Os livros que fingimos ler

Por que tantos leitores mentem sobre obras que não leram? E como desmascará-los? Esse é o tema do artigo a seguir, de Danilo Venticinque para a revista Época.


Bastam alguns meses de dedicação à leitura para que um bom leitor se dê conta de que nunca conseguirá ler todos os livros que deseja. A literatura é vasta, o tempo é finito e, para piorar, ainda temos de lidar com distrações como o amor, o trabalho e a família. Diante dessa injustiça, a maioria reage com resignação e trata de escolher bem cada livro, para não desperdiçar o escasso tempo de leitura. Mas há os que se rebelam contra a imensidão da literatura e decidam enfrentá-la com um passe de mágica. A mentira é, de longe, a forma mais eficiente de leitura dinâmica. Inferno seria um exagero, mas há um lugar no purgatório reservado para as pessoas que mentem sobre suas leituras. Muitos falam mal de quem compra mais livros do que consegue ler. Outros amaldiçoam quem larga uma obra pela metade. Ainda assim, há quem defenda essas atitudes e as considere naturais. Quanto a fingir ter lido um livro, todos os leitores com quem conversei concordam: é um pecado imperdoável. Já vi reputações ruírem e amizades azedarem por causa desse hábito.

Embora cada um tenha sua maneira peculiar de exagerar o conhecimento literário, alguns comportamentos se repetem. Podemos dividir os fingidores em duas grandes categorias. Há os mentirosos compulsivos, que se aproveitam da Wikipédia e de orelhas de livros para impressionar amigos com sua erudição instantânea. E há os mentirosos envergonhados, que se sentem compelidos a mentir sobre suas leituras apenas para não confessar ignorância diante de um interlocutor supostamente mais culto. O mentiroso compulsivo pode ser reconhecido pelo tom enciclopédico de sua fala. Conversar com um deles é assistir a um desfile de nomes, datas e citações, com pouquíssimas impressões pessoais sobre a leitura. Sua ascensão é rápida, mas a queda pode ser dura: basta uma pergunta bem colocada para derrubar anos de falsas leituras. Sabendo disso, esses leitores estão preparados para responder às perguntas mais comuns sobre a obra e o autor. Contam, também, com sua capacidade de intimidar o interlocutor. Poucos ousam enfrentar um pedante bem preparado.

O mentiroso envergonhado é muito mais inocente. Mente apenas quando é pressionado. Numa conversa sobre livros, pode ser reconhecido pelo silêncio, pelos sorrisos e pelos meneios de cabeça. Faz gestos e exclamações de aprovação a cada menção a livros e autores que não conhece e, assim, aumenta seu repertório de livros não lidos. Poderia fazer perguntas e demonstrar interesse em saber mais sobre essas obras, mas prefere manter a pose de literato tímido. Alguns reforçam essa imagem ao usar o conhecimento enciclopédico para participar rapidamente da conversa, voltando em seguida ao silêncio dos sábios. Assim como o mentiroso compulsivo, o envergonhado raramente é desmascarado. Deve isso, em parte, ao bom senso de seus interlocutores. Se alguém se limita a balançar a cabeça em sinal de aprovação durante uma discussão animada sobre Ulysses, seria deselegante interromper a conversa para perguntar se ele já leu o livro. Até porque, numa conversa sobre Ulysses, o mais provável é que nenhum dos participantes o tenha lido – o que não os impede de continuar a discussão, para testar os limites de seu conhecimento enciclopédico.

O acadêmico francês Pierre Bayard explorou esse tema brilhantemente em Como falar dos livros que não lemos. Eu poderia dizer mais a esse respeito, mas prefiro não fingir que li o livro de Bayard. Por muitos anos, fui um mentiroso envergonhado. Precisaria dobrar o tamanho das minhas estantes para acomodar todas as obras que fingi ter lido. Com o tempo, aprendi a me divertir com minha própria ignorância e confessá-la sempre que possível. Mas não condeno os envergonhados que preferem manter a pose, e divirto-me sempre que vejo um deles em ação. Minha relação com os mentirosos compulsivos é menos amistosa. Desmascará-los já foi um dos meus passatempos favoritos. A técnica mais óbvia, de tentar perceber imprecisões no que dizem sobre os livros, é a mais improdutiva. Exige muito conhecimento, e pode ser infrutífera contra um pedante bem preparado. Meu método favorito é outro: ignorar o que dizem sobre o conteúdo do livro e fazer perguntas sobre o ato da leitura. Quantas vezes você desistiu de ler Ulysses antes de conseguir ler o livro até o fim? Onde você estava quando terminou o último volume de Em busca do tempo perdido, e como conseguiu encontrar tempo para ler a série? Que trecho de Guerra e paz mais te emocionou?

Não há orelha de livro ou página na internet que ofereça respostas satisfatórias a essas perguntas. É divertido ver supostos conhecedores de Joyce, Proust e Tolstói gaguejarem diante de perguntas tão simples para qualquer um que tenha lido esses livros com prazer. As tentativas de desmascarar pedantes renderam-me muitas risadas e alguns desafetos. Aos poucos, passei a me comportar melhor. Comecei a respeitar os mentirosos compulsivos ao me dar conta de que suas mentiras são, antes de tudo, demonstrações de amor à leitura. Há algo de tocante e quixotesco em suas tentativas de abraçar a imensidão da literatura, apesar de todas as limitações impostas pelo tempo e pela vida. Amar os livros que lemos não é o bastante. É preciso tomar posse de todas as grandes obras, mesmo as que nunca chegaremos a abrir.

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