O humor e a língua

Artigo de Sírio Possenti, publicado na revista Ciência Hoje (nº 176) em outubro de 2001.

Há algum tempo venho estudando as piadas, com ênfase em sua constituição linguística. Por isso, embora a afirmação a seguir possa parecer surpreendente, creio que posso garantir que se trata de uma verdade quase banal: as piadas fornecem simultaneamente um dos melhores retratos dos valores e problemas de uma sociedade, por um lado, e uma coleção de fatos e dados impressionantes para quem quer saber o que é e como funciona uma língua, por outro. Se se quiser descobrir os problemas com os quais uma sociedade se debate, uma coleção de piadas fornecerá excelente pista: sexualidade, etnia/raça e outras diferenças, instituições (igreja, escola, casamento, política), morte, tudo isso está sempre presente nas piadas que circulam anonimamente e que são ouvidas e contadas por todo mundo em todo o mundo. Os antropólogos ainda não prestaram a devida atenção e esse material, que poderia substituir com vantagem muitas entrevistas e pesquisas participantes. Saberemos mais a quantas andam o machismo e o racismo, por exemplo, se pesquisarmos uma coleção de piadas do que qualquer outro corpus.

Mas as piadas também podem servir de suporte empírico para uma teoria mais aprofundada e sofisticada de como funciona uma língua, especialmente porque se trata de um corpus que, além de expor traços do que nela é sistemático (gramatical) e, paradoxalmente, ‘desarrumado’, contribui para deixar muito claro que uma língua funciona sempre em relação a um contexto culturalmente relevante e que cada texto requer uma relação com outros textos. Cada vez há mais linguistas analisando piadas, mas ainda são poucos, considerada a relevância dos dados e sua enorme capacidade de revelar aspectos inesperados do funcionamento da linguagem. Em suma, o humor interessa sobremaneira à filosofia, à psicologia, à psicanálise e à fisiologia, porque a cada um desses campos importa explicar o riso. Neste texto, tudo isso será posto de lado, para enfatizar apenas a relação entre o humor e a língua. Para isso, apresento um pequeno conjunto de piadas brevemente comentadas. Assinalo, em relação a cada uma, o tipo de ‘problema’ de língua que obriga a explicitar. É muito comum que uma piada ponha em questão mais de um aspecto do funcionamento de uma língua.

De maneira geral, talvez se possa dizer que a base da piada está no duplo sentido, mas é fundamental dar-se conta de que o duplo sentido tem muitas caras. Por exemplo, a famosa frase do humorista brasileiro Aparício Torelly, auto-intitulado Barão de Itararé (1895-1971): “Os políticos fazem na vida pública o que os outros fazem na privada”. Essa frase poderia fazer pensar que se exploram dois sentidos da palavra “‘privada”’ (como sinônimo de “particular”, e como banheiro). Mas, embora esse aspecto não esteja excluído (aliás, ele é o fundamental, porque sugere que os políticos fazem ‘baixarias’), a frase se baseia também na exploração de um fator sintático, a elipse da palavra ‘vida, sem o qual não há duplo sentido da palavra ‘privada’.

Circulam pela internet listas de palavras com definições não canônicas. Lembram dicionários, com critérios bastante peculiares. O resultado é sempre uma definição inesperada, que, no entanto, logo é compreendida (porque a analisamos competentemente). São exemplos: ‘desenvolta’ = ‘dez pessoas cercando uma’ (dez em volta); ‘pornográfico’ = representar em linguagem estatística (pôr no gráfico). A propósito desses exemplos, vale a pena assinalar dois aspectos da língua aos quais quase não prestamos mais atenção, porque pensamos que estão resolvidos ou não apresentam problemas. Um deles tem a ver com a divisão de uma sequência: quantas palavras há nela? Por que dividimos certas cadeias e não dividimos outras? Essas definições mostram que os falantes/ouvintes estão sempre trabalhando com e sobre esses materiais, tendo que decidir quais as separações que devem fazer para compreender o que ouvem: Uma criança adora uma mamadeira e um marceneiro odeia uma má madeira’.

Vejamos agora uma piada sintática: A manchete de um texto do colunista Zé Simão (Folha de S. Paulo, 23 de abril de 2001) foi: “ACM toca trombone e viola”. O ‘sentido’ da piada parecerá ser evidentemente que ‘ACM toca trombone e pratica uma violação’. Do ponto de vista gramatical, a maior parte das pessoas veria aqui um trocadilho, um duplo sentido de ‘”viola”’. Na verdade, e é isto que faz as piadas interessantes, há muito mais. Em termos gerais, são invocados dois episódios, dados como conhecidos: ACM fez denúncias contra o governo e FHC disse que se tratava de um trombone isolado (significando que seus críticos eram poucos); ACM comandou (imaginou-se isso, pelo menos) a violação do painel de votação do Senado. Do ponto de vista linguístico, pode parecer que se trata apenas de um duplo sentido de “‘viola”’ (instrumento musical e forma do verbo “‘violar”’). Mas o texto é ainda mais complexo.

No primeiro sentido, ACM toca dois instrumentos (o período é simples e o verbo tem dois objetos diretos). No segundo, ACM toca um instrumento (trombone) e viola algo não explicitado (o verbo ‘tocar’ tem um só objeto direto e o período é composto). Além disso, há uma elipse de ACM diante de “‘viola”’ e o objeto de ‘”violar”’ não é especificado. Aceitando-se que não é especificado por não ser necessário, porque todos sabem o que foi violado, entra em cena um novo ingrediente, uma nova regra, mas de outra natureza (pragmática para uns, discursiva para outros): não é necessário dizer o que é sabido; o que, no entanto, não funciona sempre, como quase todas as regras. Esse é também um exemplo de que muito frequentemente piadas estabelecem relações intertextuais (exigem conhecimentos prévios, partilhados). Por isso, muitas piadas deixam de fazer sentido em pouco tempo. É que dependem fortemente de fatores circunstanciais.

Em uma tira de Adão Iturrusgarai (Folha de S. Paulo, 07 de fevereiro de 2001), a personagem Aline prepara-se para o carnaval. Fantasia-se de galinha, aparece na sala e diz a seus dois namorados: “Que acharam de minha nova roupa? Vou sair na rua pra ver a reação do público”. Um dos namorados comenta: “Você vai chocar”. Esse exemplo representa talvez o tipo mais comum de piada, a que explora o duplo sentido de palavras. No caso, ‘”chocar”’ pode ser interpretado como ‘causar um choque, impressionar’, um comentário bem adequado em circunstâncias como a representada na tira. Mas, dada a fantasia, o leitor é levado a dar-se conta de que ‘”chocar”’ também pode significar ‘aquecer ovos, incubar’, bem típico para uma galinha.

Considere-se agora uma piada como a seguinte: “Estou com vontade de transar com a Deborah Secco de novo”. “O quê?! Você já transou com ela?!”. “Não, mas já tive vontade antes”. Evidentemente, a piada diz respeito a fantasias sexuais masculinas. Mas o que interessa, do pondo de vista da língua, são duas outras características: (1) a expressão ‘”de novo”’ indica que algo já ocorreu antes; (2) ‘”de novo”’ é uma expressão que se liga a um verbo, mas não é óbvio a qual deles, pois há dois (‘transar’ e ‘estar com vontade’). Em outros termos: temos um problema para determinar qual é o escopo de ‘”de novo”’. O mesmo fato pode ser pensado também a partir desta piadinha: “O que é que você me conta de novo?”, pergunta alguém ao encontrar um amigo. “Por que eu contaria de novo?”, responde o outro. Em geral, entendemos que a pergunta significa apenas “Qual novidade você me conta?”. Não percebemos que significa também “O que você me conta novamente?”. Talvez se possa responder que “de novo” se trata de uma expressão idiomática (que não se analisa em suas partes constituintes).

Na escola, nos perguntam pela função sintática de um termo ou expressão, mas nunca nos perguntam pelo sentido de uma sequência qualquer (oração, período), até porque as gramáticas consideram que a ambiguidade é um vício (de linguagem, mas que, de fato, é atribuído ao falante: ele pensaria confusamente), e não uma característica fundamental das línguas. A piada serve também para que façamos perguntas intrigantes: se um texto tem dois sentidos, por que em geral atribuímos a ele um só? E por que, como neste caso, descobrimos o outro apenas quando somos provocados a reanalisar o que ouvimos?

Muitas piadas trabalham a partir de um preconceito. Como esta: Na escola, a professora pede aos alunos que façam uma frase com ‘”hospedar”’. Mariazinha diz: “Os hotéis servem para hospedar os turistas”. E Joãozinho: “Os pedar de minha bicicreta tá quebrado”. A base dessa piada é o preconceito linguístico (rimos do caipira que fala ‘errado’). Observemos que há dois dados importantes aqui: a professora pediu para formar uma frase a partir de uma palavra (o verbo “‘hospedar”’) ou de uma sequência (artigo + nome)? Essa questão é fundamental para a compreensão da piada. Na escrita, tudo parece claro, pelo menos do jeito que a piada foi apresentada. Mas na fala, não. Além disso, está em questão uma variação na gramática da concordância nominal: nesse dialeto, a regra consiste em marcar o plural apenas na primeira posição, como em ‘”os menino”’.

Piadas podem explorar as palavras de muitas formas. Por exemplo, sua vaguidade, como neste exemplo: Perguntam ao padre o que ele acha do sexo antes do casamento. E ele responde: “Se não atrasar a cerimônia, tudo bem”. É mais ou menos fácil verificar que em boa medida essa piada tem a ver com nossa interpretação de “‘antes”’. O sentido usual da expressão é “‘sexo entre não casados”’; aqui, o que se explora é sua ‘extensão’, por assim dizer: “antes” tanto pode recobrir uma extensão de tempo de algumas horas como de longos períodos, até de séculos. Conta-se que um jornalista queria muito entrevistar um conhecido rabino, até que um dia lhe perguntou se podiam trocar umas ideias. O rabino respondeu que sim, mas que achava que sairia perdendo. Essa piada poderia facilmente ser interpretada como antissemita: os judeus pensam que são mais que os outros e/ou só pensam em lucros. Mas aqui vou comentar apenas seu mecanismo linguístico: o jornalista emprega um idiomatismo, ‘trocar ideias’, que significa ‘bater um papo’, ‘conversar’. Na resposta do rabino, no entanto, o verbo “trocar” é tomado em seu sentido pleno, e tem como objeto ‘as ideias’. Assim, isso significaria que ele daria as suas ao jornalista e este lhe daria as dele, e por isso sairia perdendo.

Mas a técnica da piada nem sempre é de tipo gramatical. A seguinte, por exemplo, é pragmática: Em um programa humorístico de TV, um comediante diz: “Gosto muito de falar de mim mesmo nos meus shows. É que assim eu me distingo dos outros comediantes, pois eles nunca falam de mim nos seus shows“. O texto inicial da piada induz o ouvinte a imaginar que os outros comediantes não são como esse porque não falam de si próprios. Estabelecido isso, ela obriga a um desvio, ou seja, a uma mudança de tópico. A conclusão óbvia é que uma língua não é como nos ensinaram: clara e relacionada diretamente a um fato ou situação que ela representa como um espelho. Praticamente cada segmento da língua deriva para outro sentido, presta-se a outra interpretação, por razões variadas. Pelo menos, é o que as piadas mostram. E elas não são poucas. Ou, no mínimo, nós as ouvimos muitas vezes.

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