Os comentadores da internet

Não é mera opinião: conheça os perfis falsos, mensagens pagas e a politicagem por trás das discussões na rede. É o que mostra a matéria a seguir, publicada na revista Galileu.


O problema é o governo do PT e a corrupção, diz um. Muito pior foram as privatizações neoliberais do FHC, responde o outro. Segundos depois, alguém chama ambos de babacas e ofende suas respectivas mães. A coisa sai do controle, os argumentos escasseiam, mas as ofensas continuam. A última declaração é “vai, Corinthians!”. Não é na mesa de bar, mas no rodapé de notícias, posts e reportagens na internet que esses debates acontecem — as seções de comentários viraram uma espécie de selva digital. Espécimes das mais variadas libertam a agressividade, são pagos para fazer propaganda partidária ou cobram pelos textos que escrevem para falar bem de empresas. Veja o que está por trás da lista interminável de comentários que você vê no pé das notícias e blogs.

“Comentar é uma forma de viver as notícias”, diz Ricardo Kaffa, um dos comentadores mais participativos do site Folha.com, com incríveis 5,2 mil posts. “Quando leio notícias como a absolvição da Jaqueline Roriz, preciso fazer alguma coisa. Vou comentar, já que não dá para ir para a janela e berrar”, diz. Mas por que fazer isso na web? “A internet abre espaço para as pessoas se expressarem como elas quiserem, educada ou agressivamente”, diz o psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do Centro de Estudos de Dependência da Internet. Daí a selva. O espaço tende a se transformar em uma guerra: não estar na presença do outro elimina o constrangimento quando alguém eleva o tom, segundo Abreu. “Quando o comentário é assim, funciona como uma espécie de alívio, algo que a pessoa não consegue fazer na vida real”.

E o que os portais ganham quando brigas ou comentários que não se relacionam com o tema da reportagem se acumulam? “É paradoxal”, diz Geert Lovink, professor da Universidade de Amsterdã e autor do livro Zero Comments: Blogging and Critical Internet Culture (Sem Comentários: Blogar e a Cultura Crítica da Internet, sem edição no Brasil). “É difícil aguentar o tom irritadiço e a quantidade gigantesca de comentários. No geral, os grandes sites usam essa área para mostrar que têm muitos usuários ativos. Não importa o que foi dito, apenas que cliquem e participem”, diz Lovink sobre a prática que rende aos sites audiência e tempo de permanência, convertidos em mais publicidade.

Mas se os grandes portais não dão tanta bola para o conteúdo daquela área, há muita gente disposta a pagar por ele. O caso mais famoso é o “partido de 50 centavos” na China. O nome se refere à prática, denunciada no jornal The New York Times e no site da BBC News, de o país pagar 50 centavos de yuan (14 centavos de real) por comentário positivo ao governo em sites de notícias e blogs. O caso, do qual se tem relatos desde 2004, está longe de ser isolado. Há, hoje, a profissionalização de um mercado baseado na criação de perfis falsos e opiniões de aluguel chamado de seeding.

Uma prática comum, inclusive no Brasil. “Um bom profissional da área tem uns 10 a 15 perfis falsos atualizados para usar no seeding. Eu atualizo como se fossem pessoas reais mesmo, falo de vários assuntos para ninguém desconfiar”, diz Augusta (nome fictício, aliás), especialista em mídias sociais que atuou na campanha de um candidato a governador de São Paulo. O seeding, segundo ela, explodiu por aqui durante as eleições de 2010. “Todos os principais candidatos usaram”, diz. Em média, Augusta passava 4 horas por dia escrevendo esse tipo de comentário – tempo que podia aumentar em momentos de crise. A atividade ocupava metade do dia de seu trabalho na campanha, pelo qual recebia R$ 3,5 mil mensais.

Não só nas eleições o seeding prospera. Sabe aquela análise muito elogiosa do barbeador elétrico no site de comércio eletrônico? Ou a reclamação engraçadinha e revoltada contra uma empresa que virou hit? Esse tipo de opinião pode ser também parte de um esforço de marketing para fazer você comprar (ou desistir de comprar) determinado produto ou serviço. Quer um exemplo? A batalha entre TVs de LCD e plasma no Brasil em 2009. Naquela época, uma avalanche de comentários favoráveis ao LCD começou a se espalhar por vários blogs. Só que alguns blogueiros influentes notaram que a maior parte dessas opiniões vinha do mesmo endereço de IP, apesar de assinados por nomes diferentes. Essa prática comercial é tão comum nos Estados Unidos que pesquisadores da Universidade de Cornell criaram um algoritmo para identificar comentários falsos que falam bem de produtos.

Há ainda outro espaço em que as opiniões pagas são cruciais — no resultado das buscas. Para fazer com que a página de um cliente apareça lá em cima em sites como o Google, algumas agências especializadas em SEO (otimização do mecanismo de busca, da sigla em inglês) colocam um exército de estagiários para comentar com o link do tal site, o que ajuda a fazer com que ele apareça em primeiro numa procura com palavras-chave — o preço da hora desse serviço, de acordo com especialistas da área, pode chegar a R$ 60. A situação ficou tão fora de controle que grandes blogs e sites passaram a ignorar os links nos comentários. “Virou spam. Tem até programas que enviam comentários com link para produtos da indústria farmacêutica e de conteúdo adulto”, afirma Willie Taminato, diretor da Agência Casa, especializada em SEO.

Há outras estratégias contra os excessos. Para evitar as ofensas, grandes portais de informação, como o do The Washington Post e da Reuters, restringiram o anonimato dos usuários — longos cadastros são exigidos hoje. Grandes portais brasileiros seguem o mesmo caminho, enquanto comentadores de mão-cheia reclamam. “Por que o anonimato é sempre negativo? Só assim há liberdade de expressão real para falar na internet”, afirma Mr. X, comentarista anônimo de blogs e sites de notícias da internet, personagem criado por um gaúcho de 35 anos (que não divulga o nome) que acumula quase uma década de brigas virtuais no currículo. “Especialmente para as opiniões polêmicas, que saem do politicamente correto, o anonimato é muito importante”.

 

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