Sobrevivência na selva de pedra

Crônica de Carlos Heitor Cony para o jornal Folha de S.Paulo do dia 23 de março de 1999.

Vou transcrever uma pequena coluna de um amigo que já morreu, o Leon Eliachar, que tem como título “Como evitar um assalto”. É sobre a violência e funciona como um manual de sobrevivência nas grandes cidades. Foi pensada em forma de mandamentos e escrita no Rio de Janeiro. O Leon morreu há uns 10 anos, e a coluna deve ter outros tantos. Sem tirar nem pôr uma única letra, parece ter sido escrita hoje. Vamos a ela:


1. não sair de casa;

2. não ficar em casa;

3. se sair, não sair sozinho, nem acompanhado;

4. se sair sozinho ou acompanhado, não sair a pé nem de carro;

5. se sair a pé, não andar devagar, nem depressa, nem parar;

6. se sair de carro, não parar nas esquinas, nem no meio da rua, nem nas calçadas, nem nos sinais. Melhor deixar o carro na garagem e pegar o transporte coletivo;

7. se pegar transporte coletivo, não pegar ônibus, nem táxi, nem van, nem metrô, nem trem, nem carona;

8. se decidir ficar em casa, não ficar sozinho, nem acompanhado;

9. se ficar sozinho ou acompanhado, não deixar a porta aberta, nem fechada;

10. como não adianta mudar de cidade ou de país, o único jeito é ficar no ar.
Mas não num avião.


Curiosamente, o próprio Leon não seguiu os conselhos que deu. Foi assassinado no banheiro de seu apartamento, num prédio do morro da Viúva, no Rio. O caso dele teria sido passional: ele se apaixonara por uma mulher casada. Chamava-a de “meu amor terminal” – o que foi acima de tudo uma verdade. Nascera no Cairo, era por conseguinte um cairota – segundo ensinam os dicionários. Não me lembro mais como terminaram as investigações sobre o crime que o matou. Parece que o marido da moça foi o mandante – não tenho certeza. De qualquer forma, o Leon poderia ter acrescentado um mandamento aos dez que bolou: “não amar a mulher do próximo, nem a própria”.

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