O que é o plágio científico?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Alguns cientistas parecem ter entendido errado a Lei de Lavoisier e os casos de plágio no meio acadêmico aparentemente se tornam cada vez mais frequentes. Ou, pelo menos, cada vez mais fáceis de detectar. Contudo, neste artigo não analisarei o suposto crescimento do plágio científico, mas sim sua definição, algumas de suas formas mais comuns e suas principais consequências, a fim de ajudar os aspirantes a cientista a não incorrem nesse erro, mesmo que involuntariamente. Convém lembrar que o plágio científico, no fundo, é como qualquer outro tipo de plágio: trata-se da reprodução de uma obra alheia, sem atribuição de créditos e muito menos permissão. Ou seja, o plágio acontece quando algum cientista tem o trabalho de desenvolver uma hipótese, teoria, método, análise ou mesmo um trabalho completo (por exemplo, um artigo, uma tese ou um livro), e outro cientista simplesmente copia essa obra intelectual e a publica como se fosse sua.

Vale lembrar que mesmo uma frase pescada em um artigo é uma obra intelectual e, quando citada literalmente, deve vir entre aspas e acompanhada da devida citação. Infelizmente, alguns alunos, por inexperiência e falta de orientação adequada, cometem o erro de copiar algumas frases ou mesmo parágrafos inteiros de obras de referência sem citar sua fonte, especialmente quando têm que elaborar seus primeiros projetos de pesquisa. Isso geralmente resulta em “textos frankenstein”, que acabam ficando sem coerência, resultando em projetos mal-elaborados e com poucas chances de obter financiamento ou atingir resultados satisfatórios. Além disso, fique claro que isso também é plágio, mesmo que sem má intenção. As ideias e fatos aprendidos em trabalhos alheios devem ser lidos, digeridos e interpretados, sendo depois explicados nas palavras do próprio autor do novo texto, citando-se é claro suas fontes. Nas ciências naturais, raramente se justifica fazer uma citação literal, a não ser no caso de grandes aforismos, como o de Lavoisier, citado acima.

Fora esse tipo de plágio não-intencional, comum entre alunos de graduação, há os casos mais sérios, que resultam de má fé por parte de pós-graduandos. São as chamadas teses por encomenda, compradas em sites de “ajuda acadêmica“ na internet. Existem empresas picaretas, geralmente registradas como empresas de digitação ou editoração, que vendem TCCs, monografias, dissertações e teses completas a preço de banana. O aluno precisa apenas informar a universidade e o curso, que a empresa monta um frankenstein a partir das mais variadas fontes. Em alguns cursos e universidades, o rigor é muito baixo e as bancas de avaliação (quando existem) não levam seu trabalho a sério, deixando passar esses monstros e conferindo grau a esses alunos estelionatários (sim, isso pode ser enquadrado como crime de falsificação de documento público!). Obviamente um aluno desses não tem futuro profissional algum, apesar do diploma em mãos, pois não será capaz de desenvolver um trabalho de pesquisa por contra própria quando estiver no mercado de trabalho. Contudo, quando o aluno plagiador sai da universidade e busca outros caminhos, ele pode até se dar bem por um tempo. A presidente Dilma Rousseff foi pega em flagrante há alguns anos por ter mentido em seu currículo Lattes quanto a ter um título de doutora pela Unicamp. A mentira pode até render alguns frutos, mas tem pernas curtas, principalmente para quem quer continuar no meio acadêmico.

Um outro tipo de plágio, mais comum entre cientistas profissionais, é o “empréstimo de hipóteses”. Infelizmente, acontece às vezes de ótimas hipóteses serem publicadas em revistas pouco lidas, o que as leva a passarem despercebidas pela grande maioria da comunidade científica. Isso às vezes acontece por barreiras linguísticas, regionalismo ou má escolha da revista. Em alguns casos, maus cientistas tomam conhecimento dessas hipóteses e as reciclam em seu nome, publicando-as em revistas internacionais de maior circulação; isso obviamente é de uma desonestidade extrema. Também acontece, em alguns casos, de um cientista pegar um manuscrito para revisar (como assessor de uma revista) e notar que alguma ideia apresentada nesse trabalho era a peça que faltava num quebra-cabeças que ele mesmo estava montando. Quando o cientista é mau-caráter, ele pode até mesmo forçar a barra para que o editor da revista rejeite o manuscrito em questão (o que não é muito difícil hoje em dia), de modo a atrasar sua publicação e, assim, ganhar tempo para ele mesmo publicar a hipótese antes. Acreditem, isso é deprimente, mas acontece. Nesses casos, o cientista menor muitas vezes nem se dá conta do plágio ou se sente constrangido em brigar com um colega de maior renome, com medo da retaliação acadêmica (“o fantasma da banca futura”). Felizmente, há uma grande maioria de cientistas honestos, e alguns ajudam até mesmo a dar crédito póstumo a grandes ideias revolucionárias.

Há também um outro tipo de plágio, em que o sentido é o inverso do comentado no caso anterior. Tratam-se de casos em que uma ideia é copiada de um artigo publicado em um veículo de grande circulação, e depois é requentada em revistas menores, lidas por um público bem mais restrito e geralmente diferente do público específico original. Quando o nível de cara-de-pau chega ao extremo, acontece até mesmo de artigos inteiros serem plagiados. Na versão pirata desses artigos, o plagiador se dá ao trabalho apenas de trocar alguns termos-chave, reaproveitando até mesmo as figuras! Geralmente, esse tipo de plágio é usado para dar prestígio local a um mau cientista, que tem ambições políticas ou financeiras que podem ser alcançadas através de uma melhoria em seu currículo acadêmico. É o caso mais extremo e, portanto, o mais raro. Contudo, ele pode ter consequências muito graves, especialmente se os artigos piratas acabarem sendo usados regionalmente na tomada de decisões sobre saúde pública ou conservação da natureza, por exemplo.

Para concluir, quero deixar uma mensagem positiva. Apesar dos muitos casos de plágio e fraude científica publicados nos últimos anos, a esmagadora maioria dos trabalhos científicos é feita de forma honesta. Não porque os cientistas sejam pessoas melhores do que a média, mas porque a ciência tem mecanismos eficientes de auto-policiamento. Dentro de um campo do conhecimento científico, os especialistas geralmente estão sempre antenados com as novas descobertas, hipóteses, teorias e evidências. Portanto, sempre há uma grande chance de plágios e fraudes serem detectados ainda em estágios iniciais do trabalho científico, como a elaboração de um projeto ou a submissão de um artigo. E a facilidade atual no acesso à literatura científica torna cada vez mais eficiente o processo de detectar fraudes e erros não-intencionais em artigos já publicados, levando os mesmos a serem “despublicados”. Portanto, não há motivo para pânico ou para denegrir a imagem da ciência. Basta mantermos nossos olhos abertos, educarmos nossos alunos corretamente e termos a coragem de delatar os absurdos que virmos.

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