Nas asas do medo

Crônica de Fernando Sabino.

aviaoOs homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm. Sei da existência de quem até goste quando o avião entra numa nuvem e começa a balançar. Mas não me refiro aos doidos. Falo nos que, por mais indiferentes que sejam, guardam no fundo da consciência um resto de sensatez que lhes permite pensar: é muito seguro, não tem perigo nenhum, as estatísticas provam — mas a verdade é que se essa joça cai eu estou perdido. Num pequeno avião, o sentimento de segurança pode ser completo. Foi o que aconteceu comigo, há pouco tempo, ao viajar num dos táxis aéreos da Líder. A sensação de intimidade com o espaço me dava a certeza de estar mesmo voando: éramos leves, éramos pássaros, as asas nos sustentavam, o milagre de voar era possível. Mas nos gigantescos aviões de carreira, pode a viagem ser perfeita e tranquila como se nem tivéssemos saído do chão: continuará sendo a realização do impossível.

As estatísticas provam… Mas quem acredita haver chegado a sua vez está se danando para as estatísticas: elas também provam que é insignificante o número dos que morrem comidos por leão, e nem por isso alguém vai se meter numa jaula de leão! E o avião passa a ser um imenso caixão de alumínio do qual sairemos no aeroporto de destino como ressuscitados. Convém não se distrair durante o voo, não podemos ser apanhados desprevenidos. E o olho se desvia do jornal para os motores lá fora. A hélice girando normalmente não nos tranquiliza de todo: se ela se desprega, corta o avião em dois. E aquele barulho de súbito diferente, o piloto terá notado? O motor sendo a jato, tanto pior: como saber que parou, se não há barulho? Aquela vibração esquisita na asa, umas gotinhas de óleo tremendo, só pode ser vazamento. Não é por falar, mas há no ar um cheiro qualquer de queimado, uma fumacinha… Estará pegando fogo? De súbito acende-se a aviso: “use o cinto”. Pronto, estamos fritos. Inútil o aviso, para quem jamais deixou de usar o cinto momento algum.

O piloto acaba de chamar o comissário de bordo. Não há de ser para lhe levar um cafezinho, pois o desgraçado fechou a porta atrás de si. Estão lá dentro confabulando, surgiu um problema qualquer. Agora ele sai e vai de poltrona em poltrona dizendo alguma coisa ao ouvido dos passageiros. Nada mais a fazer, chegou a hora. Millôr Fernandes conta que viajava para Buenos Aires quando ouviu com pavor o comissário sussurrar a cada um dos passageiros à sua frente: “Estamos caindo no mar”. Ao chegar a sua vez, o homem teve tanta pena, diante de sua fisionomia agoniada, que resolveu mudar a frase e perguntou apenas: “O que o senhor quer tomar?”. Alguns, mais práticos, escolhem invariavelmente as poltronas da cauda, na presunção de que são as únicas com chance de escapar, em caso de desastre — presunção, aliás, bastante sábia, que só não é seguida por todos porque infelizmente um avião não pode ter apenas cauda. Uns se agarram com força aos braços da poltrona, convencidos que de sua contribuição pessoal depende a sustentação do monstro no ar. Outros se agarram é ao santo de sua devoção e encomendam a alma a Deus. Sei de uma senhora cuja primeira providência ao instalar-se no avião é retirar da bolsa dois rosários e estender um ao marido, ordenando: — Reza pelo motor esquerdo, que eu rezo pelo direito.

E o azar? Há os que descreem da sorte ante mudanças forçadas de horário e desistem do avião em favor do ônibus ou do trem. E ainda há os que não gostam de ver padres na fila de embarque — o que é uma insensatez, pois lá em cima eles é que têm prestígio. Outros chegam a afirmar que não se deve nem tocar no assunto, o melhor é confiar em Deus, que ninguém morre de véspera. Estou com estes: mudemos de assunto, enquanto estamos aqui por baixo, em terra firme. E se alguém acaso me ler a bordo de um avião, em pleno ar, não se assuste: saiba que sou de dar sorte, meu santo é forte — e esta lhe será a melhor garantia de uma excelente viagem.

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Pousos e decolagens difíceis
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