmou concordar com quase tudo o que Alfredo Minervino disse acerca dos males da maconha. Primeiro, ele revelou que, ao contrário do que dizem por aí, não usa maconha, não bebe nada com álcool e não fuma (“porque não sou besta”, disse). Depois, afirmou que, como médico, desaconselha convictamente o uso da maconha, pois, como sabemos, ela faz mal à saúde.

Por fim, disse que “a legalização é a forma mais eficiente de reduzir os danos da dependência de drogas nos indivíduos e na sociedade”. Ele explicou que, como político, percebe que o Estado, ao longo de cerca de 50 anos, perdeu a chamada “guerra contra as drogas”; e que a melhor solução atualmente é liberar o uso da maconha para enfraquecer o poder e o monopólio dos traficantes; que são, no fim das contas, os únicos a lucrar com o mercado negro do narcotráfico. Segundo ele, o Estado deveria tratar o problema da maconha não como um problema de segurança pública, usando a polícia para combater o uso, mas como um problema de saúde pública, fazendo campanhas de conscientização, assim como já o faz contra o tabagismo e o alcoolismo.

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Lau Siqueira e Shiko

Após o debate sobre a regulamentação da maconha, subiram ao palco Lau Siqueira e Shiko, ambos de João Pessoa, para um bate papo descontraído sobre “Economias e cidades criativas”. Lau Siqueira é poeta e presidente da FUNESC; e Shiko é ilustrador e grafiteiro. Sem nenhum roteiro pré-estabelecido, eles fugiram muito ao tema proposto e falaram basicamente sobre como o artista pode viver de sua arte hoje em dia. Falaram também sobre como a indústria cultural e o mercado editorial muitas vezes se aproveitam desses artistas de forma gananciosa e exploratória. Quando um artista escreve um livro e quer publicá-lo, por exemplo, as editoras tomam para si os direitos autorais sobre a obra de modo que o autor perde até a propriedade sobre o seu trabalho. E isso em troca de uma porcentagem muito pequena (5%) do lucro das vendas de cada exemplar.

Lau e Shiko chegaram à conclusão de que o problema consiste em que os artistas muitas vezes sabem apenas produzir suas obras de arte, mas não sabem negociá-las (não sabem “vender o seu peixe”). Falta o empreendedorismo. A solução apontada para esse problema é a popularização das publicações independentes. Para eles, os artistas precisam perder o medo de recusar a oferta das editoras e escolher publicar suas obras de maneira independente, sem intermediação. Desse modo, eles mesmos diagramam, editam, imprimem a tiragem que quiserem numa gráfica e vendem seus livros por conta própria, ficando com 100% do lucro em vez dos 5% oferecidos pelas editoras. Ainda reforçando esse raciocínio, eles citaram o exemplo da literatura de cordel, que segue esse estilo independente desde os seus primórdios. Nas considerações finais, Shiko sugeriu que mudássemos nossa atitude diante da arte. Quando pagamos ou compramos um ingresso para um show, um filme, uma peça de teatro ou qualquer outra forma de expressão artística, não devemos pensar que estamos “ajudando” o artista porque somos legais. Devemos encarar isso como uma troca, um investimento. Estamos comprando um produto intelectual.

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Marco Gomes

A palestra de encerramento do Campus Festival 2014, com o tema “Empreendedorismo inovador”, ficou a cargo de Marco Gomes, CEO e fundador da Boo-Box, maior empresa de monetização e publicidade em blogs e mídias sociais do Brasil, com sede em São Paulo. Só pra vocês entenderem melhor o que faz a Boo-Box, os banners com anúncios publicitários que você vê no topo e na barra lateral deste blog, por exemplo, são gerados pelo sistema da Boo-Box e rendem uma graninha a este que vos escreve. Marco Gomes teve essa ideia de negócio aos 20 anos. Numa atitude de coragem, largou a universidade (cursava computação na UnB), desistiu de assumir o cargo após ter sido aprovado num concurso público federal, se mudou de Brasília para São Paulo, morou de favor comendo miojo por quase três anos, insistiu, persistiu no seu sonho e hoje é um dos mais jovens milionários deste país (já discursou até na sede da ONU em Nova York!). Apesar do currículo invejável, o cara é super gente boa, muito humilde, atencioso com todo mundo, “nerd, ciclista, viajante, cristão e marido” (conforme descrição no blog pessoal). Após a palestra e uma breve sessão de entrevistas, nos encontramos por acaso, batemos um papo, trocamos umas ideias e tiramos essa foto altamente nerd:

charlezine e boo-box
Vida longa e próspera, terráqueos!

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Shows musicais

Sobre os shows, para finalizar, não há muito o que dizer: um simples “foi massa” resolve. Um detalhe importante é que o primeiro dia de Campus Festival (06) coincidiu com o encerramento do Festival Internacional de Música Clássica à noite, lá mesmo, no Espaço Cultural. Os participantes do evento puderam, então, desfrutar de um belo concerto da Orquestra Sinfônica Municipal de João Pessoa, sob regência do maestro Isaac Karabtchewsky. No domingo (07), Seu Pereira e Coletivo 401, Os Gonzagas, entre outras bandas, se apresentaram em um palco montado no teatro de arena. Na segunda (08), milhares de pessoas assistiram aos shows de Nação Zumbi e outras bandas.

Os Gonzagas no teatro de arena do Espaço Cultural (foto: Charles Andrade)
Os Gonzagas no teatro de arena do Espaço Cultural (foto: Charles Andrade)
Nação Zumbi no Espaço Cultural (foto: Charles Andrade)
Nação Zumbi no Espaço Cultural (foto: Charles Andrade)
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