O que é um pesquisador do CNPq?

Artigo de opinião do professor Adonai Sant’Anna, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), publicado no blog Matemática e Sociedade.

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) é um dos principais órgãos federais de fomento à pesquisa no Brasil. No entanto, já está bastante claro que a ciência brasileira passa por um período de grave crise, com periódicos especializados sendo citados na revista britânica Nature por fraude, número de citações a pesquisadores brasileiros caindo no mundo inteiro, crescente desinteresse dos jovens por ciências exatas e biológicas, entre outros exemplos. Portanto, acredito que seja importante promover uma análise sobre o complexo perfil de órgãos como o CNPq. Afinal, quando o CNPq avalia o mérito de uma proposta de desenvolvimento científico e tecnológico, o que exatamente é levado em consideração?

Para aqueles que não sabem, o CNPq oferece bolsas de produtividade em pesquisa para profissionais do mundo acadêmico brasileiro (o que naturalmente inclui a concessão de bolsas para estrangeiros). Isso significa que todos nós pagamos, através de impostos, para que certas pessoas façam avançar o conhecimento científico e tecnológico de nossa nação e do mundo. No entanto, no site do CNPq não há informações detalhadas sobre o destino dessas verbas federais. Quem recebe essas bolsas? Por que alguns recebem este tipo de apoio e outros não? Quais são os critérios usados para a concessão de bolsas? Importante também frisar que a concessão de bolsas não tem reflexos apenas sobre os cofres públicos e o bolso de quem recebe. Bolsas para pesquisadores apresentam reflexos muito visíveis em instituições nas quais eles estão lotados, bem como em grupos de pesquisa.

Sozinho, não tenho condições de avaliar bolsistas do CNPq em todas as áreas e modalidades. Os motivos são dois: (1) não tenho em mãos todas as informações necessárias e (2) não tenho condições de processar todas essas informações sem ajuda. Por isso escolhi, por enquanto, uma única área do conhecimento para promover uma primeira análise: filosofia. Tenho comigo a lista de todos os bolsistas de produtividade em pesquisa na área de filosofia, em nosso país. São, no total, 140. Para esta postagem decidi analisar prioritariamente os 13 bolsistas nível 1A em filosofia. 1A é o nível mais elevado das bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq.

A questão que levanto é a seguinte: Existe sintonia entre as exigências do CNPq para a concessão de bolsas de pesquisa e as demandas da comunidade acadêmica internacional? Se houver tal sintonia, parabéns ao CNPq! Afinal, ciência e filosofia são edificantes quando não estão sujeitas a fronteiras ditadas por divisões políticas, crenças pessoais, linguagem ou outros fatores sociais produzidos pela arbitrariedade humana. No entanto, encontrei fortes evidências de que o CNPq sustenta parte significativa de suas políticas de apoio à pesquisa em bases que pouco têm a ver com as tendências acadêmicas em escala global. Como fiz a análise? Simplesmente comparei informações fornecidas pelos próprios pesquisadores na Plataforma Lattes (também de responsabilidade do CNPq!) com informações disponíveis em Web of Knowledge. Web of Knowledge (que abrevio como WoK) é um site de acesso restrito no qual consta a verdadeira produção científica relevante de todos os pesquisadores do mundo.

Neste momento, portanto, convém que eu qualifique dois adjetivos: (1) Afirmo que as informações disponíveis em WoK são verdadeiras no sentido de serem obtidas diretamente a partir dos periódicos especializados que publicam resultados de pesquisas. Como a Plataforma Lattes está vergonhosamente infestada de mentiras (titulações falsas, publicações que nunca aconteceram, entre outras), a comparação entre essas duas fontes é fundamental para apurar fatos. (2) Afirmo que a produção científica e tecnológica reportada em WoK é relevante no sentido de espelhar a produção que atende a parâmetros mínimos de qualidade editorial acadêmica. É claro que existem periódicos especializados importantes ainda não indexados em WoK, assim como existem periódicos de qualidade questionável que estão indexados. No entanto, WoK ainda é a fonte mais confiável para uma primeira avaliação, tanto de produção científica e tecnológica quanto de impacto de pesquisas.

Vale observar ainda que, usualmente, produção científica original e relevante se faz através da publicação de artigos em periódicos especializados de circulação internacional, com corpo editorial e sistema de referees. E filosofia, no âmbito internacional, não é exceção. Espero não ter que discutir sobre este ponto com eventuais críticos pré-programados com discursos vazios, repetitivos e sem sintonia com a realidade mundial. Pois bem. Neste link estão os 13 bolsistas de produtividade em pesquisa nível 1A do CNPq, na área de filosofia. Em suma, salvo raríssimas exceções, os pesquisadores nível 1A do CNPq em filosofia estão isolados demais do mundo. Isso, na prática, reflete em isolamento do Brasil. Afinal, essa gente exerce considerável influência sobre jovens universitários. Espero que o exemplo aqui dado seja seguido por outros. A academia brasileira está doente. Precisamos tratá-la, antes que seja tarde demais. Para acompanhar algumas críticas a esta postagem, clique aqui.

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