O povo que não lê

Veja também:  Universitários brasileiros leem pouco
38% dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais!

Pesquisas recentes têm confirmado que o povo brasileiro é avesso à leitura. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-Livro em 2011, mostrou que o brasileiro lê em média 4 livros por ano. A maior parte das obras lidas são pedagógicas e didáticas, ou seja, livros que são exigidos por professores em escolas, colégios e universidades. Com efeito, lê-se mais por obrigação acadêmica e escolar do que por vontade própria e por um sincero interesse pessoal em buscar conhecimentos. Os brasileiros preferem utilizar seu tempo de lazer com outras atividades.

Apenas 24% afirmam gostar de ler jornais, revistas, livros e textos na internet quando dispõem de tempo livre. A maioria da população (85%) desfruta de seu tempo de ócio para assistir TV. Segundo dados do IBGE, em média o brasileiro lê apenas 6 minutos por dia, enquanto fica 2 horas e 35 minutos na frente da televisão. O brasileiro lê muito menos que os europeus e os americanos, que leem de 9 a 11 livros em média por ano. Estes dados são preocupantes e, parcialmente, ajudam a explicar outro fenômeno alarmante: o do crescente analfabetismo funcional entre nossos estudantes. Conforme a recente pesquisa divulgada pela Universidade Católica de Brasília, 50% dos alunos do ensino superior são analfabetos funcionais. Além disso, esta mesma pesquisa aponta que a maior parte dos universitários tem o hábito de estudar e aprender de maneira superficial e mecânica os conteúdos transmitidos pelos professores.

Na verdade, a ojeriza e a repulsa pela leitura e a vida de estudos é um fenômeno histórico e cultural de longa data no Brasil. Os nossos melhores romancistas retrataram com sutileza e ironia este traço vergonhoso de nossa sociedade. Machado de Assis, no conto A teoria do medalhão (1881) –  que narra os conselhos imorais que um pai dá ao seu filho, na noite de seu aniversário, de como “vencer na vida”, de como alcançar rapidamente e sem muitos esforços o prestígio e o reconhecimento social – nos fornece uma ilustração ficcional exemplar deste fenômeno. Em uma passagem do conto, o pai se dirige ao filho com estas palavras: “As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar ou por qualquer outra razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim […]”. No magnífico Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Machado de Assis coloca na boca do seu principal personagem todo o desprezo pelo verdadeiro conhecimento e, por consequência, pela vida de estudos:

“E foi assim que desembarquei de Lisboa e segui para Coimbra.  A universidade esperava-me com suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi grau de bacharel, deram-no com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa  me encheu de orgulho e de saudades, – principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estroina superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. No dia em que a universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era um carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali assas desconsolado, mas já sentindo uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, – de prolongar a universidade pela vida adiante.”

O personagem machadiano é a expressão maior do bacharelismo, da ânsia por títulos e diplomas, conquistados na maior das vezes sem grandes estudos e sem muita leitura, uma marca de nosso imaginário coletivo. Busca-se a todo custo e o mais rápido possível o diploma de graduação em algum curso superior. Por sua vez, o conhecimento, a aquisição de cultura e ciência é um mero detalhe insignificante. O estudo, as leituras, o conhecimento são transformados em meros instrumentos, em meios acessórios para o verdadeiro e único fim que é adquirir o diploma que possibilitará o exercício de uma profissão. O espírito arrivista e carreirista dominante são antitéticos ao estilo de vida austero, silencioso e solitário necessário ao exercício regular e constante da leitura.

O desprezo pela vida intelectual e, desse modo, pela leitura no ambiente social brasileiro é um experiência que vivi e vivo na carne. Durante minha adolescência e nos primeiros anos da minha juventude, em várias oportunidades quando estava absorto em minhas leituras em casa ou então na faculdade, notei, não sem certo incômodo e mal-estar, os olhares furtivos de curiosidade tola, de ironia presunçosa e mesmo de gozação por parte de colegas, amigos e familiares. Recordo que, apesar do apoio de alguns poucos amigos, muitos chegavam a dizer que eu estava perdendo tempo com a leitura de livros de filosofia, ciências sociais e religião comparada, que havia outras coisas mais importantes e prazerosas para fazer e que, pasmem, eu poderia me tornar uma pessoa descompensada se continuasse a ler como estava lendo. Em nossa cultura, infelizmente, ler e estudar com afinco é visto como uma anomalia, uma atividade para gente esquisita, deslocada e anti-social. Conforme a mentalidade dominante, ler é algo cansativo, tedioso e enfadonho. Dá dor de cabeça, sono e prejudica a visão; o bom mesmo é tomar umas cervejas, cantar um pagodinho e assistir as novelas. Enfim, ler é um desperdício de energia e de tempo, um ato supérfluo, um luxo acessório, um simples adorno.

Em muitos países europeus e em alguns países latino-americanos, como a Argentina e o Uruguai, é bastante comum notarmos as pessoas lendo nas ruas, nas praças, nos ônibus e nos metrôs; no Brasil isto é uma raridade. É preciso ter coragem e paciência para ler em ambientes públicos em nosso país. Fora o barulho e a balburdia que caracterizam nossas cidades, temos de enfrentar os olhares perscrutadores e perplexos dos bisbilhoteiros quando estamos nos dedicando a esta atividade “estranha, ofensiva e bizarra” que é ler um livro. A única solução mesmo é ler escondido, longe do alcance visual dos curiosos. Vivemos em um ambiente social francamente hostil à vida do espírito. O descaso e mesmo certa alergia à leitura e os livros é tão grande que, em boa parte das cidades interioranas, as bibliotecas públicas estão em frangalhos e as livrarias inexistem. Livros são estorvos que ocupam espaços demais. Não temos amor e cuidado por eles e, assim, demonstramos nossa indiferença para com a cultura.

Fonte: Revista Vila Nova.

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Uma opinião sobre “O povo que não lê

  • 15 de maio de 2015 em 9:21
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    Junta-se a isto o auto preço de livros e a falta de estimulo a formação de novos leitores por parte dos pais.

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