O que pensam os neurocéticos

Matéria publicada na revista Superinteressante.

.

cerebroForam milênios de chutômetro. Quem quisesse entender a mente humana só tinha uma coisa a fazer: especular. Mas eis que, na década de 1990, os cientistas puderam ver nosso cérebro em pleno funcionamento. Tecnologias avançadas pareciam colocar a mente humana finalmente ao alcance. Seguiram-se duas décadas de muitos progressos. Mas começa a emergir, em um grupo eclético de pesquisadores, a sensação de que todas as imagens coloridas do sistema nervoso em ação não passam de miragem. Ainda estamos muito longe de compreender como o cérebro produz a consciência. “Quando se fala em imagens do cérebro, ver pode equivaler a acreditar, mas não necessariamente a compreender”, afirmam a psiquiatra Sally Satel e o psicólogo Scott Lilienfeld, autores de Brainwashed: The Seductive Appeal of Mindless Neuroscience (“Lavagem cerebral: o apelo sedutor da neurociência estúpida”). Recém-publicado nos EUA, o livro é apenas um de uma leva que busca baixar a bola dos neurocientistas. A grande questão é o que se pode e o que não se pode saber sobre o funcionamento do cérebro. Estamos falando de um sistema nervoso com cerca de 600 trilhões de conexões paralelas, trabalhando de forma frenética para manter nosso corpo funcionando. O que chamamos de consciência é uma parte relativamente pequena dessa conta. Ironicamente, é onde tudo parece se complicar.

Um dos lampejos mais antigos da neurociência – obtido ainda na época em que o imageamento sofisticado não estava disponível – é o de que o cérebro é dividido em módulos. Cada pedaço seria responsável por uma certa função. Mas as coisas não são tão simples assim. No cérebro, temos um fenômeno conhecido como plasticidade. É a capacidade de modificar as conexões cerebrais para adquirir novas habilidades. Graças a essa capacidade constante de reorganização, podemos aprender novas coisas e produzir memórias. Ou sofrer um acidente cerebral, mas recuperar movimentos na fisioterapia. Ou tocar piano muito bem – a área do cérebro responsável pelo movimento dos dedos se expande nos pianistas. A plasticidade foi confirmada e reforçada em anos recentes com técnicas que permitem ver o cérebro trabalhando em tempo real. O novo passo é, nessa tempestade de impulsos elétricos, conseguir ver imagens. Imagens mesmo: em 2011, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley conseguiram reconstruir imagens coloridas obtidas a partir da visão de voluntários usando ressonância magnética funcional. Os vídeos gerados não são uma perfeição, mas permitem ver vultos das imagens a que as pessoas foram expostas enquanto estavam na máquina de ressonância. Eles esperam que, no futuro, seja possível gravar sonhos para rever na televisão quando estiver acordado. Inovações como essas fazem parecer que, finalmente, o entendimento de como funciona nosso pensamento está a apenas um passo ou dois de ser compreendida. Só que não.

Às vezes, os neurocientistas se entusiasmam tanto que começam a imaginar ter explicado coisas que estão longe de ser resolvidas. Para Satel e Lilienfeld, a dupla de neurocéticos americanos, há fatores intangíveis na compreensão da mente que nunca surgirão em imagens cerebrais. “O domínio neurobiológico é de cérebros e causas físicas. O domínio psicológico é de pessoas e seus motivos. Ambos são essenciais para um entendimento completo de por que agimos como agimos”, escrevem a psiquiatra e o psicólogo. E o que pensa um neurologista, mais acostumado aos fatos nus e crus da fisiologia cerebral? Se esse neurologista for o americano Robert Burton, a opinião não é muito diferente. “Olhar para as mais detalhadas imagens do cérebro não capturará o que sentimos quando experimentamos amor ou desespero, tanto quanto examinar os pixels individuais numa pintura não lhe dará um senso geral do quadro”, afirma. Um dos desafios das pesquisas de neurociência é que, para correlacionar um tipo de pensamento a um padrão de atividade cerebral, é preciso que o voluntário relate o que está pensando. Aí fica fácil dizer que visualizaram “amor” ou “ódio” no cérebro. Mas é quase uma redundância. O voluntário já sabia o que estava sentindo, e não precisava de uma imagem cerebral para provar! Por outro lado, sem a informação de quem está “do lado de dentro” da mente, o padrão de atividade em si não permite mais que inferências muito gerais.

Em seu livro A Skeptics Guide to the Mind: What Neuroscience Can and Cannot Tell Us About Ourselves (“Um guia cético para a mente: o que a neurociência pode e não pode nos dizer sobre nós mesmos”), publicado em 2013, Burton sugere que acreditar demais no poder da neurociência pode levar a situações dramáticas. Com ampla experiência médica, ele lembra os casos em que a pessoa fica em coma profundo ou em estado vegetativo por vários anos. Alguns neurocientistas têm investigado o nível de atividade cerebral nesses pacientes e sugerido, a partir disso, que eles ainda estão conscientes, apesar de incomunicáveis. Burton defende que essa é uma conclusão precipitada, sem base em ciência sólida, e que pode levar ao sofrimento muitos parentes que tiveram de fazer a opção por desligar o suporte de vida a esses pacientes. Indo mais longe, Burton acredita que há uma falha essencial que impedirá os humanos de compreenderem sua própria mente. “Acho que todos nós – neurocientistas, cientistas cognitivos, psicólogos, filósofos e leigos – deveríamos estar cientes do paradoxo essencial”, afirma. “Faz parte da condição humana experimentar uma mente gerada de forma involuntária que acredita que pode explicar a si mesma de maneira racional. Esse paradoxo é inevitável e não contornável com ciência melhor ou novas tecnologias”.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta:

%d blogueiros gostam disto: