As proezas de João Grilo

proezas-de-joao-grilo-cordelEstes versos são talvez os mais famosos e icônicos da literatura de cordel. Lembro que meu avô lia isso pra mim na infância (boa parte ele apenas recitava, pois sabia de cor). A autoria é do cordelista paraibano João Martins de Athayde (1880-1959). O personagem João Grilo foi quem inspirou o protagonista homônimo de “Auto da Compadecida”, a famosa peça de teatro de Ariano Suassuna que virou filme.

.

.

João Grilo foi um cristão
que nasceu antes do dia
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia.

E nasceu de sete meses
chorou no bucho da mãe
quando ela pegou um gato
ele gritou: não me arranhe
não jogue neste animal
que talvez você não ganhe.

Na noite que João nasceu
houve um eclipse na lua
e detonou um vulcão
que ainda continua
naquela noite correu
um lobisomem na rua.

Porém João Grilo criou-se
pequeno, magro e sambudo
as pernas tortas e finas
e boca grande e beiçudo
no sítio onde morava
dava notícia de tudo.

João perdeu o seu pai
com sete anos de idade
morava perto de um rio
Ia pescar toda tarde
um dia fez uma cena
que admirou a cidade.

O rio estava de nado
vinha um vaqueiro de fora
perguntou: dará passagem?
João Grilo disse: inda agora
o gadinho do meu pai
passou com o lombo de fora.

O vaqueiro bota o cavalo
com uma braça deu nado
foi sair já muito embaixo
quase que morre afogado
voltou e disse ao menino:
você é um desgraçado.

João Grilo foi ver o gado
pra provar aquele ato
veio trazendo na frente
um bom rebanho de pato
os pássaros passaram n”água
João provou que era exato.

Um dia a mãe de João Grilo
foi buscar água à tardinha
deixando João Grilo em casa
e quando deu fé, lá vinha
um padre pedindo água
nessa ocasião não tinha

João disse; só tem garapa;
disse o padre; donde é?
João Grilo lhe respondeu;
é do engenho catolé;
disse o padre: pois eu quero;
João levou uma coité.

O padre bebeu e disse:
oh! que garapa boa!
João Grilo disse: quer mais?
o padre disse: e a patroa
não brigará com você?
João disse: tem uma canoa.

João trouxe uma coité
naquele mesmo momento
disse ao padre: beba mais
não precisa acanhamento
na garapa tinha um rato
tava podre e fedorento.

O padre disse: menino
tenha mais educação
e por que não me disseste?
oh! natureza do cão!
pegou a dita coité
arrebentou-a no chão.

João Grilo disse: danou-se!
misericórdia, São Bento!
com isto mamãe se dana
me pague mil e quinhentos
essa coité, seu vigário,
é de mamãe mijar dentro!

O padre deu uma popa
disse para o sacristão:
esse menino é o diabo
em figura de cristão!
meteu o dedo na goela
quase vomita um pulmão.

João Grilo ficou sorrindo
pela cilada que fez
dizendo: vou confessar-me
no dia sete do mês
ele nunca confessou-se
foi essa a primeira vez.

João Grilo tinha um costume
pra toda parte que ia
era alegre e satisfeito
no convívio de alegria
João Grilo fazia graça
que todo mundo sorria.

Num dia de sexta-feira
às cinco horas da tarde
João Grilo disse: hoje à noite
eu assombro aquele padre
se ele não perdoar-me
na igreja há novidade.

pegou uma lagartixa
amarrou pelo gogó
botou-a numa caixinha
no bolso do paletó
foi confessar-se João Grilo
com paciência de Jó.

Às sete horas da noite
foi ao confessionário
fez logo o pelo sinal
posto nos pés do vigário
o padre disse: acuse-se;
João disse o necessário.

Eu sou aquele menino
da garapa e do coité;
o padre disse: levante-se
que já sei você quem é;
João tirou a lagartixa
Soltou-a junto do pé.

A largatixa subiu
por debaixo da batina
entrou na perna da calça
tornou-se feia a buzina
o padre meteu os pés
arrebentou a cortina.

Jogou a batina fora
naquela grande fadiga
a lagartixa cascuda
arranhando na barriga
João Grilo de lá gritava:
Seu padre, Deus lhe castiga!

O padre impaciente
naquele turututu
saltava pra todo lado
que parecia um timbu
terminou tirando as calças
ficou o esqueleto nu.

João disse: padre é homem
pensei que fosse mulher
anda vestido de saia
não casa porque não quer
isso é que é ser caviloso
cara de matar bebê.

O padre disse João Grilo
vai-te daqui infeliz!
João Grilo disse bravo
ao vigário da matriz:
é assim que ele me paga
o benefício que fiz?

João Grilo foi embora
o padre ficou zangado
João Grilo disse: ora sebo
eu não aliso croado
vou vingar-me duma raiva
que eu tive ano passado.

No subúrbio da cidade
morava um português
vivia de vender ovos
justamente nesse mês
denunciou de João Grilo
pelas artes que ele fez.

João encontrou o português
com a égua carregada
com duas caixas de ovos
João disse-lhe: oh camarada
quero dizer à tua égua
Uma pequena charada.

o português disse: diga;
João chegou bem no ouvido
com a ponta do cigarro
soltou-a dentro escondido
a égua meteu os pés
foi temeroso estampido.

derrubou o português
foi ovos pra todo lado
arrebentou a cangalha
ficou o chão ensopado
o português levantou-se
tristonho e todo melado.

O português perguntou:
o que foi que tu disseste
que causou tanto desgosto
a este anima agreste?
– Eu disse que a mãe morreu;
o português respondeu:
Oh égua besta da peste!

João Grilo foi à escola
com sete anos de idade
com dez anos ele saiu
por espontânea vontade
todos perdiam pra ele
outro Grilo como aquele
perdeu-se a propriedade.

João Grilo em qualquer escola
chamava o povo atenção
passava quinau nos mestres
nunca faltou com a lição
era um tipo inteligente
no futuro e no presente
João dava interpretação.

um dia perguntou ao mestre:
o que é que Deus não vê
o homem vê a qualquer hora
disse ele: não pode ser
pois Deus vê tudo no mundo
em menos de um segundo
de tudo pode saber.

João Grilo disse: qual nada
que dê os elementos seus?
abra os olhos, mestre velho
que vou lhe mostrar os meus
seus estudos se consomem
um homem vê outro homem
só Deus não vê outro Deus.

João Grilo disse: seu mestre
me diga como se chama
a mãe de todas as mães
tenha cuidado no drama
o mestre coça a cabeça
disse: antes que me esqueça
vou resolver o programa.

  • A mãe de todas as mães
    é Maria Concebida;
    João Grilo disse: eu protesto
    antes dela ser nascida
    já esta mãe existia
    não foi a Virgem Maria
    oh! que resposta perdida.

João Grilo disse depois
num bonito português;
a mãe de todas as mães
já disse e digo outra vez
como a escritura ensina
é a natureza divina
que tudo criou e fez.

  • Me responde, professor
    entre grandes e pequenos
    quero que fique notável
    por todos nossos terrenos
    responda com rapidez
    como se chama o mês
    que a mulher fala menos?

Este mês eu não conheço
quem fez esta taboada?
João Grilo lhe respondeu:
ora sebo, camarada
pra mim perdeu o valor
tem nome de professor
mas não conhece de nada

  • Este mês é fevereiro
    por todos bem conhecido
    só tem vinte e oito dias
    o tempo mais resumido
    entre grandes e pequenos
    é o que a mulher fala menos
    mestre, você tá perdido.
  • Seu professor, me responda
    se algum tempo estudou
    quem serviu a Jesus Cristo
    morreu e não se salvou
    no dia em que ele morreu
    seu corpo urubu comeu
    e ninguém o sepultou?

  • Não conheço quem é esse
    porque nunca vi escrito;
    João Grilo lhe respondeu:
    foi o jumento, está dito
    que a Jesus Cristo servia
    na noite em que ele fugia
    de Belém para o Egito.

João Grilo olhou para o lado
disse para o diretor
este mestre é um quadrado
fique sabendo o senhor
sem dúvida exame não fez
o aluno desta vez
ensinou ao professor.

João Grilo foi para casa
encontrou sua mãe chorando
ele então disse: mamãe
não está ouvindo eu cantando?
não chore, cante mais antes
pois o seu filho garante
pra isso vive estudando .

A mãe de João Grilo disse:
choro por necessidade
sou uma pobre viúva
e tu de menor idade
até da escola saíste…
João disse: ainda existe
o mesmo Deus de bondade.

  • A senhora pensa em carne
    de vinte mil réis o quilo
    ou talvez no meu destino
    que à força hei de segui-lo
    não chore, fique bem certa
    a senhora só se aperta
    quando matarem João Grilo.

João então chegou no rio
às cinco horas da tarde
passou até nove horas
porém inda foi debalde
na noite triste e sombria
João Grilo sem companhia
voltava sem novidade.

Chegando dentro da mata
ouviu lá dentro um gemido
dois lobos devoradores
o caminho interrompido
e trepou-se num pinheiro
como era forasteiro
ficou ali escondido.

Os lobos foram embora
e João não quis descer
disse: eu dormirei aqui
suceda o que suceder
eu hoje imito arapuan
só vou embora amanhã
quando o dia amanhecer.

O Grilo ficou trepado
temendo lobos e leões
pensando na fatal sorte
e recordando as lições
que na escola estudou
quando de súbito chegou
uns quatro ou cinco ladrões.

Eram uns ladrões de Meca
que roubavam no Egito
se ocultavam na mata
naquele bosque esquisito
pois cada um de per si
que vinha juntar-se ali
pra ver quem era perito.

O capitão dos ladrões
disse: não fala ninguém?
um respondeu; não senhor
disse ele: muito bem
cuidado não roubem vã
vamos juntar-nos amanhã
na capela de Belém.

Lá partiremos o dinheiro
pois aqui tudo é graúdo
temos um roubo a fazer
desde ontem que estudo
mas já estou preparado;
e o Grilo lá trepado
calado escutando tudo.

Os ladrões foram embora
depois da conversação
João Grilo ficou ciente
dizendo a seu coração:
se Deus ajudar a mim
acabou-se o tempo ruim
sou eu quem ganho a questão.

João Grilo desceu da árvore
quando o dia amanheceu
mas quando chegou em casa
não contou o que se deu
furtou um roupão de malha
vestiu, fez uma mortalha
lá no mato se escondeu.

À noite foi pra capela
por detrás da sacristia
vestiu-se com a mortalha
pois na capela jazia
sempre com a porta aberta
João pensou na certa
colher o que pretendia.

Deitou-se lá num caixão
que enterravam defunto
João Grilo disse: eu aqui
vou ganhar um bom presunto;
os ladrões foram chegando
e João Grilo observando
sem pensar em outro assunto.

Acenderam um farol
penduraram numa cruz
foram contar o dinheiro
no claro deu uma luz
João Grilo de lá gritou:
esperem por mim que eu vou
com as ordens de Jesus!

Os ladrões dali fugiram
quando viram a alma em pé
João Grilo ficou com tudo
disse: já sei como é nada
no mundo me atrasa
agora vou para casa
tomar um rico café.

Chegou e disse: mamãe
morreu nossa precisão
o ladrão que rouba outro
tem cem anos de perdão;
contou o que tinha feito
disse a velha: está direito
vamos fazer refeição.

Bartolomeu do Egito
foi um rei de opinião
mandou convidar João Grilo
pra uma adivinhação
João Grilo disse: eu vou;
no outro dia embarcou
para saudar o sultão.

João Grilo chegou na corte
cumprimentou o sultão
disse: pronto, senhor rei
(deu-lhe um aperto de mão)
com calma e maneira doce
o sultão admirou-se
da sua disposição.

O sultão pergunta ao Grilo;
de onde você saiu?
aonde você nasceu?
João fitou ele e sorriu
– Sou deste mundo d”agora
nasci na ditosa hora
em que minha mãe me pariu.

  • João Grilo, tu adivinha?
    o Grilo respondeu: não
    eu digo algumas coisas
    conforme a ocasião
    quem canta de graça é galo
    cangalha só pra cavalo
    e sêca só no sertão.

_ Eu tenho doze perguntas
pra você me responder
no prazo de 15 dias
escute o que vou dizer
veja lá como se arruma
é bastante faltar uma
tá condenado a morrer.

João Grilo disse: estou pronto
pode dizer a primeira
se acaso sair-me bem
venha a segunda e a terceira
venha a quarta e a quinta
talvez o Grilo não minta
diga até a derradeira.

Perguntou: qual o animal
que mostra mais rapidez
que anda de quatro pés
de manhã por sua vez
ao meio-dia com dois
passando disto depois
à tarde anda com três?

O Grilo disse: é o homem
que se arrasta pelo chão
no tempo que engatinha
depois toma posição
anda em pé e bem seguro
mas quando fica maduro
faz três pés com o bastão.

O sultão maravilhou-se
com sua resposta linda
João disse: pergunte outra
vou ver se respondo ainda;
a segunda o sultão fez
João Grilo daquela vez
celebrizou sua vinda.

  • Grilo você me responda
    em termos bem divididos
    uma cova bem cavada
    doze mortos estendidos
    e todos mortos falando
    cinco vicos passeando
    trabalham com três sentidos.
  • Esta cova é a viola
    com primo, baixo e bordão
    mortas são as doze cordas
    quando canta um cidadão
    canta, toca, faz um verso
    cinco vicos num progresso
    os cinco dedos da mão.

  • Houve uma salva de palmas
    com vivas que retumbou
    o sultão ficou suspenso
    seu viva também bradou
    e depois pediu silêncio
    com outro desejo imenso
    a terceira perguntou.

    • João Grilo, qual é a coisa
      que eu mandei carregar
      primeiro dia e segundo
      no terceiro fui olhar
      quase dá-me a tiririca
      se tirar, mais grande fica
      não míngua, faz aumentar?
  • Senhor rei, sua pergunta
    parece me fazer guerra
    um Grilo não tem saber
    criado dentro da serra
    mas digo pra quem conhece
    o que tirando mais cresce
    é um buraco na terra.

  • João Grilo vou terminar
    as perguntas do tratado
    o Grilo disse; pergunte
    quero ficar descansado
    disse o rei: é muito exato
    o que é que vem do alto
    cai em pé, corre deitado?

    • Aquele que cai em pé
      e sai correndo pelo chão
      será uma grande chuva
      nos barros de um sertão;
      o rei disse: muito bem
      no mundo inteiro não tem
      outro Grilo como João.
  • João Grilo, você bebe?
    João disse: bebo um pouquinho
    e disse; eu não sou filho
    de Baco que fez o vinho
    o meu pai morreu bebendo
    e eu o que estou fazendo?
    sigo no mesmo caminho.

  • O rei disse: João Grilo
    beber é cousa ruim;
    o Grilo respondeu: qual
    o meu pai dizia assim:
    na casa de seu Henrique
    zelam bem um alambique
    melhor do que um jardim.

    O rei disse: João Grilo
    tua fama é um estrondo
    João Grilo disse: eu sabendo
    o que perguntar respondo;
    disse o rei enfurecido;
    o que tem o pé comprido
    e faz o rastro redondo?

    • Senhor rei, tenho lembrança
      do tempo da minha avó
      que ela tinha um compasso
      na caixa do bororó
      como este eu também ando
      fazendo o rastro redondo
      andando com uma perna só.
  • João, qual é o bicho
    que passa pela campina
    a qualquer hora da noite
    andando de lamparina?
    é um pequeno animal
    tem luz artificial;
    veja o que determina.

  • Esse bicho eu já vi
    pois eu tinha de costume
    de brincar sempre com ele
    minha mãe tinha ciúme
    ele andava pelo campo
    uns chamavam pirilampo
    e outros de vagalume.

  • O rei já tinha esgotado
    a sua imaginação
    não achou uma pergunta
    que interrompesse a João
    disse: me responda agora
    qual é o olho que chora
    sem haver consolação?

    O Grilo então respondeu:
    lá muito perto da gente
    tem um outeito importante
    um moó muito doente
    suas lágrimas têm paladar
    quem não deixa de chorar
    é olho d”água de vertente.

    o rei inventou um truque
    do jeito que lhe convinha
    – Vou arrumar uma cilada
    ver se João adivinha;
    mandou vir um alçapão
    fez outra adivinhação
    escondeu uma bacurinha.

    • João, o que é que tem
      dentro desse alçapão?
      se não disser o que é
      é morto não tem perdão;
      João Grilo lhe respondeu:
      quem mata um como eu
      não tem dó no coração.

    João lhe disse: esse objeto
    nem é manso nem é brabo
    nem é grande nem pequeno
    nem é santo nem é diabo
    bem que mamãe me dizia
    que eu ainda caía
    onde a porca torce o rabo.

    Trouxeram uma bandeja
    ornada com muitas flores
    dentro dela uma latinha
    cheia de muitos fulgores
    o rei lhe disse: João Grilo
    é este o último estrilo
    que rebenta tuas dores.

    João Grilo desta vez
    passou na última estica
    adivinhar uma coisa
    nojenta que se pratica
    fugir da sorte mesquinha
    pois dentro da lata tinha
    um pouquinho de xinica.

    O rei disse: João Grilo
    veja se escapa da morte;
    o que tem nessa latinha?
    responda se tiver sorte;
    toda aquela populaça
    queria ver a desgraça
    do Grilo franzino e forte.

    Minha mãe profetizou
    que o futuro é minha perda
    “Dessas adivinhações
    brevemente você herda;”
    faz de conta que já vi
    como está hoje aqui
    parece que dá em merda.

    O rei achou muita graça
    nada teve o que fazer
    João Grilo ficou na corte
    com regozijo e prazer
    gozando um bom paladar
    foi comer sem trabalhar
    desta data até morrer.

    E todas as questões do reino
    era João que deslindava
    qualquer pergunta difícil
    ele sempre decifrava
    julgamentos delicados
    problemas muito enrascados
    era João que desmanchava.

    Certa vez chegou na corte
    um mendigo esfarrapado
    com uma mochila nas costas
    dois guardas de cada lado
    seu rosto cheio de mágoa
    os olhos vertendo água
    fazia pena o coitado.

    Junto dele estava um duque
    que veio denunciar
    dizendo que o mendigo
    na prisão ia morar
    por nãp pagar a despesa
    que fizera com afoiteza
    sem ninguém lhe convidar.

    João Grilo disse ao mendigo:
    e como é, pobretão
    que se faz uma despesa
    sem ter no bolso um tostão?
    me conte todo o passado
    depois de ter-lhe escutado
    lhe darei razão ou nào.

    Disse o mendigo: sou pobre
    e fui pedir uma esmola
    na casa do senhor duque
    e levei minha sacola
    quando cheguei na cozinha
    vi cozinhando galinha
    numa grande caçarola.

    • Como a comida cheirava
      eu tive apetite nela
      tirei um taco de pão
      e marchei prolado dela
      e sem pensar na desgraça
      botei o pão na fumaça
      que saía da panela.
  • O cozinheiro zangou-se
    chamou logo seu senhor
    dizendo que eu roubara
    da comida seu d\sabor
    só por eu ter colocado
    um taco de pão mirrado
    aproveitando o vapor.

  • Por isso fui obrigado
    a pagar esta quantia
    como não tive dinheiro
    o duque por tirania
    mandou trazer-me escoltado
    pra depois de ser julgado
    ser posto na enxovia.

  • João Grilo disse: está bom
    não precisa mais falar;
    então pergunto ao duque:
    quanto o homem vai pagar?
    – Cinco coroas de prata
    ou paga ou vai pra chibata
    não lhe deve perdoar.

    João Grilo tirou do bolso
    a importância cobrada
    na mochila do mendigo
    deixou-a depositada
    e disse para o mendigo:
    balance a mochila, amigo
    pro duque ouvir a zoada.

    O mendigo sem demora
    fez como o Grilo mandou
    pegou sua mochilinha
    com a prata balançou
    sem compreender o truque
    bem no ouvido do duque
    o dinheiro tilintou.

    Dise o duque enfurecido:
    mas não recebi o meu;
    diz o Grilo: sim senhor
    e isto foi o que valeu
    deixe de ser batoteiro
    o tinido do dinheiro
    o senhor já recebeu.

    • Você diz que o mendigo
      por ter provado o vapor
      foi mesmo que ter comido
      seu manjar e seu sabor
      pois também é verdadeiro
      que o tinir do dinheiro
      represente seu valor.

    Virou-se para o mendigo
    e disse: estás perdoado
    leva o dinheiro que dei-te
    vai pra casa descansado;
    o duque olhou para o Grilo
    depois de dar um estrilo
    saiu por ali danado.

    A fama então de João Grilo
    foi de nação em nação,
    por sua sabedoria
    e por seu bom coração
    sem ser por ele esperado
    um dia foi convidado
    pra visitar um sultão.

    O rei daquele país
    quis o reino embandeirado
    pra receber a visita
    do ilustre convidado
    o castelo estava em flores
    cheios de grandes fulgores
    ricamente engalanado.

    As damas da alta côrte
    trajavam decentemente
    toda côrte imperial
    esperava impaciente
    ou por isso ou por aquilo
    para conhecer João Grilo
    figura tão eminente.

    Afinal chegou João Grilo
    no reinado do sultão
    quando ele entrou na côrte
    foi grande decepção
    de paletó remendado
    sapato velho furado
    nas costas um matulão.

    O rei disse: não é ele
    pois assim já é demais!
    João Grilo pediu licença
    mostrou-lhe as credenciais
    embora o rei não gostasse
    mandou que ele ocupasse
    os aposentos reais.

    Só se ouvia cochichos
    que vinham de todo lado
    as damas então diziam
    é esse o homem falado?
    duma pobreza tamanha
    e ele nem se acanha
    de ser nosso convidado!

    Até os membros da côrte
    diziam num tom chocante:
    pensava que o João Grilo
    fosse um tipo elegante
    mas nos manda um remendado
    sem roupa esfarrapado
    um maltrapilho ambulante.

    E João Grilo ouvia tudo
    mas sem dar demonstração
    em toda a corte real
    ninguém lhe dava atenção
    por mostrar-se esmolambado
    tinha sido desprezado
    naquela rica nação.

    Afinal veio um criado
    e disse sem o fitar:
    já preparei o banheiro
    para o senhor se banhar
    vista uma roupa minha
    e depois vá na cozinha
    na hora de almoçar.

    João Grilo disse: está bem;
    mas disse com seu botão:
    roupas finas trouxe eu
    dento do meu matulão
    me apresentei rasgado
    para ver nesse reinado
    qual era a minha impressão.

    João Grilo tomou um banho
    vestiu uma roupa de gala
    então muito bem vestido
    apresentou-se na sala
    ao ver seu traje tão belo
    houve gente no castelo
    que quase perdia a fala.

    E então toda repulsa
    transformou-se de repente
    o rei chamou-o pra mesa
    como homem competente
    consigo dizia João:
    na hora da refeição
    vou ensinar essa gente.

    O almoço foi servido
    porém João não quis comer
    despejou vinho na roupa
    só para vê-lo escorrer
    ante a côrte estarrecida
    encheu os bolsos de comida
    para todo mundo ver.

    O rei muito aborrecido
    perguntou para João:
    por qual motivo o senhor
    não come da refeição?
    respondeu João com maldade:
    tenha calma, majestade
    digo já toda a razão.

    • Esta mesa tão repleta
      de tanta comida boa
      não foi posta para mim
      um ente vulgar à toa;
      desde a sobremesa à sopa
      foram postas à minha roupa
      e não à minha pessoa.

    Os comensais se olharam
    o rei pergunta espantado:
    por que o senhor diz isto
    estando tão bem tratado?
    disse João: isso se explica
    por estar de roupa rica
    não sou mais esmolambado.

    Eu estando esmolambado
    ia comer na cozinha
    mas como troquei de roupa
    como junto da rainha
    vejo nisto um grande ultraje
    homenagem ao meu traje
    e não à pessoa minha.

    Toda corte imperial
    pediu desculpa a João
    e muito tempo falou-se
    naquela dura lição
    e todo mundo dizia
    que sua sabedoria
    igualava a Salomão.

    Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

    Uma opinião sobre “As proezas de João Grilo

    Deixe uma resposta:

    %d blogueiros gostam disto: