Quem gosta de clássicos?

Fotografias de grandes centros urbanos antes de 1870 mostram cidades aparentemente desertas. É claro que havia, no momento de captura da imagem, várias pessoas, cavalos e carruagens passando pela cena, em todas as direções. Mas, devido ao longo e demorado processo que a tecnologia da época exigia, ficavam gravados apenas os objetos estáticos. Essa é uma boa metáfora para os clássicos. E, por falar em clássicos, deixo-vos com uma crônica de Camila Kehl publicada no Diário de Canoas.

Veja também: Como e por que ler os clássicos?


Os clássicos se tornam clássicos por uma série de razões. Mesmo pertencendo a uma época, eles são atemporais. O fato de se passar em determinado período ou pincelar sobre determinado acontecimento histórico não faz com que uma obra fique datada, estigmatizada e, dentro de alguns anos, ultrapassada – só contribui para agregar valor a um enredo. Referências a um ano, local ou marco que situem um acontecimento no tempo e no espaço convidam a estudar e a contemplar o passado da humanidade, e a conhecer o que até então possivelmente ignorávamos. A essência das novas descobertas descortinadas pela literatura trazem, sempre, um tom e um vínculo eternos com a arte.

Para que um clássico seja considerado clássico, é avaliado o estilo de narrativa de um escritor, o valor da forma, a cadência da prosa, a qualidade do texto, a consistência do enredo, a grandiosidade das ideias, a veracidade das personagens. Os clássicos não viram clássicos porque são chatos, como eu pensava enquanto ainda estava no colégio e os professores tentavam fazer com que pré-adolescentes gostassem de ler com Vidas Secas. Não dá para esfregar Camões nos narizes de meninos e meninas que ainda não completaram 15 anos e esperar que estes sorriam encantados e passem a estudar mais a fundo a literatura portuguesa. A maioria, claro, não vai reagir de forma positiva.

Isso porque gostar de livros clássicos exige, em primeiro lugar, um tipo muito centrado de maturidade; uma vontade de aprender e de acumular o conhecimento ideal, ou que se convencionou chamar ideal, desprovida daquela pontada de anarquia e rebeldia que os mais jovens têm e que, evidentemente, contesta também, e principalmente, este campo. Em segundo lugar, para se entender e amar as obras imortais, há que se ter perseverança e paciência, e direcionar ambas a um patamar maior e que pode ser denominado como o do saber. Em terceiro lugar, podemos afirmar ainda que isso não seja uma regra, que o livro clássico não é simples de ser lido; ele geralmente pertence à outra época, sobre a qual é necessário algum tipo e algum acúmulo de entendimento.

Os clássicos nem sempre divertem e entretêm. Mas todos, em igual medida, são necessários para uma sólida formação cultural. Discordo veementemente dos que apregoam que a leitura deve ser simplesmente um prazer e obedecer única e exclusivamente aos momentos de lazer. Ora, só nos parece fácil – e, portanto, divertido – algo que não exige muito de nossa capacidade intelectual. É evidente que algumas obras servem exclusivamente aos momentos de relaxamento, e por isso mesmo pouco têm a acrescentar e contribuir; simplesmente figuram como um elemento pertencente ao conjunto das cadeiras de praia, do mar, do sol e da água de coco. É o caso dos livros de autoajuda, daqueles romances comprados em banca de jornal, e dos de temática fantástica, com vampiros, lobisomens, anjos e demônios, que se proliferam com uma rapidez assombrosa nas prateleiras das livrarias.

É a perseverança de seguir adiante com um livro complicadíssimo que nos faz crescer intelectualmente. É o desafio que instiga, que amplia horizontes, que move o interesse. O ato de abrir um dicionário ou um livro de história para entender uma obra de ficção é a confirmação de que esta cumpriu parte do seu propósito. E aqueles que ainda não têm intimidade com o mundo da leitura, devem começar o reconhecimento de terreno pelos clássicos? De forma alguma. Mas, em nome do crescimento pessoal, e para duelarem consigo mesmos, um dia devem tentar.

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Uma opinião sobre “Quem gosta de clássicos?

  • 10 de outubro de 2015 em 23:16
    Permalink

    Muito bom, realmente quero me ater mais aos clássicos, gostaria de uns exemplos, não digo o ápice do eruditismo rs, mas os bons exemplos…
    Se puder sugira o que vier a cabeça, acredito um exemplo seria Crime e Castigo…

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