Anunciação de Catarina

Senhoras e senhores, é com grande emoção e com muito prazer que vos anuncio que, às 17 horas e 27 minutos do dia 22 de agosto de 2015, na cidade de João Pessoa, minha primogênita Catarina Teixeira Andrade nasceu saudável, pesando 3,480 quilos e medindo 50 centímetros de altura. Rebeka está bem e se recupera na materidade CLIM, localizada no comecinho da avenida Epitácio Pessoa, no centro da capital. Aos parentes e amigos, ela informa que visitas são bem vindas. Aproveito a ocasião para lembrar a quem estiver vindo do oriente que tragam ouro, porque incenso e mirra nós já temos o suficiente. No mais, obrigado pela vossa atenção. Tenham todos uma ótima semana.

Catarina 2

Para reflexão, quero compartilhar com vocês este texto do poeta e escritor libanês Khalil Gibran (1883–1931), claramente inspirado no Salmo 127:3-5. “Vossos filhos não são vossos filhos”, diz ele. “São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas para longe. Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria: pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável”.

Saudades do amor

Crônica de Pablo Capistrano, professor de filosofia de Natal-RN, extraída do livro Simples Filosofia – A história da filosofia em 47 crônicas de jornal (Rocco, 2009, p. 148-151).


Somos uma civilização analfabeta na cartilha do amor. Andamos esquecidos da sutileza com que os antigos compreendiam a complexidade desse estranho fenômeno. Na Torah judaica, o verbo para designar o amor era deah, que é a palavra hebraica para os relacionamentos sexuais íntimos, mas também designa opinião ou conhecimento. Biblicamente, amar é conhecer, partilhar, atingir certo grau de intimidade com o outro. Os velhos sábios da Grécia falavam de vários “amores”. O amor sexual do eros, o amor divino e sagrado do ágape (a caridade de Paulo de Tarso), o amor da intimidade e da afinidade retratado no termo filia e o amor doença do pathos (o distúrbio dos apaixonados).

Curiosamente, a paixão era vista com receio e qualquer família ponderaria várias vezes em permitir que seus filhos se casassem por paixão. Afinal, a paixão não se sustenta, ela é fogo que arde sem se ver e é infinita só enquanto dura. O conhecimento, a intimidade adquirida com a aprendizagem de uma vida a dois, sempre foi vista como uma base mais sólida para o amor até o final do século 18, quando jovens alemães foram possuídos por um estranho furor. Em 1774, o mundo conhecia Os Sofrimentos do Jovem Werter, a fatal história de amor e loucura escrita por Goethe, que gerou uma onda de suicídios na Alemanha. Na verdade o livro apenas fez eclodir um impulso que andava retido no subsolo cultural do ocidente.

A paixão e seus desdobramentos fatais foram transformados com o movimento romântico na totalidade do amor. Tudo que se refere a essa palavra extremamente complexa e multifacetada foi reduzido àquela poderosa e nauseante descarga bioquímica que distorce a razão dos apaixonados e faz correr, de baixo para cima, aquele relâmpago gelado que empurra nosso estômago para o alto. A mitologia do amor romântico tem raízes nas histórias medievais de cavaleiros torturados por amores impossíveis e belas damas casadas e intangíveis, adoradas como a própria Virgem Maria, representação mais particular da grande deusa da cultura celta.

Suas imagens foram apropriadas pelo mundo burguês e acabaram produzindo uma imensa indústria de serviços de casamento, filmes românticos, seriados de TV, telenovelas, advogados especializados na área de família e sessões de psicanálise semanais. A paixão, o amor que é para a morte e a loucura, o amor intenso e sagrado, o amor que devora os limites, as imposições das convenções sociais e arrebata os apaixonados para os céus e depois os lança de volta aos portões do inferno acabou se tornando a totalidade do amor e não apenas uma de suas facetas.

Para Schopenhauer, autor de um livro que dedica um capitulo sobre o amor intitulado As Dores do Mundo, a redução do amor à paixão era o sinal de uma das misérias fundamentais dos humanos. Se Schopenhauer tivesse vivo hoje talvez não fosse um conselheiro sentimental muito popular. Sua ideia sobre o amor romântico (o pathos dos antigos) carregava uma forte crítica à sociedade do século 19, com sua autoconfiança no avanço da técnica, no progresso da ciência e na razão humana.

De certa forma, As Dores do Mundo ataca o espírito romântico de confiança na evolução da civilização, que serviu de base para a popularidade do pensamento de Hegel, um outro filósofo Alemão, contemporâneo de Schopenhauer e também seu mais profundo desafeto. Tendo experimentado uma vida extremamente solitária e obscura (até a velhice, quando atingiu a fama repentina), é de se espantar que alguém que tenha cunhado uma frase como “A vida é uma inútil perturbação na tranquilidade do nada” tenha alguma coisa a nos dizer sobre o amor.

Schopenhauer não era um cético quanto as possibilidades humanas de convivência, apesar de frequentemente admitir que gostava mais dos poodles do que de gente. Sua ideia fundamental é que a paixão é um engodo. Uma estratégia da espécie que engana os apaixonados. Acreditando estar a serviço dos próprios interesses e desejos, comumente nos apaixonamos por pessoas que muito pouco tem a ver conosco. Isso se dá pelo fato que a paixão não trabalha para os indivíduos. É ao gênero humano que ela serve, atuando sobre a vontade de cada um, criando uma força que nos empurra no sentido da reprodução. Espantosamente atual essa interpretação, não é? Em um mundo sem ciência genética e com um arremedo de teoria da evolução, Schopenhauer teceu uma visão típica das modernas teorias biologicistas.

A paixão não é uma boa medida para o amor. Transformar a intensidade auto destrutiva da paixão em uma base sólida para uma vida construída junto é uma arte que poucos sabem realizar com maestria e que anda esquecida esses dias. Na matemática sentimental das Dores do Mundo, o amor romântico é uma das grandes melancolias que afligem o homem. Saber transformar paixão em amor é a chave da arte da convivência. O segredo dessa arte é nunca esquecer (como diz o pessoal do Teatro Mágico) que os opostos sempre se distraem, e que apenas os dispostos verdadeiramente se atraem.

Sobre o significado de “alma gêmea”

Palestra ministrada pela diretora da Nova Acrópole Brasília, professora Lúcia Helena Galvão, na qual ela corrige o uso equivocado de expressões como “alma gêmea” e “amor platônico” à luz do seu significado original na filosofia clássica.

Cartas de Amor – Rubem Alves

Woman reading a letter, by Johannes Vermeer“Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.” (Fernando Pessoa)

Tenho no meu escritório a reprodução de uma das telas mais delicadas que conheço: “Mulher lendo uma carta”, de Johannes Vermeer (1632-1675). Uma mulher, de pé, lê uma carta. O seu rosto está iluminado pela luz da janela. Seus olhos lêem o que está escrito naquela folha de papel que suas mãos seguram, a boca ligeiramente entreaberta, quase num sorriso. De tão absorta, ela nem se dá conta da cadeira ao seu lado e lê em pé mesmo. Penso ser capaz de reconstituir os momentos que antecedem este que o pintor fixou. Pancadas na porta interromperam as rotinas domésticas que a ocupavam. Ela vai abrir e lá estava o carteiro, com uma carta na mão. Pela simples leitura do nome no envelope, ela identifica o remetente. Ela toma a carta e, com este gesto, toca uma mão muito distante. Para isto se escrevem as cartas de amor. Não para dar notícias, não para contar nada, não para repetir as coisas por demais sabidas, mas para que mãos separadas se toquem, ao tocarem a mesma folha de papel.

Barthes cita estas palavras de Goethe: “Por que me vejo novamente compelido a escrever? Não é preciso, querida, fazer pergunta tão evidente, porque, na verdade, nada tenho para te dizer. Entretanto tuas mãos queridas receberão este papel”. Será esta a razão do ridículo das cartas de amor – o descompasso entre o que elas dizem e aquilo que elas realmente querem fazer? Pois o propósito explícito de uma carta é dar notícias, e é por isto que elas são feitas de palavras. Mas o que elas realmente desejam realizar está sempre antes e depois da palavra escrita: elas querem realizar aquilo que a separação proíbe: o abraço. Quem quer que tente entender uma carta de amor pela análise da escritura estará sempre fora de lugar, pois o que ela contém é o que não está ali, o que está ausente. Qualquer carta de amor, não importa o que se encontre nela escrito, só fala do desejo, a dor da ausência, a nostalgia pelo reencontro.

Aquela carta fez tudo parar. A mulher fecha a porta e caminha pela casa sem nada ver, buscando uma coisa apenas, a luz, o lugar onde as palavras ficarão luminosas. Que lhe importa a cadeira? Esqueceu-se de que está grávida. Seus olhos caminham pelas palavras que saíram das mesmas mãos que a abraçaram. Seu corpo está suspenso naquele momento mágico de carinho impossível que aquele pequeno pedaço de papel abriu no tempo do seu cotidiano. Uma carta de amor é um papel que liga duas solidões. A mulher está só. Se há outras pessoas na casa, ela as deixou. Bem pode ser que as coisas que estão nela escritas não sejam nenhum segredo, que possam ser contadas a todos. Mas, para que a carta seja de amor, ela tem de ser lida em solidão. Como se o amante estivesse dizendo: “Escrevo para que você fique sozinha…”. É este ato de leitura solitária que estabelece a cumplicidade. Pois foi da solidão que a carta nasceu. A carta de amor é o objeto que o amante faz para tornar suportável o seu abandono.

Olho para o céu. Vejo a Alfa Centauro. Os astrônomos me dizem que a estrela que agora vejo é a estrela que foi, há dois anos. Pois foi este o tempo que sua luz levou para chegar até os meus olhos. O que eu vejo é o que não mais existe. E será inútil que eu me pergunte: “Como será ela agora? Existirá ainda?”. Respostas a estas perguntas eu só vou conseguir daqui a dois anos, quando a sua luz chegar até mim. A sua luz está sempre atrasada. Vejo sempre aquilo que já foi. Nisto as cartas se parecem com as estrelas. A carta que a mulher tem nas mãos, que marca o seu momento de solidão, pertence a um momento que não existe mais. Ela nada diz sobre o presente do amante distante. Daí a sua dor. O amante que escreve alonga os seus braços para um momento que ainda não existe. A amante que lê alonga os seus braços para um momento que não mais existe. A carta de amor é um abraçar do vazio.

“Ainda bem que o telefone existe”, retrucarão os namorados modernos, que não mais têm de viver o amor no espaço das ausências. Engano. Um telefonema não é uma carta falada. Pois lhe falta o essencial: o silêncio da solidão, a calma da caneta pousada sobre a mesa que espera e escolhe pensamentos e palavras. O telefone põe a solidão a perder. Num telefonema a gente nunca diz aquilo que se diria numa carta. Por exemplo: “Eu ia andando pela rua quando, de repente, vi um ipê-rosa florido que me fez lembrar aquela vez…”. Ou: “Relendo os poemas de Neruda encontrei este que, imagino, você gostará de ler…”. A diferença entre a carta e o telefone é simples: o telefone é impositivo. A conversa tem de acontecer naquele momento. Falta-lhe o ingrediente essencial da palavra que é dita sem esperar resposta. E, uma vez terminado, os dois amantes estão de mãos vazias. Mas a mulher tem nas mãos uma carta. A carta é um objeto. Se não tivesse podido recolher-se à sua solidão, ela poderia tê-la guardado no bolso, na deliciosa espera do momento oportuno. O telefonema não pode esperar. A carta é paciente. Guarda as suas palavras. E, depois de lida, poderá ser relida. Ou simplesmente acariciada. Uma carta contra o rosto – poderá haver coisa mais terna? Uma carta é mais que uma mensagem. Mesmo antes de ser lida, ainda dentro do envelope fechado, tem a qualidade de um sacramento: presença sensível de uma felicidade invisível.

Estes pensamentos me vieram depois de ler as cartas de um jovem cientista, Albert Einstein, à sua amada, Mileva Maric. Foram elas que me fizeram ir ao poema do Álvaro de Campos: ridículas. Todas as cartas de amor são ridículas. Acho que os editores pensaram o mesmo. E como desculpa para o seu gesto indiscreto de tornar público o ridículo que era segredo de dois amantes, escreveram uma longa e erudita introdução que transformou as ridículas cartas de amor em documentos da história da ciência. Valem porque, misturadas ao ridículo de que os amantes se alimentam, se encontram pistas que dão aos historiadores as chaves para a compreensão das “fontes do desenvolvimento emocional e intelectual dos correspondentes”. Não sabendo o que fazer com o amor (ridículo), colocaram-nas na arqueologia da ciência. Foi então que o quadro de Vermeer me fez ver a cena que as cartas escondem. E a mulher com a carta na mão e uma criança na barriga? Ela bem que poderia ser Mileva, grávida de uma filha ilegítima, que foi dada para adoção, e sobre quem nada se sabe. A criança foi dada. Mas as cartas foram guardadas. E que razões poderia ter uma pessoa para guardar cartas ridículas? O seu rosto absorto e os lábios entreabertos nos dão a resposta: para aqueles que amam as ridículas cartas de amor são sempre sublimes. Volto ao poema do Álvaro de Campos e encontro lá o que faltava para fechar a cena: “Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor são ridículas”.

Sobre o casamento – Rubem Alves

Depois de muito meditar sobre o assunto, concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa. Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: “Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a velhice?’. Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar”.

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme “O império dos sentidos”. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar “mil e uma noites”. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre depois de morrer.

Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo…”. Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada”. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

O tênis é um jogo feroz. Seu objetivo é derrotar o adversário. E a derrota se revela no erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos.

A bola são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá… Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão. O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem, cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim.

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