Padres, revolucionários e lunáticos

Crônica de Aires Almeida, professor de filosofia em uma escola secundária de Portugal, publicada em novembro de 2008 no blog Questoes Básicas.


Nunca mais me esqueço do que, há muitos anos, um colega mais velho de matemática me disse na sala dos professores. Além do seu cachimbo (nessa altura ainda se fumava nas escolas), esse colega era conhecido por assumir frequentemente uma atitude intelectualmente provocadora e até politicamente incorreta, como hoje se diz. Estava eu, então, a lamentar baixinho pelo fato de tantas pessoas pensarem que os filósofos são aqueles que procuram saber tudo sobre coisa nenhuma quando o colega, que ainda mal conhecia, se virou para mim e disse: “Olha lá, pá, ainda não cheguei a perceber se tu és dos padres, dos pseudo-revolucionários ou dos poetas lunáticos”.

Fiquei intrigado com o comentário dele e perguntei o que queria dizer com aquilo. “Ora, todos os professores de filosofia que conheci ou pareciam padres ou pseudo-revolucionários de esquerda ou tolinhos armados em poetas lunáticos”. Achei a generalização algo abusiva, mas quis saber como ele caracterizava cada um desses grupos. A resposta foi mais ou menos nestes termos: “Os padres ensinam filosofia como se fosse catequese; os pseudo-revolucionários de esquerda não estão interessados em ensinar seja o que for, mas a levar a rapaziada a mandar bocas contra o sistema; os poetas lunáticos são aqueles que, sem paciência para raciocinar disciplinadamente, querem liberdade para dizer a primeira bobagem que lhes passe pela cabeça”.

Penso que o comentário do colega foi injusto, pois felizmente não se aplica a muitos professores de filosofia. Mas, ainda assim, não deixou de me fazer pensar. A verdade é que ele estava a tentar denunciar aquilo em que a filosofia não se pode tornar e que, a ser assim, a tornaria dispensável. O colega queria, no fundo, protestar contra a ideia de que a filosofia é um conjunto de preceitos que se transmitem dogmaticamente (os padres); ou um gesto de pura contestação, seja contra o que for (os revolucionários); ou ainda um pretexto para cada um exprimir o que lhe vai na alma, seja lá isso o que for (os poetas). Sem desprimor para os verdadeiros padres, revolucionários e poetas. Ora bem, esta ideia não é totalmente uma invenção dele. A verdade é que a tentação para muitos de nós santificarmos ou idolatrarmos os nossos filósofos preferidos pode fazer-nos deslizar facilmente do campo do exercício crítico que caracteriza a filosofia para o campo da catequese quase religiosa. Assim como é fácil ser impaciente e criticar sem antes ter compreendido, ou confundir a ausência de dogmas com a livre expressão de sentimentos e o reino do vale tudo.

A filosofia não é religião, não é política e não é poesia. A filosofia ocupa-se dos seus próprios problemas, apesar de alguns deles serem acerca da religião, da política e da poesia. É certo que estes domínios por vezes se contaminam, tal como se pode misturar água com café. Mas, tal como a água não passa a ser café e o café não passa a ser água, também a filosofia não passa a ser religião, política e poesia, bem como estas a ser filosofia. Também não é de estranhar que a melhor filosofia se manifeste na discussão direta com os filósofos, pois afinal são eles os profissionais do ofício, os que mais treinados estão para formular corretamente e discutir criticamente os problemas filosóficos. A filosofia tem um valor intrínseco e não precisa de se tornar religião, política ou poesia para ter dignidade.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta:

%d blogueiros gostam disto: