O que vi no TEDx Recife 2014

TEDx Recife 2014Na última terça (16), estive na capital pernambucana participando do TEDx Recife e vou contar o que vi por lá. Este foi o primeiro TEDx que participei e a experiência valeu muito a pena. De certo modo, o TEDx é como o Charlezine: conteúdo inteligente para amantes do conhecimento. Saí de lá com ideias fervilhando na cabeça, muita inspiração e aprendizados que pretendo levar para toda a vida.

Veja também: O que vi no Campus Festival 2014

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SOBRE AS CONFERÊNCIAS TED

Resumindo bastante, as conferências TED e TEDx são organizadas em várias cidades ao redor do mundo e reúnem grandes mentes com grandes ideias. O objetivo é comunicar essas grandes ideias ao público em uma apresentação curta, clara, direta e objetiva. São apenas 18 minutos para cada palestrante, de modo que não há tempo para enrolação e “encheção de linguiça”: o papo tem que ser reto e ir direto ao ponto. Eu diria que essa é a essência e a filosofa do TED. Nessas conferências, quase não há espaço para o tédio, como é comum em apresentações mais longas. É como se o público colocasse o palestrante na parede e dissesse: “Vamos lá, nós não temos o dia todo! Qual é a sua grande ideia? O que você tem de interessante, original, genial ou impactante para nos contar? Queremos ser informados, persuadidos, fascinados, inspirados pelo que você tem a dizer! Você tem 18 minutos para isso. Acha que dá conta?”.

Essa exigência pode parecer, à primeira vista, uma arbitrariedade, um capricho dessa geração acelerada e apressada, para a qual “tempo é dinheiro”. Mas não é bem isso o que ocorre (pelo menos não de todo). Há muita ciência (neurociência, mais precisamente) por trás dos 18 minutos das apresentações do TED. Pretendo escrever um post inteiro sobre isso no futuro (me cobrem), mas por ora posso dizer que, em suma, já foi devidamente comprovado que pessoas normais não conseguem manter o nível máximo de atenção por mais de 18 minutos. Elas até conseguem prestar atenção num discurso de uma hora ou mais (desde que o orador tenha talento e conteúdo suficiente); mas aquele nível máximo de atenção, que permite a chamada “comunicação de alto impacto”, só dura no máximo 18 minutos. Depois disso, a plateia até pode continuar ouvindo atentamente, mas não com o mesmo rendimento.

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CREDENCIAMENTO E ABERTURA

As palestras aconteceram no moderno e belíssimo teatro Luiz Mendonça, que fica no Parque Dona Lindu, praia de Boa Viagem, zona sul de Recife. Gente de vários estados se reuniram no mesmo lugar e formaram filas enormes no credenciamento. Cada participante recebia um kit que continha uma camiseta personalizada, um crachá com seu nome, uma pasta, alguns adesivos e folders dos patrocinadores, uma caneta e uma espécie de caderno para ser usado durante o evento; tudo da melhor qualidade. Nesse “caderno” havia, além de um editorial de Alfredo Júnior (coordenador geral) apresentando o evento e dando as boas vindas aos participantes, informações sobre cada palestra do dia (ou “talks“, como eles chamam). Para cada palestrante, duas páginas do caderno eram reservadas à informações e rascunho. Numa página, o nome, a foto e uma breve apresentação do palestrante eram informados junto ao tema de seu talk. Na outra, o público podia fazer anotações sobre cada palestra e avaliar a performance de cada palestrante marcando opções como “Fiquei de boca aberta”, “Persuasivo”, “Corajoso”, “Engenhoso”, “Fascinante”, “Inspirador”, “Lindo”, “Engraçado”, “Informativo”, “Ok”, “Nada convincente”, “Confuso”, “Prolixo” ou “Desagradável”. Logo na abertura, fomos informados de que o TEDx Recife 2014 bateu o recorde de público de todas as conferências TEDx já realizadas no Brasil! Éramos mais de 500 pessoas naquele teatro!

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REVOLUÇÕES SILENCIOSAS

O TEDx Recife deste ano teve como tema as “Revoluções Silenciosas”. Ao todo, 11 palestrantes subiram ao palco para contar suas histórias e comunicar suas ideias inovadoras. São em geral pessoas que transformaram uma inquietação pessoal em uma verdadeira revolução. Mas não uma macro revolução, daquelas que vão parar nos livros de História. São revoluções no âmbito do micro, do indivíduo, silenciosas, que começam por transformar o modo de ver o mundo e de agir sobre ele em uma pessoa apenas, depois de espalha “infectando” outras e, quando menos se espera, já está transformando toda a sociedade. Essas pequenas revoluções, como noticiou o G1, “começaram de forma silenciosa e hoje chamam a atenção por realizarem transformações em diversos campos, da saúde ao urbanismo, da literatura à reciclagem”. Seguindo essa visão, os temas de todos os talks começavam com “um novo olhar sobre…” e aí seguia-se o assunto a ser tratado. Alfredo Júnior (coordenador geral), descreveu isso dessa forma:

“Com o tema Revoluções Silenciosas, o TEDx Recife 2014 objetiva identificar as atitudes e mudanças que tem sua gênese no indivíduo, muitas vezes pequenas ações silenciosas e pessoais que quando percebidas por outros ao redor têm potência para transformar a cidade e a sociedade. A revolução é a luta pela mudança. É rever, revolver, remexer, remoer mas nunca retroceder. É sair de uma determinação, de um conceito, de um vício, de uma forma de viver anterior, para algo novo e quase sempre turvo já que não é possível saber o exato rumo e impacto dessas mudanças. É preciso uma adesão profunda de corpo e alma do indivíduo para que haja uma revolução consciente e uma mudança real e efetiva. O foco não pode ser o convencimento da massa, mas da pessoa. A massa é consequência das mudanças pessoais profundas. Queremos tirar do foco as macro transformações causadas pelas novas tecnologias, pelas grandes ideias ou por grandes projetos. Colocaremos em pauta o poder do micro, do convencimento real do indivíduo por uma causa, estimulando cada vez mais as revoluções pessoais que primeiro mudam o indivíduo para depois influenciar a sociedade à sua volta. Aquelas revoluções que começam com pequenas atitudes no dia a dia, tímidas e discretas, mas vão ganhando força e acabam por inspirar e mudar muito além do seu âmbito inicial. Essas são as Revoluções Silenciosas. Esse é o TEDxRecife 2014!”

“Se você perceber, todas as palestras têm algo em comum: todas são movimentos que começaram dentro de uma pessoa que acabaram influenciando as pessoas ao redor. Os palestrantes são de várias áreas diferentes, tem política, educação, religião, reciclagem, reutilização de água, mas têm a mesma inquietude: querem transformar o que sentem dentro deles em uma revolução”, explicou a expert em comunicação verbal e integrante da curadoria do evento, Daniella Marcusso.

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THIANA SANTOS

Um novo olhar sobre a arte:

O descarte que vira arte

Artista plástica e artesã, Thiana graduou-se em Belas Artes na UFBA (Universidade Federal da Bahia) em 1986 na cidade de Salvador. Desenvolve seu trabalho com foco no design sustentável. Trabalha de forma independente, com projetos de consultoria em comunidades, da pesquisa ao desenvolvimento de produtos artesanais. Há alguns anos, vem desenvolvendo novas técnicas de trabalho para o reuso de garrafas PET e outros materiais reutilizáveis, como latinhas de alumínio, aplicando os conceitos de ecodesign. Em apenas 10 anos, Thiana estima já ter reaproveitado em suas obras de arte cerca de 200 mil garrafas PET e cerca de 50 mil latinhas de alumínio.

Thiana já é uma referência bastante reconhecida pelo seu trabalho. Ela costuma ser convidada para fazer a decoração de grandes eventos. Durante sua fala, ela mostrou alguns de seus incríveis trabalhos: são belos lustres, luminárias, abajures, bancos, bolsas e acessórios, tudo feito de garrafa PET ou latinha de alumínio. Não tem quem diga! Ela já fez, pasmem, a escultura de um galo gigante de 15 metros de altura e que pesa 12 toneladas para desfilar no bloco Galo da Madrugada, o maior e mais tradicional bloco carnavalesco do Recife. Ficou lindo. E o mais incrível: ela usou apenas latinhas de alumínio recicladas! A própria decoração do palco do TEDx Recife 2014 foi feita por ela! É, de fato, um exemplo a ser seguido pelo bem do planeta.

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EDILSON TAVARES

Um novo olhar sobre a sustentabilidade:

Dando nó em pingo d’água

Edilson nasceu e cresceu em Toritama, uma cidadezinha muito pequena no interior de Pernambuco. Naquela época, Toritama era um lugar pobre, esquecido e que sofria com a seca. Hoje, Toritama é um importante pólo da indústria têxtil e é conhecida por exportar tecidos, roupas, jeans e confecções para todo o Nordeste. Toritama hoje é responsável por boa parte do PIB do Estado de Pernambuco, com uma economia ativa que trouxe muitas melhorias na qualidade de vida para a população. Edilson participou ativamente e é um dos responsáveis por essa “revolução silenciosa” de Toritama. Em sua fala, ele conta como isso foi possível graças ao empreendedorismo criativo e sustentável.

Como se sabe, a indústria têxtil usa muita água para a lavagem dos tecidos. Mas Toritama é um município que sempre sofreu com a escassez de água. A seca era tão grave que nem mesmo poços artesianos podiam ser cavados. Por mais fundo que se escavasse, não se encontrava água. As escavações sempre “davam na pedra”, como popularmente se dizia. Como fazer essa indústria crescer sem um grande volume de água disponível? É aí que entra em cena a criatividade desse grande espírito empreendedor. Dono de uma pequena lavanderia (pequena na época), Edilson implantou um inovador sistema de reciclagem de água em Toritama. A mesma água usada na lavagem dos tecidos ia para uma estação de tratamento e voltava para ser reutilizada. Com isso, a lavanderia de Edilson economizou muita água e dinheiro, puxando para cima a economia da cidade. Atualmente, Edilson é presidente do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções em Pernambuco. Ele foi o fundador e 1° Presidente da ACIT (Associação Comercial e Industrial de Toritama).

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PIQUENIQUE AO PÔR DO SOL

Pontualmente às 17 horas, as palestras foram interrompidas para um intervalo de uma hora. Todos já estavam famintos quando soubemos da grata surpresa: O G1 (portal de notícias da Globo) havia patrocinado um piquenique. Na saída do teatro, cada participante do evento recebeu uma sacolinha cheia de comidas deliciosas. Mais à frente, cada um recebeu uma latinha de refrigerante e nos dirigimos ao gramado do parque Dona Lindú, onde já haviam centenas de toalhas espalhadas no chão à nossa espera. Foi um momento muito agradável poder comer, conversar e curtir o pôr do sol do Recife cercado de gente interessante.

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FRANCISCO CUNHA

Um novo olhar sobre a mobilidade:

Ei, devolve a minha calçada!

O arquiteto Francisco Cunha nunca gostou de carro. Ele prefere andar a pé. Afinal de contas, “andar é o exercício físico mais natural que existe”. Mais do que isso: para ele, “andar sobre as duas pernas é o que nos torna humanos”, diferenciando-nos dos outros animais. Convicto desse fato, ele recomenda: “Nunca pare pra pensar: pense andando mesmo”. Francisco lamenta que muitos de nós têm, talvez por falta de segurança, abandonado o hábito de andar pela cidade. Acordamos, vamos até a garagem, entramos no carro e saímos com os vidros fechados e o ar ligado até o trabalho. Chegando lá, pegamos um elevador até o escritório para trabalhar o dia todo e depois voltar pra casa pelo mesmo “túnel refrigerado” que nos isola das ruas, da cidade. Francisco acredita que esse é o motivo de darmos tão pouca importância aos pedestres, calçadas e ciclovias.

Com o intuito de conscientizar os motoristas, Francisco Cunha criou a Multa Cidadã, uma notificação simbólica que todos os pedestres de Recife podem aplicar aos carros que estacionarem nas calçadas. É claro que a tal multa não tem valor oficial e que os motoristas não ficam obrigados a pagar nada nem perdem pontos na carteira se receberem uma dessas, mas agora os recifenses têm uma maneira muito mais organizada de protestar contra os abusos de motoristas infratores. O projeto Multa Cidadã deu certo: foi aprovada e muito bem recebida pela população do Recife, é amplamente divulgada nas redes sociais e já estampou as manchetes dos principais jornais e portais de notícias locais. A “revolução silenciosa” iniciada por um cidadão inconformado se espalhou e está transformando a cidade. Isso é lindo de se ver!

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WILSON DE OLIVEIRA JÚNIOR

Um novo olhar sobre a medicina:

Você pode me ouvir, doutor?

Wilson de Oliveira Júnior é médico, professor de cardiologia da Universidade de Pernambuco (UPE) e foi presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática. Sua missão no TEDx Recife 2014 foi alertar a todos nós (pacientes em potencial) acerca dos nossos direitos quando procuramos atendimento médico. Segundo ele, todo médico têm o dever moral e a obrigação legal de, antes de qualquer exame ou diagnóstico, ouvir o paciente, prestando muita atenção às suas queixas. Wilson lamenta que muitos médicos hoje em dia, devido ao grande número de atendimentos a realizar por plantão, nem sequer ouvem mais os seus pacientes.

Isso é reflexo, segundo ele, da sociedade moderna, que parece estar acometida de “obesidade tecnológica e desnutrição humana”. Temos as mais precisas e avançadas tecnologias nos hospitais para tratar o corpo, mas está em falta o lado humano, do médico disposto a ouvir e tratar também a alma do paciente. Diante disso, Wilson propõe, tanto a pacientes como a colegas médicos, que a medicina seja praticada de maneira menos mecânica e mais humanitária e holística. Ele defende uma medicina de inspiração grega, como fazia Hipócrates (460-377 a.C.). Afinal, o ser humano não é apenas uma máquina, para ser “consertado” na oficina quando dá defeito; ele também tem alma, e esta é inclonável.

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DEBORAH ZANFORLIN

Um novo olhar sobre a esperança:

Biossensores, o sonho de uma vida longa e saudável

Biomédica por formação, Deborah atualmente está cursando doutorado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na área biotecnologia e nanotecnologia. O seu projeto é a criação de um sistema de diagnóstico rápido, portátil, seguro e indolor para uma das doenças que ainda perturbam nossa sociedade, o câncer de mama. Este biossensor se parece muito com aquele usado por diabéticos para medir instantaneamente a concentração de glicose no sangue. A boa notícia é que, graças ao trabalho de Deborah e sua equipe, esse aparelho já existe e está em fase de testes. Além do aparelho de diagnosticar câncer de mama, ela revelou que pretende dedicar a sua vida às pesquisas e ao desenvolvimento de outros tipos de biossensores, que no futuro serão capazes de detectar de forma rápida e com muita antecedência outros tipos de doenças. Em suma, Deborah se dedica a realizar o sonho de uma vida longa e saudável através da cura de doenças por meio de biossensores.

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OUTROS PALESTRANTES

Além desses, outros seis palestrantes subiram ao palco do TEDx Recife 2014 para contar suas histórias inspiradoras: A publicitária e blogueira Clarice Freire, criadora do blog Pó de Lua, apresentou “um novo olhar sobre a literatura”. O professor e jornalista Gabriel Marquim, fundador da Comunidade dos Viventes (associação católica aberta ao ecumenismo) e do Projeto Vincular (que faz um belo trabalho social), falou do seu “encontro revolucionário com a fé”. O consultor Fernando Félix falou sobre superação, contando sua história e fazendo uma analogia com os quatro cavaleiros do Apocalipse. O professor, publicitário e administrador Fernando de Holanda trouxe “um novo olhar sobre a política”. Ruy Belfort propôs “um novo olhar sobre a educação”. E a empresária e consultora Verena Petitinga se dirigiu em especial às mulheres e deu dicas de “empreendedorismo feminino”.

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