A Revolta do Vintém e e os protestos de 2013

20centsTrechos deste artigo constituíram o enunciado de uma das questões do Enem 2014. O artigo completo foi publicado na Revista de História, sob o título “A guerra do vintém”, e foi escrito por José Murilo de Carvalho, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências. Qualquer semelhança com fatos atuais, como os protestos de 2013, não é mera coincidência.


Em 1879, no Rio de Janeiro, cerca de 5 mil pessoas reuniram-se para solicitar a Dom Pedro II a revogação de uma taxa de 20 réis, um vintém, sobre o transporte urbano, ou seja, bondes puxados a burro. O vintém era a moeda de menor valor da época. A polícia não permitiu que a multidão se aproximasse do palácio. O imperador mandou dizer que receberia uma comissão para negociar. Panfletos distribuídos pela cidade desafiavam o imperador a negociar diretamente com o povo, pregavam o boicote da taxa e incitavam a população a reagir com violência, arrancando os trilhos dos bondes. No dia combinado, ao meio dia, a multidão se reuniu no local previsto. A massa moveu-se, então, pelas ruas do centro e se dirigiu ao Largo de São Francisco, ponto final de várias linhas de bonde. Percebendo a enrascada em que se meteram, os próprios líderes do movimento fizeram um apelo aos manifestantes para que se dispersassem. Mas àquela altura eles já haviam perdido o controle dos acontecimentos.

Ao grito de “Fora o vintém!”, os manifestantes começaram a espancar condutores, esfaquear mulas, virar bondes e arrancar trilhos. O delegado que comandava as tropas da polícia pediu reforços ao Exército, mas, antes que a ajuda chegasse, ordenou à polícia que dispersasse a multidão a cacetadas. Dois pelotões do Exército ocuparam o Largo de São Francisco. Alguns manifestantes mais exaltados passaram a arrancar paralelepípedos e atirá-los contra os soldados. Por infelicidade, um deles atingiu justo o comandante da tropa, o tenente-coronel Antônio Galvão, primo de Deodoro da Fonseca, militar que uma década depois se tornaria o primeiro presidente do Brasil. Atingido pelo paralelepípedo, o oficial descontrolou-se e ordenou que a tropa abrisse fogo contra a multidão. As estatísticas de mortos e feridos são imprecisas. Muitos interesses se fundiram nessa revolta, de grandes e de políticos, de gente miúda e de simples cidadãos. Uma grande explosão social, detonada por um pobre vintém.

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