Só vivemos uma vez!

Crônica de Ricardo Gondim.

Não teremos outra vez. Não, ninguém espere outra chance. Nascemos condenados ao horror de ver a ampulheta sangrar areia, os calendários acelerarem, os relógios se fracionarem em milésimos de segundos. Vamos morrer. E depois que tudo tiver cumprido o seu destino, restará o quê? Sobrarão nossos vestígios. Um dia todos passarão. Não ficará ninguém para observar nada. Meros rastros empoeirados testemunharão para o vazio que alguém andou por aqui. Mas a estrada permanecerá deserta. Como serão os escombros? Nas universidades, livros, teses, dissertações, nomes, que nada significam; nos museus, paisagens mortas; nos quartéis, medalhas enferrujadas; nos bancos, cofres lacrados; nos templos, bolor.

Depois de exercer a sua missão, o próprio tempo deixará de existir. Não haverá antes e depois. O assobio do vento não precisará viajar até ouvidos atentos. Se antes tudo era mudança, tudo se tornará estático. Terminarão as causas e os efeitos. Cessarão os contrastes. Sem olhos, não existe beleza. Vitrais intactos perderão o esplendor; ninguém vai declarar alumbramento. Serão inúteis: por do sol, lua cheia, maré em ressaca, pororoca. Flautas, trompetes, pianos, pandeiros, harpas, jazerão em palcos desabitados diante de auditórios ausentes. Somos um nadinha no tempo e nossa vaidade, uma neblina. O Eclesiastes também quer sacudir: “O destino do homem é o mesmo do animal; o mesmo destino os aguarda. Assim como morre um, também morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego de vida; o homem não tem vantagem alguma sobre o animal. Nada faz sentido! Todos vão para o mesmo lugar; vieram todos do pó, e ao pó todos retornarão” (Eclesiastes 3:19-21).

Não demora e tudo deixará de ser. Breve seguiremos o caminho dos mortais, bem como o próprio planeta, que se apagará como se apagam as estrelas. Desapareceremos todos como desaparecem os vermes. Portanto, enamoremo-nos. Vivamos o instante impreciso. Aspiremos o ar como se dele viesse o elixir da juventude. Abandonemos resmungos. Não nos exilemos nas masmorras que a neurose cria. O tempo se chama agora. O dia é hoje. A vida é eterna devido à impermanência – eixo paradoxal. Tornemo-nos jardineiros de prados. Saiamos das estufas climatizadas. Sejamos menos especialistas e mais aventureiros. Corramos mais riscos. Desobedeçamos aos cabrestos. Testemos nossa afoiteza. Encarnemos a inutilidade do afeto. Assumamo-nos cafonas, bobinhos, no anseio de amar a poesia. Antes que chegue o fim, fecundemos a vida com ternura. Borboletemos o pólen do amor. As moradas eternas são vizinhas. Mudemo-nos para lá enquanto é tempo.

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