O que temos a perder

A nossa civilização é mais preciosa e mais frágil do que a maioria das pessoas supõe.
É o que defende o médico britânico Theodore Dalrymple no artigo abaixo, publicado originalmente no City Journal no outono de 2001. O texto foi traduzido na íntegra por Aluízio Couto e publicado no portal Crítica na Rede.


Sempre que nos informamos de acontecimentos que abalam o mundo, de catástrofes ou massacres, tendemos não apenas a sentir vergonha das preocupações rabugentas que temos com nossos problemas secundários, mas também a questionar o valor mais geral de todas as nossas atividades. Não sei se, como se diz, as pessoas que encaram a morte de perto por alguns segundos vêem, diante de si, um flash de suas vidas e sobre elas emitem um juízo final; mas sempre que escuto algo assim reflito sobre a minha própria vida e detenho-me um pouco na insignificância dos meus esforços, no egoísmo dos meus interesses e na estreiteza das minhas simpatias.

Foi o que aconteceu quando soube do atentado ao World Trade Center. Eu me ajeitava para escrever a resenha de um livro: não de um grande trabalho, mas de uma biografia competente, cuidadosa e um pouco aborrecida de uma figura histórica não muito relevante. O que poderia ser menos importante do que essa atividade quando comparada com o terrível destino de milhares de pessoas presas nos prédios em chamas — e que logo implodiriam? Uma resenha de livro, comparada às mortes de mais de trezentos bombeiros que perderam a vida cumprindo seu dever, sem falar nas outras milhares de perdas? Qual era o sentido de terminar uma tarefa tão insignificante quanto a minha?

No meu trabalho como médico de uma prisão, salvo umas poucas vidas por ano. Quando me aposentar, não terei salvo em toda a minha carreira a quantidade de vidas que foram perdidas em Nova York naqueles momentos horríveis, mesmo contando o tempo em que passei na África, onde era ridiculamente fácil, com os recursos médicos mais simples, salvar uma vida humana. Quanto ao que escrevo, talvez não tenha o peso de um grão de poeira numa balança: o que faço agrada a alguns, enraivece outros e é desconhecido da vasta maioria de meus vizinhos mais próximos, para não falar de círculos mais amplos. Impotência e futilidade são as duas palavras que vêm ao espírito.

E mesmo enquanto penso sobre mim, uma imagem é recorrente: a da pianista Myra Hess tocando Mozart na Galeria Nacional de Londres enquanto as bombas caíam sobre a cidade durante a Segunda Guerra Mundial. Nasci depois do fim da guerra, mas o heroísmo sereno daqueles concertos e recitais, transmitidos para todo o país, era ainda simbolicamente forte durante minha infância. O gesto de Myra Hess se tornava ainda mais forte porque ela era judia e o antissemitismo do inimigo era central na sua depravada visão do mundo; e também porque a música que ela tocava — uma das conquistas mais sublimes dentre as realizações humanas — emanava da mesma terra natal do líder dos inimigos, que representava as profundezas da barbárie.

Ninguém perguntou “Para quê esses concertos?” ou “Por que razão tocar Mozart quando o mundo está em chamas?”. Ninguém pensou “Quantas divisões militares tem Myra Hess?” ou “Qual é o poder de fogo de um rondo de Mozart?”. Todos entenderam que esses concertos eram, não no sentido material ou militar, um gesto desafiador de humanidade e cultura em face da brutalidade sem precedentes. Eram acerca do que estava em causa na guerra. Uma afirmação da crença de que nada poderia ou poderá corromper o valor da civilização; e de que nenhum revisionismo histórico, por mais cínico que seja, jamais subverterá essa nobre mensagem.

Lembro-me também de uma história contada pelo filósofo Karl Popper, um refugiado austríaco que fez da Grã-Bretanha o seu lar. Quatro homens cultos aguardavam, em Berlim, a sua esperada prisão pela Gestapo. Decidiram passar sua última noite juntos — possivelmente a última na Terra — tocando um quarteto de Beethoven. Não foram presos naquela noite, mas também expressaram com essa ação a fé de que a civilização transcende a barbárie, de que não obstante a aparente inabilidade da civilização de, naquela altura, resistir às investidas dos bárbaros, ainda valia a pena defendê-la. De fato, é a única coisa que vale a pena defender, porque é o que dá sentido às nossas vidas.

É claro que a civilização não diz respeito somente ao cultivo daquilo que há de mais sublime nas conquistas humanas. Para a sua manutenção, depende de um tecido infinitamente complexo e delicado de relações e atividades, algumas modestas e outras grandiosas. O homem que varre as ruas faz a sua parte tanto quanto o maior artista ou pensador. A civilização é a soma total de todas aquelas atividades que permitem ao homem transcender a mera existência biológica e procurar uma vida mental, estética, material e espiritual mais rica.

Cultivar as grandes realizações culturais é, assim, uma condição necessária, mas não suficiente, da civilização — conta-se que comandantes de campos de concentração choravam à noite ao som de Schubert, após um duro dia de matança em massa. Ninguém chamaria civilizados a esses homens. Pelo contrário, assemelhavam-se mais aos bárbaros antigos que, após invadirem e saquearem uma cidade civilizada, viviam em suas ruínas porque eram muito melhores do que qualquer coisa que eles poderiam construir por conta própria. A primeira exigência da civilização é que os homens estejam dispostos a reprimir os seus instintos e apetites mais baixos: falhar nisso faz deles, precisamente porque são inteligentes, muito piores do que meras bestas.

Com exceção de um problema emocional ou outro, cresci em circunstâncias confortáveis e seguras. Mas a consciência da fragilidade da civilização foi-me incutida desde cedo, mesmo que subliminarmente, pela presença, na Londres da minha infância, de vários locais atingidos por bombas que não haviam sido reconstruídos — eram como lacunas entre os dentes apodrecidos na boca de um velho. Com frequência, eu brincava em pequenas vastidões urbanas de ervas daninhas e cascalho. Ao mesmo tempo, lamentava o desaparecimento gradual desses lugares; mas mesmo assim era difícil não ver nos fragmentos de artefatos humanos quebrados e no gesso com papéis de parede ainda colados o significado da destruição que tinha ocorrido ali antes do meu nascimento.

Existiam também os abrigos onde, durante a infância, passei muito tempo. Eram onipresentes no meu pequeno mundo: nos pátios da escola e nos parques, por exemplo. O fato de o acesso ser proibido tornava-os irresistivelmente atraentes. A sua escuridão e umidade que exalava fungos atraíam-nos ainda mais: eram prazerosamente assustadores; jamais se sabia exatamente quem ou o que se poderia encontrar neles. Se eu tivesse tendência para fumar em vez de uma aversão instantânea à nicotina, seria nesses lugares — tal como ocorreu com vários amigos — que teria aprendido a fumar. Além disso, várias descobertas sexuais ocorreram nesses ambientes inóspitos.

No entanto, a despeito de como usávamos os abrigos, sempre soubemos do propósito da sua construção. De alguma forma, ainda estavam presentes as sombras daqueles que há não muito tempo ali se abrigaram. A Blitz estava na memória de cada adulto vivo: o prédio onde ficava o apartamento de minha mãe havia sido bombardeado. Quando ela acordou, metade estava destruído e um dos quartos se abria diretamente para o ar. Na minha casa, tal como em várias outras, havia vários volumes pictóricos de histórias da guerra, e eu me debruçava sobre eles durante manhãs e tardes inteiras até conhecer cada imagem de cor. Nunca me esquecia de uma quando eu e meus amigos entrávamos nos abrigos: a de duas crianças, ambas cegas, num desses abrigos, inclinando para cima os seus olhos que nada podiam ver em direção ao som das explosões que ocorriam sobre elas, e um olhar dilacerante de incompreensão nas suas faces.

Mais do qualquer outra coisa, entretanto, o fato de a minha própria mãe ser refugiada da Alemanha nazista contribuiu para a minha consciência de que a segurança — a sensação de que nada poderia mudar seriamente para pior e de que a vida que se tinha era invulnerável — era ilusória e até mesmo perigosa. Ela mostrou-me fotografias da sua vida na Alemanha pré-nazista: pelo que se via, era uma existência prosperamente burguesa, com choferes e carros grandes, patriarcas em golas altas exibindo os seus cigarros, mulheres em boás de pena, piqueniques à beira dos lagos, inverno nas montanhas, e assim por diante. Havia fotos do meu avô, um médico condecorado pelos seus serviços militares durante a Primeira Grande Guerra, no seu uniforme militar.

E então, repentinamente, nada: um longo silêncio pictórico até a minha mãe emergir numa vida menos luxuosa e mais comum. Ela deixara a Alemanha aos dezassete anos e jamais viu os seus pais novamente. Se isso poderia acontecer com ela, por que não poderia acontecer comigo ou com qualquer outra pessoa? Eu não acreditava que aconteceria, mas também nem ela e nem ninguém acreditou. O mundo, ou aquela pequena parte habitada por mim, que parecia tão estável, calma, sólida e confiável — e até enfadonha — tinha fundações mais frágeis do que a maioria das pessoas estaria disposta a supor.

Assim que pude, comecei a viajar. Tédio, curiosidade, descontentamento, um gosto pelo exótico e pelo questionamento filosófico me guiaram. Pareceu-me que a comparação era o único meio de conhecer o valor das coisas. Mas viajar é como a boa sorte no famoso comentário de Louis Pasteur: favorece apenas o espírito preparado. Em certa medida, o que trazemos de uma viagem é somente o que levamos. Escolhi os países com um cuidado algo inconsciente e dessa forma tive várias lições sobre a fragilidade da ordem humana, especialmente quando esta é corroída em nome do abstrato ideal de justiça. Na maioria das vezes é mais fácil gerar um desastre total do que uma melhoria modesta.

Muitos dos países que visitei — Irã, Afeganistão, Moçambique — rapidamente degeneraram no mais terrível caos. A paz nesses países sempre fora frágil, é claro: mas o que não é? Aprendi que a paixão por destruir, longe de ser “também” construtiva, como na famosa e estúpida frase do anarquista russo Bakunin, rapidamente se torna autônoma, sem qualquer outro propósito que não o prazer da pura destruição. Lembro-me, por exemplo, de ter visto arruaceiros no Panamá estourando vidros de lojas supostamente em nome da justiça e da democracia. No entanto, riam enquanto o faziam e procuravam mais vidros para destruir. Vários eram claramente burgueses, rebentos de famílias privilegiadas, como muitos líderes de um bom número de movimentos destrutivos ao longo da história moderna. Nessa mesma noite, jantei num restaurante caro e reparei que lá estava um comensal que há poucas horas eu vira arremessar alegremente um tijolo numa janela. Quanta destruição ele pensava que seu país poderia suportar antes de a sua própria vida ser afetada, e a sua existência comprometida?

Enquanto via os arruaceiros em ação, lembrei-me de um episódio da minha infância. O meu irmão e eu levamos um rádio para o gramado de casa e lá, com marretas, esmagamo-lo até reduzi-lo a milhares de pedaços. Com uma fúria agradável e vingativa — como se executássemos uma tarefa valorosa — perseguimos com as nossas marretas cada componente até torná-los irreconhecíveis. O prazer que sentimos foi indescritível; mas não tínhamos ideia de onde ele surgira e o que significava. Dentro das nossas pequenas almas, civilização e barbárie lutavam. E se não tivéssemos sofrido qualquer castigo, suspeito que a vitória temporária da barbárie teria sido mais duradoura.

Mas por que sentimos que deveríamos nos revoltar assim? Como isso ocorreu há muito tempo, não consigo reconstruir meus pensamentos e sentimentos com precisão, mas suspeito que rebelamo-nos contra a nossa própria falta de poder e liberdade, quando comparadas à onipotência e total liberdade de ação dos adultos. Queríamos crescer e ser como eles, livres para fazer o que quiséssemos e, da mesma forma que faziam conosco, poder dar ordens aos outros. Nunca suspeitamos que a maioridade traria as suas próprias frustrações, responsabilidades e dificuldades: queríamos que chegasse o tempo em que os nossos próprios caprichos seriam a lei, quando nossos egos poderiam ir até onde quisessem. Até então, no entanto, o máximo que podíamos fazer era rebelar-nos contra um símbolo de sujeição aos outros. Se não podíamos ser como os adultos eram, podíamos ao menos destruir uma pequena parte do mundo deles.

Em muitos países, vi a revolta contra a civilização e as dificuldades e frustrações que se seguem disso, mas em nenhum lugar vi isso de forma mais clara do que na Libéria, enquanto ocorria a guerra civil. Cheguei em Monróvia quando já não havia eletricidade nem água corrente. E também nenhuma loja, nenhum banco, nenhum telefone e nenhum correio; nenhuma escola, nenhum meio de transporte, nenhuma clínica e nenhum hospital. Quase todos os prédios estavam parcial ou completamente destruídos e o que não tinha sido destruído tinha sido saqueado. Inspecionei o que restava das instituições públicas. Tinham sido destruídas com uma determinação que não poderia resultar apenas do conflito militar. Todos os equipamentos dos hospitais foram cuidadosamente desmontados para lá da possibilidade de conserto. Todas as rodas de todas as macas foram serradas com cortadores que devem ter exigido um considerável esforço físico. Era como se uma horda de pessoas com experiências terríveis com hospitais, médicos e remédios tivesse passado ali para se vingar.

Mas essa não era a explicação, uma vez que todas as outras instituições sofreram o mesmo tipo de destruição. Todos os livros da biblioteca da universidade foram, sem exceção, puxados das prateleiras e empilhados em montes, muitos deles com páginas arrancadas ou com suas espinhas deliberadamente quebradas. Era a vingança dos bárbaros contra a civilização, dos sem poder contra os poderosos, ou ao menos contra aquilo que pensavam ser a fonte de poder dos poderosos. A ignorância se revoltou contra o conhecimento pelas mesmas razões que eu e meu irmão destruímos o rádio na infância. Poderia haver um exemplo mais claro do ódio do rasteiro contra o refinado?

E, de fato, havia — e não muito longe dali, num prédio chamado Centennial Hall, onde as cerimônias de posse dos presidentes da Libéria ocorriam. Com exceção da presença dos bustos de alguns dos presidentes anteriores, alguns derrubados, e de um piano de cauda Steinway, o salão principal estava vazio. O piano era provavelmente o único instrumento do tipo no país inteiro e ocupava dois terços da entrada do salão. No entanto, não estava intacto: as suas pernas haviam sido serradas e o corpo do piano repousava no chão como uma baleia encalhada. Em volta dele estavam não apenas as pernas serradas, mas também fezes humanas. Eu jamais vira uma rejeição tão gráfica ao refinamento humano.

Tentei imaginar outros significados possíveis para a cena, mas não consegui. Obviamente, o piano representava uma cultura que não era totalmente liberiana e que não estava completamente assimilada por todos ali. Mas, no caso, dada a própria grosseria do gesto de desprezo, era óbvio que o piano representava não uma cultura particular, mas sim a própria ideia de civilização. Embora chocado com a cena no Centennial Hall, choquei-me ainda mais com a reação de dois jovens jornalistas britânicos que também estavam em Monróvia, para quem eu a descrevi pensando que eles gostariam de vê-la por si próprios. Eles, no entanto, não conseguiam ver nada de significativo no ato de vandalismo contra o piano — apenas um objeto inanimado, quando tudo já está dito e feito — no contexto de uma guerra civil em que dezenas de milhares de pessoas foram mortas e muitas outras arrancadas das suas casas.

Não conseguiam ver qualquer conexão entre o impulso de destruir o piano e o impulso de matar; nenhuma conexão entre o respeito pela vida humana e pelo que de mais fino o trabalho humano produz; nenhuma conexão entre a civilização e a inibição de matar semelhantes; nenhuma conexão entre queimar livros na Alemanha nazista e as barbaridades cometidas posteriormente pelo regime. Da mesma forma, não lhes transmitia qualquer mensagem ou significado o fato de os Guardas Vermelhos terem destruído milhares de pianos enquanto matavam um milhão de pessoas. Simplesmente “compreendiam” a destruição do piano no Centennial Hall e até simpatizavam com ela.

A principal causa da guerra civil da Libéria, disseram, era o longo predomínio de uma elite — tal como frequentemente se diz que a pobreza é a principal causa do crime. O piano, visto dessa perspectiva, era um instrumento tanto musical quanto político daquela elite e, portanto, sua destruição era em si um passo em direção à democracia, uma expressão da vontade geral. Esse modo de pensar sobre a cultura e a civilização — só possível para aqueles que acreditam que os confortos e benefícios de que gozam são imortais e indestrutíveis — tornou-se quase um padrão entre a intelligentsia das sociedades ocidentais. A própria palavra “civilização” raramente aparece em textos acadêmicos e no jornalismo sem o uso irônico das aspas, como se a civilização fosse uma criatura mítica, como o Monstro do Lago Ness ou o Abominável Homem das Neves. Acreditar nela seria, assim, um sinal de ingenuidade filosófica.

Episódios brutais, bastante frequentes na história, são tratados como demonstrações de que a civilização e a cultura são uma fraude, uma mera máscara para interesses materiais crassos — como se houvesse alguma proteção contra a permanente tentação do homem para a brutalidade que não o seu empenho na procura da civilização e da cultura. Ao mesmo tempo, as conquistas são encaradas como garantidas, como se estivessem ali desde o início dos tempos, como se o estado natural do homem fosse o conhecimento e não a ignorância, a riqueza e não a pobreza, a tranquilidade e não a anarquia. Segue-se que nada requer ou é digno de proteção e preservação porque tudo o que é bom surge como um presente gratuito da Natureza.

Parafraseando Edmund Burke (1757-1797), tudo o que é necessário para o triunfo da barbárie é que os homens civilizados nada façam: no entanto, nas últimas décadas os homens civilizados têm feito pior do que nada: têm andado de mãos dadas com os bárbaros. Negam a distinção entre superior e inferior, o que invariavelmente beneficia o último. Negam que as maiores realizações culturais da humanidade são superiores ao entretenimento mais efêmero e vulgar; negam também que o trabalho científico de homens brilhantes resulta num entendimento objetivo da natureza e, como Pilatos, tratam a questão da verdade como se fosse uma brincadeira.

Acima de tudo, negam a importância de como as pessoas conduzem as suas vidas pessoais caso a depravação seja consentida. O último objeto do desconstrucionismo que varre a academia como uma epidemia tem sido a própria civilização. Ao mesmo tempo, narcisistas na academia tentam encontrar justificação teórica para a sua própria revolta contra os limites exigidos pela civilização. E assim a verdade óbvia — de que é necessário reprimir, pela lei ou pelo costume, a permanente possibilidade da natureza humana de ser brutal e bárbara — nunca chega à imprensa ou aos outros meios de comunicação.

Nessa última década, tenho observado de perto, a partir da posição privilegiada que a prática médica proporciona, os efeitos que a erosão dos padrões civilizados de conduta, promovida por intelectuais, tem numa parte suscetível e grande da população. Se Joseph Conrad procurasse nos dias de hoje o coração das trevas — a perversidade da conduta humana quando não teme a sanção externa ou a censura moral interna — a observação de uma cidade inglesa como a minha seria suficiente. E como não levar a sério a procura das origens e ramificações desse mal, quando em cada dia de trabalho me deparo com histórias como uma que ouvi hoje, neste mesmo dia em que escrevo estas palavras?

O caso envolve um rapaz de vinte anos que tentou se matar, ainda vivendo com a mãe. Não muito antes, o atual namorado dela, um bêbado contumaz dez anos mais novo, atacou-a num acesso de ciúmes na presença do jovem. O homem agarrou a mulher pelo pescoço, estrangulando-a. O rapaz tentou intervir, mas o namorado, além de quinze centímetros mais alto, era muito mais forte. Jogou o rapaz no chão e pontapeou a sua cabeça várias vezes. Depois, arrastou-o para fora de casa e esmagou-lhe a cabeça contra o chão. Só parou quando o rapaz estava inconsciente e com uma ferida profunda, da qual jorrava sangue. O jovem recuperou a consciência na ambulância, mas a sua mãe pediu-lhe que não desse queixa à polícia. Se o fizesse, o namorado seria preso.

Ela não queria desistir de um homem que era, como havia dito à irmã de onze anos do jovem, “uma foda melhor do que o seu pai”. Um pequeno prazer animal significava mais para essa mãe do que a vida do filho e assim ele foi confrontado com a perspectiva assustadora de que, nas palavras de Joseph Conrad, nascera sozinho, vivera sozinho e morreria sozinho. Quem, ao ouvir casos assim dia após dia, como tenho ouvido, poderia deixar de especular sobre as ideias e arranjos sociais que ajudaram a disseminar uma conduta tão vil que a sua mera contemplação produz quase náusea física? Como não pensar em quem é mais culpado, se o homem que se comporta do modo como descrevi ou a mãe que aceita tal comportamento em troca de alguns momentos de prazer?

Essa brutalidade é agora um fenômeno de massa e não o sinal de psicopatologia individual. Recentemente, fui a um jogo de futebol na minha cidade a pedido de um jornal; os fãs do time adversário tiveram de ser separados por centenas de policiais posicionados à moda militar. A polícia não permitia qualquer contato entre as facções adversárias, conduzindo ou encurralando os torcedores visitantes para que ficassem em seus respectivos lugares — o que foi feito com mais precauções de segurança do que aquilo que é exigido para lidar com o mais perigoso dos criminosos. No estádio, sentei-me perto de um homem que aparentava ser perfeitamente normal e decente e do seu filho de onze anos, que, por sua vez, parecia um garoto bem comportado. Subitamente, no meio do jogo, o pai deu um salto e, em uníssono com milhares de torcedores, começou a entoar cânticos agressivos num gesto bastante ameaçador direcionado aos torcedores adversários que se assemelhava de modo incomum a uma saudação fascista.

Era esse o exemplo que ele queria dar ao filho? Pelo visto, sim. E as frustrações da pobreza dificilmente poderiam explicar a sua conduta: o preço dos ingressos alimentaria adequadamente uma família por uma semana. Depois do fim do jogo, vi com uma clareza inédita que a “fina linha azul” [expressão britânica popularmente aplicada à polícia, uma tênue linha de homens cuja presença impede que a sociedade organizada se transforme num caos completo] não se trata apenas de uma simples metáfora. Não fosse pela presença da polícia, teria havido violência, derramamento de sangue e mortes. A diferença entre um evento pacífico e um terminado em mutilação, destruição, prejuízo e morte era a presença de um punhado de homens decididos a cumprir o seu dever.

Recentemente, no aeroporto, reparei na propaganda de um fabricante de camisas e gravatas finas cuja sede é na área mais cara de Londres. O modelo que escolheram para promover os seus produtos era um monstro de cabeça raspada, tatuado e com cicatrizes na cabeça obtidas em brigas de bar — o tipo de ser humano que bate em mulheres, anda com facas e distribui socos em jogos de futebol. A propaganda não é irônica, tal como alguns críticos culturais e acadêmicos fingiriam acreditar, mas antes uma rendição e adulação ao que há de mais grosseiro e brutal. A brutalidade está na moda. Se pudermos tirar algo de bom do terrível acontecimento em Nova York, que seja isso: os nossos intelectuais deveriam perceber que vale a pena defender a civilização, e que posicionar-se contra a tradição não é sinal de sabedoria e virtude. Temos muito a perder.

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