Ler com pressa é pior do que não ler

Artigo de Danilo Venticinque para a revista Época.

Quem acompanha a coluna já sabe minha opinião sobre a leitura dinâmica. Sou um cético. Ler mais rápido é possível, evidentemente, e não faltam manuais na internet para quem estiver disposto a tentar. Mas a velocidade tem seu preço. Mesmo quando não compromete a capacidade de compreender e memorizar, a rapidez nos dá menos tempo para pensar no que lemos. E, afinal, para que tanta pressa? Qualquer livraria de esquina tem muito mais livros do que seremos capazes de ler em toda a nossa vida. Mesmo os mais afobados não conseguirão ler tudo o que querem. Nesse caso, já que o fracasso é inevitável, o melhor a fazer é relaxar e saborear os poucos livros que venceremos.

Os defensores da leitura dinâmica parecem não se importar, e continuam criando os métodos mais heterodoxos para acelerar seus olhos. De todos os métodos que já me apresentaram, o mais curioso é também o mais recente. A startup americana Spritz anunciou uma tecnologia capaz de ensinar qualquer um a ler rápido instantaneamente, em qualquer tela de celular. Segundo os fundadores da startup, apenas 20% do nosso tempo de leitura é dedicado a decifrar palavras. Os outros 80% são gastos movendo os olhos em busca de uma boa posição para ler. A solução proposta para o suposto problema é simples: exibir apenas uma palavra por vez na tela, sempre na posição ideal para a leitura. As palavras se sucedem na velocidade escolhida pelo usuário. Os gifs animados abaixo dão uma pequena demonstração de como o programa funciona.

spritz1 (Foto: reprodução)
spritz2 (Foto: reprodução)
spritz3 (Foto: reprodução)

Com esse método, os criadores dizem que é possível ler e entender até mil palavras por minuto. Um romance curto como o primeiro Harry Potter, por exemplo, poderia ser lido em pouco mais de uma hora. Quem for capaz de manter a atenção por 10 horas seguidas conseguirá terminar Guerra e paz numa só sentada. Por enquanto, a tecnologia ainda não está disponível. Mas, mesmo antes do lançamento, já há quem diga que o Spritz provocará uma revolução na leitura. Discordo. A tecnologia apenas nos tornará ainda mais apressados. Ler Harry Potter em uma hora e meia é uma péssima maneira de aproveitar o tempo. Nada contra o livro, mas tudo contra a velocidade. Um romance não foi escrito para ser absorvido num período tão curto. Não há tempo para se envolver com os personagens, imaginar cenas e tentar adivinhar o que vai acontecer a seguir. O livro se torna um borrão.

Quanto mais leio sobre o Spritz, mais tenho a impressão de que seus criadores nunca leram um romance – ou ao menos não gostaram do que leram. O tempo que supostamente “desperdiçamos” ao reposicionar nossos olhos é útil para pensar no que lemos, interpretar as palavras do autor e cadenciar o ritmo da leitura. Pobre do leitor que usa apenas os olhos. Para ler um livro é preciso ter imaginação. E a pressa não é o único problema. Retalhar um romance e exibi-lo palavra por palavra já é uma maneira grosseira de ler. As divisões de capítulos deixam de fazer sentido. Perde-se a noção de estrutura e ritmo. Frases magistrais deixam de ter o efeito desejado. Com apenas uma palavra na tela, é impossível distinguir um gênio da literatura de um desmiolado do Facebook.

No universo da cultura, a obsessão com a velocidade parece ser uma característica exclusiva dos leitores. Não existe cinema dinâmico, por exemplo. Cinéfilos sabem que um filme de três horas deve ser visto em três horas: nem um minuto a menos. Um velocista conseguiria atravessar uma exposição de arte em poucos minutos – e dificilmente se lembraria de uma obra sequer. Se acelerássemos a rotação de um toca-discos, conseguiríamos ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven em menos de meia hora. Mas seríamos incapazes de distingui-la do último hit do carnaval de Salvador. O mesmo vale para a leitura. Ler um grande romance exige tempo. Se você não estiver disposto a gastá-lo, melhor fazer outra coisa. Programas como o Spritz só terão valor se os usarmos para ler textos pouco importantes: mensagens no celular, posts nas redes sociais, divagações semanais de colunistas. Será a revolução da leitura superficial. Se é para perder tempo com bobagens, que ao menos seja pouco. A internet está cheia de textos que merecem ser lidos a mil palavras por minuto. Um livro merece um destino melhor.

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