Nietzsche sobre Heráclito de Éfeso

Trechos extraídos do livro A Filosofia na Época Trágica dos Gregos (§ 5-8), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), sobre Heráclito.


“Contemplo o devir”, diz Heráclito, e nunca alguém contemplou com tanta atenção o fluxo e o ritmo eternos das coisas. [Heráclito] negou a dualidade de dois mundos totalmente diferentes, que Anaximandro se vira obrigado a admitir; já não distingue um mundo físico e um mundo metafísico, um domínio de qualidades definidas e um domínio da indeterminação indefinível. Após este primeiro passo, também já não pôde coibir-se de uma maior audácia da negação: negou o ser em geral. Pois o único mundo que ele conservou – um mundo rodeado de leis eternas não escritas, animado do fluxo e do refluxo de um ritmo de bronze – nada mostra de permanente, nada de indestrutível, nenhum baluarte no seu fluxo. Heráclito exclamou mais alto do que Anaximandro: “Só vejo o devir. Não vos deixeis enganar! É à vossa vista curta e não à essência das coisas que se deve o fato de julgardes encontrar terra firme no mar do devir e da evanescência. Usais os nomes das coisas como se tivessem uma duração fixa; mas até o próprio rio, no qual entrais pela segunda vez, já não é o mesmo que era da primeira vez”.

(…)

O dom real de Heráclito é a sua faculdade sublime de representação intuitiva; ao passo que se mostra frio, insensível e hostil para com o outro modo de representação que se efetiva em conceitos e combinações lógicas, portanto, para a razão; parece ter prazer em poder contradizê-la com alguma verdade alcançada por intuição; e o faz com uma insolência tal, em frases como: “Todas as coisas, em todos os tempos, têm em si os contrários”, que Aristóteles o acusa de crime supremo perante o tribunal da razão, de pecado contra o princípio de contradição. (…) [Para Heráclito], tudo o que no espaço e no tempo existe só tem uma existência relativa, só existe para um outro, a ele semelhante, quer dizer, que não tenha mais permanência do que ele. (…) …matéria: todo o seu ser e a sua essência consiste, pois, apenas na modificação regular que uma parte desta matéria produz numa outra; por conseguinte, ela é, por natureza, inteiramente relativa. (…) …inconsistência total de todo o real, que somente age e flui incessantemente, sem alguma vez ser, é, como Heráclito ensina, uma ideia terrível e atordoadora, muitíssimo afim, na sua influência, ao sentimento de quem, num tremor de terra, perde a confiança que tem na terra firme.

(…)

Heráclito chegou a este ponto graças a uma observação do verdadeiro curso do devir e da destruição, que ele concebeu sob a forma da polaridade, como a disjunção de uma mesma força em duas atividades qualitativamente diferentes, opostas, e que tendem de novo a unir-se. Incessantemente uma qualidade se cinde em si mesma e se divide nos seus contrários: permanentemente esses contrários tendem de novo um para o outro. O vulgo, é verdade, julga reconhecer algo de rígido, acabado, constante; na realidade, em cada instante, a luz e a sombra, o doce e o amargo estão juntos e ligados um ao outro como dois lutadores, dos quais ora a um, ora a outro cabe a supremacia. O mel é, segundo Heráclito, simultaneamente amargo e doce, e o próprio mundo é um jarro cheio de uma mistura que tem de agitar-se constantemente. Todo o devir nasce do conflito dos contrários; as qualidades definidas que nos parecem duradouras só exprimem a superioridade momentânea de um dos lutadores, mas não põem termo à guerra: a luta persiste pela eternidade fora.

Tudo acontece de acordo com esta luta, e é esta luta que manifesta a justiça eterna. (…) …lutam entre si as qualidades, segundo regras e leis invioláveis, imanentes ao combate. As próprias coisas que a inteligência limitada do homem e do animal julga sólidas e constantes não têm existência real, não passam do luzir e do faiscar de espadas desembainhadas, são o brilho da vitória na luta das qualidades opostas. Essa luta que é própria de todo o devir, essa flutuação eterna da vitória, é assim descrita por Schopenhauer (O Mundo como Vontade e Representação, tomo I, livro segundo, parágrafo 27): “É necessário que a matéria persistente mude incessantemente de forma, porque fenômenos mecânicos, físicos, químicos, orgânicos, guiados pela causalidade, lutam com avidez pelo primeiro plano e dilaceram mutuamente a matéria, já que cada um quer manifestar a sua ideia. Este conflito pode observar-se em toda a natureza, porque também ela só existe mediante este conflito”. (…) A arena e o objeto desta luta é a matéria, que as forças naturais tentam dilacerar umas às outras, e também o espaço e o tempo, cuja união através da causalidade é precisamente a matéria. (…) É uma ideia admirável, oriunda da mais pura fonte do gênio helênico, que considera a luta como a ação contínua de uma justiça homogênea, severa, vinculada a leis eternas. (…) A própria luta dos seres múltiplos é a pura justiça! E, de resto, o uno é o múltiplo.

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O mundo que vemos só conhece o devir e a destruição e ignora o que permanece. (…) Anaximandro tinha-se precisamente abrigado das qualidades definidas, refugiando-se no seio do “Indefinido” metafísico, porque essas qualidades nascem e perecem, tinha-lhes negado a existência verdadeira e essencial; mas não parece agora que o devir é apenas o evidenciar de uma luta de qualidades eternas? (…) “O uno é o múltiplo”. As inúmeras qualidades de que podemos aperceber-nos não são essências eternas, nem fantasmas dos nossos sentidos (Anaxágoras admitira a primeira [destas possibilidades], Parmênides a segunda), não são um ser rígido e arbitrário, nem a aparência fugidia que atravessa os cérebros humanos. (…) Todos os contrários confluem numa harmonia, invisível, é verdade, ao olhar humano comum, mas inteligível para quem, como Heráclito, se assemelha ao deus contemplativo. (…) Neste mundo, só o jogo do artista e da criança tem um vir à existência e um perecer, um construir e um destruir sem qualquer imputação moral em inocência eternamente igual. E, assim como brincam o artista e a criança, assim brinca também o fogo eternamente ativo, constrói e destrói com inocência.

(…)

Para explicar agora a introdução do fogo concebido como força criadora do mundo, recordo o desenvolvimento que Anaximandro tinha dado à teoria da água como origem das coisas. Embora confiando em Tales no tocante ao essencial e reforçando e desenvolvendo as suas observações, Anaximandro não estava, no entanto, convencido de que não houvesse qualquer outro grau de qualidade antes e, por assim dizer, por detrás da água. (…) …qualidades ainda mais originárias. O devir começa quando elas se separam do ser primordial, do “Indefinido”. (…) [Heráclito] exclui o frio do processo físico; pois se tudo é fogo, nada pode haver, em todas as possibilidades da sua metamorfose, que possa ser o seu contrário absoluto. Heráclito interpreta assim o que se chama frio apenas como um grau do quente; e pôde justificar esta interpretação sem dificuldade alguma. (…) [Heráclito] acredita (…) num colapso do mundo, que se repete periodicamente, e no surgimento sempre novo de um outro mundo, nascido da conflagração cósmica que tudo aniquila. (…) …desintegração no fogo puro, como um desejo e uma necessidade, e a plena consumação pelo fogo como a saciedade.

(…)

[Existem] numerosas queixas acerca da obscuridade do estilo de Heráclito: no entanto é provável que jamais um homem, em tempo algum, tenha escrito de um modo mais claro e mais luminoso. É verdade que se trata de um estilo muito lacônico e, por isso, obscuro para leitores muito apressados. Mas é completamente inexplicável que um filósofo escrevesse de propósito com pouca clareza – acusação que se costuma fazer a Heráclito -, a não ser que tivesse razões para esconder os seus pensamentos, ou que fosse suficientemente tratante para dissimular em palavras o vazio do seu pensamento. É preciso evitar cuidadosamente, mediante a clareza, como diz Schopenhauer, mesmo nas circunstâncias normais da vida prática, mal-entendidos possíveis; como é que alguém deveria poder exprimir-se de maneira pouco precisa, e até enigmática, ao tratar do objeto mais difícil, mais abstruso e menos acessível ao pensamento, das tarefas da filosofia? Mas Jean-Paul dá um bom conselho, no tocante à brevidade: “Em geral, é bom que tudo o que seja grande – tudo o que tenha sentido para grandes espíritos – se exprima em termos breves e (portanto) obscuros, para que os espíritos medíocres antes vejam ai um não-sentido do que o traduzam para a sua insipidez. Pois os espíritos vulgares têm a habilidade repugnante de só verem, nas palavras mais profundas e mais ricas, a sua própria opinião de todos os dias”. De resto, Heráclito não escapou aos “espíritos medíocres”.

(…)

Heráclito era orgulhoso, e quando o orgulho entra num filósofo, então, é um grande orgulho. A sua ação nunca o remete para um “público”, para o aplauso das massas e para o coro entusiasta dos seus contemporâneos. Seguir um caminho solitário pertence à essência do filósofo. (…) A sua viagem para a imortalidade é mais penosa e mais contrariada do que qualquer outra; e, no entanto, ninguém mais do que o filósofo pode estar seguro de nela alcançar o seu próprio fim – porque só ele sabe permanecer nas asas abertas de todas as épocas. O desprezo pelo presente e pelo momentâneo é parte integrante da grande natureza filosófica. Ele possui a verdade: a roda do tempo pode rodar para onde quiser, nunca poderá subtrair-se à verdade. (…) …sabedoria imortal e digna de ser eternamente interpretada, como tendo uma ação ilimitada no futuro longínquo segundo o modelo dos discursos proféticos da Sibila. É suficiente para a humanidade mais distante: desde que se aplique a interpretar, como se de oráculos se tratasse, o que ele, como o deus de Delfos, “não diz nem esconde”. (…) Esta sabedoria deve chegar ao milenário futuro. Pois o mundo precisa eternamente da verdade, precisa, portanto, eternamente de Heráclito: embora ele não precise do mundo. Que lhe importa a sua glória? A glória dos “mortais em incessante fluxo!”, como ele brada com desdém. A sua glória importa aos homens, não a ele; imortalidade da humanidade precisa dele, ele não precisa da imortalidade do homem Heráclito. O que ele contemplou, a doutrina da lei no devir e do jogo na necessidade, deve contemplar-se eternamente a partir de agora: foi ele quem levantou a cortina deste espetáculo sublime.

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