Leitura dinâmica: 7 dicas para ler mais rápido (e 7 motivos para não segui-las)

Artigo de Danilo Venticinque para a revista Época.

Com tantos livros para ler e tão pouco tempo para eles, é natural que cedo ou tarde entremos em pânico. Todo leitor enfrenta essa dura revelação em algum momento de sua vida. A lista de obras que queremos ler é imensa, nossa estadia nesta adorável biblioteca é finita e, infelizmente, jamais conseguiremos ler tudo. Alguns encaram a descoberta com resignação e começam a escolher melhor os livros que leem. Outros passam a dedicar ainda mais tempo à literatura, na tentativa de reduzir suas perdas. E há os que se negam a aceitar seu destino. Decidem trapacear e entregam-se à leitura dinâmica.

Já sucumbi várias vezes a essa tentação. Depois de cada uma delas, me arrependi e voltei à minha velocidade normal de leitura. Numa das tentativas, comprei um livro intitulado Leitura dinâmica e memorização. Não terminei de lê-lo e não lembro de nenhuma das dicas. Já tentei assistir a aulas de leitura dinâmica no YouTube, mas percebi que seria mais produtivo sair do computador e usar esse tempo para ler. Num ato de desespero, peguei emprestado um CD com um curso de leitura dinâmica baseado em técnicas nebulosas de programação neurolinguística. Desisti quando o locutor disse “feche os olhos e visualize seus objetivos sendo alcançados”. Mantive os olhos abertos, fui até a estante e busquei um livro para “visualizar”. Continuo lendo com a mesma velocidade desde então.

A melhor frase que li sobre o assunto é de Woody Allen: “Fiz curso de leitura dinâmica e li Guerra e Paz em 20 minutos. É sobre a Rússia”. Poucas vezes uma hipérbole foi tão verdadeira. É, sim, possível aprender a ler mais rápido. Mas há limites. Os resultados positivos costumam ser frutos de uma escolha entre velocidade e perda de compreensão. Alguns leitores podem achar que a troca vale a pena. Outros podem preferir ler menos, mas melhor. Para ajudar nessa decisão, fiz uma lista com minhas sete dicas favoritas (e infalíveis) para ler mais rápido – e seus sete desagradáveis efeitos colaterais.

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1. Leia um livro por vez

Quanto mais caóticos forem nossos hábitos de leitura, mais custosa será nossa tarefa de lembrar dos detalhes de um livro e retomá-lo do ponto em que paramos. Não é raro que tenhamos de ler duas ou três vezes a mesma página até reencontrarmos o fio da história. Quando intercalamos dois ou mais livros diferentes, a confusão mental é ainda maior. Assim perdemos vários minutos de leitura que poderiam ter um destino mais nobre. Estabelecer uma rotina de leitura disciplinada e mergulhar em apenas um livro por vez é uma boa maneira de evitar esses lapsos e acelerar a leitura. Se você sentir uma vontade incontrolável de abrir outro livro antes de terminar o que está lendo, contenha-se. Force-se a ler apenas um livro por vez. Afinal, você quer ser rápido ou quer se divertir?

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2. Nunca releia

A memória de um leitor é traiçoeira. Incontáveis vezes, entre uma página e outra, somos acometidos por dúvidas básicas sobre trechos que acabamos de ler. A única solução para elas é retroceder na leitura e buscar as respostas em capítulos já vencidos. Quem sucumbe a essas tentações, porém, jamais será um verdadeiro praticante da leitura dinâmica. A ordem é avançar a qualquer preço. A mão que vira as páginas deve se movimentar sempre da direita para a esquerda, sem nunca percorrer o caminho contrário. Talvez o autor esclareça sua dúvida num capítulo seguinte. Talvez você tenha de buscar a resposta na Wikipédia. Talvez você nunca obtenha a resposta. Não importa. É melhor ganhar uma dúvida para a vida inteira do que perder alguns minutos de leitura.

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3. Pesquise antes de ler

Quanto menos surpreendente for a leitura, menos tempo você terá de gastar com ela. Os segundos que desperdiçamos quando uma frase nos emociona ou quando ficamos chocados com uma virada no enredo são preciosos. Evite surpresas. Leia o índice, leia resenhas, consulte resumos, convença um amigo a estragar o final. Quando souber tudo sobre o livro, a leitura se tornará uma formalidade rápida e quase indolor. Livre-se dela como uma enfermeira arranca um esparadrapo. Você perderá a alegria de ser surpreendido por um grande livro, mas lerá muito mais do que seus amigos.

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4. Segure sua língua

A maioria dos leitores tem o hábito de pronunciar, sem emitir sons, cada palavra que lê. Para os defensores da leitura dinâmica, poucos barulhos são tão incômodos quanto esse monólogo mental silencioso. A fala é muito mais lenta do que a visão. Se nos acostumarmos a ler sem subvocalizar cada palavra, leremos muito mais rápido. Há técnicas para conseguir isso. A mais eficiente é ocupar as cordas vocais durante a leitura. Há quem aconselhe o leitor a repetir a mesma palavra inúmeras vezes, recitar o alfabeto ou até zunir para si mesmo – tudo isso enquanto lê. O aumento na velocidade é instantâneo. O desconforto também. Fica muito mais difícil apreciar a sonoridade das frases. E pense na cara de desapontamento que o autor do livro faria se soubesse que sua grande obra seria lida em meio a zumbidos e mantras desconexos.

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5. Leia grupos de palavras

Depois de domar suas cordas vocais, você estará pronto para o Santo Graal da leitura dinâmica. Em vez de ler uma palavra por vez, leia grupos de palavras, frases e até linhas inteiras. Aprendendo a criar, processar e digerir esses blocos de informação, sua velocidade de leitura chegará ao ápice. Como nas outras dicas, a rapidez tem seu preço. Sem tempo para se dedicar a cada palavra individualmente, é impossível dar a atenção merecida às escolhas vocabulares do autor. Palavras desconhecidas permanecerão desconhecidas para sempre: retroceder para lê-las seria violar a regra do item 2 (Nunca releia). E nem pense em pegar um dicionário: além de ser uma enorme perda de tempo, é uma evidente violação da primeira regra (Leia um livro por vez). Um neologismo curioso ou um vocábulo exótico não são justificativas para interromper o fluxo da leitura. Siga em frente, em velocidade máxima.

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6. Exercite a leitura seletiva

Às vezes a velocidade máxima não é o bastante. A saída, então, é procurar um atalho. Ou seja: atravessar trechos inteiros do livro sem lê-los. Está aborrecido com um trecho descritivo de um romance? Comece o próximo parágrafo. Não quer encarar um diálogo entre dois personagens que você odeia? Vire a página. Já entendeu o que um autor de não-ficção queria dizer, mas ele insiste em dar novos exemplos? Pule para o próximo capítulo. Se o tempo de leitura for muito curto, pode ser necessário recorrer a métodos ainda mais radicais. Leia as páginas ímpares e pule as pares. Leia só o índice, o começo e o final. Leia apenas a primeira frase de cada parágrafo e a última de cada capítulo. Essa última técnica é minha favorita. Recorri a ela com uma frequência vergonhosa. Quantos trabalhos de faculdade não nasceram desse tipo de leitura? E quantos deles não receberam boas notas, talvez porque o professor aplicava neles um método de leitura dinâmica semelhante ao meu? Só o resultado imediato importa. Pouco tempo depois, você se sentirá como se nunca tivesse lido o livro.

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7. Finja que leu

Se a leitura seletiva é comparável a uma conversão proibida na estrada, fingir que já lemos um livro equivale ao teletransporte. Essa é a forma mais eficiente de leitura dinâmica. Para praticá-la de forma satisfatória, basta seguir pela metade a dica 3 (Pesquise antes de ler). Pesquise, mas não leia. Fale do livro com desenvoltura sem nunca ter folheado suas páginas. A maioria dos devotos desse tipo de leitura prefere preservar seus segredos, mas já fui apresentado a praticantes orgulhosos dessa técnica sobrenatural. Para eles, ler um clássico é uma perda de tempo. Basta se informar sobre o livro e, quando muito, ler as primeiras páginas para ter uma vaga ideia de qual é o estilo do autor. Seguindo essas dicas, qualquer um pode ler Guerra e Paz em poucos minutos – e descobrir que o livro é sobre a Rússia. Pouco importa. A velocidade da leitura é fundamental. O livro é só um detalhe.

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