O preço do churrasco

Calcula-se que, para produzir apenas um quilo de carne bovina, gasta-se 15 mil litros de água potável. Acresça-se a isso a quantidade de ração que o animal ingere durante toda a vida e a quantidade de gases poluentes que expele na atmosfera. Se você, como eu, não está familiarizado com os números da pecuária, saiba ao menos que há muito trabalho, tempo e recurso natural envolvido no processo. Não quero, com isso, incentivar o vegetarianismo. Até porque amo carne e acho que não conseguiria retirá-la da minha dieta. Quero apenas dizer que, desprezando por um momento o gasto econômico e considerando apenas o gasto ecológico da produção da carne bovina, ela deveria, no mínimo, ser consumida com mais responsabilidade e menos desperdício.

É um absurdo a quantidade de carnes nobres que vão pro lixo todos os dias após o expediente de uma churrascaria que serve rodízio. Carnes de excelente qualidade são rejeitadas no prato por clientes ricos e mimados apenas por terem esfriado durante a conversa e o chope. E o pior de tudo nem é isso: é que essas carnes rejeitadas não podem ser doadas aos pobres, aos mendigos, aos famintos, aos miseráveis. Por norma da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), elas devem ir para o lixo, sob pena de o estabelecimento ser multado e até interditado se isso não acontecer. Eu até entendo, em parte, a preocupação da Anvisa; até entendo que consumir carnes rejeitadas de um rodízio pode ser prejudicial à saúde das pessoas. Mas não estou convencido de que passar fome é menos prejudicial. Para evitar esse pecado, penso que o ideal seria mudarmos nossa relação com a carne. Como nos velhos tempos, aquele que, com água na boca, desejasse devorar uma suculenta picanha na brasa, deveria ele próprio empunhar uma faca e abater um boi, em vez de apenas ir ao açougue do supermercado e pedir os cortes já prontos, apenas esperando pelo sal grosso. Isso certamente mudaria muito a nossa relação com a carne, tornando-nos muito mais responsáveis no seu consumo, pois teríamos plena consciência de que, por aquele sabor, por aquele cheiro gostoso de gordura assada, pelo deleite daquele banquete, muitos recursos naturais foram gastos e pelo menos uma vida animal foi sacrificada.

Gosto muito da cena de Avatar em que Neytiri está ensinando Jake a ser um verdadeiro Na’vi. Entre outras coisas, ela o ensina a usar com destreza o arco e flecha. Quando este finalmente consegue, para fins de alimentação, caçar e abater um animal de forma rápida, dando-lhe uma “morte limpa”, ele se ajoelha ao lado do bicho morto e, com as mãos impostas sobre ele, diz algo como “vá em paz, irmão, una-se novamente a Eiwa (divindade da Natureza)”. Após isso, Neytiri, que o tempo todo estava observando de perto a caçada, diz a Jake: “Você está pronto”. Eu sei que não há a mínima chance disso acontecer, isto é, de todos nós passarmos a abater nossa própria comida. Mas eu tenho esperança que, após refletir sobre este assunto, você pelo menos mude de atitude. Não espero que você deixe de comer carne, mas apenas que passe a comê-la com responsabilidade e consciência ecológica, em uma atitude mínima de reverência à vida animal que foi sacrificada para o seu deleite. Você está pronto?

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