Leia para sair da bolha

Às vezes é preciso resistir à vontade de só ler o que nos agrada. Esse é o tema do artigo de opinião a seguir, de Danilo Venticinque para a revista Época.


Nossos dias estão lotados de distrações. Leitores pouco cautelosos correm o risco de ceder à tentação de tentar acompanhar, em tempo real, todas as polêmicas do dia na internet. Acabam lendo muito, mas aprendendo pouco. Em tempos de excesso de informação, quem não tem um plano para organizar suas leituras será inevitavelmente soterrado por elas. É preciso tomar cuidado, porém, para não cair em outra armadilha: a de evitar todos os textos que não nos agradam. Em excesso, a disciplina na leitura corre o risco de virar alienação. Esse mal acomete fãs de livros com muita frequência. Por mais que se orgulhem de ler “de tudo – até bula de remédio”, na prática há muitos leitores que resistem a mudar seus hábitos. Conheço muitos leitores de não-ficção que não têm paciência para a ficção, e vice-versa. Alguns só leem alta literatura e torcem o nariz para os best-sellers sem piedade. Outros se prendem a um gênero, como a literatura fantástica ou policial, e jamais dão uma chance a outros temas. Há até quem só dê atenção para os clássicos e acham absurda a ideia de perder tempo com literatura contemporânea.

Para leituras na internet, fugir da monotonia é ainda mais difícil. As redes sociais e sites de busca são feitos para mostrar aquilo que queremos ler. Quanto mais demonstramos atenção por um autor ou um assunto, maior a chance de depararmos com eles no futuro. Textos que ignoramos ou rejeitamos aparecem com menos frequência. No Facebook, muitas vezes aceleramos o processo ao “limpar” a timeline e remover  pessoas ou páginas com quem discordamos em assuntos polêmicos. Em seu livro O filtro invisível, o americano Eli Pariser faz um alerta contra esse hábito. O risco é ficar preso numa bolha em que nada ataca nossas convicções e não descobrimos nada novo. Não há mal nenhum em não saber tudo sobre o último escândalo político, não participar de todos os bate-bocas no Facebook ou não acompanhar em tempo real o cotidiano das celebridades. Os livros que mais gostamos de ler são prioridade. A leitura, antes de tudo, deve ser um prazer. Ler notícias que não nos interessam ou comprar um livro muito diferente do que costumamos ler, ou seja, se aventurar em territórios desconhecidos, pode ser importante.

Quando sentir que suas leituras estão se tornando monótonas, tente dar uma chance a um texto que você jamais leria. O exercício exige paciência. Quem só está acostumado a ler clássicos, por exemplo, pode levar algum tempo para se acostumar com um best-seller contemporâneo. Por mais que o impulso inicial seja largar o livro, resista. Tente se acostumar com o desconhecido. Talvez você se surpreenda e descubra novas paixões. A leitura serve para nos tirar da bolha. Quem não desafia a própria ignorância é incapaz de aprender.

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