Preconceito linguístico

Artigo do professor André Gazola publicado no portal Lendo.

As línguas sofrem variações diacrônicas (conforme a época), diatópicas (conforme o lugar), diastráticas (conforme a classe social) e formais (conforme a situação). Apesar disso, se a língua estabelecer um canal de comunicação entre os falantes, desempenhou o seu papel. Eu até poderia terminar esse texto por aqui, mas preciso dizer que a mania quase doentia que o brasileiro tem de se diminuir perante o resto do mundo dá origem ao mito de que só em Portugal se fala português corretamente.

Meus amigos, nós somos sim uma antiga colônia de Portugal, mas um abismo linguístico de 500 anos de evolução e quase um século de independência separa nossas línguas. Diante disso, eu pergunto: por que as pessoas ainda insistem em dizer que os portugueses são os verdadeiros “donos” da língua? Por que uma língua independente, com sua própria gramática e regras, como o português brasileiro, continua a ser vista como inferior à outra? Me digam se isso acontece com o inglês americano? Afinal, eles também foram colônia da Inglaterra. Por que o inglês da Inglaterra não é muito mais bonito que o inglês americano?

O português de Portugal é diferente do português do Brasil, assim como o português de Angola é diferente do português de Moçambique, e não é nenhum acordo linguístico que vai mudar isso. Estamos falando de culturas diferentes, de povos diferentes e de situações sociais diferentes. A gramática (ou os gramáticos) só precisam entender que frases como “Você viu ela chegar” ou “Eu conheço ele”, são construções totalmente comuns ao português brasileiro. A um falante — ou mais ainda, a um aluno — não devem ser impostas regras que simplesmente não fazem parte da realidade de NENHUM usuário da língua, portanto totalmente artificiais, numa tentativa inútil de fazer nações que estão a 10.000 quilômetros de distância falarem exatamente do mesmo jeito.

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