Suspensão do juízo à portuguesa

Crônica do professor de filosofia português Carlos Pires, publicada no portal Crítica.

Recentemente ouvi um diálogo curioso entre duas moças:

– O que pensas do casamento entre homossexuais?
– Sei lá! É uma coisa tão discutível…
– Mas és a favor ou contra?
– Já te disse: é discutível. Cada pessoa tem a sua opinião.
– Mas é isso mesmo que eu quero saber: a tua opinião. Acho que deverias tomar partido, pois…
– Isso é a tua opinião!

O leitor já assistiu certamente a conversas destas, em que se diz “isso é discutível” não para iniciar um debate mas para declarar o debate inútil e encerrar a conversa. Não sei o que se passa noutros países, mas em Portugal é frequente encontrar pessoas que não percebem que o adjetivo “discutível” significa justamente que algo pode (ou até mesmo deve) ser discutido. Serão essas pessoas filósofos céticos que, perplexos com a diversidade de opiniões suscitada por muitos assuntos, concluem que nada se pode saber e que o mais sensato é suspender o juízo? Apesar das inúmeras objecções em que o ceticismo incorre, essa seria uma explicação lisonjeira, mas é duvidoso que seja o caso. É que os céticos não se calam e procuram argumentar, de modo a justificar a ideia de que o melhor é suspender o juízo. (Podemos acusá-los de se auto contradizerem, mas não de preguiça intelectual.) Pelo contrário, as pessoas que, como resposta à pergunta “Concordas com X?”, se limitam a dizer “isso é discutível” em vez de discutirem, calam-se e não argumentam. Não se dão ao trabalho de pensar.

Talvez se consiga explicar melhor o seu comportamento relacionando-o com o relativismo. Tais pessoas (mesmo as que nem conhecem a palavra “relativismo”) parecem acreditar que o fato de, em relação a um assunto qualquer, existir mais do que uma opinião significa que todas as opiniões valem o mesmo e que é sintoma de arrogância tentar mostrar que uma é melhor que outra. Por isso, perante uma opinião divergente, acham que faz sentido retorquir apenas “isso é a tua opinião” – em vez de perguntar “porquê” e discutir as razões dadas na resposta. Dessa atitude relativista até à ofensa ou aborrecimento quando alguém critica abertamente a sua opinião vai um pequeno passo. Um passo que é dado muitas vezes: em vez de discutirem as ideias envolvidas na crítica e de confrontá-las com a opinião criticada sentem-se pessoalmente postas em causa. É como se toda a argumentação fosse ad hominem. O que torna difícil a discussão livre e imparcial, como se pode verificar em diversas áreas da sociedade portuguesa – nomeadamente nas escolas.

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