“Não sejas demasiado justo”

A crônica a seguir é de Rubem Alves e foi publicada no caderno de cultura da Folha de S.Paulo em abril de 2008. Para mim, em particular, este texto é especial porque, no mesmo ano, ele serviu de base para a prova de Língua Portuguesa do Concurso Público da UFPB – através do qual fui selecionado para o meu emprego atual. Não só por isso, mas também pela questão polêmica e relevante que aborda, trata-se de um texto belíssimo que merece ser lido e refletido.


Era um debate sobre o aborto na TV. A questão não era “ser a favor” ou “contra o aborto”. O que se buscava eram diretrizes éticas para se pensar sobre o assunto. Será que existe um princípio ético absoluto que proíba todos os tipos de aborto? Ou será que o aborto não pode ser pensado “em geral”, tendo de ser pensado “caso a caso”? Por exemplo: um feto sem cérebro. É certo que morrerá ao nascer. Esse não seria um caso para se permitir o aborto e poupar a mulher do sofrimento de gerar uma coisa morta por nove meses?

Um dos debatedores era um teólogo católico. Como se sabe, a ética católica é a ética dos absolutos. Ela não discrimina abortos. Todos os abortos são iguais. Todos os abortos são assassinatos. Terminando o debate, o teólogo concluiu com a seguinte afirmação: “Nós ficamos com a vida!” O mais contundente nessa afirmação está, não naquilo que ela diz claramente, mas naquilo que ela diz sem dizer: “Nós ficamos com a vida. Os outros, que não concordam conosco, ficam com a morte”. Mas eu não concordo com a posição teológica da igreja. Sou favorável, por razões de amor, ao aborto de um feto sem cérebro; e sustento que o princípio ético supremo é a reverência pela vida.

Lembrei-me do filme “A Escolha de Sofia”. Sofia, mãe de dois filhos, numa estação ferroviária da Alemanha nazista. Um trem aguardava aqueles que iriam morrer nas câmaras de gás. O guarda que fazia a separação olha para Sofia e lhe diz: “Apenas um filho irá com você. O outro embarcará nesse trem”. E apontou para o trem da morte. Já me imaginei vivendo essa situação: meus dois filhos (como os amo!), eu os seguro pelas mãos, seus olhos nos meus. A alternativa à minha frente é: ou morre um ou morrem os dois. Tenho de tomar a decisão. Se eu me recusasse a decidir pela morte de um, alegando que eu fico com a vida, os dois seriam embarcados no trem da morte. Qual deles escolherei para morrer? A ética do teólogo católico não ajudaria Sofia.

Você é médico, diretor de uma UTI que, naquele momento, está lotada, todos os leitos tomados, todos os recursos esgotados. Chega um acidentado grave que deve ser socorrido imediatamente para não morrer. Para aceitá-lo, um paciente deverá ser desligado das máquinas que o mantém vivo. Qual seria a sua decisão? Qual princípio ético o ajudaria na sua decisão? Qualquer que fosse a sua decisão, por causa dela uma pessoa morreria. Lembro-me do incêndio do edifício Joelma. Na janela de um andar alto, via-se uma pessoa presa entre as chamas que se aproximavam e o vazio à sua frente. Em poucos minutos as chamas a transformariam numa fogueira. Para ela, o que significa dizer “eu fico com a vida”? Ela ficou com a vida: lançou-se para a morte.

Ah! Como seria simples se as situações da vida pudessem ser assim colocadas com tanta simplicidade: de um lado a vida e do outro a morte. Se assim fosse, seria fácil optar pela vida. Mas essa encruzilhada simples entre o certo e o errado só acontece nos textos de lógica. O escritor sagrado tinha consciência das armadilhas da justiça em excesso e escreveu: “Não sejas demasiado justo porque te destruirás a ti mesmo” (Eclesiastes 7:16).

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