Modos de dizer

Crônica de Ivan Ângelo publicada na revista Veja São Paulo em setembro de 2009.


Certos hábitos de linguagem são curiosos. Usos que surgem sem a gente perceber ou pensar neles, maneiras de dizer, psicologia da língua. Ocorreu-me isso quando estava jogando bola com meu neto no parque e o pipoqueiro perguntou: “O senhor já tem uns sessentinha, não?”. Sessentinha. Delicado, isso. O diminutivo significaria que eu parecia estar no começo dos meus anos sessenta? Se fosse o caso, um sessentão seria aquele que já vai lá mais adiante? Ou o diminutivo poderia, lisonjeiramente, significar que eu parecia ágil para os sessenta? Sutil a língua brasileira com relação à idade das pessoas. Ninguém diz que você é um vintão, um trintão. Mas logo ganha um “ão” quando chega aos quarenta, e a partir daí é quarentão, cinquentão, sessentão, setentão. Aos oitenta, você se torna vítima de uma bem-intencionada deferência e ganha o rótulo de octogenário. Não se diz oitentão. Nem noventão (nonagenário) nem centão (centenário).

Vejam os anúncios de apartamentos para vender ou alugar. Quartos agora são chamados de dormitórios, como se dormitório fosse mais chique do que quarto. Nas sutilezas captadas pelo marketing, “dormitório” deve ter mais prestígio, deve vender mais apartamentos do que “quarto”. Na hora do uso, porém, ninguém diz: “Já para o seu dormitório, menino!”, ou “Vamos para o dormitório, querida?”, ou “O que está acontecendo com essa menina, que não sai do dormitório?”. Da mesma forma, certas pessoas empregam palavras mais pomposas ou formais quando falam alguma coisa na televisão. A ideia aqui talvez seja falar bonito para uma plateia maior. A classe média adora caprichar na linguagem. Prestem atenção nos policiais, principalmente militares, e nas autoridades: além de usarem o jargão profissional, tentam falar bonito. São essas pessoas que dizem dormitório em vez de quarto, veículo em vez de carro, calçado em vez de sapato, local em vez de lugar, rodovia em vez de estrada, aeronave em vez de avião, armamento em vez de arma, residência em vez de casa, evadiu-se em vez de fugiu, etc. Deve ser a mesma pretensão que leva comerciantes a escrever “sale” e “off” nas vitrines de suas lojas, como se aquele esnobismo se transferisse para as mercadorias que vendem. De novo surge um conflito entre a aparência e a realidade. Quando uma amiga chama a outra para ir a uma liquidação, ela não fala “sale“, e diz que estão oferecendo 50% “de desconto” e não “off“.

Alguns modos de dizer tornam-se armadilhas, pegam distraídos até dicionaristas. No caso que vou citar, a distração poderia sinalizar um preconceito. E se não foi distração? Pode ter sido uma decisão. Explico. Os dicionários sempre registram os adjetivos e certos substantivos pelo gênero masculino. Vejam lá: amado, rico, feio, antigo, belo. Quando chegam aos adjetivos começados por “mal”, seguem registrando no masculino: mal-acabado, mal-afamado, mal-agradecido, mal-ajambrado, mal-ajeitado… Mas de repente vemos lá a palavra “mal-amada”, no feminino, só no feminino. Por que teriam mudado justamente nessa palavra a regra que vinham seguindo? Como se apenas mulheres fossem irrealizadas no amor, ou não correspondidas. Como se esse fosse um atributo do gênero feminino. O dicionário que uso não fica nisso: sugere que quem consulta “mal-amada” confira a palavra “bem-amado”. Subentende-se: homem bem-amado existe; mal-amado não. Não deve ter sido distração.

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