Se eu já li todos os meus livros

Crônica do poeta e professor Hildeberto Barbosa Filho, publicada no jornal A União do dia 09 de novembro de 2014 para todo o Estado da Paraíba.


“O senhor já leu tudo isso?”, perguntou-me a repórter da TV Correio, espantada com a quantidade de livros de minha biblioteca. Dubitativo, respondi-lhe que, em certo sentido, sim, em certo sentido, não. Não, se vejo a leitura como um processo linear e gradativo que vai da primeira à última página de um livro. Enquanto uma experiência fechada, circunscrita a uma visão completa de conteúdo e temática, reitero que não. Vivesse eu mais cem anos e pudesse ler 24 horas por dia, talvez não desse conta nem de um terço dos 15 mil volumes que acumulei ao longo da vida. Portanto, em face desse conceito de leitura, cerrado, contínuo, absoluto, é claro que não poderia ter lido todos os meus livros.

Não obstante, digo que sim, se pensarmos a leitura em sua natureza aberta, circular e flexível; a leitura como uma espécie de convívio, uma aventura cotidiana que se repete e se renova no contato com a estimulante variabilidade dos livros, em seus diferentes formatos e em seus múltiplos assuntos. Diria mesmo que existe uma modalidade de livros que não se prestam ao apelo excessivo daquela leitura totalizante. Enciclopédias, dicionários, antologias, manuais, sobretudo os didáticos, com seu caráter propedêutico e informativo, me parecem exemplos irrefutáveis. Ninguém leu tais volumes completos, muito embora os possa ter sempre à mão. Certos livros são como jornais e revistas: buscamos neles apenas as informações necessárias ao nosso interesse cognitivo, momentâneo ou permanente, sem que os leiamos por completo.

Outros livros podem nos prender tão somente por um capítulo, um prefácio, uma introdução, uma bibliografia, uma citação, enfim, por um dos elementos que compõem o corpo do texto ou dos paratextos, que também falam, a exemplo das dedicatórias, epígrafes, notas de rodapé e agradecimentos. Ler parte de um livro é lê-lo de alguma maneira; é tê-lo num lugar preciso dentro do território imaginário e real da nossa biblioteca particular. Isso, sem que eu me reporte às idiossincrasias de um leitor apaixonado, que só em olhar ou apreciar, mesmo á distância, a silhueta de um livro na moldura de uma estante, já o está lendo, na medida em que o conhece e o reconhece como um objeto sagrado, um objeto de amor.

Arrumar os livros, limpar-lhes a poeira, protegê-los de seus inimigos inevitáveis (traças, fungos, mofo), encapá-los, folheá-los, proceder-lhes a leitura de reconhecimento, como dizem os especialistas, enfim, cuidar deles como entes vivos, como companhia silenciosa e surpreendente, constitui também uma forma de leitura. Uma leitura toda feita de carícias, corpórea, afetuosa, erótica… Uma leitura que, mesmo submetida ao lavor diário e ao desafio incolor da rotina, só dá prazer. Um prazer que não se esgota e nem sabe a saciedade. Sim: desse modo, caríssima repórter, li todos os meus livros!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta:

%d blogueiros gostam disto: