Sobre o assalto ao Banco Central

Crônica de Eduardo Varandas, Procurador do Trabalho, publicada no jornal Correio da Paraíba do dia 16 de agosto de 2015. Muito brevemente, ele apresenta uma tese bastante perspicaz sobre o famoso assalto ao Banco Central do Brasil em Fortaleza, em 2005.


Pouca gente sabe, mas um dos meus poucos hobbies é pesquisar, entender e procurar decifrar golpes, fraudes, roubos. Um dos casos que me motiva é o roubo ao Banco Central em Fortaleza, que completou dez anos agora. Recapitulando: a quadrilha tinha 36 bandidos. Cavaram um túnel com 80 metros de extensão, saindo de uma casa até os cofres do BC; trabalho de 3 meses. Roubaram somente notas não registradas em sequência, num total de 165 milhões. E começaram a ser presos ao longo das investigações. Nesse ínterim, quase todos foram vítimas de achaques feitos por policiais corruptos, que levaram uns quantos milhões dos ladrões. Por sua vez, a Polícia Federal apreendeu uma parte do roubo (dinheiro e bens), mas somando tudo, entre achaques, gastos, farras e o que foi recuperado, ainda faltam por baixo uns cem milhões de reais. Essa grana dobra se for corrigida pelo dólar.

Pois bem, partindo da sapiência do velho Chico Souto (“Meu amigo, três coisas o ser humano não consegue esconder: paixão, tosse e dinheiro), essa dinheirama não poderia desaparecer, ainda mais sendo manipulada por bandidos que não têm, em sua maioria, noções de mercado financeiro. Uma coisa me chamou a atenção desde o início: o túnel de 80 metros, com sofisticados sistemas de iluminação e ventilação, só tinha cerca de 70 centímetros de largura. No entanto, foi por ali que teriam sido retiradas 3,5 toneladas de dinheiro (é esse o peso da quantia). Mais ainda, ao entrarem no cofre, os ladrões sabiam exatamente onde estavam as 3 câmeras de TV do sistema de segurança e evitaram a filmagem. Ora, na minha idiotice concluí que é impossível retirar em menos de 2 dias esse peso enorme por um túnel tão estreito. Para se ter uma ideia, esse tempo de dois dias seria o mínimo necessário para que máquinas eletrônicas, trabalhando sem cessar, contassem os 165 milhões. Minha tese é muito simples: esse dinheiro todo não estava lá. O fato dos ladrões saberem o posicionamento exato das câmeras só corrobora uma ajuda de pessoas de dentro do BC. As mesmas pessoas que, antes dos ladrões entrarem no cofre, sumiram com dois terços da fortuna. Elementar, meu caro leitor!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta:

%d blogueiros gostam disto: